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Uma carta datada de 27 de Janeiro de 1604 e dirigida ao Geral da Companhia de Jesus fala da inauguração solene da igreja da Madre de Deus e descreve com bastante pormenor o seu interior e recheio. A construção é de 1564. Contem este texto algumas anotações e comnentários feitos já no século XX, mas que desconheço o autor.

“A outra coisa de se representar a dita obra foi festejar com ela a nova igreja, que se fez em lugar (i.e;em vez) da outra que se nos queimou (em 1601), para a qual se passou o Santo Sacramento de uma igreja pequena,de que entretanto usávamos (acomodando para isso “uma sala das escolas”–P.Guerreiro,o. e l.cs.).
Véspera do Natal (de 1603), pela manhã, dizendo o P.Visitador (Alexandre Valignani) a derradeira missa, na igreja velha (e provisória), e a primeira (missa do Galo) na nova, levando (o mesmo Padre Visitador) o Santíssimo Sacramento com uma solene Procissão,onde foram todos os nossos Padres e Irmãos (jesuitas)–31 Padres e 31 Irmãos com sobrepelizes e os Padres com suas estolas–foram nesta procissão cinco charolas (ou andores) de relíquias e imagens que temos no Colégio, acompanhadas de muitas tochas, música, dansa, passando pelas principais ruas vizinhas ao Colégio que estavam bem armadas (i.e;adornadas), disparando cinco Naus que estavam no porto (interior), à vista da procissão, muita artilharia, acudindo a este acto tão solene toda a Cidade, que não cabia a gente pelas ruas, toda muito alegre por ver acabada esta igreja,que tanto desejava.
A noite de Natal houve várias invenções de fogo (de artificio), Matinas e Missa cantada, que foi a primeira (que se celebrou na igreja nova da Madre de Deus).
Saiu esta igreja muito capaz, clairosa (i.e;cheia de claridade), e no verão (próximo de 1604 e nos seguintes) será muito fresca, por ter as três portas da fronteira (ou frontaria voltadas) ao sul, que é o vento nesta terra fresco,no tempo de calma.
Tem três naves (: a do oriente, das 11.000 Virgens ou das mulheres; a do ocidente, de Jesus ou dos homens; e a do meio) e três capelas (:a capela-mor; a das 11.000 Virgens, do lado da epistola; e a de Jesus, do lado do Evangelho. Muitos anos mais tarde, como se dirá, acrescentou-se a capela de S.Francisco Xavier) e dois altares no Cruzeiro (: o do Espirito Santo e o de São Miguel).
O arco da capela-mor e os das duas colaterais são todos de pedra branca lavrada e muita parte da fronteira (ou frontaria, que, portanto, em fins de 1603, devia ir já muito adiantada); e são os três arcos primeiros de pedra que se viram nesta terra.
Gastaram-se nesta fábrica e com uma torre para os sinos, com seu terrado (ou terraco) donde se descobre toda a cidade e barra (do porto exterior) por onde entram e saiem as Naus, sete mil taéis pouco mais ou menos: tudo de esmolas que deram os moradores desta Cidade.
O corpo da igreja tem de largo oitenta e quatro palmos (ou sejam 84×8,68 polegadas=729,12: 0,0275m=26,513m) e de comprido mais de cento e sessenta (ou sejam 83,20m). Estriba sobre oito colunas de pau grosso, quatro por banda. As paredes têm de alto perto de cinquenta palmos (ou sejam 15,784m); por causa dos tufões se não fizeram mais altas: são de taipa (ou terra batida).
A capela-mor tem de largo quarenta e quatro palmos (ou sejam 13,88m) e de comprido sessenta e dois e de alto perto de sessenta e quatro palmos. Com as duas capelas da ilharga fica forrada de madeira fina do Japão que chamam foniquim,com uma formosa tarja ou remate de JESUS, no meio, dourado a prega dura,a modo de cliamães (?) dourados com cordões, lacarias e rosas de ouro e azul.
Fez-se mais um corredor para fechar o Colégio pela banda do norte,por onde estava muito aberto e patente aos ventos pouco sadios nesta terra. Por este corredor,s e vai a uma tribuna que está à ilharga da capela-mor. Por baixo dela (da tribuna), vai a sacristia, com outras casas de despejos (ou arrumações) para servico da igreja e da casa. Por cima (da tribuna), correm alguns cubículos,(de) que tinhamos grande necessidade, para agasalhar os Padres e Irmãos que vieram estes três anos e padeceram alguma incomodidade por se queimar em parte e haver depois de reparado (cfr. “R. e P.”,1955,ps.756 e 757) com os tufões e o quatro (?) velho que tínhamos primeiro.
Fez-se também uma portaria, junto à igreja, não menos necessária que o corredor. Isto é o que se oferece (narrar) por carta a V.P. (Vossa Paternidade,o Geral da Companhia,R.Pe.Cláudio Aquaviva)–Macau,27 de Janeiro de 1604″.
“Na carta ânua deste 1620 deste Colégio de Macau,–anota o Ir.A’lvares–que se conserva na Secretaria da Província, diz (-se) o seguinte:”Também os mordomos da Confraria de JESUS,que é de homens da terra, estão, agora (em 1620), acabando uma formosa alâmpada de prata para a sua capela (de JESUS); e um dos mordomos da mesma Confraria deu trinta cruzados para umas cortinas lavradas, com seu fio de ouro para (adorno do)retábulo (do altar dessa capela)”.
Na mesma carta ânua (de 1620,se) diz que,–resume por suas palavras o dito Irmão–fazendo uma Procissão, à roda da igreja, que o P.Visitador (Jerónimo Rodrigues) levava o (suposto) cabelo de Nossa Senhora, em uma custosa custódia,acompanhando a procissão o Sr. Bispo de Japão, D.Diogo Valente (S.J.) e que (o Bispo), naquela manhã, dera a comunhão aos Irmãos da Congregação de Nossa Senhora da Anunciada em uma capela particular do Colégio (o que) todos estimaram muito”.
Não é verdade, portanto, o que se diz em “Mosaico”,vol.III,N.º14,p.114,ser a Confraria de Na.Sra.dos Remédios a la.de Macau.
“O (suposto) cabelo de Nossa Senhora ainda se conserva(va) nesta igreja (em 1746). Diz mais (a carta de 1620:) “os mordomos da Confraria do Espírito Santo desta igreja também deram,este ano (de 1620), para o seu altar (do Espirito Santo) quatro castiçais de prata, que têm de peso mais de duzentos cruzados, e um frontal, com seu ornamento de veludo, com sanefas de veludo, tudo de fio de prata tirado pela fieira. O veludo é carmesim que chegou a 150 cruzados.
E para (o) altar de S.Miguel, que fica da banda da Epístola, também se fez outro semelhante’.
“Já não há–adverte o Irmão A’lvares,em 1746–nesta igreja tal Confraria (do Espirito Santo).(Existe) sim a festa e novena do Espírito Santo (que) se faz, nesta igreja, todos os anos; e Manuel Favacho, já defunto, é o mordomo que deixou legado para isso. Também Vicente Rodrigues é benfeitor deste altar e (do) de S.Miguel e desta igreja, como consta do título dos benfeitores desta igreja.
Em 1608, se fez a porta nova da igreja, da banda de oeste,com seu arco de pedra,e o corredor do coro. Tem agora (por 1746) mais a igreja uma capela de S.Francisco Xavier,que fez a Congregação do mesmo Santo em 1692 (Mas, em 1689, já se menciona a capela, na referida lista dos defuntos). E’funda (e) está da parte do Evangelho.”
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