Excerto de um artigo de Diogo Fernandes publicado na Revista Nam Van nº 16 – Setembro de 1985

Dos cerca de 40 faróis, farolins, bóias de sinalização que existem na península de Macau e nas suas ilhas, há um que se destaca pela sua história e significado – o Farol da Guia, situado na colina com o mesmo nome.
O farol mais antigo da China, ele continua a ser um ponto de atracção turística, seduzindo, pelo seu passado e presente os muitos viajantes que ali se deslocam. Macau é, sabe-se, uma terra onde se depositam valiosos testemunhos de um passado onde o Oriente e o Ocidente se confundiram e este também é o caso do Farol da Guia, uma prova monumental como o são o Passeio da Bela Vista, as Portas do Cerco, a Praia Grande, a Penha, as Ruínas de S. Paulo, a gruta de Camões, o templo da Barra.
Aceso pela primeira vez em 1865, o Farol da Guia iluminou desde então, ininterruptamente, as costas de Macau, o primeiro, alimentado a petróleo, depois, a óleo de coco e, desde 1909, energia eléctrica.
Um aviso aos navegantes, datado de 2 de Outubro de 1 H65, e assinado pelo Cap. do Porto de Macau, João Eduardo Scarnichia, anunciava:
AVISO AOS NAVEGANTES
«Desde a noute de 24 do mez passado se começou a acender um novo pharol construido na fortaleza de Nossa Senhora da Guia, da cidade de Macau. O pharol está na latitude de 22° 11 ‘N, e na longitude de 113° 33’E, de Greenwich. A elevação da luz é de 101,5 metros acima do nível do mar, nas mais altas marés de tempo calmo. A torre do pharol mede 13,5 metros da base à cupola, tem a forma octogonal e é pintada de branco. A lanterna é vermelha. A luz é branca e rotatória, fazendo um giro completo em 64″ de tempo. Pode ser vista a 20 milhas, em tempo claro. N’esta distancia, a duração da luz é de 6″ e a do eclipse de 58″.
A 15 milhas, vê-se a luz durante 11″ e o eclipse dura 54″.
A 12 milhas, o maior clarão de luz dura 12″, e o intervalo do eclipse (de 52″) é cortado pelo aparecimento, quazi instantâneo, de uma luz mais fraca. A 7 milhas, a duração da grande luz é de 14″, e a do eclipse de 50″, aparecendo no meio d’ este a pequena luz, como fica dito.
Logo que seja possível se publicarão as marcações pelo pharol. para demandar o ancoradouro da rada de Macau. Capitania do Porto de Macau, 2 de Outubro de 1865. João Eduardo Scarnicha, Capitão do Porto»
O primeiro farol funcionava com um candeeiro de petróleo. O autor deste engenhoso maquinismo era um hábil macaense, Carlos Vicente da Rocha, tão curioso era o modelo desse farol que o seu autor o enviou para Lisboa, onde se conservou muito tempo na Sala do Risco. do Ministério da Marinha até que um incêndio o.devorou.
Dez anos após a construção deste farol, precipitou-se sobre Macau o mais violento tufão. Foi o próprio construtor do farol, Carlos Vicente da Rocha, que mandou disparar os tiros, anunciando a aproximação deste tufão de 22 de Setembro de 1874. O farol sofreu várias avarias, tendo de ser reconstruída a sua torre.
Curiosamente, o farol da Guia serviu durante décadas como aviso para a população, e embarcações, da aproximação de tempestades tropicais. Com efeito, através de salvas de canhões ou, como mais recentemente, pelo içar de sinais apropriados, os habitantes de Macau sabiam antecipadamente a passagem dos tufões, acompanhando a sua evolução passo a passo.
Durante 45 anos brilhou este farol no alto da Colina da Guia. O primeiro faroleiro foi um velho soldado chamado Diogo, que se apaixonou pela Guia, passando longas vigílias na contemplação estática do seu farol. E em 29 de Junho de 1910, esse farol cedeu o lugar a outro, de aparelhagem moderna, de rotação, importada de Paris.
Revista Nam Van – publicação do Gabinete de Comunicação Social do Governo de Macau

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