António Manuel Fontes Cambeta… residente em Macau na altura, 1966.
Trabalhava nessa altura na Agência Comercial Aldifera, sita na Avenida Almeida Ribeiro e tive conhecimento dos factos ocorridos na Ilha da Taipa, no dia 15 de Novembro, mas isso pouco o preocupou.
Porém as coisas foram piorando, e um dia, quando regressava a casa da namorada, de autocarro, carreira 4, fui avisado pela revisora que a partir dali não poderia mais usar os transportes públicos, fiquei também a saber que tinha sido boicotado aos funcionários da administração portuguesa a venda de todos os materiais.
Já em casa da namorada que na altura residia na Estrada Coelho do Amaral, ouvi um enorme barulho e fui à janela a ver o que se passava. Era um grupo enorme de pessoas, que vindas dos lados do Hospital de Kiang Vu, empunhando cartazes e gritando “abaixo os imperialista português” e outras frases contra os portugueses.
Para saber o que se passava, liguei a rádio e sintonizei a Rádio Vila verde, e foi através dela que fiquei a saber dos acontecimentos, e ouviu o comunicado emitido pelo Quartel General, solicitando a todos os militares na disponibilidade para se apresentarem no Quartel General.
António ficou em em casa de sua namorada, só de lá saindo no dia 6 de Dezembro, quando as coisas se acalmaram.

A capa da revista sobre os acontecimentos, editada pelo jornal de língua chinesa, Ou Mun, uma edição trilengue, da qual António Cambeta tinha um exemplar.
No dia 29 de Janeiro de 1967, o Governador vai à sede da Associação Comercial de Macau e rubrica o pedido de desculpas, ficam desta forma apaziguados os incidentes do 1 2 3.
Mas foi uma forte humilhação para os portugueses, tendo colegas de António Cambeta sido agredidos brutalmente, quando passavam junto do Clube Militar.
O derrube da estátua Coronel Mesquita que se encontrava defronte das instalações do Leal Senado, que também foi saqueado, bem como os serviços notariais e outros.


Oo jornalista e escritor José Pedro Castanheira no seu livro “Os 58 dias que abalaram Macau” retrata os acontecimentos da altura. No Capítulo intitulado “Confrontos na ilha da Taipa” relata as causas…
“15 de Novembro de 1966, na ilha vizinha da Taipa, Rui Andrade sai de casa manhã cedinho e dirige-se, como todos os dias, para a sede da Adminsitração das Ilhas, a autarquia responsável pelas ilhas da Taipa e Coloane. Ao passar junto de um prédio velho e a ameçar ruína, repara que ele fora cercado por uma estrutura de andaimes de bambu, erguida por várias dezenas de operários e rapazes. Desconfiando, mal chega à sede do munícipio, chama o responsável da chamada Polícia Administrativa. “Pedi ao chefe Isidro para ir ver o que se passava”. O polícia não se demorou muito. Quando se apresenta ao administrador, vem pálido e com os bofes de fora. “Chegou apavorado. Fora insultado e apedrejado e só não lhe bateram por ser já velhote. Nem conseguira chegar à fala com eles”.
Deveras intrigado, Rui Andrade envia ao local “três policias desarmados, que me disseram que eram guardas vermelhos que estavam a demolir aquilo para fazer uma escola”.
Desconhecedor de qualquer projecto para aquele prédio, o administrador indaga junto do seu superior hierárquico. “Telefonei de imediato para o intendente Mário da Fonseca Ramos, que era o chefe da Repartição da Adminstração Civil, a cujo quadro eu pertencia. Disse-me que na Administração não havia processo nenhum”.
Na Repartição da Administração Civil não havia processo algum relacionado com o prédio da Taipa. Pudera: ainda estava algures, mais ou menos perdido, na papelada da Repartição dos Serviços de Obras Públicas. O requerimento fora entregue, como haverá de assinalar o novo Governador, Nobre de Carvalho, “pelo menos desde Julho”, mas aquela repartição, dirigida pelo engenheiro macaense João Tomás Siu, nada despachara. “O director das Obras Públicas metera o requerimento na gaveta!”, acusa monsenhor Manuel Teixeira, o velho e respeitável sacerdote-historiador de Macau. “Os chineses tinham razão” na sua indignação e no seu protesto; para mais, “era a repartição que mais os tinha ferido e de que eles tinham mais queixas”.
” Revoltados com com o silêncio arbitrário da administração e com a chocante desigualdade de critérios ( visto o governo ter autorizado a construção de uma escola nacionalista pró-Taiwan, ligado ao Kuomintang), e certamente que encorajados por tudo quanto se passava na China, os moradores da Taipa decideram levantar andaimes à volta do prédio, dispensado a necessária autorização oficial.
Ma Man Kei, um dos mais influentes empresários chineses, garante, em todo o caso, que “as Obras Públicas foram avisadas verbalmente que os trabalhos iam começar no sábado, feito por voluntários. O influente dirigente chinês é muito preciso: “As obras eram só para levantar andaimes para impedir que o edifício caísse, até vir a autorização escrita das Obras Públicas”.
Diligente, assim que conforma a ilegalidade da obra, Rui Andrade ordena a sua suspensão. A ordem não é acatada. “Embarguei a obra, o documento foi afixado, mas logo arrancado”, conta o administrador, que se vê complelido a pedir a intervenção da PSP para se fazer obedecer.
A seguir ao almoço, as obras são reatadas. O corpo policial volta ao local, mas desta feita é “alvejado com pedras, tijolos e garrafas lançadas pelos manifestantes”, sem que consiga interromper os trabalhos. O caso começa a ser verdadeiramente sério. Vaz Antunes pede reforços ao Comando da PSP, que envia da cidade de Macau uma força de cerca de trinta homens.
À sede da Administração, chegam seis dirigentes da associação promotora da escola, convocados por Rui Andrade. “Mandei lá ir a PSP, para trazer os cabecilhas, para saber o que se passava.
Queria entrar em negociações com eles”. A conversa decorreu no gabinete do administrador, que se fez acompanhar dos chefes da polícia administrativa e da PSP; o diálogo é em cantonense, idioma que Andrade domina. “Disseram que não vinham para negociar, mas sim para exigir a passagem imediata da licença. Mas eu já tinha embargado a obraao princípio da tarde, com autorização do Intendente. Eles já tinham tirado o telhado. Expliquei que não era eu quem dava a licença, eram as Obras Públicas, eu limitava-me a dar o visto. Não gostei da atitude dos comunista. Avisaram-me que, se não levantasse o embargo, a população revoltava-se contra mim. Exigiam, com toda a arrogância”.
O diálogo dá lugar a uma discussão acesa que culmina com a detenção dos seis chineses, “por insubordinação e falta de respeito à autoridade”, nos termos do relatório do encarregado do Governo. “Não tinha outro remédio senão mandar prendê-los”, justifica Rui Andrade.
“Dei-lhes ordens de prisão dentro do meu gabinete. Foram levados pela PSP para Macau. Em seguida, comuniquei tudo ao Intendente, que concordou comigo”. Um par de horas mais tarde, o mesmo Intendente telefona, “a dizer que o eng. João Tomás Siu ia deferir o processo. Tarde demais! Já eu dera ordem de prisão”. (…)

Anúncios