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Patuá macaense, também designada de Crioulo macaense, Patuá di Macau, Papia Cristam di Macau, Doci Papiaçam di Macau ou ainda de Macaista Chapado, é uma língua crioula de base portuguesa formada em Macau a partir do século XVI, influenciada pelas Línguas chinesas, malaias e cingalesas. Sofre também de alguma influência do inglês, do tailandês, do espanhol e de algumas línguas indianas.
Actualmente continua a ser ainda falado por um pequeno número de macaenses que vivem em Macau ou no estrangeiro, na sua maioria já com uma idade avançada.
Este crioulo foi originalmente desenvolvido pelos macaenses e, ao longo dos séculos, sofreu muitas mudanças na sua gramática, fonética e vocabulário para responder à evolução da demografia e da cultura de Macau. Alguns estudiosos de línguas dividem o patuá em dois tipos: o arcaico, falado até ao séc. XIX, e o moderno, desenvolvido e falado a partir do séc. XIX e muito influenciado pelo cantonense.
O Patuá era dominado e falado por um grande número de macaenses e por alguns chineses de Macau, principalmente as esposas chinesas de portugueses. Para eles, o patuá é mais fácil de aprender e pronunciar visto que este crioulo tem influências chinesas. Até ao séc. XIX, ele tornou-se numa língua importante de comunicação entre os macaenses, os chineses e os portugueses, e contribuiu bastante para o desenvolvimento socio-económico da Cidade. Mas, mesmo durante o seu apogeu, o número de falantes deste crioulo era relativamente baixa, não ultrapassando as dezenas de milhares.
Durante todo o séc. XIX, muitos macaenses (um grupo deles já emigraram para a recém-formada colónia britânica de Hong-Kong durante o séc. XIX) continuaram a falar o Patuá em oposição ao Português-padrão (falado em Portugal) usado pelas autoridades portuguesas de Macau, embora este crioulo não gozasse de nenhum estatuto oficial ou especial. Muitos deles usavam o Patuá como um meio para criticar satiricamente as autoridades.
José dos Santos Ferreira é um dos poucos escritores e poetas de Macau que utilizam este crioulo nas suas obras.
Nos finais do séc. XIX, a importância e o uso do Patuá diminuiu drasticamente porque o Governo Central de Lisboa começou a efectuar uma série de reformas educativas para implementar o Português de Portugal em todas as colónias portuguesas, tornando-o numa língua-padrão de comunicação dentro do Império Português. Macaenses de alta estirpe social gradualmente deixaram de usar o Patuá e a adoptarem o Português-padrão ensinado nas escolas, tendo passado a encarar este crioulo como uma língua mais apropriada para as classes baixas, considerando-o um tipo de “Português primitivo”. As reformas educativas foi um sucesso, com o número de falantes do Patuá a continuar a descer drasticamente porque este crioulo perdeu a sua importância de ser uma língua de comunicação entre os chineses, os macaenses e os portugueses.
Esta diminuição do uso do Patuá foi tão forte que, actualmente, ele está em vias de extinção, com cada vez menos macaenses que dominam este crioulo. O português, bem como o inglês e o cantonês (cada vez mais portugueses dominam este dialecto), tornaram-se nas novas línguas de comunicação entre eles. Em Macau, existem várias instituições culturais, tais como o famoso “Grupo de Teatro Dóci Papiáçam di Macau”, e grupos de macaenses que querem salvar e divulgar este crioulo, uma língua única e histórica de Macau. Esforçaram-se para proteger este crioulo, fazendo muitas peças teatrais e música em Patuá e também publicando um Dicionário Português-Patuá em 2001. Eles inclusivamente queriam incluir o Patuá no Património Universal Intangível da UNESCO.
Em Janeiro de 2009, surgiu na internet o Pequeno Manual Brasileiro de Patuá Macaense, obra livre e de domínio público, que é uma espécie de livreto com cerca de quinze páginas e que tem por objectivo explicar as noções básicas sobre o dialecto.
Apesar deste esforço e do carácter único do Patuá, este crioulo recebeu muita pouca atenção dos estudiosos de línguas e da comunidade internacional, constituindo um facto lamentável.
A maioria do vocabulário do Patuá é derivado do português e também do malaio e de crioulos de base portuguesa formados na Península Malaia (nomeadamente o Kristang), da Língua sinhala, de crioulos Indo-Portugueses e do Cantonês.
Exemplos de palavras de origem portuguesa: Macau, casa (casa), mae (mãe) e filho (filho); de origem malaia: sapeca (moeda) e copo-copo (borboleta); de origem cingalesa e indiana: fula (flor) e lacassa (“vermicelli”); e de origem cantonensa: amui (rapariga) e laissi (os chamados “pacotes vermelhos”).
Tal como muitas línguas asiáticas, o Patuá tem falta de artigos definidos, de pronomes pessoais (ex: io que significa “Eu” e “meu”) e as suas formas verbais não mudam com as pessoas gramaticais (ex: io sam significa “Eu sou” e ele sam significa “Ele é”).
Os verbos que transmitem acções contínuas são compostos, além do verbo em si, pela partícula ta (derivado do verbo português “está”), e aqueles que transmitem acções já completas (acções do passado) são compostos, além do verbo em si, pela partícula ja (derivado do advérbio português “já”).
O Patuá tem uma maneira muito especial, também utilizada na gramática malaia, para fazer o plural das palavras que consiste em duplicar a própria palavra (exs: casa-casa = “casas”; china-china = “pessoas ou coisas chinesas”; cedo-cedo = “muito cedo”).
Este crioulo não tem um padrão na ortografia e na escrita.

Exemplo de 2 poemas em patuá com tradução para português:

Nhonha na jinela / A moça na janela
Co fula mogarim / Com uma flor de jasmim
Sua mae tancarera / Sua mãe é uma Chinesa pescadora
Seu pai canarim / Seu pai é um Indiano Português

Língu di gente antigo di Macau / A língua da gente antiga de Macau
Lô disparecê tamên. Qui saiám! /Vai desaparecer também. Que pena!
Nga dia, mas quanto áno, / Um dia daqui a alguns anos
Quiança lô priguntá co pai-mai / A criança perguntará aos pais
Qui cuza sä afinal / O que é afinal
Dóci papiaçam di Macau? / A “língua doce” de Macau?

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