“Criado em 1991, o PONTO FINAL começou por ser um jornal diário, com páginas em tamanho A4. Teve como primeiro director Herculano Estorninho.Depois de cerca de um ano com este estilo e periodicidade, a publicação foi temporariamente suspensa para dar lugar a um novo conceito. Adoptou-se o formato tablóide e passou a ser um semanário, dirigido primeiro por Pedro Correia e mais tarde por Luís Ortet. Em Fevereiro de 2002, o PONTO FINAL passou a ser publicado de segunda a sexta-feira. Tem actualmente como director Ricardo Pinto.”

Maior e Vacinado

Foi um parto doloroso que na realidade aconteceu duas vezes mas, dizem os seus vários pais, valeu a pena. Porque se fez, porque continua a fazer-se. O PONTO FINAL nasceu há 18 anos, filho da irreverência de um grupo de jornalistas. De lá para cá, mudou de formato, de profissionais, de direcção. Na altura em que atinge a maioridade, recordam-se as dores e as alegrias do crescimento. Paulo Aido, Pedro Correia e Luís Ortet contam a história.

Artigo de Isabel Castro publicado a 16-10-2009 no Ponto Final
O jornal que está neste momento a folhear era bastante mais pequeno quando nasceu. Se estava em Macau em 1991 talvez se lembre do acontecimento: por altura da rentrée, saiu para as bancas um jornal A4, um formato invulgar, numa edição experimental, dedicada a Timor.Entre os jornalistas fundadores deste semanário que não ocupava a mesa toda do café estava Paulo Aido, à época jornalista da Rádio Macau. No território desde 1987, tinha vontade de fazer um jornal. Não era o único. Carlos Carvalho, camarada de trabalho na Rádio Macau, partilhava o desejo. Com um grupo de jornalistas, decidiram avançar para uma publicação que, ditava a ideia original, era para ser uma espécie de Time Out, algo que, recorda Aido, não existia na altura por estas bandas.Ao telefone de Lisboa, o jornalista recorda os dias do nascimento do PONTO FINAL, que acabou por nunca chegar a ser uma magazine de cultura porque a oferta era escassa para alimentar um título do género. Mas este conceito inicial “ajuda a explicar o formato” que se adoptou então, aquele jornal pequenino mas irreverente que muitas dores de cabeça causou em Macau. E isto porque se meteu na política, numa altura particularmente sensível. “Fazia mais sentido um semanário de actividade política que abordasse as questões do período de transição que estávamos a viver na altura”, explica Paulo Aido, que esclarece de onde vem essa componente política pura e dura. “Estávamos a viver o período após a saída de Carlos Melancia e a chegada de Rocha Vieira ao poder.”
Quando saiu o número zero, o PONTO FINAL não tinha uma redacção propriamente dita. Dedicado a Timor, território que vivia sob a ocupação indonésia e era tema quente, a edição experimental “foi um teste para a parte gráfica e para a produção de textos”. Começou por ser semanário mas, ultrapassada a fase de acertos e iniciada a publicação regular, transformou-se em diário. “O primeiro director foi Herculano Estorninho, pintor, uma figura muito importante na comunidade macaense”, conta Paulo Aido. “Entendemos que fazia sentido homenagear a comunidade onde estávamos inseridos.” Impertinente e sem papas na língua, o jornal começou desde cedo a “sofrer enormes pressões políticas”. “Procurou, por um lado, ser independente, mas também tinha alguma irreverência. O jornal começou a ser hostilizado pelo Governo, a ponto tal que, na fase final do nosso ‘mandato’, não conseguíamos ter publicidade de nenhuma entidade oficial de Macau”, diz o jornalista. Esta irreverência era muito ao género de O Independente – a atitude do jornal português era fonte de inspiração. Na publicação de Lisboa tinha trabalhado um dos jornalistas do núcleo inicial do PONTO FINAL, Carlos Morais José. “Foi esta publicação em formato A4 que teve repercussões na dinâmica local. Foi um jornal importante, que marcou a diferença na linguagem do jornalismo em Macau. Apareceu com uma nova linguagem, mais directa, mais moderna”, recordava em 2007 o proprietário do Hoje Macau em entrevista ao suplemento português do Tai Chung Pou. Esta linguagem directa e sem pudores fez com que a primeira vida do PONTO FINAL não tivesse sido fácil. “Do ponto de vista económico era impossível sustentá-lo. Trabalhávamos de graça para o jornal”, relata Paulo Aido. As únicas despesas eram as facturas da tipografia, com quem o jornalista negociava adiamentos nos pagamentos. Um “sufoco económico” que não conseguiu ser ultrapassado nem sequer com o apoio dos leitores. “Lançámos uma campanha chamada ‘A liberdade há-de passar por aqui’, uma frase que fomos recuperar de um antigo secretário-adjunto, Magalhães e Silva, do tempo de Melancia”, contextualiza. “Dávamos o número da conta para as pessoas depositarem dinheiro, e houve quem o tivesse feito, incluindo figuras importantes – juízes, por exemplo – que tentaram que aquela voz não se calasse”.
Pressões e histórias
Mas calou-se, ainda que provisoriamente. “Ao fim de algum tempo, Herculano Estorninho teve de abandonar a direcção porque sofreu pressões.” Aido também não passou imune ao “cerco” da altura: “Essa é também a fase em que eu e o Carlos Carvalho fomos despedidos da Rádio Macau.” Apesar das dores de parto, valeu a pena. “Teve um papel importante na altura pela capacidade que tinha de contestar e comentar a actividade governativa do território.” Das manchetes que 18 anos não apagaram da memória, o jornalista evoca a primeira capa do PONTO FINAL A4 versão diário, edição regular: “Foi sobre a concessão de terras do aterro do Porto Exterior. Houve um engano nos valores e o território saiu lesado.” Mas há “muitas outras histórias”. Uma delas volta a ter Timor como tema. “Uma delegação do Instituto Cultural de então, cuja tutela pertencia a Salavessa da Costa, secretário-adjunto do Governo de Rocha Vieira, deslocou-se à Indonésia. A questão de Timor estava muito acesa, pelo que a deslocação foi vista com alguma perplexidade”, comenta. “Essa manchete teve consequências políticas na altura.” Se as relações com as autoridades de então não eram fáceis, já com os leitores criaram-se vínculos que Aido não esquece. Assim como histórias dignas de cinema que aconteciam com as suas fontes, e que são demonstrativas do “clima da altura”. O jornal recebia telefonemas de pessoas que queriam contar histórias. Mas porque era fonte do desassossego governamental, “as pessoas queriam encontrar-se connosco da forma mais disfarçada possível. Combinávamos encontros nos cafés mais escondidos. As pessoas tinham medo de eventuais retaliações”. Depois, houve um momento de ameaças à publicação. Em noites de fecho como aquela em que este artigo é escrito, os jornalistas de então do PONTO FINAL recebiam “telefonemas anónimos e ameaças”. Aido nunca soube quem eram os seus autores. No Verão de 1992, o PONTO FINAL desmaia de asfixia, do tal “sufoco” financeiro em que vivia e que tornava impossível a sua manutenção. Não tardou a que Paulo Aido embarcasse de regresso a Portugal, num Agosto que não significou esquecer Macau. Mais tarde “voltaria” ao território, a páginas já mais crescidas do jornal que ajudou a fundar. Não obstante as atribulações, o PONTO FINAL deu, ao agora editor da TV Guia, o melhor que o jornalismo tem. “Foi um jornal que marcou uma época, cumpriu um objectivo. Ajudou a perceber que vale a pena lutar por um projecto livre na imprensa. Muito modestamente, fomos um pequeno contributo para a própria democratização do território. Criou-se um laço afectivo com os nossos leitores.”

Reanimação e desafios
A publicação do jornal é suspensa durante o Verão e o título muda de propriedade – passa para as mãos de dois advogados, um acontecimento que corresponde a uma tendência da época. Pedro Correia é convidado por Frederico Rato e Francisco Gonçalves Pereira (já falecido) para dirigir o PONTO FINAL e reanima-o em pouco mais de um mês. “Foi um desafio muito estimulante”, diz Correia. “Lancei o jornal como um projecto novo, de raiz, em que se manteve apenas o título. Procurei – e julgo, sem falsas modéstias, tê-lo conseguido – fazer o melhor jornal em língua portuguesa de Macau na forma e no conteúdo. Em moldes profissionais, semelhantes aos de qualquer jornal de Lisboa”, refere o jornalista do Diário de Notícias. O PONTO FINAL tem, mais uma vez, um número zero – que, na realidade, “já equivalia a um número um”. Pedro Correia lembra-se “perfeitamente” da manchete: “Aproveitando as eleições para a Assembleia Legislativa então realizadas, fazíamos uma extensa leitura dos resultados eleitorais e entrevistávamos Ng Kuok Cheong, estrela do novo hemiciclo. O projecto materializou-se exactamente como o tinha idealizado, com uma equipa muito restrita mas muito operacional de excelentes profissionais. E os melhores colunistas da imprensa portuguesa de Macau à época”. Há histórias que, quando se escrevem, nunca se esquecem. Pedro Correia guardou várias desse seu período de Macau, “umas mais sérias, outras mais divertidas”. Optou por uma que integra esta última categoria e que recorda sempre com um sorriso, “a descoberta de que um membro do Governo de então, o brigadeiro Lages Ribeiro, tinha sido figurante no filme ‘O Pai Tirano’”. Mas a “cacha que me deu mais gozo foi a divulgação da lista completa de convidados – três mil, se bem recordo – de Portugal para a cerimónia solene da inauguração do aeroporto internacional de Macau, que o Executivo do general Rocha Vieira rodeava do maior secretismo”.
Respeito e irritação
Maior no formato e publicado semanalmente, o PONTO FINAL continuou a ter um grande impacto junto dos leitores. “O jornal tinha uma liberdade crítica muito grande e passou a ser de leitura obrigatória na comunidade portuguesa logo nas primeiras semanas”, atesta Pedro Correia. “As autoridades encaravam-no com um misto de respeito e irritação.” O Governo era frequentemente criticado “por motivos que iam desde o derrube envergonhado da estátua de Ferreira do Amaral, travestido de ‘arranjo urbanístico’ da rotunda do hotel Lisboa, ao facto de Rocha Vieira, sempre em pose majestática, não conceder uma só entrevista ou conferência de imprensa aos jornalistas de Macau”. As memórias menos boas de Pedro Correia não se afastam em muito das de Paulo Aido. Da Macau de então e do seu trabalho à frente do PONTO FINAL, o jornalista salienta “a instrumentalização do poder judicial pelo poder político, com sentenças condenatórias a jornalistas, acusados de ‘abuso de liberdade de imprensa’ por textos de opinião que nenhum tribunal em Portugal sancionaria”. As boas recordações são feitas de manchetes e de textos que sabe bem escrever mas sobretudo das pessoas que o rodearam. “Nomeadamente as pessoas que trabalharam comigo no PONTO FINAL. Pessoas como os proprietários do jornal. E profissionais que comigo trabalharam, como o Carlos Morais José, o Luís Ortet, o João Carvalho, a Clara Gomes, o José Costa Santos, o Paulo Azevedo, o Paulo Borges, o Ricardo Pinto e o João Paulo Meneses, entre outros.” De Macau Pedro Correia levou ainda “a memória calorosa” do jantar de despedida, antes de regressar a Portugal, que juntou mais de cem pessoas. E que teve a particularidade de contar com “cabeças de lista rivais à Assembleia Legislativa na campanha que então decorria”.
Memórias e pessoas
Pedro Correia deixa a direcção mas não cortou os laços com o PONTO FINAL, mantendo-se como colaborador. Em Julho de 1995, era o jornal dirigido por Luís Ortet, o jornalista assinava um texto da secção “Grande Plano”, que ocupava as páginas 2 e 3 do jornal. “Quem os viu e quem os vê” colocava em destaque um fenómeno político de então, com alguns protagonistas que ainda continuam a fazer a actualidade noticiosa. “Alberto Costa, António Vitorino, Jorge Coelho, Murteira Nabo e Maria do Carmo Romão. Nomes de figuras bem conhecidas no actual elenco do PS. Com uma característica comum: já exerceram funções de responsabilidade em Macau. No tempo em que o Território era considerado um ‘viveiro’ do partido cor-de-rosa”, escrevia Pedro Correia. Paulo Aido publica, no mesmo número, um texto que merece chamada na primeira página – com o título “Calado aos berros” – e que conta a história de um professor de ginástica (de apelido Calado) a quem a Administração devia 100 mil patacas, “uma história que acabou por envolver a mulher do presidente da República”. Como correspondente em Portugal, entrevistou o então Ministro dos Negócios Estrangeiros Durão Barroso, “na véspera de uma visita à China”, bem como antigos Governadores de Macau. Pedro Correia e Paulo Aido eram alguns dos colaboradores do PONTO FINAL dirigido por Luís Ortet, jornalista que começou, também ele, por ser colaborador do jornal, logo no final de 1992. A publicação tinha, nesse reinício, uma “equipa de luxo”.“Apesar de eu já pertencer a uma geração mais velha, o certo é que aprendi muito com todos eles e com o ambiente que se vivia na redacção. Comecei como mero colaborador mas em breve passei a integrar a redacção, assumindo o cargo de chefe de redacção em 1993 e de director em 1994″, sintetiza Luís Ortet. O actual editor da Revista Macau começou a dirigir internamente o jornal na fase da saída de Pedro Correia, em que o director formal da publicação era Henrique Nolasco. “Quando o meu nome surgiu no cabeçalho da publicação, na primeira sexta-feira de Junho de 1994, tinha uma nova equipa a trabalhar comigo”, recorda, destacando o chefe de redacção Paulo Azevedo, que continuou no PONTO FINAL após a saída de Ortet, em Dezembro de 1997. Tal como os seus antecessores, o jornalista lembra, sobretudo, a forma como o jornal se posicionava e as pessoas com quem trabalhou. “Levantou na praça pública diversas questões e, sobretudo, levou a sério o direito à crítica, que era exercido pela pena de diversos colaboradores como Carlos Morais José, o próprio Pedro Correia, António Ramos André e o advogado Sérgio Correia, entre muitos outros.” No PONTO FINAL, acrescenta, trabalhavam jornalistas como Clara Gomes, Paulo Rego, Maria João Leal e Isabel Meneses, além de muitos outros colaboradores. “E há que não esquecer o eterno correspondente do jornal em Portugal, João Paulo Meneses, que começou a ser o correspondente no meu tempo e não há sinais de que algum dia venha a deixar de o ser”, realça. “A ele, sim, o jornal deve bastantes manchetes”, diz Luis Ortet, que recorda ainda “o contributo, na componente gráfica, de nomes como Paulo Pratas, Paulo Borges, Luís Almoster e José Figueiredo”.

Inesquecíveis anos 90
Luís Ortet prefere não ver o PONTO FINAL de uma forma isolada quando chega a altura de olhar para o impacto que teve sob a sua direcção. “O PONTO FINAL desses tempos só foi possível porque vivíamos na década de 90 do século passado, a década do período de transição e da despedida portuguesa de Macau. Vivia-se com uma data escrita no espírito: 20 de Dezembro de 1999″. A comunidade portuguesa era grande, “muitos milhares, efervescente e diversificada”. E variada era também a imprensa de língua portuguesa. “O PONTO FINAL era uma componente de um quadro maior”, diz o jornalista, que realça “o papel importante” dos jornais Tribuna de Macau e Jornal de Macau, de O Clarim, a Gazeta Macaense, o Futuro de Macau e do Macau Hoje. “Creio que o conjunto dos jornais espelhou bem a nossa maneira portuguesa de ver a vida. Só por mero acidente estamos todos de acordo. Gostamos de discordar e de criticar.” Ortet defende que, “de uma maneira global, a Administração portuguesa fez um trabalho positivo em áreas importantes”. O incremento do bilinguismo e a construção de diversas infra-estruturas são os factos que destaca. Porém, “houve aspectos negativos”.“A dificuldade em digerir as críticas era um deles”. Mais uma vez, a vida do PONTO FINAL não era fácil. “Não recebia o subsídio do Governo a que legalmente tinha direito e foi preciso esperar pela chegada da Administração chinesa de Macau para que essa ilegalidade fosse corrigida”, conta, salientando que se trata de um “um pormenor que não deve ser sobrevalorizado”. Do PONTO FINAL Luís Ortet guarda ainda a memória da “experiência gratificante de ter sido parte de uma vivência tão excepcional como foram os anos 90 em Macau e ter participado nela num lugar privilegiado”. E gostou de “ver o jornal continuar e entrar pelo século XXI adentro e afirmar-se nessa conjuntura nova, sem perder a sua independência e o seu sentido crítico”, acrescenta.
Passado, presente, futuro
O jornalista decidiu abandonar a direcção da publicação no final de 1997, no contexto de um regresso a Portugal que foi projectado mas que acabou por nunca se concretizar. “Propus o nome do Ricardo Pinto para me substituir e houve unanimidade.” Ortet justifica a escolha: “Licenciado em Direito, Ricardo Pinto decidiu enveredar pelo jornalismo e fez uma carreira brilhante no canal de televisão da TDM. E já completou uma década à frente do PONTO FINAL. A sua paixão pelo jornalismo é evidente e incurável, e ainda bem”. Em Maio de 1999, o jornal passa a ser gerido por um grupo de jornalistas. Frederico Rato e Francisco Gonçalves Pereira acabam por vender o jornal em 2001 a Ricardo Pinto e Paulo Azevedo, proprietário e responsável da Macau Business, que se manteve na publicação até à altura em que lançou a revista especializada em economia e negócios. Desde então, a propriedade do título não sofreu mais alterações. É de 2001 também o regresso à edição diária. Chegado à maioridade, Luís Ortet diz esperar que o PONTO FINAL “continue a marcar a sua diferença pela sua forma específica de abordar a realidade local”. Pedro Correia tem uma única sugestão a fazer para os próximos anos deste jornal. “Que nunca perca a irreverência. O jornalismo, tal como o concebo, é sempre irreverente”, diz. Paulo Airo espera que continue a existir, “porque faz parte da história de Macau, viveu o período final da administração portuguesa e tem vivido os primeiros anos da administração chinesa”. Voltamos na próxima segunda-feira. Já maiores e vacinados.
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