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30-10-1999: O Presidente Jorge Sampaio, acompanhado pelo Governador de Macau, Vasco Rocha Vieira, inaugura a sede da Fundação da Casa de Macau, esta tarde em Lisboa.
Foto de Manuel Moura / Agência LusaA sede da Casa de Macau em Portugal foi inaugurada em Outubro de 1999. O fundo documental continua no velho andar do Príncipe Real. A sede social – que se espera seja um ponto de encontro de todos os que têm em comum, Macau – fica no nº 142 da avenida Gago Coutinho (a caminho da rotunda do relógio, perto do Aeroporto de Lisboa).
A vivenda que já foi habitação de um ilustre presidente do Benfica, foi inaugurada pelo Presidente Jorge Sampaio no dia 30 de Outubro.
No salão nobre estão as fotografias dos sócios fundadores, beneméritos e honorários.
A Casa de Macau em Portugal nasceu a 11 de Junho de 1966. Antes, foram várias as tentativas para arrancar com uma associação do género – mas sempre mal sucedidas. Carlos Estorninho, o veterano da Casa de Macau, recorda que já em 1942 a ideia germinara, aquando de uma homenagem realizada ao tenente Filipe Ó Costa, que anos antes introduzira o hóquei em campo no território. Um projecto semelhante voltou à baila em 1955, no quarto centenário de Macau, cujas comemorações viriam a ser suspensas pelas autoridades, devido ao que Fernando Lima (em «Macau. As Duas Transições») classifica de «uma forte reacção de Pequim contra os propósitos festivos de assinalar o estabelecimento dos portugueses».
Finalmente, em 1966, a iniciativa, exposta por Armando Hagatong, encontrou eco junto do governador Lopes dos Santos. «Ambos pertenciam ao Conselho Ultramarino, onde conversaram sobre o assunto», conta o coronel João Moura. No arranque esteve um grupo de 19 sócios – cujas fotografias integram a chamada galeria dos fundadores, na sede. Armando Hagatong foi o primeiro presidente da direcção, acompanhado, na assembleia geral, pelo general Flávio dos Santos e, no Conselho Fiscal, por António Maria da Silva, ex-deputado por Macau.
Uma das primeiras decisões foi alugar uma sede, no primeiro andar do nº 25 do largo do Príncipe Real. As indispensáveis obras foram financiadas por alguns beneméritos, como o Leal Senado, o BNU e Stanley Ho. As instalações viriam a ser inauguradas a 24 de Junho (o dia da Cidade) de 1969.
A Revolução de 25 de Abril bateu com estrondo à porta da Casa de Macau. A 9 de Junho de 1974, as instalações foram invadidas por um grupo de estudantes, enquadrados por organizações de carácter maoista – «creio que o MRPP», diz João Moura. Dias antes, fora a vez da Procuradoria dos Estudantes Ultramarinos e da Casa de Timor. A esmagadora maioria dos jovens não eram macaenses, muito menos sócios – o que não os impediu de destituir os corpos gerentes e de transformar a instituição num centro de divulgação e propaganda da República Popular da China e da Albânia. O jornalista Carlos Pinto Santos, num trabalho para a revista «Macau», observa que, «mais tarde, a ocupação é reivindicada por um estranho e nebuloso “Movimento de Libertação de Macau” de que nunca se conhecera nome de qualquer dirigente ou militante». Seguiram-se uma série de desocupações e reocupações em cadeia, envolvendo dirigentes, forças policiais e militares e estudantes. Até que, a 23 de Junho de 1974, a casa foi tomada pelas autoridades, que optaram pela selagem das instalações. Assim esteve durante quatro anos, com os macaenses de Lisboa profundamente divididos entre si e incapazes de encontrar uma plataforma mínima de entendimento. Garcia Leandro ainda tentou uma abordagem de diálogo, mas não teve sucesso. Coube ao governador Melo Egídio – general habituado a lidar com situações semelhantes – promover a desselagem da sede, prontamente devolvida aos corpos gerentes.
Com as instalações e o recheio praticamente destruídos, houve que proceder de novo à recolha de fundos. Os amigos chineses – Chui Tai Kei, Roque Choi, Ng Fok – responderam à chamada. Casa limpa e arrumada, reabriu aos sócios em Fevereiro de 1979 – com uma nova gerência: Carlos Estorninho na direcção e Armando Hagatong na assembleia geral. Em 1981, Hagatong retomou a direcção, onde foi substituído dez anos depois por Arnaldo Rodrigues da Silva.
Com escassa quotização, a instituição foi sobrevivendo graças aos subsídios anuais do governo. A aproximação da data da transferência – e do ponto final nos subsídios – levou a direcção a criar a Fundação da Casa de Macau, que tem a seu cargo a gestão de um Fundo de Reserva Especial. O capital é de cerca de 120 mil contos, doado no essencial pelo governo, a que se associaram Stanley Ho e Carlos Monjardino, com uma parcela de vinte mil. A Fundação é a proprietária da nova sede da Casa de Macau, cuja aquisição orçou os 170 mil contos, igualmente libertados pela administração. O seu património inclui ainda o Pavilhão Macau, que esteve patente na EXPO-98, e o restaurante do Parque das Nações.
Com quatro pisos e um jardim aprazível, a sede tem salas para refeições, convívio, jogo, leitura, reuniões. A cave está destinada à juventude, que a Casa não tem conseguido atrair. Esse parece ser, de resto, o principal problema da instituição. Com cerca de seis centenas de sócios a pagar quota, mais de metade tem uma idade superior a 60 anos.
A Casa de Macau em Lisboa é apenas uma, das associações da diáspora espalhada por vários continentes. Na vizinha Hong Kong, há o Clube Lusitano (fundado em 1866). Na América do Norte é onde a comunidade parece denotar um maior espírito associativo. Nos Estados Unidos, há a União Macaense Americana (UMA, Inc.); o Lusitano Club da Califórnia; e a Casa de Macau (USA) Inc.. A suplantar os EUA, pelo menos em número, está o Canadá: a Casa de Macau e o Clube de Macau, ambos em Toronto; a Casa de Macau Club, de Vancouver; e a Macau Cultural Association, de Western Canada. No Brasil, existem Casas de Macau em São Paulo e no Rio de Janeiro. Por fim, na Oceânia, a Casa de Macau na Austrália. Só na África não brotou uma casa agrupando os «filhos da terra» e todos os que têm Macau no coração.
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