Depois de uma longa enfermidade, suportada com exemplar resignação cristã e certo estoicismo para não preocupar os superiores, colegas e amigos, entregou a sua bela alma a Deus, este abnegado sacerdote e lutador incansável pela libertação da sua Pátria, Timor-Leste!
Morreu precisamente na bela cidade Macau, onde terminou o curso filosófico-teológico no Seminário de S. José, em Julho de 1962 e, desde 1990 trabalhou como pároco na Sé Catedral, assistente de refugiados timorenses e exerceu outras funções ligadas à Diocese.
Descendente de famílias nobres, Francisco Maria Fernandes nasceu em Lacló no dia 24 de Maio de 1935. A sua mãe pertencia a nobreza de Lacló e o pai era régulo de Clacuc, um dos reinos mais antigos de Timor.
Após a invasão nipónica, na companhia de outros jovens, iniciou a sua instrução primária no Colégio de Beato Nuno Álvares Pereira. Tínhamos apenas nessa altura um exemplar do ABC e outro da Cartilha de João de Deus para cerca de 100 crianças. Mas Francisco Maria Fernandes não precisava do livro, pois já se entretinha a ler jornais portugueses que de vez em quando chegavam a Soibada.
Em 1948 sentindio-se chamado para o sacerdócio entrou para o Seminário de Nossa Senhora de Fátima.
Bondoso, caritativo, alegre, desportista, de atitude modesta, acolhedora, afável e comunicativa, era estimado pelos superiores, professores e colegas. Os condiscípulos apelidavam-no de pombinha sem fel.
Inteligente, aplicado e muito metódico, tendo como educadores Jesuítas ou Sacerdotes Seculaes de elevadíssima craveira intelectual e largos anos de experiência pedagógica universitária, não desperdiçou os anos da sua formação literária e filosófico-teológica. Mas distinguiu-se sobretudo na Matemática em que se dispensava sempre a provas orais com altas classificações. Recebeu duas vezes o prémio “Dr. Leitão” atribuído aos melhores alunos em Ciência Naturais ou Físico-Quimicas do ensino seundário de Macau.
Ordenado sacerdote em 1963 por D. Jaime Garcia Goulart, começou as suas actividades como coadjutor e mais tarde professor e superior das escolas e missões católicas mais importantes da Diocese de Díli. Dinâmico e levado pelo intenso zelo de espalhar a doutrina de Cristo, percorria de carro, motocicleta,a cavalo ou mesmo a pé montanhas, planíceis e vales de sucos e povoações mais remotas das missões a seu cargo. Aonde quer que chegasse conquistava rapidamente a amizade de todos, sobretudo dos mais humildes que depositavam nele grande confiança, o amavam e o chamavam simplesmente “amo Chico”. Um seu antigo aluno do colégio de Nuno Álvares Pereira, em Soibada, resume assim o valioso trabalho do Padre Fernandes:
“Estou muito triste com a notícia. Para a nossa família, o Padre Chico como Superior do colégio de Nuno Alvares Pereira deu muita atenção às crianças da minha idade naquele tempo e trabalhou muito na pregação da fé cristã para o povo de Soibada (SAMORO), Laclubar, Funar e Fato-Maquerec. Choro a sua morte”
Como timorense de sólida formação sociológica e com conhecimento profundo da Doutrina Social da Igreja Católica, o jovem sacerdote não se alheava aos problemas economico-sociais da sua terra. Por isso, a par do seu múnus missionário, ouvia com muita atenção as autoridades tradicionais, os instruídos, os anciãos e quem quisesse falar com ele sobre as suas respectivas preocupações e sonhos, para depois lhes expôr os seus pontos de vista e apresentar sugestões a fim de melhorarem a situação em que as populações viviam. Ainda hoje alguns dos que o recebiam o recordam com muitas saudades.
Com a nova situação criada em Timor pelo Movimento de 25 de Abril de 1974, em obediência à determinação do bispo da Diocese, o Padre Francisco Maria Fernandes e os seus colegas não se imiscuíam directamente em política. No entanto, como cidadão timorense ele nunca deixou de expressar publicamente o que opinava necessário para uma indpendência realista e sem atropelos, salvaguardando sempre os valores portugueses que enriqueciam a cultura timorense.
Em Agosto de 1975 – como ele próprio afirmou numa entrevista a um jornal católico indonésio – perseguido em Ainaro pelas forças da FRETILIN, teve que se refugiar na cidade fronteiriça de Atambua e sofrer na companhia de milhares dos seus compatriotas.
Foi importante a sua actividade. Prestou contínua assistência religiosa aos refugiados colocados em diversas aldeias daquela cidade e, coadjuvado por António de Sousa Nascimento, António José Quintão, Adelino dos Santos Tinoco e outros, transformou o seu quarto de dormir na resdiência episcopal de Atambua numa secretaria secreta onde recebia a visita diária dos seus conterrâneos que lhe entregavam dados, documentos e fotografias para obtenção de passaportes. Enviou tudo para a Embaixada da Holanda em Jakarta, ao tempo encarregado dos interesses de Portugal.
Exigiu inúmeras vezes junto dos oficiais superiores indonésios que fossem posto em liberdade todos os refugiados presos sem razão.
Escreveu cartas a Macau, solicitando ajuda monetária para aquisição de géneros alimentícios e medicamentos às populações de Fatu-Mean e Fatu-Lulik as quais estavam abandonadas pelas próprias autoridades indonesias sem qualquer assistência médica ou alimentar, tendo já algumas crianças morrido à fome e de doença.
A sua influência junto dos refugiados foi tão grande que, para se livrarem dele, os indonésios o incluiram na lista dos primeiros retornados. Ciente deste plano maquiavélico, no dia do embarque, o Padre Chico escondeu-se debaixo da cama do Senhor Bispo de Atambua e só saiu da residência episcopal ao terceiro dia.
O apoio, a corajosa defesa dos refugiados timorenses contra abusos de que estavam a ser vítimas e o trabalho intensivo por ele realizado para os que queriam ser repatriados para Portugal tornaram o Padre Francisco Maria Fernandes um verdadeiro herói não apenas dos milhares de refugiados em Atambua como também de Timor e Portugal. Um antigo refugiado sintetizou bem o que foi o Padre Fernandes para os refugiados nestas palavras: “sinto pena de perder um grande amigo, grande defensor dos direitos dos refugiados, quando estivemos em Atambua durante 9 meses em 1975, e lutador pela independência de Timor. Paz a sua alma e eterno descanso”. Um outro ex-refugiado, referindo-se ao Padre Fernandes afirma comovido “para mim, ele foi mais que sacerdote. Foi um amigo, um pastor que não largava os milhares de ovelhas que éramos todos nós os refugiados. Mas o Padre Chico não procurava honras nas suas acções. Fazia tudo às caladas e com uma humildade exemplar”.
Chegado a Portugal, em Setembro de 1976, o Padre Francisco Maria Fernandes continuou a dar assistência religiosa e a ajudar os seus conterrâneos. Mais uma vez com a coperação do seu colega Padre Dr. Apolinário Guterres e coadjuvado por António de Nascimento e outros contactou as autoridades portuguesas no sentido de conceder certas facilidades de atendimento e colocação aos timorenses. Percorreu sem cessar as cidades ou os locais onde estivessem os refugiados timorenses.
Na sequência da chegada de refugiados timorenses a Portugal organizou-se uma reunião geral em que participaram não só os refugiados, como também os estudantes e outros timorenses, tendo sido criada a Comissão de Refugiados de Timor de que o Padre Fernandes foi eleito Presidente.
Mas o seu pensamento estava mais voltado para os compatriotas que na Pátria distante sofriam sob os algozes das tropas invasoras ou, de todas as formas, lutavam heroicamente, no mato, nas cidades e vilas pela libertação do país. Suspirava e referia-se com mágoa aos compatriotas em Timor. Confiando na Providência Divina, organizou uma romagem a Fátima onde os refugiados ofereceram à Virgem um mapa de Timor-Leste feito de terra, recolhida de muitas localidades do país pelo Padre Dr Apolinário Guterres e levada secretamente por António de Sousa Nascimento, cuja bagagem se tinha escapado por milagre da rigorosa vistoria dos funcionários alfandegários e polícia indonésios à hora de partida.
Na companhia do seu colega, Dr Apolinário Guterres e dois conterrâneos, participou em Nova Iorque e Washington nalguns foruns para denunciar e informar a comunidade internacional dos crimes de genocídio e violação dos direitos fundamentais do homem perpetrados pelas tropas indonésias contra o povo de Timor. A este propósito permito-me citar aqui o que escreveu Monsenhor Jorge Barros Duarte:
“A par das formações políticas, responsáveis pela acção diplomática da “diáspora”timorense, merece ainda uma especial menção a Comissão dos Refugiados Timorenses, cujo presidente, o Pe. Francisco Maria Fernandes, tem sido incansável e tem sabido com notável diplomacia e inteligência, desenvolver uma intensa campanha de sensibilização a favor do povo de Timor, junto de entidades oficiais australianas, junto do Departamento do Estado americano, do Fereign Office, Parlamento Europeu, repesentações diplomaticas afro-asiáticas nas Nações Unidas, Comissão dos Direitos Humanos, Partidos políticos australianos, americanos, britânicos e portugueses, não esquecendo contactos com organizações humanitárias, como a Amnistia Internacional e com entidades religiosas como o Arcebispo da Cantuária e o Patriarca de Lisboa”.
A acção que vinha desenvolvendo em prol do povo do seu país e a participação em foruns internacionais fizeram-no sentir a necessidade de actualizar ou desenvolver o que aprendera nos três anos de Filosofia e Sociologia para melhor defender os direitos dos seus martirizados compatriotas. Por isso, uma vez na Austrália, como capelão da comunidade da lingua portuguesa em Perth, para além do seu apostulado, matriculou-se na Universidade de Murdoch, onde se formou em Ciências Político-Sociais, tendo em seguida tirado o Mestrado na mesma cadeira.
Durante a sua estadia em Perth, prestou valiosos serviços à comunidade timorense. Foi durante anos um dos programadores de “A Voz de Timor”e tomou parte activa em diversos foruns internacionais sobre a questão de Timor-Leste realizados nesta cidade.
Em 1989, acedendo ao convite de um dos seus antigos professores Rev. Dr. D. Arquimino da Costa, Bispo de Macau, partiu para aquela cidade, tendo-nos dito, antes do seu embarque, estas palavras:
“A minha ida a Macau e o trabalho que ali vou desenvolver na Diocese são uma forma de eu retribuir o muito que recebi do Seminário e a melhor maneira de mostrar a minha amizade e gratidão para com D. Arquiminio da Costa, meu ilustre professor. Mas onde quer que esteja, o meu pensamento, as minhas orações e algumas acções estarão voltadas para a nossa Pátria”.
O Padre Francisco Fernandes cumpriu o que disse à partida. Pois desde a sua chegada até a hora em que Deus o chamou para a eternidade, foi um sacerdote zeloso e exemplar na Diocese de Macau e um incansável representante de Timor, nos desvelos para com os seus conterrâneos mais necessitados, na cultura e História da Igreja Timorenses, enfim, naquilo que caracteriza o que há de mais nobre do bom povo de Timor-Lorosae.
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