Agosto 2009


António Manuel Fontes Cambeta… residente em Macau na altura, 1966.
Trabalhava nessa altura na Agência Comercial Aldifera, sita na Avenida Almeida Ribeiro e tive conhecimento dos factos ocorridos na Ilha da Taipa, no dia 15 de Novembro, mas isso pouco o preocupou.
Porém as coisas foram piorando, e um dia, quando regressava a casa da namorada, de autocarro, carreira 4, fui avisado pela revisora que a partir dali não poderia mais usar os transportes públicos, fiquei também a saber que tinha sido boicotado aos funcionários da administração portuguesa a venda de todos os materiais.
Já em casa da namorada que na altura residia na Estrada Coelho do Amaral, ouvi um enorme barulho e fui à janela a ver o que se passava. Era um grupo enorme de pessoas, que vindas dos lados do Hospital de Kiang Vu, empunhando cartazes e gritando “abaixo os imperialista português” e outras frases contra os portugueses.
Para saber o que se passava, liguei a rádio e sintonizei a Rádio Vila verde, e foi através dela que fiquei a saber dos acontecimentos, e ouviu o comunicado emitido pelo Quartel General, solicitando a todos os militares na disponibilidade para se apresentarem no Quartel General.
António ficou em em casa de sua namorada, só de lá saindo no dia 6 de Dezembro, quando as coisas se acalmaram.

A capa da revista sobre os acontecimentos, editada pelo jornal de língua chinesa, Ou Mun, uma edição trilengue, da qual António Cambeta tinha um exemplar.
No dia 29 de Janeiro de 1967, o Governador vai à sede da Associação Comercial de Macau e rubrica o pedido de desculpas, ficam desta forma apaziguados os incidentes do 1 2 3.
Mas foi uma forte humilhação para os portugueses, tendo colegas de António Cambeta sido agredidos brutalmente, quando passavam junto do Clube Militar.
O derrube da estátua Coronel Mesquita que se encontrava defronte das instalações do Leal Senado, que também foi saqueado, bem como os serviços notariais e outros.


Oo jornalista e escritor José Pedro Castanheira no seu livro “Os 58 dias que abalaram Macau” retrata os acontecimentos da altura. No Capítulo intitulado “Confrontos na ilha da Taipa” relata as causas…
“15 de Novembro de 1966, na ilha vizinha da Taipa, Rui Andrade sai de casa manhã cedinho e dirige-se, como todos os dias, para a sede da Adminsitração das Ilhas, a autarquia responsável pelas ilhas da Taipa e Coloane. Ao passar junto de um prédio velho e a ameçar ruína, repara que ele fora cercado por uma estrutura de andaimes de bambu, erguida por várias dezenas de operários e rapazes. Desconfiando, mal chega à sede do munícipio, chama o responsável da chamada Polícia Administrativa. “Pedi ao chefe Isidro para ir ver o que se passava”. O polícia não se demorou muito. Quando se apresenta ao administrador, vem pálido e com os bofes de fora. “Chegou apavorado. Fora insultado e apedrejado e só não lhe bateram por ser já velhote. Nem conseguira chegar à fala com eles”.
Deveras intrigado, Rui Andrade envia ao local “três policias desarmados, que me disseram que eram guardas vermelhos que estavam a demolir aquilo para fazer uma escola”.
Desconhecedor de qualquer projecto para aquele prédio, o administrador indaga junto do seu superior hierárquico. “Telefonei de imediato para o intendente Mário da Fonseca Ramos, que era o chefe da Repartição da Adminstração Civil, a cujo quadro eu pertencia. Disse-me que na Administração não havia processo nenhum”.
Na Repartição da Administração Civil não havia processo algum relacionado com o prédio da Taipa. Pudera: ainda estava algures, mais ou menos perdido, na papelada da Repartição dos Serviços de Obras Públicas. O requerimento fora entregue, como haverá de assinalar o novo Governador, Nobre de Carvalho, “pelo menos desde Julho”, mas aquela repartição, dirigida pelo engenheiro macaense João Tomás Siu, nada despachara. “O director das Obras Públicas metera o requerimento na gaveta!”, acusa monsenhor Manuel Teixeira, o velho e respeitável sacerdote-historiador de Macau. “Os chineses tinham razão” na sua indignação e no seu protesto; para mais, “era a repartição que mais os tinha ferido e de que eles tinham mais queixas”.
” Revoltados com com o silêncio arbitrário da administração e com a chocante desigualdade de critérios ( visto o governo ter autorizado a construção de uma escola nacionalista pró-Taiwan, ligado ao Kuomintang), e certamente que encorajados por tudo quanto se passava na China, os moradores da Taipa decideram levantar andaimes à volta do prédio, dispensado a necessária autorização oficial.
Ma Man Kei, um dos mais influentes empresários chineses, garante, em todo o caso, que “as Obras Públicas foram avisadas verbalmente que os trabalhos iam começar no sábado, feito por voluntários. O influente dirigente chinês é muito preciso: “As obras eram só para levantar andaimes para impedir que o edifício caísse, até vir a autorização escrita das Obras Públicas”.
Diligente, assim que conforma a ilegalidade da obra, Rui Andrade ordena a sua suspensão. A ordem não é acatada. “Embarguei a obra, o documento foi afixado, mas logo arrancado”, conta o administrador, que se vê complelido a pedir a intervenção da PSP para se fazer obedecer.
A seguir ao almoço, as obras são reatadas. O corpo policial volta ao local, mas desta feita é “alvejado com pedras, tijolos e garrafas lançadas pelos manifestantes”, sem que consiga interromper os trabalhos. O caso começa a ser verdadeiramente sério. Vaz Antunes pede reforços ao Comando da PSP, que envia da cidade de Macau uma força de cerca de trinta homens.
À sede da Administração, chegam seis dirigentes da associação promotora da escola, convocados por Rui Andrade. “Mandei lá ir a PSP, para trazer os cabecilhas, para saber o que se passava.
Queria entrar em negociações com eles”. A conversa decorreu no gabinete do administrador, que se fez acompanhar dos chefes da polícia administrativa e da PSP; o diálogo é em cantonense, idioma que Andrade domina. “Disseram que não vinham para negociar, mas sim para exigir a passagem imediata da licença. Mas eu já tinha embargado a obraao princípio da tarde, com autorização do Intendente. Eles já tinham tirado o telhado. Expliquei que não era eu quem dava a licença, eram as Obras Públicas, eu limitava-me a dar o visto. Não gostei da atitude dos comunista. Avisaram-me que, se não levantasse o embargo, a população revoltava-se contra mim. Exigiam, com toda a arrogância”.
O diálogo dá lugar a uma discussão acesa que culmina com a detenção dos seis chineses, “por insubordinação e falta de respeito à autoridade”, nos termos do relatório do encarregado do Governo. “Não tinha outro remédio senão mandar prendê-los”, justifica Rui Andrade.
“Dei-lhes ordens de prisão dentro do meu gabinete. Foram levados pela PSP para Macau. Em seguida, comuniquei tudo ao Intendente, que concordou comigo”. Um par de horas mais tarde, o mesmo Intendente telefona, “a dizer que o eng. João Tomás Siu ia deferir o processo. Tarde demais! Já eu dera ordem de prisão”. (…)

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Em alguns casos, a Diocese ficava sem a administração e liderança de um bispo, sobretudo nos primeiros tempos da diocese, quando os meios de comunicação e de transportes eram deficitárias. Quando isto acontecia, a Diocese era governada por um Governador do Bispado (também chamado de Governador da Diocese).

Um dos mais longos períodos da chamada “vacância” é o período compreendido entre 1633 a 1690. Este facto foi, segundo rumores da época, devido a uma espécie de política de neutralidade adoptada pela Santa Sé, que não queria entristecer os “patriotas portugueses intransigentes” de Macau ao nomear um bispo proposto pelo Rei da Espanha (de 1580 a 1640, ele era também monarca de Portugal), nem queria entristecer o monarca espanhol ao nomear um bispo sem o ouvir previamente. Esta situação de vacância prolongou-se ainda depois da Restauração da Independência de Portugal (1 de Dezembro de 1640), porque a Santa Sé não queria, através da nomeação de bispos propostos pelo Rei de Portugal, reconhecer a independência deste país, entristecendo assim o Rei de Espanha.
Até 1988, todos os bispos eram de etnia portuguesa. Mas após esta data, eles passaram a ser de etnia chinesa, e de preferência serem naturais de Macau.
Lista, por ordem cronológica, de todos os Bispos da Diocese de Macau, desde da sua fundação no ano de 1576 até agora.
D. Belchior Carneiro Leitão S.J. – 1576-1581 [1]
D. Diogo Nunes de Figueira – 1576-1578 [2]
D. Leonardo de Sá O.Cist.- 1578-1599 [3]
D. João de Abrantes da Piedade O.P – 1604-1625
D. Diogo Correia Valente S.J. – 1630-1633 [4]
D. João de Casal – 1690-1735
D. Eugénio Trigueiros O.S.A.- 1735-1739
D. Hilário de Santa Rosa O.F.M. – 1739-1752
D. Bartolomeu Manuel Mendes dos Reis – 1752-1772
D. Alexandre da Silva Pedrosa Guimarães – 1772-1789
D. Marcelino José da Silva – 1789-1802
D. Manuel de São Galdino O.F.M. – 1802-1804
D. Francisco de Nossa Senhora da Luz Chacim O.F.M. – 1804-1828
D. Nicolau Rodrigues Pereira de Borja C.M. – 1841-1845
D. Jerónimo José da Mata C.M. – 1845-1862
D. Manuel Bernardo de Sousa Enes – 1873-1883
D. António Joaquim de Medeiros – 1884-1897
D. José Manuel de Carvalho – 1897-1902
D. João Paulino de Azevedo e Castro – 1902-1918
D. José da Costa Nunes – 1920-1940
D. João de Deus Ramalho S.J. – 1942-1954
D. Policarpo da Costa Vaz – 1954-1960
D. Paulo José Tavares – 1961-1973
D. Arquimínio Rodrigues da Costa – 1976-1988 [5]
D. Domingos Lam Ka-tseung – 1988-2003
D. José Lai Hung-seng – 2003-

Notas
1 O primeiro Bispo só chegou no ano de 1581, sendo ele praticamente bispo até à data mencionada, governando a Diocese. Mais precisamente, D. Belchior ou Melchior Carneiro era o Governador do Bispado
2 Ele nunca governou a Diocese, visto que ele não aceitou este cargo, sendo D. Leonardo de Sá o primeiro Bispo de Macau
3 O primeiro Bispo da Diocese de Macau
4 Foi Administrador Apostólico de Macau entre 1623 a 1630
5 Actuais Bispos-eméritos da Diocese de Macau
Igreja de Nossa Senhora das Dores

Eis uma lista das igrejas e capelas construídas pela Igreja Católica em Macau, ao longo dos seus mais de 4 séculos de presença:
Igreja da Madre de Deus / Ruínas de S. Paulo
(só existe a fachada)
Igreja da Sé
(catedral desde 1623)
Igreja de S. Lourenço
(os jesuítas chegaram a Macau em 1558 e imediatamente começaram a contruir, em madeira, a Igreja de São Lourenço. A construção desta igreja, uma das mais antigas de Macau, terminou em 1560. Foi substituída por Taipa em 1618 e reconstruída em pedra em 1801/3, tendo sofrido outros arranjos ao longo do século XIX)
Igreja de St. Agostinho
(construção iniciada em 1586 por frades agostinianos, mas só foi concluída em 1591.
Igreja de S. Lázaro
(construída entre 1557 e 1560)
Igreja de S. José
(foi construída em 1758 e fazia parte integrante do Seminário de São José)
Igreja de S. José Operário
(localiza-se na Freguesia de Nossa Senhora de Fátima, no Bairro de Iao Hon. É uma igreja católica relativamente recente e tem um lado virado à China que se assemelham a dois braços abertos, simbolizando uma atitude aberta de boas-vindas às massas chinesas, convidando-as a conhecer e a encontrar com Jesus Cristo)
Igreja de S. Domingos
(de nome completo “Igreja do Convento dos Dominicanos de Nossa Senhora do Rosário”, foi fundada em 1587 por frades dominicanos espanhóis oriundos de México)
Igreja de Nossa Senhora de Fátima
(construída em 1968)
Igreja de Nossa Senhora das Dores
(foi construída em 1966 para servir as necessidades religiosas de Ká-Hó (Coloane), onde, naquela época, viviam as famílias de leprosos curados e alguns doentes novos)
Igreja de Nossa Senhora do Carmo (Taipa)
(também chamada de Igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo, foi construída, em 1885, no cimo de uma colina com vista para o mar, para a Vila da Taipa e para as mansões restauradas de estilo arquitectónico europeu situadas na antiga Praia da Taipa)
Igreja de St. António
(construída em bambu e madeira, em 1565, e era o primeiro local onde os jesuítas se instalaram na Cidade. Em 1638, ela foi reconstruída em pedra e atingiu a dimensão actual)
Igreja de S. Francisco Xavier (perto de Mong-Há)
Capela de Nossa Senhora da Guia
(foi construída por volta de 1622 no interior de Fortaleza da Guia)
Capela de Nossa Senhora da Penha
(também conhecida como a Ermida de Nossa Senhora da Penha e como a Capela de Nossa Senhora do Bom Parto, foi construída em 1622 (ano da invasão holandesa a Macau) pela tripulação e passageiros de um barco que quase havia sido capturado pelos holandeses, por cima de uma colina, ao lado do baluarte de Nossa Senhora do Bom Parto. Antigamente, a capela servia como local de peregrinação para marinheiros católicos que embarcavam para uma viagem perigosa)
Capela de S. Francisco Xavier (Vila de Coloane)
(foi construída e sagrada pelo então bispo de Macau D. José da Costa Nunes em 1928, para evangelizar e servir a pequena comunidade católica em Coloane (naquela altura, esta ilha era pouco povoada). Esta capela é dedicada a São Francisco Xavier o padroeiro dos missionários e um dos padroeiros da Diocese de Macau)
Capela de S. Tiago
(está no forte da barra e é de 1740)
Capela de S. Miguel
(foi construída em 1875, no cemitério católico do Arcanjo S. Miguel, com o objectivo de efectuar os ritos católicos funerários daqueles que iam ser sepultados neste cemitério)
Igreja de S. Francisco Xavier Pereira

(foi construída em 1951, num asilo, para servir os católicos deste estabelecimento)

Entrada da Igreja de S. Fancisco Xavier Pereira

A Catedral da Diocese de Macau está na Igreja da Sé. Algumas igrejas e capelas católicas estão actualmente incluídos na Lista dos monumentos históricos do “Centro Histórico de Macau”, por sua vez incluído na Lista do Património Mundial da Humanidade da UNESCO.

A Diocese de Macau (em latim: Dioecesis Macaonensis) é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica em Macau. Foi erecta pelo Papa Gregório XIII através da bula “Super Specula Militantis Ecclesiae”, a 23 de Janeiro de 1576, seguindo o rito romano. Está hoje na dependência imediata da Santa Sé, abrangendo todo o território da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) da República Popular da China.

O Papa Gregório XIII, através da bula “Super Specula Militantis Ecclesiae”, a 23 de Janeiro de 1576, eregiu a Diocese de Macau, com jurisdição eclesiástica inicial sobre toda a China e o Japão. Esta diocese foi, desde da sua criação, uma diocese sufragânea da Arquidiocese de Goa. Mas, tal facto perdurou até 1975, quando ela passou a estar na dependência imediata da Santa Sé.
Macau, que tornou-se num importante estabelecimento comercial português em meados do século XVI, tornou-se também num importante ponto de partida de missionários católicos para os diferentes países da Ásia, principalmente para a China e para o Japão. Além da evangelização, estes missionários e outros religiosos católicos promoveram também o intercâmbio ético, cultural e científico entre o Ocidente e o Oriente. Eles construiram também igrejas, instituições de caridade (o mais famoso delas é a Santa Casa da Misericórdia) e de educação, nomeadamente o Colégio de S. Paulo (fundado no séc. XVI) e o Seminário de S. José (fundado no séc. XVIII). O principal objectivo destas instituições académicas era formar missionários e padres. Mas, infelizmente, o Colégio foi destruído por um incêndio em 1835 e o Seminário, devido à falta de vocações sacerdotais, deixou de funcionar em 1967. Para além dos missionários jesuítas, várias ordens religiosas e missionárias, como por exemplo os franciscanos, os agostinianos, os dominicanos e a Congregação das Madres Clarissas, estabeleceram-se em Macau durante os séculos XVI e XVII e hoje ainda continuam a estar presentes e activos em Macau. A presença de Salesianos em Macau se fez sentir com a criação do Colégio Dom Bosco e do Instituto Salesiano.
O primeiro Bispo de Macau foi D. Leonardo de Sá, que só chegou a Macau em 1581, sendo a Diocese administrada por D. Belchior Carneiro Leitão até à data mencionada. Foi este bispo jesuíta português que fundou, em 1569, o “Hospital dos Pobres” (e mais tarde foi renomeado de “Hospital de São Rafael”) e a Santa Casa da Misericórdia, a primeira instituição europeia de caridade e de beneficência em Macau que tem por objectivo atender às necessidades dos pobres da Cidade. Esta instituição contribuiu muito para o desenvolvimento da assistência social da Cidade. D. Belchior fundou também uma leprosaria junto da Igreja de S. Lázaro para cuidar dos leprosos.
Com a criação da Diocese de Funay no Japão (em 1588) e das Dioceses de Pequim e de Nanquim e do Vicariato Apostólico de Tonquim (em 1676), a jurisdição da Diocese de Macau foi muito reduzida e albergava não muito mais do que as Províncias chinesas de Guangxi e de Guangdong. Enquanto que perdia território na China e no Japão, novos territórios do Extremo Oriente foram entregues à Diocese, como por exemplo a Malásia e o Timor, exceptuando porém as Filipinas. No entanto, com o decorrer dos tempos, a Igreja Católica começou a criar gradualmente novas dioceses e circunscrições eclesiásticas no Extremo Oriente e, consequentemente, a Diocese de Macau começou, aos poucos, a perder territórios e igrejas que outrora foram criadas e/ou administradas por ela. Em 1981, a Paróquia de São José (em Singapura) e a Paróquia de São Pedro (em Malaca) desmembraram-se da Diocese de Macau, tornando-se assim nos 2 últimos territórios eclesiásticos da Diocese que se localizavam fora de Macau. Por isso, desde 1981, esta circunscrição eclesiástica abrange somente o território da RAEM.
A Diocese era também a sede do Padroado Português no Extremo Oriente, querendo isto dizer que o Estado Português patrocinava e protegia a Igreja Católica nos seus domínios. Mas, mesmo assim, isto não impediu que o Marquês de Pombal expulsasse todos os jesuítas, que na altura era uma poderosa ordem religosa no Império Português, de Portugal e dos seus territórios ultramarinos (incluindo Macau), em 1762. Depois deste acontecimento que prejudicou bastante pelo menos a actividade missionária no Extremo Oriente e o ensino em Macau, o Governo Português, mesmo mantendo o Padroado no seu Império, adoptou várias vezes, principalmente durante a primeira metade do século XIX, políticas duras contra as ordens religiosas, como por exemplo a sua expulsão de todos os territórios portugueses.
Nos últimos 50 anos, para responder às necessidades sociais, a Diocese de Macau desenvolveu vários projectos com vista ao bem-estar social, tais como a construição de escolas, de creches, de clínicas, de lares para idosos, de sanatórios para doentes, e de centros de formação profissional. Como por exemplo, nos finais da década de 70 e inícios da década de 80, com a intensificação da vinda de refugiados a Macau, a Diocese acolheu ao todo 70 mil refugiados da China Continental e 4 mil do Vietname, prestando-lhes um bom serviço sócio-assistencial e educativo. A Casa Ricci, fundada em 1954 pelo padre espanhol Luis Ruiz, tornou-se num verdadeiro centro de acolhimento e de assistência humanitária e cristã a centenas de milhares de refugiados chineses.
O último Bispo de etnia portuguesa desta diocese foi D. Arquimínio Rodrigues da Costa, cujo bispado durou de 1976 a 1988, sendo substituído por D. Domingos Lam Ka-tseung, o primeiro bispo de etnia chinesa desta diocese, cujo bispado terminou em 2003. Ele era natural de Hong-Kong. Faleceu este ano (2009). O primeiro bispo natural de Macau (segundo de etnia chinesa) da Diocese é o Bispo actual, D. José Lai Hung-seng.
Rifa de caridade da Diocese de Macau em 1975

D. Arquimínio da Costa, D. Manuel Bernardo de Sousa Enes, D. João Paulino de Azevedo e Castro, D. José da Costa Nunes e D. Paulo José Tavares, têm em comum vários factos… são todos eles açorianos e foram Bispos de Macau. Segue-se as respectivas notas biográficas elaboradas a partir da Agência Ecclesia.
D. Arquimínio Rodrigues da Costa
Nasceu em S. Mateus do Pico em 8 de Julho de 1924. Feitas as primeiras letras, juntamente com outros dois companheiros, foram levados para Macau por Monsenhor José Machado Lourenço, missionando no Extremo-Oriente. O jovem Arquimínio deu entrada no seminário de S. José a 8 de Dezembro, fazendo com distinção todos os seus estudos eclesiásticos, completando teologia em Junho de 1949. Enquanto estudante no seminário de Macau revelou óptimas qualidades, foi inteligente e virtuoso, sendo por isso mesmo nomeado professor antes da sua ordenação presbiteral, que se efectivou pouco tempo depois, a 6 de Outubro, celebrando três dias após a sua primeira missa. No mesmo seminário exerceu a prefeitura de disciplina desde 1949 a 1953 e foi reitor interino (1955/6) na ausência do reitor daquele estabelecimento de ensino cónego Juvenal Garcia.
Visitando os Açores em 1956 onde passou um período de férias na sua ilha do Pico. Mas Roma esperava-o e, em 1957, foi frequentar o curso de direito canónico na Pontifícia Universidade Gregoriana, concluindo licenciatura em 1959. De novo em Macau, retomou as suas funções de prefeito de disciplina, sendo então nomeado professor do seminário. Em Agosto de 1961 era reitor interino passando a efectivo em Novembro seguinte.
Por motivo de ausência do prelado diocesano de Macau durante o Concílio Vaticano II, foi o dr. Arquimínio nomeado governador do bispado em 29 de Agosto de 1963 e depois em 1965. Leccionou (1968/9) no seminário de Aberdeen, em Hong Kong, as disciplinas de filosofia e latim, sendo ali nomeado prefeito de Estudos do Curso Filosófico. Professor competentíssimo, sacerdote cheio de humildade, é tido como poliglota com destaque para a língua chinesa em que fala e prega fluentemente.
Eleito pelo cabido vigário capitular da diocese em 14 de Junho de 1973, viu-se elevado à dignidade episcopal três anos depois, em 1976, em que o Santo Padre Paulo VI o nomeou finalmente bispo de Macau. A sua sagração decorreu na catedral macaense em dia da Anunciação, 25 de Março daquele ano.
Em 1983 esteve outra vez nos Açores. Conquanto viesse às ilhas para as rever no seu coração de amantíssimo açoriano e dar um justo repouso às suas forças, D. Arquimínio, pelo contrário, atirou-se ao trabalho em S. Mateus na ausência do pároco.
A 10 de Junho de 1984 D. Arquimínio foi condecorado pelo Governo português com o grau de Grande Oficial da Ordem de Benemerência e em 1986 recebeu o grau de Doutor Honoris Causa em Filosofia pela Universidade da Ásia Oriental de Macau.
Este ilustre acoriano viu o seu pedido de resignação à Diocese de Macau aceite pela Santa Sé a 6 de Outubro de 1988 e, um mês após, a 7 de Novembro de 1988 foi condecorado, agora pelo Presidente da República Portuguesa, com o grau de Grã-Cruz da Ordem de Mérito a 7 de Novembro de 1988 (2) .
Desde Janeiro de 1989 que fixou residência na ilha do Pico, na freguesia de S. Mateus, ocupando o seu tempo na recuperação da quinta que era de seu pai que, após o seu falecimento, ficou abandonada.
O Pe. Tomás Betteecourt Cardoso, que na sua estada em Macau procedeu à recolha de textos de D. Arquimínio (e outros bispos açorianos de Macau) descreve-nos, em Nota Introdutória, a maneira de ser de Arquimínio de forma sucinta e lapidar: “Bispo-Padre. Em Macau, Padre-Bispo; nos Açores é Bispo-Padre. E por isso, óptimo colega. Celebra, confessa, prega, catequiza, senta-se ao harmónio tocando e ensaiando e ensinando, compõe, pacifica, substitui… Serve! É, de facto, óptimo colega!…
“E ainda tem tempo para escrever, respondendo semanalmente no jornal católico da Ilha a quem lhe faz perguntas por escrito.”
D. Paulo José Tavares
D. Paulo José Tavares, nasceu na ilha de S. Miguel, na freguesia do Senhor Bom Jesus, em Rabo de Peixe, a 25 de Janeiro de 1920. Feitas as primeiras letras, deu entrada no seminário de Angra, que frequentou desde Setembro de 1931 a Junho de 1941. Ordenou-se em Roma a 24 de Abril de 1943, na Basílica de S. João de Latrão, e, no dia seguinte, celebrou missa nova na Basílica de S. Paulo, extra-muros da Cidade Eterna. Laureado em direito canónico em 1945 pela Universidade Gregoriana, frequentando a Academia Eclesiástica até 1947, ano em que, seguindo a carreira diplomática, ingressou na Secretaria de Estado do Vaticano onde se desempenhou de cargos, primeiro como adido, depois como secretário e auditor e, por último, conselheiro da Nunciatura.
Pelo Papa João XXIII foi D. Paulo José Tavares nomeado bispo de Macau em 24 de Agosto de 1961, cuja sagração decorreu em 21 de Setembro na igreja de Santo António dos Portugueses, na cidade de Roma.
Finalmente tomou posse da sua diocese de Macau por procuração em 22 de Novembro de 1961, na mesma entrando solenemente em 27 desse mês, acompanhado de seu irmão, que ia como seu secretário particular, Pe. dr. Manuel Alfredo Tavares. Nessa longínqua diocese de Macau, onde foi recebido festivamente pelas autoridades religiosas, civis e militares, e em cujo Senado em solene sessão de boas-vindas presidida pelo governador coronel Jaime Silveira Marques, durante a qual lhe foi oferecida uma cruz peitoral e um anel continuou D. Paulo as tradições de outros ilustres prelados, muitos deles nascidos nas plagas açorianas, ali iluminando com o seu saber e inteligência o cristianismo iniciado pelos navegadores e mercadores portugueses do século XVI que então faziam escala na sua abandonada praia. Nesse centro da expansão cristã no Oriente se foram juntando, nos primeiros templos, religiosos idos de Malaca e das Molucas ou fugidos da China e do Japão. Primeiramente sob a jurisdição da diocese do Funchal e depois da de Goa, só em 1576 foi erecto o bispado de Macau por bula de Gregário XII, abrangendo toda a China, Japão e Molucas. Desanexado o Japão no ano de 1588 e a China em 1690, ficou Macau reduzido a Timor e Soler, a que se anexou mais tarde Singapura e Malaca. Timor em 1940 passou a constituir uma nova diocese. Hoje Macau é sufragânea de Goa.
D. Paulo José Tavares tomou parte em todas as sessões do concílio Vaticano II (1962/5), lendo na última sessão o Evangelho da missa. Numa aspiração máxima de todos os cristãos, visitou os Lugares Santos na Palestina. Durante o seu episcopado equiparou a côngrua dos sacerdotes chineses à dos sacerdotes europeus integrados na missão do Padroado Português no Extremo-Oriente. A ele Macau ficou devendo a reorganização das suas paróquias, criou o Conselho das Escolas Católicas, introduziu na diocese os Cursos de Cristandade, o Movimento para Um Mundo Melhor e o dos Focolari. Todos os anos fazia visita às missões portuguesas de Singapura e Malaca, sendo sua preocupação os problemas da educação da juventude e a assistência aos necessitados. Com esta finalidade sociológica deu força a empreendimentos que atestam a sua vincada personalidade, criando ou ampliando dispensários, infantários e escolas. Organizou uma escola de férias e uma feira anual no compound, cujo produto fazia reverter para o ensino mais pobre e para os asilos. No campo espiritual, para o poder convenientemente desenvolver, meteu ombros à construção de uma casa de retiros, destinada especialmente a sacerdotes e religiosos, com quarenta quartos individuais; construiu auditório diocesano, ampliou a igreja de N.ª S.ª da Esperança e fez outras a de N.ª S.ª de Fátima e a de N.ª S.ª das Dores na Leprosaria de Ká Hó. Apoiou D. Paulo a acção das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora dos Anjos, as de Santa Doroteia, as franciscanas de Maria e, a seu convite, foram até Macau as Irmãs Missionárias do Perpétuo Socorro. Outro apostolado, como o das Irmãs de S. Paulo, ali praticou e desenvolveu com a aquiescência do bispo a sua acção nos meios de comunicação social e dirigindo a livraria e biblioteca.
D. Paulo sempre se preocupou com a formação do seu clero. Por essa razão criou os meios necessários para que sacerdotes da sua diocese alcançassem grau universitário em Roma e Manila. Quando deixou de funcionar o seminário maior, os seminaristas concluiram estudos em Hong Kong e em Portugal. Durante os revezes de 1966/7 D. Paulo José Tavares pautou-se pela verticalidade da sua própria vida de sacerdote e de bispo: Manteve-se intransigente na defesa da liberdade das escolas católicas.
Das suas obras, assinala-se a tese que defendeu em direito canónico: A concordata portuguesa de 1940 e a situação jurídica da igreja em Portugal, em alguns dos seus principais aspectos. Infelizmente este prelado faleceu ainda bastante novo, a 12 de Junho e 1973, contando apenas 53 anos, estando em Lisboa, aonde se deslocara em 25 de Abril desse ano, já muito doente, pois desejava participar na Conferência Episcopal da Metrópole que se realizava em Fátima. Dado o seu estado de saúde, não seria conveniente uma tão longa e extenuante viagem, o que lhe fez ver seu próprio irmão o secretário. Mas D. Paulo insistiu e fez-se de viagem assistindo com muita dificuldade a quase todas as reuniões de trabalho. Já no seu regresso de Fátima a Lisboa, na companhia do cardeal patricarca D. António Ribeiro, era tal o seu estado de saúde que ficou internado no Hospital da Cruz Vermelha por não haver vaga no do Ultramar, onde permaneceu até 12 de Junho em cuja madrugada faleceu.

D. José da Costa Nunes

Monsenhor José Machado Lourenço, também missionário no Oriente, que foi secretário e biógrafo dessa eminente figura cardinalícia, que foi D. José da Costa Nunes, disse do seu biografado: “Se houvesse vivido mais quatro anos, teria completado um século de existência esta eminente figura eclesiástica, a maior dos Açores”.
D. José nasceu na aprazível ilha do Pico, na freguesia da Candelária, a 15 de Março de 1880. Na Horta, fez o seu exame de admissão aos liceus e em 1893, foi frequentar o Seminário de Angra, onde fez os seus estudos recebendo em 1 de Junho de 1901 a prima tonsura e ordens menores na igreja de S. Francisco anexa ao antigo convento onde a esse tempo se instalava o seminário, conferidas pelo prelado diocesano D. Francisco José Ribeiro Vieira e Brito. Antes de completar teologia, tinha então 23 anos, foi escolhido pelo reitor daquele estabelecimento de ensino religioso, o Senhor D. João Paulino de Azevedo e Castro, que acabava de receber honras prelatícias com a sua nomeação a bispo de Macau, para o acompanhar como seu secretário. Foi um aluno brilhante do Seminário, de feitio vivaz, sabia ser pertinente, decidido e eloquente, ali se moldando com o ensino e na companhia de mestres competentes a “personalidade inconfundível” de que falam os seus biógrafos.
Não estaria nos desígnios de D. José exercer o seu apostolado fora das parcelas açorianas, não fora a ocasião surgida da nomeação de D. João Paulino para prelado da diocese de Macau e da insistência e esperanças que este adivinhava em D. José para o levar consigo como secretário, cargo que, diga-se, foi noutros tempos de uma grande importância para o eclesiástico e social e por vezes disputado com unhas e competências. Não foi o caso vertente, em que o designado procurava eximir-se e o novo bispo, ante a recusa, mais e mais se mostrava empenhado. Machado Lourenço diz apenas isto: “Recusou, mas D. João Paulino insistiu”. E foi assim que no mês de Março do ano de 1902 o seminarista José da Costa Nunes fez as suas formais despedidas em Lisboa, deixando parentes, amigos e companheiros de estudo, rumando ao Oriente, à luzida diocese de Macau, farol do cristianismo na fronteira da China, fazendo viagem por Bombaim, Ceilão, Singapura e Malaca.
A ordem presbiteral só veio a recebê-la em Macau das mãos de D. João Paulino a 26 de Julho de 1903, na capela do paço episcopal, celebrando a 31 desse mesmo mês a sua “missa nova” na festa de Santo Inácio, na igreja de Santo Agostinho vindo pouco depois a ser nomeado Missionário do Padroado do Oriente.
Decorridos três anos, uma provisão de D. João Paulino de 14 de Julho de 1906, nomeava-o vigário-geral, enquanto outras ocupações o absorviam quotidianamente, como a directoria do asilo dos órfãos da Santa Casa da Misericórdia, a docência no seminário de S. José, o professorado no liceu daquela velha cidade portuguesa na China. “Nas casas de educação, na cátedra, no púlpito, no confessionário, no jornalismo literário e calmo ou no doutrinário e polémico, nas suas relações sociais, nas tertúlias académicas (havia-as então e distintas) animadas por belos espíritos – Pessanha era um deles – nas salas de conferências, o Pe. Costa Nunes marcava um lugar de relevo, tornava-se mesmo uma figura imprescindível, empolgando a todos com o seu trato lhano e despretensioso e monopolizando quase a conversa por iniciativa dos presentes, encantados com o interesse dos assuntos e presos dos seus lábios, onde a língua portuguesa tornava um jeito característico de graça e simplicidade”. (Machado Lourenço, Cardeal D. José da Costa Nunes, in Memoriam, p. 18).
D. João Paulino de Azevedo e Castro seguia com desvelado interesse e naturalmente orgulhoso os triunfos do seu pupilo, e comprazia-se vislumbrando a obra dele no apostolado da Igreja e reflectidamente na sociedade macaense. Foi do Conselho da Instrução Pública e visitador das Missões, indo até Timor e dessa sua primeira viagem deu excelente conta num relatório que vem citado na História da Igreja em Portugal, de Fortunato de Almeida. As suas visitas estenderam-se ainda a Singapura e Malaca.
Já a esse tempo o jovem sacerdote açoriano era particularmente estimado pelos seus dotes de integridade e inteligência. Começava a manifestar-se nele o dom da palavra sagrada: “No Oriente cultivava no púlpito os seus distintos dotes de orador fluente” (Hist. da Igreja). O seu nome era já prestigiado na comunidade e muito aceito nos meios oficiais, exercendo a esse tempo o cargo de governador do bispado, durante as ausências na Europa do prelado da diocese.
Com a I República, que eclodiu em Portugal a 5 de Outubro de 1910, far-se-íam sentir também no Oriente os seus efeitos, por isso, “D. João Paulino viu-se obrigado a passar esses dias calamitosos fora de Macau. Mas tinha a consolação de saber – refere Mons. Lourenço – bem entregue nas mãos firmes do seu vigário-geral o governo da diocese. O Pe. Costa Nunes, nomeado governador do bispado em 3 de Abril de 1907 e de novo em 30 de Novembro de 1910 em que o bispo fora refugiar-se em Cantão por motivo de distúrbios ocorridos em Macau, lutou impertérrito, jamais transigindo quando os direitos e interesses eclesiásticos estavam em causa. A uma personalidade forte juntava as qualidades do diplomata, e logo que a tempestade amainou, quem quer podia ver que era sua a vitória”.
Este mesmo autor conta um acontecimento que ocorreu por essa altura, em que Costa Nunes fora convidado para proferir uma conferência no Grémio Militar. Devido ao ambiente carregado pelo 5 de Outubro, foi amigavelmente aconselhado pelo próprio presidente do Grémio a desistir da sua conferência, já que os ventos que corriam em nada eram propícios ao clero e poderiam piorar com a presença da marinhagem. O seu temperamento a um tempo forte e corajoso ditou-lhe o contrário: ir e fazer o seu trabalho. “A conferência realizou-se principiando numa atmosfera carregada de nervosismo. Só o conferente estava calmo, parecia, falou, falou com a maior serenidade e com a sua costumada eloquência, envergando a batina que muito amava. Que triunfo! Os marinheiros, electrizados, aproximaram-se dele e protestaram contra a ideia que deles fizera o presidente do Grémio” (Mons. Lourenço, ob. cit, p. 20).
Este interessante episódio terminou com a declaração, sorridente, do audaz sacerdote açoriano à alta entidade militar: – Revolução haveria, se eu quisesse, com todos os bravos marinheiros ao meu lado!
Noutra ocasião, fruto do desvairamento da hora que passava, houve mesmo a tentativa de assalto ao paço episcopal. Mas, Padre Costa Nunes, recebendo os invasores à porta como quem faz as honras da casa, disse-lhes apenas, calmamente: Só entrarão por cima do meu cadáver!
Por provisão de 1 de Julho de 1911 transferiu-se de Macau para Malaca e dali para Timor em visita a estas Missões por o bispo o não poder fazer.
Falecido D. João Paulino em 1918, coube a D. José o proferir-lhe a oração fúnebre nas solenes exéquias celebradas na diocese macaense. Tinha D. José uma maneira brilhante de escrever, que atraía e empolgava. Este pedaço de prosa recolhido da sua oração sobre ser bonito é sentimental e sem dúvida que toca profundamente o coração humano, como tocaria se lhe pudesse chegar a alma de D. João Paulino:
… e agora lá estás aos pés da Virgem da Gruta, a Virgem dos teus amores, nesse lugar bendito, onde habitualmente eu te, ia encontrar rezando o terço ou recitando o teu breviário.
D. José foi eleito vigário capitular, sede vacante, em sessão do cabido de 22 de Fevereiro desse mesmo ano, embora não pertencesse à corporação capitular, vindo a ser nomeado em 20 de Novembro de 1920 e confirmado em consistório pelo Papa Bento XV em 16 de Dezembro do mesmo ano, bispo de Macau, a que opôs grande resistência, pois apesar do júbilo geral que a notícia causou, D. José tentou por todos os modos sustar a sua nomeação, para tanto se deslocando ao Vaticano. A 14 de Fevereiro de 1921 escrevia ele a D. Aquilos, arcebispo de Tessalónica e ao tempo Núncio Apostólico em Lisboa, esta carta de que se reproduz apenas parte:
Tenho a subida honra de acusar a recepção do Ofício de V Ex.ª Ex.ª Revm.ª, de 16 de Janeiro do corrente ano, participando-me a minha nomeação de bispo da diocese de Macau.
Se por um lado me penhora esta manifestação de benevolência por parte de Sua Santidade elevando-me à alta dignidade episcopal, por outro lado sinto-me profundamente abatido, ao considerar as graves responsabilidades que assumiria, se aceitasse um cargo incomportável com a debilidade das minhas forças.
Assim, deponho nas mãos de Sua Santidade, por intermédio de V Ex.” Revm.ª, a minha renúncia, rogando encarecidamente a V Ex.ª se digne usar a sua influência para que a Santa Sé haja por bem aceitar-ma.
Devidamente autorizado por sua Eminência, o Cardeal Secretário de Estado, parto para Roma no próximo mês de Abril a fim de tratar pessoalmente deste assunto, todavia acolho-me à protecção de V Ex. a Revm.ª para que se removam quaisquer obstáculos, que porventura se oponham à aceitação da minha renúncia ….
Uma publicação eclesial revela: “Clero e fiéis se regozijaram com o facto, excepto ele que empregou todos os esforços para se eximir a tão alto cargo, chegando mesmo a ir a Roma para esse fim. Mas Bento XV não cedeu; não podia ceder, porque nesses tempos difíceis, o Pe. Costa Nunes era a pessoa naturalmente indicada para timoneiro daquela nau, que navegava em mares algo tempestuosos. Já dera provas mais que suficientes”
Este novo prelado de Macau veio a ser sagrado na matriz da cidade da Horta, nos Açores, a 20 de Novembro de 1921.
Só meses mais tarde o novo bispo faria a sua entrada solene em Macau, aos 4 de Junho de 1922, para um governo que durou dezoito anos. Esperavam-no imensos problemas criados por situações que haviam conduzido aquela diocese a uma preocupante rotura financeira. Por isso, para começar, teve de confrontar-se com indispensáveis medidas tendentes à revigoração de fontes de riqueza para saneamento das dívidas em aberto e o desenvolvimento das obras escolares, assistenciais e de evangelização, numa diocese enorme, que compreendia não só o território de Macau, mas ainda as ilhas de Taipa e de Coloane, alguns distritos da província de Kuangtung e os seus cinco milhões de habitantes, o Timor português e os isentos de Singapura e Malaca. Mas a sua acção nessa área, jamais poderia ser aquela que fora antes, pois agora como bispo as suas atenções teriam que ser redobradas, dedicando-se aos estabelecimentos de ensino missionário, que disciplinou e melhorou, aumentando o número de matriculados, cuja direcção espiritual viria a entregar à competência dos padres jesuítas, assim como a reitoria do próprio seminário. Outro tanto dedicou ao colégio de meninas de Santa Rosa de Lima, de novo entregue aos cuidados das Franciscanas Missionárias de Maria, que a República havia expurgado para longe. Fundou um colégio para rapazes chineses, Piu Ching, deu nova dimensão aos educadores salesianos, melhorou as condições das Irmãs Canossianas, criou escolas, um mosteiro para carmelitas contemplativas, erigiu capelas, inaugurou a Sé Catedral restaurada, a igreja de Penha, o paço episcopal, estabeleceu a Acção Católica entre chineses e portugueses, conseguiu o baptismo de “algumas centenas, se não milhares de adultos” chinos e difundiu a Missão de Nossa Senhora de Fátima entre milhares de chineses que se refugiavam em Macau. Foi notável a sua organização missionária no interior da China, inspirada em nossos métodos tradicionais, operando-se grande expansão no número dos eclesiásticos e religiosos, multiplicando-se os templos cristãos, as capelas, as residências, as obras escolares e de assistência. D. José acalenta e apoia todas as obras da Igreja, não descura as visitas, que empreende por diversas missões, de algumas ficando para a posteridade documentos fotográficos, hoje preciosos, como daquela vez na Missão dos Padres Jesuítas de Shiu-Hing, ou nas terras timorenses. Os seus propósitos seriam estes: “Animando todas as iniciativas de penetração do bloco gentílico, D. José, muitas vezes com perigo da própria vida, percorria periodicamente essas cidades, vilas e aldeias distantes, nunca duvidando empreender as mais incómodas viagens”.
D. José não olvida nunca os seus Açores, e sempre que podia dava uma fugida às ilhas. No ano de 1931, vindo passar um período de descanso, profere no liceu Antero de Quental, em Ponta Delgada, uma conferência sobre o Oriente, considerada como magistral. O Dr. Jerónimo da Costa, que foi reitor daquele estabelecimento de ensino e que ao eminente açoriano dedicou uma interessantíssima monografia, já por mais de uma vez aqui citada, a este propósito assevera: “Em Sua Excelência Reverendíssima há sempre uma saudade a mitigar, um desejo insaciável de pisar novamente aquela encantadora freguesia que o viu nascer, entrar mais uma vez na ilha do Pico, cuja imagem perdura indelevelmente na sua retina; visitar no trajecto algumas ilhas dos Açores, que ele não esquece, já pelas velhas amizades que nasceram na juventude e jamais quebraram o elo pela vida fora, já pelas recordações que a cada passo lhe despertam os templos, os lugares onde Sua Excelência Reverendíssima recebeu as homenagens saídas do coração deste bom povo açoriano que tanto o admira.
“Passado o tempo indispensável ao conserto sólido do organismo, satisfeita mais ou menos a perseguidora saudade da família, da terra e dos amigos, parte novamente Sua Excelência Reverendíssima para a diocese de Macau, via Roma, Canal de Suez, etc.
“A Itália está prestes a entrar no conflito mundial; e Sua Excelência Reverendíssima, achando-se em Roma e já não podendo atravessar o Canal de Suez, percorre o Mediterrâneo, atravessa o estreito de Gibraltar e continua a viagem, que dura meses, contornando toda a África e entrando em Macau em 1940”.
Mas em 1945, pisa de novo o solo dos Açores investido já na alta dignidade de Primaz do Oriente. Efectivamente, Pio XII aos 11 de Dezembro de 1940 nomeara-o arcebispo metropolitano de Goa e Damão, com os títulos de Primaz do Oriente, Patriarca das Índias Orientais e arcebispo titular de Granganor.
Passou então D. José da Costa Nunes à Índia portuguesa, tomando posse da arquidiocese aos 18 de Janeiro de 1942, tinha então 61 anos. Mas, “apesar da sua idade e de haver trabalhado arduamente, D. José levava para o seu novo posto um vigor físico e mental invejável por muitos muito mais jovens, fruto de uma vida regrada e metódica – mesa frugal, repouso nocturno a tempo e horas, exercícios corporais diários, passeios quotidianos, a pé, de, pelo menos, 3 quilómetros e corte radical com o tabaco desde 1925”.
A 10 de Fevereiro de 1942 Goa presta a “maior e mais significativa homenagem” ao eminente patriarca, que decorre no Instituto Vasco da Gama, importante centro cultural da Índia portuguesa, do qual D. José era sócio honorário desde 1937.
Durante a permanência em Goa do arcebispo açoriano, soube habilmente desenvolver no seu governo um conjunto de acções de envergadura, tais como, o apostolado dos beneméritos confrades de S. Vicente de Paulo, o montepio do clero, o sínodo, a melhoria do nível intelectual no seminário, que já se revelava como o mais alto de todos os seminários da Índia, as recomendações ao clero para que tornasse mais frutuoso o ministério, melhoramento de escolas paroquiais, o ensino da arte musical de que tanto se agradavam os goeses, a criação de escola de aprendizagem de ofícios, que vingou sob a direcção dos Padres Salesianos, as novas orientações à Sociedade Missionária de São Francisco Xavier, a fundação de duas congregações femininas, uma casa de protecção à mulher, o lar estudantil de Pangim, são alguns dos actos da eficiente administração de D. José na Sé arquiepiscopal de Goa.
Os efeitos desse extremoso trabalho ressaltam de certo modo nesta síntese do punho do Dr. George Moraes, goês e professor em Bombaim, citado por Mons. M. Lourenço, que saíu no Heraldo de Goa após a morte do patriarca: – “Os efeitos da benéfica acção sentiam-se dentro e fora de Goa, entre cristãos e hindus, dando em resultado o geral reconhecimento da sua obra, mesmo nos meios mais insuspeitos”. E noutro período, acrescenta: “… certamente não morrerá na memória dum povo que ele ajudou a transformar-se numa das mais importantes comunidades da índia hodierna. Ele viverá para sempre na sua grata recordação”.
Entre tantas e tão apreciadas obras de beneficência, a influência do seu espírito criador vai até o Pico, sua terra natal e sempre muito aconchegada do seu coração de açoriano, onde foi fundada uma notável obra de educação infantil.
O Governo de Portugal, reconhecendo-lhe os méritos, condecorou-o a 3 de Julho de 1946 com a Gran-Cruz da Ordem do Império Colonial, por decreto de 3 de Junho desse mesmo ano. Foi cidadão benemérito de Macau por proposta do respectivo município.
A 16 de Dezembro de 1953, “após meio século de actividade no oriente”, renunciou D. José ao seu elevado cargo, ficando desde então com o título de patriarca e arcebispo de Odesso, ingressando na Cúria Romana como vice-carmelengo da Santa Igreja, passando a residir em Roma, onde, aliás, se sentia bem. Tinha 74 anos sãos de “corpo e de espírito”.
Nove anos depois, a 19 de Março de 1962, foi elevado ao cardinalato, do título de Santa Prisca, por Sua Santidade João XXIII, facto a que se referiu o Boletim Eclesiástico dos Açores do ano de 1962, nos termos seguintes: – “Mas a obra de organização eclesiástica e de desenvolvimento missionário, realizada em Macau, apontava-o naturalmente para um posto mais alto para onde essas mesmas qualidades o recomendavam. S. Ex.ª Revm.ª não desiludiu a Santa Sé, e o que fez em Goa – por si só honroso galardão de uma vida completamente dedicada ao serviço da Igreja e da Pátria – mereceu-lhe a ascensão ao cardinalato, após alguns anos de residência em Roma, onde continuou a prestar relevantes serviços como presidente permanente dos Congressos Eucarísticos Internacionais, consultor de várias congregações romanas e vice-carmelengo da Santa Igreja”. Mais tarde o Santo Padre incumbiu-o de outros elevados misteres como o de consultor das Sagradas Congregações Romanas, da disciplina dos Sacramentos, da do Concílio, da dos Religiosos da Fé, da dos Negócios Eclesiásticos Extraordinários, tendo ainda sido membro da Comissão Central Preparatória do Concílio Fcuménico.
Monsenhor Lourenço, que tão bem traçou a biografia desta grande figura eclesiástica, ele próprio tinha larga folha como missionário do Oriente, privando tão de perto com D. José, sabia muitas e curiosas histórias e no seu livro conta esta passagem, que daria lugar à nomeação do novo purpurado.
Quem é aquele bispo, de barbas, que vejo à minha frente nas cerimónias religiosas da Basílica? perguntou o Sumo Pontífice.
Disseram-lhe quem era. Apetece-me conceder-lhe púrpura cardinalícia no próximo consistório. Mas, Santo Padre, está completo o número previsto… – Pois façamos mais um!
A 16 de Março de 1970, D. José escreve o seu Testamento Espiritual, peça importante que se reproduz na íntegra:
Fiz ontem 90 anos. De joelhos agradeço a Deus os benefícios que me concedeu durante tão longa vida e peço-Lhe perdão das infidelidades sem conta que cometi e da suprema ingratidão com que correspondi às Suas graças.
Tantas coisas que fiz e não devia ter feito! Quantas outras que não fiz e devia fazer! Confi-o, porém, na misericórdia divina, infinitamente maior do que as minhas misérias. Nascido no seio de uma família modesta mas rica de sentimentos religiosos, desejei desde criança ser padre. Para realizar esta aspiração, que meus Venerandos Pais também alimentavam, alguns obstáculos tive de vencer.
Ao aproximar-se a data da minha ordenação, o Reitor do meu seminário, eleito Bispo de Macau, convidou-me a acompanhá-lo como seu secretário. Foi assim que a minha vida eclesiástica se encaminhou para as Missões do padroado Português do Oriente, onde exerci o meu ministério por espaço de 50 anos.
Quando já a minha idade avançada aconselhava a retirar-me da vida activa, Sua Santidade Pio XII colocou-me na Cúria Romana. Penaliza-me ter sido um fraco elemento junto do Soberano Pontífice, pois afeito a assuntos missionários e em contacto permanente com o mundo asiático, sentia-me impreparado para o meio burocrático do Vaticano. Contudo, a bondade do Papa João XXIII quis distinguir-me com a nomeação de Cardeal.
Quando olho para o meu passado, vejo traçada uma linha bem diversa da que eu premeditava. E foi essa que tive de percorrer. Considerando-a já totalmente percorrida, pois julgo encerrado o ciclo da minha frágil actividade, peço ao Senhor me chame numa hora boa. Santo Arsénio, que morreu no deserto com 120 anos de grande penitência, tremia ao pensar nas contas a dar no Tribunal Divino. Eu não tremo, pois, não obstante tantas fraquezas, confio plenamente na misericórdia do Senhor. Este meu sentir não é filho, creio de condenável presunção, antes inspirado pela certeza de que Deus espera na eternidade, de braços abertos, todos os pecadores arrependidos e todos os que O amaram na vida.
Tendo ocupado, quase desde o começo da minha vida sacerdotal, cargos de mando, terei cometido erros e magoado subordinados, mas sirva-me de conforto a ideia de ter procurado sempre cumprir o que me era imposto e nunca haver ofendido voluntariamente o pessoal eclesiástico ou não eclesiástico, que de mim dependia. De ninguém conservo má disposição e a todos peço me perdoem. O meu pensamento nesta hora volve-se para as dioceses do Oriente, que pastoreei. Ligado a pessoas e instituições, nunca esqueci essas terras distantes, que ainda hoje vivem bem perto do meu coração é do meu espírito.
Apaixonei-me pelas Missões, pelas obras de tantos Operários da Vinha, realizadas no campo do apostolado, e pelas recordações que os antigos portugueses deixaram nesses países longínquos. O tempo, que tudo gasta, vai respeitando muitas dessas tradições nacionais, marcadas quase todas por um cunho acentuadamente religioso.
Ao percorrer em serviço das Missões essas regiões orientais, notava que ordinariamente as populações nativas viviam em relativa paz, mas hoje, em muitas delas, reina a desordem e predomina a violência. Que o Senhor traga a paz para esses povos e que a Igreja possa espalhar livremente, por tão vastas regiões, o Evangelho, única garantia de levantamento moral e material dessas populações oprimidas.
Entre as poucas obras que saíram das minhas mãos, uma há que me merece cuidado especial: a Casa de S. José, fundada na minha terra natal. Quis assim perpetuar a memória de meus Saudosos Pais, que tantos exemplos de virtude deram em toda a sua vida. Quis também beneficiar o povo da Candeláfia, no meio do qual me orgulho de ter nascido.
A Casa de S. José, em boa hora confiada às Beneméritas Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, muitos benefícios já espalhou e está espalhando entre os habitantes desta povoação e outras povoações da ilha do Pico.
Não tendo outros bens a deixar, deixo esta instituição à gente da terra onde nasci, esperando que todos a amparem como obra de grande utilidade sobretudo para as gerações novas.
Ignoro o dia e local do meu passamento, contudo desejo ser sepultado na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma se falecer na Itália, no cemitério da Horta, junto de meus Pais, se morrer em Portugal.
Ao terminar, o meu pensamento foge para junto do Santo Padre, que nesta hora grave dirige os destinos da Santa Igreja, com suma prudência e firmeza.
Prestando-Lhe os meus sentimentos de submissão e amor filial, peço ao Senhor O ilumine e fortaleça, para que possa continuar no seu posto por largos anos, servindo a Causa de Deus e os interesses desta sociedade que o espírito do Mal agita e arrasta para a revolução e a morte. Recomendando-me às orações de todos, espero exalar o último suspiro sempre unido à Cátedra de Pedro e sempre esperando na bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que veio ao mundo para salvar os pecadores, venit in hune mundum peceatores salvos facere, no dizer de S. Paulo. O Boletim Eclesiástico dos Açores assinalando as Bodas de Ouro da Sagração Episcopal de D. José, fá-lo com a convicção de que na “jerarquia eclesiástica foi o açoriano que mais alto subiu”. E diz mais: – “Por todas as qualidades e virtudes que o exornam, é indubitavelmente um dos maiores Açorianos de todos os tempos. Foi certamente por isso que o diário micaelense Correio dos Açores, propôs que todos os municípios açorianos o proclamassem cidadão honorário, ideia muito bem aceita no arquipéiago”
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Já enfermo e internado na clínica Madonna di Fatima, foi visitado em 13 de Agosto de 1976 pelo Papa Paulo VI, que se deslocou expressamente da sua residência de verão, em Castelgandolfo, onde então estava, à cidade de Roma para estar um pouco com ele e o confortar.
Estava prestes a extinguir-se uma vida que tinha sido multi-facetada e de invulgar ascenção. Muito jovem ainda D. José mostrou-se interessado pelo jornalismo onde já se estreara, quando seminarista, em A Voz, folha editada na vila da Madalena, no Pico, vindo a fundar em Macau a Revista Oriente. Mas a sua colaboração estendeu-se a outras publicações portuguesas e estrangeiras, onde era apreciado o seu estilo elegante, deixou muitas instruções, pastorais, cartas magistrais ao clero e conferências a “exigentes auditórios”.
Das suas obras que se apontam como já publicadas, mencione-se: Saudação pastoral (1922); O padroado português no oriente (1922); Cartas aos sacerdotes da arquidiocese de Goa, Lx.ª 1947. Faleceu a 9 de Novembro de 1976, tinha então 96 anos “no que bem mostrou a resistência de Homem do Pico”. O órgão do Vaticano descreveu sinteticamente a morte que enlutou o coração dos católicos portugueses, especialmente o dos açorianos seus chorosos conterrâneos.

D. João Paulino de Azevedo e Castro

Este bispo de Macau nasceu em 4 de Fevereiro de 1852, na Vila das Lajes da Ilha do Pico. Fez os seus preparatórios durante os anos de 1869 a 1874 no liceu da Horta (ilha do Faial) e veio a concluir formatura em teologia no ano de 1879 na vetusta Universidade de Coimbra, recebendo, também, ordens religiosas. Na poética cidade do Mondego era João Paulino sobejamente conhecido não só pelas suas qualidades como, também por uma enorme barba que usava, a longa barba paulina”.
Varão de grandes virtudes e de enorme bondade, sempre aberto aos outros, virtuoso, dedicado aos estudos, tendo feito a instrução primária na sua terra de nascimento, o liceu da Horta, e, depois o seminário e a Universidade de Coimbra, onde se formou em teologia. Naquela antiqiússima urbe universitária houve toda a instrução sacerdotal, ali mesmo recebendo as ordens eclesiásticas menos a de presbítero, que só viria a receber na cidade de Angra do Heroísmo aos 31 de Agosto de 1879, que lhe foi conferida pelo bispo diocesano D. João Maria Pereira do Amaral e Pimentel. Demos, porém, a palavra a quem o conheceu bem de perto.
Nesse mesmo ano, o egrégio sacerdote que tanto haveria de se distinguir veio a exercer o professorado eclesial no seminário diocesano de Angra, a convite do virtuoso bispo D. João Maria, onde regeu as cadeiras de teologia dogmática, sacramento e moral, história eclesiástica, direito canónico, geografia e história geral, francês e, também, filosofia.
Vice-reitor do seminário, passou a reitor em 1888 contribuindo durante todo esse tempo para os créditos e respeitabilidade de tal estabelecimento de formação eclesiástica. Desempenhou-se por essa altura de outros cargos de responsabilidade social, havendo sido presidente da comissão administrativa do Asilo de Mendicidade de Angra do Heroísmo (1894-1902), director do Boletim Eclesiástico dos Açores, onde evidenciou dotes de capacidade e discernimento em assuntos de direito canónico e civil.
Foi este distinto sacerdote apresentado cónego da Sé de Angra (1889), mais tarde investido na dignidade de tesoureiro-mor (1890) e, depois ainda, elevado a arcediago (1901) dignidade de que não tomaria posse por entretanto haver aparecido a sua designação para a mitra de Macau. Examinador prosinodal, dedicou-se aos problemas do Seminário de Angra, de que era, aliás, reitor e professor, devendo-se-lhe a criação do Museu de História Natural, que obteve importantes espécimes. Enfim, “… era uma das figuras eclesiásticas mais distintas de então, desempenhando vários cargos de responsabilidade e de honra”.
Com tantas e excelentes qualidades morais e de serviço, a sua elevação a bispo de Macau foi um acto, como já alguém disse, agradavelmente esperado. Monsenhor cónego Ferreira, revela-nos que “Angra toda, a começar pela sua sociedade mais distinta, tinha pelo preclaro sacerdote a maior estima e simpatia, o que se revelou a flux por ocasião da sua elevação ao episcopado”. Leão XIII assim o confirmou por bula de 9 de Junho de 1902. A sua sagração efectuou-se a 27 do mês de Dezembro desse ano, na igreja do antigo convento de S. Francisco de Angra, então anexada ao seminário, sendo sagrante o bispo diocesano D. José Manuel de Carvalho, transferido do bispado de Macau para o dos Açores. Um seu contemporâneo recordou-lhe o dia solene da sagração: “Está ainda viva na lembrança de toda essa festa memorável, a primeira que se viu nesta cidade, e que em todos despertou as mais consoladoras impressões, que muito tarde se apagarão”.
O acto solene da sagração deste bispo vem descrito no Boletim Eclesiástico dos Açores, que aqui o fixamos, já pelo que representa no descritivo solene da sagração de um prelado católico, já por ser a primeira vez que na cidade de Angra se assistiu a um cerimonial prelatício.
Realizou-se no dia 27 de Dezembro último, na majestosa igreja de S. Francisco, a sagração do Exm.º e Revm.º Sr. D. João Paulino de Azevedo e Castro, bispo de Macau.
Foi bispo sagrante o Exm.º e Revm.º Prelado de Angra.
A escolha da igreja do Seminário para este imponente acto representa mais uma amável gentileza do ilustre Prelado para com aquele estabelecimento que Sua Exª a Revm.ª dirigiu durante longos anos na qualidade de vice-reitor, desenvolvendo primores de fervoroso zelo e inexcedível dedicação.
Por autoridade apostólica podiam os bispos ser substituídos por dois presbíteros constituídos em dignidade ou oficio eclesiástico sendo convidados para este fim os Rvm.ºs deão José dos Reis Fisher e cónego António Maria Ferreira. Foi devido a esta circunstância que a cidade d’ Angra poude, pela primeira vez, presenciar a sagração de um bispo.
O anel episcopal, bento no acto da sagração, e uma bela esmeralda engastada em ouro, valiosa oferta das zeladores do Apostolado da Oração de que Sua Exª Rvm.ª foi zelosíssimo Director. Uma das salvas de prata empregadas no serviço do Exm.º e Rvm.º Bispo de Macau foi uma mimosa dádiva dos seus queridos seminaristas que também empregaram todos os esforços para que a ornamentação do templo correspondesse à solenidade do acto. E na verdade, a igreja de S. Francisco, que é uma das melhores e mais vastas da cidade, estava magnificamente decorada, tendo-se improvisado duas grandes tribunas, uma para damas e outra para sacerdotes, tomando os cavalheiros assento no cruzeiro.
Cumpriu-se à risca o Pontifical Romano sob a direcção dos hábeis mestres de cerimónias Rvd.ºs Beneficiados da Sé Manuel Vaz Diniz e Eduardo de Sousa Marques.
As suas últimas despedidas fizeram-se em Angra no dia 6 de Fevereiro de 1902, data em que embarcou. No Continente interessou-se junto do Ministério do Ultramar pelos negócios pendentes da sua cúria, deixando o torrão lusíada em 23 de Março com destino a Lurdes e Roma. Na cidade Eterna foi recebido em audiência particular pelo Sumo Pontífice Leão XIII. De Roma dirigiu-se a Bombaim e dali a Macau, numa viagem necessariamente incómoda por ser longa, todavia, bem sucedida. Malaca e Singapura ficaram-lhe no percurso e teve assim ensejo de estabelecer os primeiros laços com os fiéis sob a sua jurisdição episcopal.
No dizer de Mons. Ferreira, encontrava-se o ilustre prelado açoriano à data de 4 de Julho no porto de Macau, aprestando-se para as honrosas cerimónias com que ali fora recebido, desvanecedoramente pelo clero, pelas autoridades e povo que o aguardavam no maior júbilo. Tomou D. João Paulino posse da sua cadeira episcopal em 16 de Fevereiro do ano seguinte de 1903, ano em que chegou à sua diocese, onde o aguardavam alguns problemas de importância, aos quais procurou devida e eficientemente solucionar. Um dos primeiros casos que se lhe antepôs foi a questão determinada pela Sagrada Congregação de Propaganda, em que os Governos de Portugal e de França estavam interessados na fixação de novas delimitações à diocese de Macau e Prefeitura Apostólica de Cantão. Por esses novos limites ficava a Prefeitura com a ilha de Haináo, passando a pertencer à porção territorial do bispado macaense o distrito de Cian-Quim, junto da ilha de Hião-Chão. Perante as actividades dúbias do Governo francês e da prefeitura apostólica cantonense, houve D. João Paulino que assumir atitude diz-se que enérgica e patriótica, habilitando o Governo português a reclamar da Santa Sé.
D. João Paulino, nesse mesmo dia, deu entrada solene na diocese macaense, “revestindo esse acto todo o esplendor e brilho”, assaz, precedido por uma fama muito grande dos dotes e capacidade do novo prelado, que em nada desmentiram as faculdades do distinto picoense, que se dedicou exaustivamente ao governo diocesano, criando novas missões, colégios, novas aulas no principal estabelecimento de Macau, que era o seminário para a formação dos valores ao serviço de cristandade no oriente, a sua inexcedível actividade e carinho com que presidiu ao Conselho governativo da província de Macau, na ausência do governador, as suas idas missionárias a Timor, Malaca, Singapura e Hainan.
Com ele levou de Angra, como seu secretário particular, o seminarista-teólogo José da Costa Nunes, seu compatrício do Pico, e que haveria de lhe suceder na cadeira episcopal daquela diocese portuguesa no Extremo Oriente.
Um outro facto de extrema importância que atraiu as atenções de D. João Paulino, como novo bispo de Macau, foi fundar em 17 de Julho de 1903 o Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, que viria a ser apelidado o rei dos boletins.
No ano de 1904 visitou pastoralmente as missões do Estreito, benzendo em 1 de Agosto desse ano a primeira pedra da igreja de São José de Singapura, com acesso aos fieis só em 1912. Visitou também Timor em 1905, e no ano imediato conseguiu que os Salesianos penetrassem na diocese macaense, aos quais confiou a direcção do orfanato da Imaculada Conceição, de que foi primeiro director D. Luís Versíglio depois bispo de Shiu-Show e mártir. A estes mesmos religiosos entregou D. João Paulino a missão do distrito de Heung-Sán. Já em 1907, por sua influência, o Vaticano anuiu à troca de Hainan por Shui-Hing, que passou à jurisdição de Macau e que viria mais tarde (1913) a ser dividida em duas missões, sendo a do norte à conta dos jesuítas e a do sul ao apostolado dos padres seculares.
Macau não foi avara ao seu pastor, antes vinculou-lhe o nome ilustre a uma artéria que se ficou denominando para a Posteridade Estrada D. João Paulino.
A morte arrebatou-o a 17 de Fevereiro de 1918, estava ele na sua diocese de Macau e residência da Penha, onde permaneceu durante cerca de quinze anos, tendo de idade 66 anos. O egrégio prelado que na longínqua terra de Macau teria sentido os efeitos da devastadora 1 Grande Guerra, teria em mente, uma vez terminada essa terrível conflagração, o regresso ao rincão açórico ao sabor de uma infinita saudade. Em 6 de Fevereiro de 1923 foram os seus restos mortais trasladados para o lugar do seu nascimento, as Lajes do Pico.

D. Manuel Bernardo de Sousa Enes

Foi o segundo bispo nascido na ilha de S. Jorge. D. Manuel Bernardo de Sousa Enes abriu os olhos para o mundo na então Vila do Topo, ilha de S. Jorge, a 5 de Novembro de 1814. Começou o futuro bispo os seus estudos primários aos oito anos de idade no convento de São Diogo, da ordem franciscana, no Topo. Tinha dez anos quando recebeu o hábito de pupilo, aos dezasseis era admitido ao estado da regra de S. Francisco, professando em 1831.
Com a extinção das ordens religiosas em 1834, havia no convento franciscano do Topo 12 internos, dos quais seis eram presbíteros.
Sentindo-se habilitado concorreu a professor da escola de Santa Bárbara e nela foi provido em Agosto de 1835, para ali se mudando com o seu velho amigo a habitar uma casa na Ribeira das Seis. Não durou muito o seu exercício como professor régio, porque em 1837 fez entrada como praticante no escritório do ilustre causídico, espírito superior e letrado, que era o Dr. António Monis Barreto Corte Real, interessando-se nessa fase da sua vida pela advocacia, que, mercê do seu talento, dois anos mais tarde, em 1839, começou a advogar.
Como tantíssimos outros açorianos, o Brasil seria para ele a miragem e o potencial fogoso das ambições do emigrante ilhéu. Para lá se orientaram os seus planos. No mês de Setembro de 1840 vai de curta visita aos pais a S. Jorge e a 12 de Outubro tomava o brigue brasileiro, o Nova Saúde, num adeus demorado.
O deambular do Padre Manuel Bernardo, não para aqui. Volta em 1849 a Portugal, onde chega em princípios de Setembro após demorada e tormentosa viagem, alcançando Coimbra onde fez rápidos preparativos demandando primeiramente a Figueira e depois Coimbra. Na velha Universidade se matriculou no 1.o ano da faculdade de teologia. Fez um curso brilhante, galardoado no primeiro e no quarto ano e se mais distinções não lhe foram atribuídas, foi causa e incidente da revolta estudantil por ocasião de certa entrudada, o que levou os conselhos das faculdades a suspenderem a atribuição de prémios aos alunos. Convidado a reger cadeira de teologia, defendeu teses a 13 de Junho de 1857, obtendo licenciatura em 25 de Junho e o grau de doutor em 16 de Julho do mesmo ano. Foi assim nomeado lente substituto a 10 de Maio de 1861 ascendendo à cátedra universitária em Agosto de 1872.
No ano de 1855 o Padre Manuel Bernardo de Sousa Enes, acompanhado de um seu amigo e conterrâneo, o jorgense Joaquim Teixeira Brasil, fez uma visita de saudade às Doze Ribeiras e à família do seu mestre José Lourenço da Rocha.
O seu afã na docência estendia-se ainda ao seminário diocesano de Coimbra, onde, desde 1871 a 1873, deu aulas de direito natural, teologia moral, direito canónico e dogmático especial. O distinto açoriano havia adquirido pelo seu esforço, corajoso e insano, uma projecção elevada no meio eclesiástico. A sua posição de homem de inteligência e saber rapidamente invadira a terra açoriana, a ponto de os seus conterrâneos jorgenses o haverem convidado a paroquiar o Topo. Demos a palavra ao Pe. Azevedo da Cunha que nas suas Notas Históricas, diz: “em 1853 ainda não aspirava à mitra, porquanto achando-se vaga a igreja de N.a S.a do Rosário da Vila do Topo, por falecimento do vigário Pe. Ambrósio Constantino Pacheco da Silveira, os principais cavalheiros do Topo dirigiram-se-lhe em carta colectiva, rogando-lhe desse ao Topo a honra de vir pastorear sua população. Respondeu que eram esses os seus desejos. Esta pretensão, porém, foi prejudicada pela nomeação de vigário do Pe. Francisco Monteiro de Amorim, natural de Santa Rosa daquela freguesia e filho de João Lopes de Amorim, natural de Angra”.
Foi apresentado bispo de Macau por decreto de 25 de Junho de 1873, confirmado um ano depois, a 15 de Junho de 1874. As cerimónias da sua sagração fizeram-se a 27 de dezembro deste mesmo ano na igreja de Santa Maria Madalena, em Lisboa. Só em 9 de Novembro de 1876 se embarcou, indo por Espanha e Marselha, a tomar posse dá sua cadeira episcopal na diocese macaense, onde chegou no 1.c) do ano de 1877. Acompanhavam-no nessa viagem seu sobrinho Dr. José Joaquim de Azevedo Enes, que ia como delegado do Ministério Público para Goa, o Pe. Francisco da Ponte, seu secretário, natural do Topo e seu sobrinho e mais seis padres missionários. Foi o primeiro açoriano a ser nomeado para o sólio episcopal de Macau, antiga cidade do Nome de Deus na China ou do Santo Nome de Deus de Macau na China, situada a sul do Celeste Império.
Experiente como era no ensino, deve-lhe o bispado do Santo Nome de Macau as remodelações do Recolhimento de Santa Rosa de Lima, num digno colégio para instrução e educação de meninas, para cuja docência nomeou professores capazes para dele’ e fazer um dos melhores estabelecimentos de educação naquele tempo na Ásia. Junto ao colégio fundou uma instituição de beneficência que haveria de ter grande importância para os portugueses fixados nas paragens do Extremo-Oriente. Procedeu a restauras da Sé de Macau, assim como do seminário onde fez sua aposentadoria durante todo o tempo que ali esteve, pois o paço episcopal, se bem que existente, estava inabitável e necessitado de obras havia uns quinze anos.
A bula Universis orbis ecelesiis, com data de 15 de Junho de 1874, deu uma nova delimitação territorial ao bispado macaense juntando-lhe o Timor português. Adentro das novas perspectivas da Igreja, foi logo preocupação imediata de D. Manuel Bernardo de Sousa Enes dar existência palpável às missões de Haynan e às de Timor, beneficiando estas de esplêndido desenvolvimento. Durante o seu governo, foi presidente do Conselho Governativo de Macau e Timor, presidente da Comissão Directora do Colégio de Santa Rosa de Lima e reitor do seminário diocesano. Em Maio de 1879 convidou o clero a assistir ao desembarque do general Gran@ presidente dos Estados Unidos. O ferro também quebra, diz o nosso povo. Foi quanto aconteceu a D. Manuel Bernardo, que voltou a sentir-se doente e, por essa razão, desejou voltar à terra portuguesa. As dificuldades de ser substituído impediram o seu breve regresso, deixando-se por lá ficar até 10 de Março de 1883, data em que retornou à Europa. Nessa altura difundiu no Jornal macaense a sua pastoral de despedida, com data de 8 daquele mês.
Bragança foi a sua nova etapa.
Todavia, Bragança e Mirandela não eram os lugares da eleição do bispo Sousa Enes por motivos de saúde. O clima gélido do norte aumentava-lhe os sofrimentos. A vacância da diocese de Portalegre, permitiram-lhe ser para ali nomeado por decreto de 24 de Junho de 1885, já muito doente, a ponto de vir a falecer dois anos depois, a 8 de Setembro de 1887.
Nascido em Malaca em 1923, concluiu em Macau os estudos em filosofia e teologia. Um trabalho de várias décadas com os refugiados que terá salvo milhares de vidas.Tem 85 anos e está há 73 em Macau. Ja li algures que o Padre “fez mais pela imagem de Portugal no Oriente que os ministros dos negócios estrangeiros todos juntos”. A obra que desenvolveu junto da UNESCO e a que dedicou a sua vida – os refugiados – faz dele um dos portugueses mais internacionais e prestigiados de sempre.
Há quem diga que era próximo da CIA. ‘Eles eram os protectores dos pobres, pois deram-nos muito dinheiro para os refugiados’, comenta, não negando que ‘era muito ligado ao governo americano’. ‘Sempre nos abriu muitas portas. De modo que aproveitávamos. Eles tinham que saber a posição, a situação e a política da China, pelo que mandava muitos relatórios para o consulado americano de Hong Kong. Fazíamos isso muito abertamente. Às vezes os elementos da CIA vinham ter comigo. Falávamos, tomávamos as nossas bebidas, dávamo-nos bem. Representante da CIA nunca fui porque isso é uma coisa política’, esclarece.
O amigo e arquitecto Carlos Marreiros enfatiza que ‘o padre Lancelote é louvado por toda a gente, desde o mais pobre até governantes e embaixadores, tendo sido o verdadeiro cônsul-geral dos EUA em Macau nos últimos 40 anos.’
Mas recusa a palavra informador. ‘Isso é que não. Ele está muito acima disso’.
Aos 22 anos decidiu ser padre. ‘Fiz bem, até porque os refugiados chegaram por altura da minha ordenação. Acontece que o bispo daquele tempo, Dom João Ramalho, não acreditava na minha vocação. Mandou-me tratar dos refugiados, tarefa que cumpri durante 14 anos. Tratar de pessoas que tinham perdido tudo foi uma experiência e educação formidáveis’.
Sobre a sua vida entre os Jesuítas, fala de uma disciplina dura mas ‘esmerada’. ‘Ao princípio víamo-los como uns tormentadores, mas quando saímos como padres, agradecíamos’, confessa, não escondendo que ‘recebia muitas torturas. Tínhamos que, durante horas, ficar a olhar para as paredes.
E também apanhávamos bofetadas e castigos corporais. Tive um castigo porque fui apanhado a fumar. Colocaram a minha carteira no meio de um corredor de 80 metros de comprido.’ Desses tempos, lembra ainda ter escrito poesias às raparigas e de na procissão olhar para um lado e para o outro para ver ‘onde estavam as mais bonitas’. Lancelote acredita que só não foi expulso graças à voz de soprano. ‘Fazia falta no coro’. Lancelote Rodrigues gostaria que, ‘daqui a 50 anos, fosse recordado como um homem alegre, um bonacheirão que gostava dos pobres e de uísque.’ ‘Recebi uma medalha das mãos da rainha de Inglaterra onde me chamam Sir Lancelote. Mas Sir Lancelote é o da Távola Redonda. Eu sou o Lancelote da garrafa redonda’.
A personalidade do padre dos pobres reparte-se entre a bondade – praticada de forma contínua junto de milhares e milhares de refugiados, pobres entre os mais pobres – e a atitude efusiva do ‘bon vivant’, aquele que é capaz de apreciar os prazeres da boa mesa, da música, da amizade e da alegria. Nos actos de missionário, onde é capaz de amar os mais necessitados e por eles dar tudo, jamais transpareceu o seu outro lado – folgazão, bom garfo, sempre bem-disposto, dono de uma potente voz de baixo-barítono. Lancelote Rodrigues não recusa emborcar dois deditos de um bom uísque antes de entoar algumas belas canções na companhia dos amigos.
Padre Lancelote pensou desistir da sua vocação. Queria casar com uma rapariga ‘muito sensata e boa’. Só desistiu porque ‘gostava de ajudar os outros, principalmente os pobres’. ‘Via tanta pobreza no campo de refugiados que me afeiçoei a eles. Se casasse isso perdia-se. Afinal, em vez de amar uma, podia amar 150 mil’, conta.
Leonor Seabra, professora da Universidade de Macau e biógrafa do padre Lancelote Rodrigues, enaltece “a acção desempenhada pelo prelado no interior da China, junto de populações absolutamente carenciadas, às quais proporcionou melhores condições de vida. Graças aos inúmeros contactos, estabelecidos ao longo de muitos anos de actividades de ajuda humanitária, criou uma obra a todos os tí-tulos exemplar”, reconhecida até pelo anterior Papa, João Paulo II, que o recebeu.
Lancelote Rodrigues nasceu em Malaca, filho de pai português, e foi para Macau aos 12 anos. Decidiu aprender o português para poder estudar Filosofia e Teologia. Aos 22 decidiu ir para padre.

O Padre Lancelote rodrigues é o representante em Macau do Alto comissariado para os Refugiados

Imagem tirada de um pequeno livro (de postais antigos) do macaense Lu-fu em Macau. É um livro de desenhos sobre os Tipos do Império Português – Exposição Histórica da Ocupação – Ministério das Colónias, foi uma edição com desenhos de Eduardo Malta, para a exposição do Mundo Português de 1940.

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