>Reproduzo aqui um artigo publicado há alguns anos na Revista Macau. Guardei o documento mas não consigo identificar o autor embora no final do texto aparecem as iniciais LAS.

O governador de Macau, Tamagnini Barbosa, subsidiou durante três anos Armando Cortesão, um notório adversário de Salazar. O dinheiro era entregue todos os meses a Charles Boxer que o encaminhava para Londres onde Cortesão estava exilado – anos depois, os dois historiadores zangar-se-iam para a vida.
Já houve um tempo em que as piores notícias começavam em pequenos bilhetes anónimos. No final dos anos trinta, com o mundo prestes a envolver-se numa nova guerra, na sua pacata residência de São Bento, em Lisboa, Oliveira Salazar recebia informes da situação internacional, relatórios sobre as colheitas, despachos da fronteira e das colónias e, também, pequenos bilhetes de denúncia.“Portugueses honrados”, “patriotas”, “admiradores de Vossa Excelência”, os anónimos informadores sabiam que tinham no ditador um leitor interessado e muitas vezes nem se preocupavam com a forma como embrulhavam a delação.
A denúncia do subsídio do governador de Macau a um “declarado inimigo da situação” chegou a São Bento da maneira mais informal possível: no verso de duas folhas de calendário de secretária, respeitantes aos dias 4 e 5 de Outubro de 1939. O texto, não assinado, era seco e conciso e trazia também uma má notícia para o ditador – mais uma vez, e como quase sempre aconteceu, Salazar era o último a saber do que se passava em Macau. “É subsidiado desde Abril de 1937 com 15 libras pelo Fundo de Propaganda do Governo. O capitão inglês é intermediário a pedido do Governador e não é conhecido dele”, assim começava a denúncia, escrita numa letra deliberadamente clara, que depois passava a pormenorizar a situação. “O Governador de Macau subsidia com 15 libras mensais do fundo do Estado o inimigo da situação Dr. Armando Cortesão, que o governador escondeu em sua casa quando aquele era perseguido pela polícia. Agora, como ele está em Londres, conseguiu por intermédio do capitão inglês Charles Boxer amigo do Governador enviar áquele 15 libras mensais, o que vem fazendo desde Abril de 1937 até ao presente. O capitão Boxer envia aquele dinheiro por intermédio do banco de Hong Kong como se prova pelos documentos juntos”, assinalava o informador que no envelope tinha juntado duas fotografias de transferências bancárias da conta de Boxer em benefício de Armando Cortesão, em Londres. E para que não restassem dúvidas das responsabilidades de Tamagnini Barbosa, o texto isentava Charles Boxer de culpas pela situação o que, não sendo verdadeiro, prenunciava um ataque pessoal ao Governador de Macau, na altura alvo de contestação no território e olhado com desconfiança em Lisboa.“O Governador diz que o capitão Boxer é quem faz isso de motu próprio, o que não é verdade pois Armando Cortesão é amigo pessoal do Governador e foi a pedido deste que se fez aquela transferência de dinheiro.
Há testemunhas em como o Governador pediu ao capitão Boxer para lhe enviar o dinheiro”, acrescenta o delator no final da sua prosa. O labirinto da delaçãoMas a verdade é que os três eram amigos de há longa data, Charles Boxer tinha mesmo frequentado a casa em Coimbra de Armando Cortesão, antes do exílio deste, primeiro, na Espanha republicana e, depois, em Londres, e, segundo um biógrafo do historiador inglês, a ideia do subsídio ao adversário de Salazar terá partido de Boxer. “Como a maioria dos exilados, Armando vivia com dificuldades financeiras. Charles tomou medidas excepcionais para o apoiar. Depois de ter tomado posse no seu cargo em Hong Kong, dirigiu-se a Macau onde combinou secretamente com o Governador, e possivelmente com outras personalidades na colónia portuguesa interessadas pela História, contratar Armando Cortesão para a transcrição de manuscritos portugueses no Museu Britânico. Armando enviava os documentos para Charles que os encaminhava para o Governador”, escreve Dauril Alden (Charles Boxer, an uncommon life, ed. Fundação Oriente, Lisboa, 2001).
Mas até este biógrafo comete um erro ao acrescentar que “o Governador teria seguramente perdido o seu emprego se Salazar soubesse” que a colónia financiava um dos mais conhecidos exilados políticos da época.Salazar soube, embora com grande atraso, mas vai tratar do assunto de uma maneira algo surpreendente ao exigir apenas a suspensão dos pagamentos. No dia 4 de Outubro de 1939 o ministro das Colónias envia um furioso telegrama para Macau, no qual diz ser “inútil salientar a gravidade política do facto” e exigindo o fim dos pagamentos a Boxer.Tamagnini Barbosa, que apenas um ano antes tinha estado quase demitido do cargo, responde com a justificação de que Macau apenas pagava a Boxer pelos serviços por este prestados e oferece-se para enviar os recibos como prova dos factos. Mas, no jogo de delações em que acabara de mergulhar, o Governador ignora quanto inútil era esta oferta e que não iriam servir de nada as declarações mensalmente assinadas por Boxer que atestavam ter “recebido de Exmo. Sr. Governador de Macau a quantia de quinze libras relativas ao trabalho feito no Museu Britânico”.“Não preciso de recibos tanto mais que já circulam Lisboa esses recibos tirados alguém sua confiança gabinete”, explicará ainda mais furioso, embora telegráfico, o ministro que passa a descrever a extensão da denúncia.“Transferências feitas Boxer através Banco Hong Kong também circulam fotografias ordem transferência assinada Boxer”, refere, antes de deixar um claro aviso ao mesmo Governador de que um ano antes dissera a Salazar acreditar na sua boa fé: “Não é admissível colónia subsidie indirectamente inimigo declarado situação pelo que ordeno suspensa imediatamente qualquer abono Boxer”.
Tamagnini Barbosa cumpre a ordem e percebe todos os recados que lhe são dados – acusa o seu chefe de gabinete, Macedo Pinto, de responsável pela denúncia, dizendo que os recibos estavam na posse deste, propõe o seu despedimento e aproveita o correio para também mandar alguns remoques para Lisboa – “Igualmente estranho aqueles explorem caso e agora condenem abonos Boxer quando é certo minha ausência colónia continuaram fazendo mesmos abonos”.Governador sob pressão de LisboaTamagnini Barbosa, que foi por três vezes Governador de Macau (1918-19, 1926-29 e 1936-40), morreria no ano seguinte em Santa Sancha, no exercício do cargo, cessando assim as relações tensas que mantinha com Lisboa. Antes ainda de Salazar saber dos subsídios a Armando Cortesão, já o presidente do Conselho desconfiava da acção governativa do seu representante em Macau, um território que estava a ser fustigado pelas denúncias dos americanos em relação ao comércio do ópio. Em 1938, com a imprensa internacional a insistir que Macau continuava a alimentar o já proibido comércio do ópio, Menezes Alves, chefe de gabinete do ministro das Colónias envia um memorando a Oliveira Salazar no qual expressa a posição do seu superior de que é inevitável a demissão do Governador embora se “acredite na sua boa-fé” – em anexo, Menezes Alves junta uma lista de possíveis substitutos embora o próprio admita diversas fragilidades em todos os candidatos que sugere.
O Governador é então chamado a Lisboa, sob o pretexto de assistir à Conferência Colonial, e acaba por se manter no cargo o que aproveita para fazer uma “limpeza” na administração macaense, noticiada em diversos jornais internacionais. Segundo a imprensa de Hong Kong, a exoneração e o pedido de transferência de cerca de “meia-dúzia de funcionários do topo” fica a dever-se à “posição firme” por estes adoptada sobre “o assunto do ópio e outras questões”.Na altura, Macau era acusado por diversos países de fomentar o comércio ilegal de ópio, que constituiria uma das suas principais receitas, e em Lisboa o Governo começa a suspeitar da conduta do Governador bem como da do chefe dos Serviços Económicos, o todo-poderoso Pedro José Lobo. Uma intensa correspondência entre Lisboa e Macau não aclara definitivamente a situação e o ministro das Colónias socorre-se, à revelia do Governador, de amigos que tem no território para se inteirar das actividades de Tamagnini Barbosa e de Lobo. Mais tarde, uma investigação desencadeada pelo inspector Mendes Bossa acaba por pôr um ponto final no assunto mas não afasta as suspeitas internacionais sobre a conduta de Macau – mesmo internamente há divergências, como o atesta uma carta enviada em 1938 por F. Rodrigues, em papel timbrado da conhecida firma, e na qual se dá conta a Salazar de todas as transacções do ópio no território. Esta situação acaba, no entanto, por se diluir no quadro da ameaça dos japoneses às colónias britânicas na Ásia e, por tabela, a Macau e a Timor, e que provoca o aparecimento em cena de um certo capitão inglês dos serviços secretos e que mais tarde se tornará numa das maiores autoridades mundiais sobre a expansão portuguesa.
A invasão e o avanço dos japoneses pela China levam ao reforço da troca de informações entre os governos de Hong Kong e de Macau e Charles Ralph Boxer surge muitas vezes como o oficial de ligação dadas as suas excelentes relações com a administração colonial portuguesa. Amigo pessoal de Tamagnini Barbosa desde 1915 (conforme o Governador informa o seu ministro em Lisboa), Charles Boxer tem ainda relações bastante estreitas com o chefe de Estado Maior de Macau, Pinto Lello.Com as autoridades de Macau, Charles Boxer troca informações sobre os avanços das forças japonesas pela China que são depois incluídas nos despachos oficiais que o Governador envia para Lisboa. “Este oficial”, escreve Tamagnini Barbosa, referindo-se a Boxer, num telegrama de 1938 para o ministro das Colónias e que é re-enviado para Salazar, “partir dentro de duas semanas Japão onde recolherá elementos informações seguras sobre futura situação que prometeu transmitir”.Aventureiro, culto, “bon vivant” e um homem do seu tempo, Charles Boxer passa temporadas em Macau, junto do seus amigos, organiza “parties” , devolve as gentilezas recebendo-os na sua residência de Hong Kong e com eles troca informações não só sobre o expansionismo japonês mas também sobre a história dos dois países. Com Pinto Lello, um militar bastante próximo dos britânicos desde que combatera em França durante a I Grande Guerra, Boxer mantém uma relação forte, cimentada em consecutivas visitas e pela troca de livros, um dos quais da autoria de Marques Guedes, outro conhecido adversário de Salazar.
Fundos de Macau omitidos
Se o papel do Governador e do capitão inglês no envio de fundos para Armando Cortesão é aparentemente esquecido pelo Governo português, em Lisboa os fiéis do salazarismo não perdoam ao historiador exilado em Londres. A vitória franquista na guerra civil de Espanha e o aumento da tensão internacional – que torna a dar projecção a Portugal – endurecem o regime que complementa a perseguição aos seus opositores com campanhas de “assassinato moral” nas páginas dos jornais mais claramente ligados à situação.Irmão do chefe da oposição democrática, Jaime Cortesão, Armando, já na altura um reputado historiador, aproveita os ventos da república espanhola para fugir às perseguições que sofre em Portugal. O pretexto terá sido o cerco policial em virtude do seu envolvimento no jornal republicano clandestino “A Verdade” e, em 1933, cruza a fronteira.Muitos anos depois, Armando Cortesão dirá que em Espanha não fez “vida de café” e que aproveitou os três anos para investigar os arquivos e os museus do país. O avanço da sublevação de Franco contra a república fá-lo mudar de ares e parte para Londres, na altura um improvável local de exílio (ver caixa). Cortesão chega à capital britânica nas vésperas da II Guerra Mundial e enfrenta desde logo o problema da falta de dinheiro – no entanto, na correspondência que envia ( e que mais tarde será editada no livro “Cartas de Londres, 1941-49”, Universidade de Coimbra, 1974) e no retrato do exílio que lhe traçam diversos amigos, nunca são mencionados os fundos que durante três anos recebeu de Macau. “No exílio viveu durante algum tempo graças a um honrado subsídio da admirável Society for the Protection of Science and Learning”, escreve Augusto Casimiro no prefácio daquela obra e, segundo Dauril Alden, é esta bolsa que lhe permite viajar até Paris onde descobre o desaparecido texto “Suma Oriental”, de Tomé Pires, um achado notável de que dará conta no Congresso Internacional de Geografia que se realiza em 1938 em Amesterdão. As 15 libras que mensalmente recebe de Macau, entre 1937 e 1939, são manifestamente insuficientes para as despesas pessoais e profissionais do académico exilado – por essa altura, o embaixador português em Londres, Armindo Monteiro, pede autorização a Lisboa para contratar um estafeta a quem se propõe pagar 4 libras por semana – e o próprio Cortesão evoca uma experiência de trabalho na BBC, de onde saiu na sequência dos ataques dos salazaristas em Lisboa.
Provocações do regime
A primeira acusação surge no “Diário da Manhã”, o órgão oficioso da ditadura, que acusa Armando Cortesão de, ainda em Espanha, se ter apropriado de 18 mil pesetas destinadas aos presos políticos e, de mais tarde, ter enganado o irmão Jaime, exilado no Brasil, com a compra de uma casa. Armando Cortesão envia desmentidos para o jornal, que nunca serão publicados, só lhe sendo permitido “lavar a honra” já depois do 25 de Abril. O mesmo sucede com um ataque que sofre, em Novembro de 1945, nas páginas de outro jornal do regime, “A Voz”.“Caíram, durante a guerra, milhares de bombas em Londres. E nenhuma delas apanhou o senhor Cortesão. Felicitamo-lo. E felicitamo-nos porque esse conspícuo senhor, ontem anglófobo e hoje porta-voz da Inglaterra, há-de dar que falar a todos e dará muitas arrelias aos seus amigos”, escreve, com malícia, “A Voz”.
N resposta, o historiador puxa dos seus galões do soldado alistado na Home Guard, entre 1942 e 1944, enviando um documento oficial que atesta que participou na defesa da capital britânica. “Quando elas caíam eu estava, por via de regra, numa das baterias anti-aéreas de defesa de Londres fazendo fogo contra os aviões nazis”, responde Armando Cortesão numa carta que só conseguiu divulgar depois da instauração da democracia em Portugal. Nos anos de exílio em Londres, o académico colaborou com a “Seara Nova”, a revista que reunia os intelectuais que se opunham à ditadura, mas muitos dos seus artigos foram totalmente cortados pela censura. Melhor sorte tiveram os textos que no final de 1963 escreveu a contestar as posições do homem que o tinha apoiado no exílio, Boxer, e colocando-se ao lado das teses defendidas por Oliveira Salazar.Uma polémica que destrói a amizadeTerminada a ocupação de Hong Kong pelos japoneses, libertado do campo de concentração de Stanley, Boxer, então já com mais de 40 anos, vai dedicar-se ao estudo da história da expansão portuguesa e aceita a regência da cátedra Camões de História e Língua Portuguesas no King’s College, em Londres. Tem, na altura, mais de 40 anos, não possui qualquer título académico e, segundo a sua mulher, é o único inglês “suficientemente louco para se ocupar do estudo de Portugal”.
Sem problemas com o regime salazarista, reconhecido em Portugal e no estrangeiro como um sério estudioso da História portuguesa, com grandes ligações ao País, Charles Boxer mantém relações de amizade com outros investigadores, juntando na sua lista de amigos ao nome de Cortesão o de um outro notável autor, o brasileiro Gilberto Freyre, o “criador” do conceito do luso-tropicalismo. É ao inglês que o brasileiro dedica, em 1961, o célebre “Os portugueses e os trópicos”, prosseguindo, aliás, uma tradição – Cortesão tinha dedicado a Boxer, ainda este estava preso pelos japoneses, a tradução de “Suma Oriental” (Londres, 1945); o inglês retribui, dedicando “Fidalgos in the Far East (Londres, 1948) a Armando e à sua mulher Carlota.Mas as cortesias cessam abruptamente em 1963 quando Gilberto Freyre e Armando Cortesão atacam furiosamente Boxer por este ter posto em causa um dos grandes mitos salazaristas, a “harmonia racial” portuguesa, e cortam relações para sempre. A causa para a grande animosidade é a saída do livro “Relações raciais no império colonial”, que não só punha em causa a doutrina do regime português como aparecia numa altura em que, iniciada a guerra anti-colonialista em Angola, Lisboa sofria fortes pressões da comunidade internacional, sobretudo dos Estados Unidos, para descolonizar.
Pior: o autor da tese que contradizia o regime não só era pago em parte pelo governo português para reger a cátedra Camões como tinha sido coberto pelas maiores honras nacionais – Boxer tinha sido feito oficial da Ordem de Santiago da Espada e da Ordem do Infante D. Henrique e era doutor “honoris causa” pela Universidade de Lisboa para além de pertencer ás principais academias portuguesas de História e Ciência. Já em Paris, como alto funcionário da Unesco, e podendo entrar em Portugal, Armando Cortesão toma o partido de Salazar, seguindo uma série de reacções oficiais portuguesas altamente negativas para o livro de Boxer. A resposta ao livro de Boxer surge a 27 de Dezembro de 1963 no “Diário Popular”, de Lisboa, que se torna a partir de então na principal tribuna da polémica que se instala. O artigo intitula-se “O livro insidioso” e o seu subtítulo é uma declaração de guerra que põe termo a cerca de 30 anos de amizade entre os dois académicos: “De um honesto lusófilo a um lusófobo de má-fé, o volte face do professor Boxer”.Cortesão acusa o historiador inglês de ter causado danos irreparáveis a Portugal num momento em que o País está cercado por inimigos, põe em causa a validade científica das teses de Boxer e inicia-se a troca de acusações entre os dois no vespertino lisboeta, seguida por reacções que vêm de vários continentes. Alinhado óbvio nas críticas de Cortesão ao livro que negava o seu luso-tropicalismo, Gilberto Freyre entra na polémica desprezando o estatuto intelectual de Boxer e acusando-o de estar ao serviço do Império Britânico e, tal como o seu colega e amigo português, alinha declaradamente nas teses salazaristas de estar em perigo uma pátria que tinha espalhado a “harmonia racial” pelos cinco continentes. Mesmo com a pressão, perseguições e censura do regime, Charles Boxer mantém apoios entre académicos e historiadores portugueses, recebe solidariedade de investigadores brasileiros e evita uma declaração por parte dos responsáveis pelos arquivos em Roma da Ordem de Jesus. De acordo com Dauril Alden, entre os apoiantes de Boxer estão Jack Braga, Joel Serrão, Carlos Azevedo, Albertino Monteiro Crespo, António Dória, Leite de Faria e Avelino Teixeira da Mota enquanto Cortesão conta com o apoio do padre Silva Rego, formado em Macau e um amigo de longa data de Boxer, Ferrand de Almeida e o brasileiro José António Gonçalves de Melo, entre outros.Numa das últimas entrevistas que concedeu, Charles Boxer acusa o seu ex-amigo de ter sido apenas uma marioneta nas mãos do ditador português. “O meu erro foi citar Salazar, que ficou furioso e usou o Armando Cortesão para me atacar”, afirmou, então Boxer, nessa entrevista ao diário “Público”, em 1997. Pode-se assim dizer que a característica principal da África portuguesa – apesar dos esforços empregados em muitos sectores para atacá-la com palavras e acções – é a primazia que sempre demos e continuaremos a dar à intensificação do valor e da dignidade do homem, sem distinção de cor ou credo, à luz de princípios da civilização que nós levamos às populações que em todos os sentidos estavam aquém de nós” –tinha sido esta a citação de Salazar, tirada de uma entrevista à “Life” americana, que Boxer escolhera para abrir o livro no qual se negava esta teoria de “harmonia racial”.
A polémica nem sempre decorreu da forma mais elegante– Boxer ironizou com o nome do seu oponente, afirmando que este não fazia juz ao apelido; Cortesão replicou, associando o nome Boxer a pugilista e à revolta chinesa do princípio do século XX. Aluna do historiador inglês durante a troca de acusações, Maria da Graça Henriques diz recordar aulas em que o professor mostrava aos seus alunos o correio insultuoso e não assinado que recebia em Londres, “particularmente um postal insultando-o nos mais fortes termos e acusado-o de morder a mão que o alimentava e que Boxer suspeitava ser de algum agente da polícia política (PIDE)”.As acusações prosseguiram por mais alguns anos, eliminando para sempre a possibilidade de uma reconciliação e fazendo cair no esquecimento os tempos em que o exílio de Armando Cortesão era apoiado com o dinheiro que o Governador Tamagnini Barbosa lhe enviava às escondidas através de Charles Boxer.Pelo contrário, nas fortes críticas que trocam, os dois historiadores raramente aludem à amizade que os uniu, muito menos às 15 libras mensais que Cortesão recebeu de Macau por intermédio de Boxer entre 1937 e 1939.

Londres: um local “improvável” de exílio
As narrativas da fase final da resistência à ditadura de Oliveira Salazar e de Marcelo Caetano raramente incluem Londres como uma cidade de exílio dos perseguidos. E, no entanto, a capital britânica tem uma importante história de guarida de portugueses que tiveram que abandonar o País por motivos políticos.Durante os quase 50 anos de Estado Novo, o Brasil e, mais tarde, Paris concentraram o grosso dos exilados, havendo ainda outros destinos com uma presença significativa como os países do leste europeu (preferidos pelos comunistas), Argélia, Suíça, os países nórdicos e, até, os Estados Unidos. De Londres, pouco se fala.Mas já desde 1823 que Londres abriga refugiados portugueses, primeiro os desterrados jacobinos vítimas da “Vilafrancada” e, a partir de 1828 todos os que por convicções liberais pedem protecção aos britânicos depois do “assalto” ao trono pelos miguelistas. Um dos mais notáveis exilados portugueses em Londres é Almeida Garrett que, com a mulher Luísa Midosi, chega à capital em Maio de 1828, instalando-se em Oxendon St., Haymarket.Contrariamente à maioria dos milhares de refugiados portugueses, que são amontoados em condições miseráveis em Plymouth, Almeida Garrett leva uma vida confortável em Londres, para a qual contribui a generosidade do Visconde de Itabaiana, e que lhe permite até escrever os romances “Adozinda” e “Bernal-Francez” e de levar à cena, em Plymouth, a sua peça “Catão”. Pelo contrário, os seus compatriotas – entre os quais se contam nomes conhecidos do liberalismo português, como Ferreira Borges, Silva Carvalho, Luz Soriano, entre outros – são amontoados em barracões “…inteiramente desabrigados, sem janellas de vidraça, sem qualidade alguma de bancos, cadeiras, ou camas; deitaram-lhe avulso huma pouca de palha, que renovavão de 15 em 15 dias, e que se tornava um excellente esterco, porque sendo o local dos armazens pantanoso e cheio de lama, os emigrados que não tinhão aonde limpar os sapatos, com elles enlameados andavão por cima das palhas…”, conforme uma descrição de Luz Soriano divulgada em 1999 por José Baptista de Sousa.
Apesar da vida confortável de exilado, Garrett acabará por se juntar, em 1831, ao exército de D. Pedro, em França, seguindo o exemplo de grande parte dos desterrados em Londres. Pouco mais de um século depois, passará pela mesma cidade um outro vulto da cultura portuguesa que escolhe a capital britânica para exílio em detrimento dos destinos preferidos pelos opositores ao regime de Salazar. Armando Cortesão é praticamente o único a escolher Londres como porto de abrigo, enquanto o seu irmão, Jaime, Norton de Matos, Jorge de Sena e tantos outros optam pela partida para o Brasil. Em comum, a maioria destes exilados tem uma passagem inicial pela Espanha republicana mas a guerra civil desencadeada e ganha por Francisco Franco obriga-os a abandonarem a Península Ibérica – vão para França mas o crescer da ameaça nazi leva-os a novos portos, dispersando-se alguns, como Armando Cortesão que quase solitariamente escolhe a cidade de Londres para residir. É ali que passará a II Guerra Mundial, alistado na Home Guard (uma força de defesa militar que incluía expatriados) e prosseguindo as suas actividades de investigador, ao mesmo tempo que mantém colaborações com a BBC e escreve regularmente para a “Seara Nova”, a revista que em Portugal agrupava os intelectuais anti-salazaristas. LAS

Três nomes importantes
O circuito das 15 libras mensais que tanto irritou o Governo de Oliveira Salazar junta três nomes importantes das histórias de Portugal e de Macau no século XX, Armando Cortesão, Charles Boxer e Tamagnini Barbosa. Mas o passar do tempo logo tornará irrepetível o gesto da solidariedade entre os homens – Tamagnini Barbosa morre pouco depois e os dois historiadores acabarão por ser os principais protagonistas de uma das mais violentas polémicas sobre a História de Portugal, que os afastará para sempre.

Tamagnini Barbosa (1881-1940)
Três vezes governador de Macau, a primeira das quais ainda na I República, Artur Tamagnini Barbosa fez os seus estudos no Seminário de S. José e no Liceu de Macau, iniciando depois, em Portugal, uma carreira de funcionário colonial. Em 1918 assume pela primeira vez o cargo de Governador do território que apenas vai ocupar por cerca de um ano. Volta a ser nomeado em 1926 (sai em 1930) e, por uma última vez, em 1937, acabando por morrer no exercício do cargo em 1940.

Charles Boxer (1904-2000)
Charles Ralph Boxer foi o mais importante historiador estrangeiro a escrever sobre as Descobertas portuguesas. Sem qualquer título académico, a sua obra é incontornável e a sua vida uma aventura como nem nos filmes.Militar de carreira no exército britânico, serve no Japão nos anos decisivos de 1930-33 e a partir de 1936 é colocado em Hong Kong, já a viver os efeitos da invasão nipónica à China. Mestre nas informações, fluente em línguas (japonês, holandês, português, francês, alemão e italiano) aventureiro e culto, Boxer passa preso os anos da ocupação de Hong Kong (1941-45) e depois da guerra dedica-se à investigação histórica, uma carreira que passa pela regência da cátedra Camões no King’s College em Londres.Algumas das suas obras mais importantes são: “Fidalgos in the Far East” (1948), “The Portuguese Seaborn Empire, 1415-1825”, “The Christian Century in Japan” (1951), “The Dominican Mission in Japan, 1620-22” (1963), “Race Relations in the Portuguese Colonial Empire 1415-1825” (1963), “Mary and Misogyny. Women in Iberian Expansion” (1415-1815), “Some Facts, Fancies and Personalities, Duckworth (London, 1975).
Armando Cortesão (1891-1977)
Um dos mais brilhantes académicos da sua geração, figura incontornável na História e na Cartografia, Armando Cortesão foi um resistente à ditadura do Estado Novo, tal como seu irmão e também académico de vulto, Jaime Cortesão.Exilado em Espanha e em Londres, Armando Cortesão continuou os seus trabalhos de investigação histórica, beneficiando involuntariamente do melhor acesso aos arquivos estrangeiros que lhe permitia a sua condição de desterrado. Após o final da II Guerra Mundial, trabalha para a Unesco e regressará a Portugal ainda antes da Revolução do 25 de Abril, A polémica com Boxer aproxima-o das posições coloniais do regime defendidas por Salazar e contestadas pelo historiador inglês.De entre as suas dezenas de obras, destacam-se pelo seu interesse para Macau as seguintes: “A Suma Oriental de Tomé Pires” (1978), “Primeira embaixada europeia à China: o boticário e o embaixador” (1945), “O problema colonial português” (1925), “Espionagem dos descobrimentos” (1935).
No Arquivo da torre do Tombo – Arquivo Salazar, UL-10A1 cx. 767, pt. 6 – existe este registo:
“Situação de Armando Cortesão, subsidiado pelo Governador de Macau com 15 libras mensais” relativo a 1939.
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