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São memórias de quem testemunhou um período conturbado que marcou a vida e as gentes de Macau. O apego à terra e a curiosidade inata fez com que Leonel Barros nunca parasse de observar e colocar no papel os costumes e as vivências do território e da população. A Guerra Sino-Japonesa e a Guerra do Pacífico constituem um capítulo marcante da história de Macau no século XX. Apesar do estatuto de neutralidade, as consequências da guerra invadiram e ocuparam o território até 1945. Com a chegada dos japoneses ao sul da China, Macau tornou-se cada vez mais num porto de abrigo para refugiados. Foram momentos difíceis, mas assistiu-se também a uma onda de solidariedade sem precedentes e a um período de enriquecimento cultural nunca antes visto. A tudo isto assistiu Leonel Barros que foi acumulando relatos e histórias, agora reunidas neste livro.
Livro de Leonel Barros, 2006, Associação para a Instrução dos Macaenses (APIM), Macau

No dia 18 de Setembro de 1931, o Japão atacou a cidade chinesa de Shenyang e ocupou rapidamente a Manchúria. No ano seguinte, a 5 de Março, o ministro português dos Negócios Estrangeiros afirmou que Portugal mantinha relações antigas de amizade com ambas as nações asiáticas. Portugal declarava-se assim um país neutro.Macau, porém, não ficou indiferente. Logo após a ocupação japonesa das três províncias do Nordeste da China, os residentes de Macau reuniram apoios materiais e espirituais. Foram criadas associações de assistência que enviaram para o interior de China várias equipas para reforçar a resistência chinesa e dar apoio às vítimas da guerra. A Associação de Assistência Quatro círculos (Académico, Musical, Desportivo e Teatral) destacou-se pelo papel desempenhado na resistência. O auxílio proveniente de Macau dividia-se em várias vertentes. Os habitantes do território divulgava, informações sobre a guerra, angariavam verbas e davam assistência quer aos refugiados, quer às tropas chinesas que combatiam. Foram recrutados cerca de duas centenas de jovens que foram enviados para campos de batalha. Soube-se depois que muitos desses jovens chegaram mesmo a sacrificar a vida para salvar a pátria chinesa. Em 1937, quando os japoneses se preparavam para capturara Nanquim (Nanjing), o governo de Chiang Kai-Shek mudou a capital da China para Chongqing. A partir desse momento, tornaram-se frequentes as vindas de vapores japoneses ao porto de Macau. Ao governo português, os japoneses garantiam que vinham apenas com intenções comerciais. Chogqing acabou por ser uma das cidades mais bombardeadas da História.Entretanto, as notícias iam chegando a Macau através dos jornais de Hong Kong de língua inglesa que relatavam as atrocidades cometidas pelas tropas japonesas no norte da China, sobretudo em Nanquim, onde terão sido mortos mais de 250 mil residentes, naquele que ficou conhecido como o Massacre de Nanquim.
A partir de 1938, Macau passou a ser sobrevoado por aviões japoneses que lançavam ataques aéreos nas cidades chinesas mais próximas. No decorrer de 1938, um oficial da Polícia de Segurança Pública de Macau deslocou-se a Xangai para receber material de guerra que tinha sido anteriormente encomendado. Nessa viagem, o general japonês Kusumata garantiu-lhe que a neutralidade de Macau seria respeitada. Ficou também a promessa de que os aviões iam deixar de sobrevoar o território macaense para não assustar a população. Os japoneses acabaram por instalar bases militares nas ilhas de Sam Chou e Nam San, precisamente entre Macau e Hong Kong. A fortaleza de Boca-Tigris, não muito longe, a caminho de Cantão, acabou por também ser bombardeada, sendo inútil o uso das metralhadoras por parte dos chineses. Depois da ocupação de Hong Kong, em 1941, os soldados japoneses reforçaram na ilha da Lapa os vários postos de observação para impedir a saída e entrada de navios de carga do Porto Interior. A partir de Dezembro de 1941, o Diário de Macau publicou uma notícia com origem em Londres que rapidamente se espalhou pela cidade à velocidade da luz. Segundo a (falsa) notícia, os japoneses tinham ocupado Macau. Mas afinal, tinham sido as tropas holandesas e australianas que tinham ocupado Timor, perante o receio de uma invasão japonesa da ilha.Nas ruas de Macau, os polícias e os soldados passaram a fazer o seu turno armados de pistolas-metralhadoras, com granadas e capacete de aço.
Às nove e meia do dia 16 de Janeiro de 1945, numa manhã de sol a poucos meses do fim da guerra, eu estava de sentinela junto à Porta de Armas do quartel de São Francisco quando vi uma esquadrilha de seis caças. Voavam muito baixo e faziam evoluções sobre o centro da cidade. Momentos depois, voaram em direcção ao hangar do antigo Centro de Aviação Naval no Porto Exterior e lançaram sobre o local algumas bombas, ao mesmo tempo que disparavam tiros de metralhadoras. Inicialmente, pensei tratar-se de um combate aéreo entre aviões americanos e japoneses. No entanto, apercebi-me que estava errado quando o fumo negro e espesso começou a subir ao céu e o hangar da Aviação Naval ficou em chamas. O meu comandante, capitão Álvaro Salgado, dirigiu-se ao terraço do quartel, donde se podia perceber melhor o que se estava a passar. Mandou de imediato formar a companhia, seleccionando pessoal especializado em fogo antiaéreo. Álvaro Salgado colocou os homens nos postos de defesa, construídos com sacos de areia no terraço do quartel.Lembro-me de ter olhado para o céu e ver que dois dos seis caças estavam a “picar” em direcção ao local onde me encontrava. Pressentindo que iam abrir fogo, não tive outra solução senão esconder-me atrás da guarita. Nesse mesmo instante, ouviram-se tiros que atingiram a Porta de Armas e o interior do edifício. As balas partiram vidros, causaram estragos no terraço, perfuraram as canalizações e os esgotos. Tive sorte, apenas fui atingido no capacete e nas costas por vidros, estilhaços de tijolos e areia. No interior do quartel, alguns soldados estavam com ferimentos ligeiros. O pânico foi maior por ninguém saber como transportar os feridos para o Hospital Conde de São Januário. Um dos soldados conseguiu retirar da garagem do quartel uma moto com site-car, onde foram transportados os feridos. O percurso até ao hospital foi muito arriscado, tendo sido necessárias muitas manobras. Ao longo da subida da Calçada de São Francisco, o condutor da moto foi tentando escapar aos disparos de um dos caças que o perseguia. Ao mesmo tempo, o quartel continuava a ser atacado e, por isso, os militares não conseguiam sair das instalações para montar o material de defesa antiaéreo no porto mais alto da Colina da Guia. Só conseguimos sair do quartel após a retirada de todos os aviões, por volta das 11 e 45 minutos. O rancho, normalmente servido às 11 da manha, só chegou duas horas depois. Enquanto almoçávamos, sobrevoavam Macau cerca de 45 aviões fortalezas voadoras que, vistos de baixo, pareciam não ser maiores do que a palma de uma mão. Muitos residentes pensaram que Portugal tinha entrado no conflito mundial, razão pela qual Macau estava agora a sofrer as consequências dessa decisão. A meio da tarde desse mesmo dia, largas centenas de pessoas foram-se deslocando ao local do ataque, numa tentativa de perceber o que tinha acontecido. Mas, inesperadamente, a esquadrilha de aviões reapareceu e lançou mais duas bombas com o objectivo de destruir por completo o hangar. No local estava armazenada uma grande quantidade de combustível (anteriormente utilizado nos hidroaviões de Macau) que, nessa manhã, deveria ter sido entregue aos japoneses, em troca de arroz.Afinal, através da rádio “Voices of America”, ficou a saber-se mais tarde que a esquadrilha de seis aviões era americana. Durante esse dia, as forças militares dos Estados Unidos atacavam várias posições japonesas em Hong Kong, várias cidades da China e… Macau.
Muitos residentes garantem que durante o ataque a Macau era possível avistar da costa um porta aviões e alguns navios de guerra. Várias bombas foram lançadas sobre o hangar, destruindo-o quase por completo. O local ficou reduzido a um monte de ferros retorcidos, uma fachada e duas paredes laterais. Do Museu de Pescarias, instalado na cave do hangar, nada restou.Aparentemente, o primeiro ataque ao hangar, inicialmente apenas com rajadas de metralhadora, terá sido só um aviso para que ninguém se aproximasse e para que o pessoal da marinha, que lá vivia com as famílias, abandonasse o local. Foram também disparados tiros às viaturas oficiais e do Corpo de Bombeiros, impedindo-as de chegar ao hangar. Sentindo-se em perigo, muitos ocupantes saltaram dos veículos em andamento e rastejaram até ao abrigo mais próximo. Um automóvel dos militares japoneses também tentou chegar ao hangar, mas foi obrigado a retroceder perante o fogo dos caças e a perseguição até à Rotunda Ferreira do Amaral. Os militares terão sido salvos pela presença no local de centenas de pessoas, facto, que terá dissuadido os aviões americanos de continuar a atacar os inimigos japoneses. Curiosamente, enquanto tudo isto decorria, pouco ou nenhum movimento se verificou no consulado britânico que funcionava na Praça Lobo D’Ávila. Desconfiou-se depois que terá partido daqui a denúncia dos aliados da existência de combustível no hangar. Muitos outros locais do território acabaram também por ser atingidos por balas e estilhaços. A estação de rádio de D. Maria foi atingida por tiros de metralhadora e por algumas bombas que, por alguma razão desconhecida. acabaram por não explodir, causando apenas alguns danos materiais. Por outro lado, registou-se um incêndio num gerador dos Serviços Autónomos de Electricidade do Leal Senado, localizado próximo do jardim da Montanha Russa, onde funcionava a central da MELCO (a empresa de fornecimento de energia eléctrica que perdeu a concessão durante a guerra e voltou a adquiri-la depois de alcançada a paz).O navio “Masbate”, que se encontrava fundeado próximo do Bairro 28 de Maio, foi igualmente atingido. Um ataque que provocou alguns feridos. No quartel de São Francisco também se registaram feridos. Os danos estenderam-se a moradias do Bairro Tamagnini Barbosa, à antiga Missão de Fátima e ao velho relógio que existia no Arco das Portas do Cerco. As balas perfuraram igualmente os automóveis do governador Gabriel Maurício Teixeira e do chefe dos Serviços de Economia, Pedro José Lobo, assim como algumas viaturas do Corpo de Bombeiros.O governo português protestou contra estes acontecimentos e pediu igualmente responsabilidade por considerar o ataque “ um vil atentado contra a soberania portuguesa nestas paragens”. Os Estados Unidos responderam de imediato, manifestando o profundo pesar e anunciando a abertura de um inquérito para apuramento de responsabilidades. Mas, na verdade, nos meses seguintes sucederam-se outros ataques americanos, embora de menores dimensões. Terminada a guerra, esteve em Macau uma missão militar americana com o objectivo de verificar os estragos nos locais atingidos e definir as indemnizações a atribuir aos feridos.Ocasionalmente, após este ataque, vários bombardeiros sobrevoavam Macau. Mais comuns eram os aviões catalina que, nas noites sem luar, voavam a poucos metros da água e lançavam minas sobre as águas que os japoneses utilizavam para navegar até Hong Kong. Às vezes ouvia-se o rebentar das minas.
Artigo de Leonel Barros sobre o mesmo tema publicado no jornal Tribuna de Macau a 1 Set. 2009
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