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Inícios do Seminário de S. José da autoria de J. M. Braga e publicado no “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”, Macau, 39 (445) Abr. 1941, p. 981-987
Nenhuma outra organização exerceu tão grande influência nas circunstâncias e prosperidade da vida antiga de Macau, como êsse grupo de homens ilustrados, possuïdores de consideráveis recursos e cheios de entusiasmo, conhecidos por Ordem da Companhia de Jesus.
Instituída numa época em que os navegadores portuguêses, comerciantes e missionários, andavam na sua plena actividade, os membros dela contribuíram com tôdas as veras da sua alma para a causa do reino de Cristo, e os Portuguêses ofereceram-lhes ilimitado apoio.
Assim, após a fundação de Macau, os Jesuítas não só tomaram parte activa no progresso da pequena colónia, mas ainda, com o volver dos anos, devido à aceitação de que gozavam nas côrtes orientais, conseguiram prestar auxílio a Macau, em várias situações dificultosas. Foi assim que os Jesuítas participaram, com Macau, nas horas de luta e vicissitudes, e se regozijaram com a comunidade nos seus sucessos e nos momentos de alegria.
Os magnificos resultados da evangelização, levada a cabo pelos Jesuítas no Arquipélago japonês, trouxeram vantagens comerciais aos Portuguêses, com lucro muito além do que poderiam sonhar os cidadãos macaenses mais optimistas. Mas quando Satanaz semeou joio entre a semente do esfôrço cristão no campo missionário do Japão, fecharam-se as portas do país do Sol Nascente aos homens do Ocidente.
Entretanto, porém, os jesuítas haviam atraído a atenção e eventualmente a confiança do imperador da China, e, pouco a pouco, mas com bom resultado, alcançaram ótima reputação e influência na China.
Macau, por sua vez, aproveitou com os sucessos dos Padres Jesuítas em Pequim e os Macaenses retribuíram a sua dívida aos membros da Companhia. O Colégio de S. Paulo, por exemplo, foi erecto, já no século XVI, com a contribuïção dos negociantes portuguêses, para acudir às necessidades das Missões no Japão. E mesmo após o encerramento das portas japonesas aos Portuguêses, o Colégio de S. Paulo continuou ainda durante anos a ser conhecido por « Cabeça da Missão do Japão ».
É verdade que êste império se fechou aos Padres e aos Portuguêses, mas as missões começaram a florescer na China.
Por êsse tempo, Portugal libertou-se do jugo espanhol mas a influência da Espanha em certos meios de Roma parece ter afectado os destinos da diocese de Macau. Assim Macau, que fôra a sede do enorme bispado da China, Japão e outras ilhas e regiões extensas, passou a ser, em 1588, com a erecção duma nova diocese no Japão, a sede do Bispado da China, posto que o Colégio de S. Paulo continuasse a ser o centro da Missão japonesa.
Depois da separação de Portugal e Castela, com a Restauração da Independência Portuguêsa em 1640,é significativo o facto de, por mais de meio século, a Santa Sé não ter julgado conveniente a nomeação de mais bispos para Macau, confiando a administradores o cuidado dos interesses da vasta e importante diocese.
Mais tarde, a diocese de Macau foi sucessivamente desmembrada e reduzida, mas, por fim, a Santa Sé reconheceu o direito de Macau a ter o seu bispo. A diocese de Macau começou, digamos assim, a ter existência formal com a nomeação do Bispo D. João do Casal. Empreendeu êste Bispo uma longa e dificultosa tarefa de organização, num momento em que a situação económica de Macau era muito precária. Acresciam outras dificuldades, pois a sua nomeação efectuara-se, quando a infeliz controvérsia dos Ritos Chineses ameaçava extinguir a obra cristã na China. A perseguição aos Cristãos, desencadeada em seguida, agravou mais as condições locais de Macau.
O Colégio de S. Paulo continuou a existir, mas a D. João do Casal sucedeu o Bispo Trigueiros e a êste D. Hilário de Santa Rosa, O. F. M. O novo Prelado não consentiu que Macau se deixasse esmorecer na inércia.
Já quase dois séculos eram passados desde que os Portuguêses se tinham estabelecido no Oriente, e quanto trabalho árduo não fôra destruído!
No entanto, apareciam na China novos missionários de outras nacionalidades. Os Italianos iam tomando conta de tudo quanto a medida das fôrças lho permitia; e tinham em Nápoles, no Colégio dos Padres Chineses, um dos seus expedientes; os Espanhóis trabalhavam em Fukien e noutras partes; os Franceses levavam por diante uma campanha nacional incompatível com o trabalho dos seus padres. Os Portuguêses, que trnham aberto o caminho e haviam recebido colaboradores de tôdas as nacionalidades, eram postos de parte.
Os recursos de Macau sofriam uma baixa considerável, o comércio e os interêsses comerciais de Portugal haviam desaparecido totalmente da China e a Côrte portuguêsa tinha mais negóeios em que se ocupar do que um pedaço de terra distante e reduzida à pobreza. Macau havia, pois, de viver entregue a seus próprios recursos.
Como se tornara difícil a aquisição de padres em Portugal para a obra missionária da China, o Bispo Hilário resolveu erigir um seminário especialmente destinado à Diocese de Macau. Esta medida proveria Macau dos meios necessários à preparação do pessoal missinário, que satisfizesse as exigências do campo de acção na China. Foi êste o plano que deu origem ao Seminário de S. José.
Diz se que existe nas estantes da Biblioteca de Lisboa o manuscrito «Noticiais da diocese de Macau», escrito pelo Bispo Hilário em 1743, no qual se pode encontrar a recapitulação da história eclesiástica de Macau. O manuscrito faz menção da Catedral e Sé de Macau, das outras duas igrejas paroquiais, dos quatro mosteiros e dos dois Colégios, o do S. Paulo e o de S. José, então recentemente fundado, ambos a cargo da administração dos Padres Jesuítas.
No notável manuscrito « Azia Sinica e Japonica», de Fr José de Jesus Maria, vem mencionado o Colégio de S. José como já existente.
O autor dêste manuscrito chegou a Macau em 1742 e saíu daqui em 1745 e o livro foi escrito, apròximadamente, entre os anos 1744-45, o que atesta já existia nêsse tempo o Colégio de S. José, por conseguinte provàvelmente antes de 1742.
Por outro lado, o Padre Casimiro Cristóvão de Nazaré informa-nos que tinha entre mãos um folheto ms. em 4.º de 11 páginas, intitulado. « Apontamentos históricos sôbre o Colégio de S. José de Macau », datado de 1874, descrevendo as quatro fases ou épocas dêste colégio e que no manuscrito se Iê:– « No colégio de S. Paulo, fundado pelos Jesuítas em 1590 se habilitavam os missionários destinados a evangelizar o imperio de Japao, e no de S. José, fundado em 1747 3 os que tinham que ir missionar no imperio da China ».
Vê-se que o fim principal do Colégio de S. José era fornecer obreiros evangélicos ao campo da China para se distinguir do Colégio de S. Paulo, que continuava a preparar padres, depois de se haver fechado o Japão, para evangelizar Annam, Cochinchina, Borneo, Correa, etc.
A célebre «Colecção de vários factos, etc.,» tinha uma referência a 1758, em que afirma que o Colégio de S. José, com a respectiva igreja, obra dos Jesuítas de Nankim, já existia.
Segundo a tradição de Macau, a instituição começou em pequenas casas generosamente dadas aos padres jesuítas por Miguel Cordeiro, piedoso negociante, residente em Macau. A localidade era conhecida por Matto Mofino e evitada por muita gente por causa dos fantasmas.
A doação incluía três pequenas casas, que constituíram a primeira escola e principal centro, incluíndo a capela da missão de Nanquim, que procuravam então erguer os Jesuítas, uma das pequenas esferas missionárias deixadas ao Padroado Português após a tempestade que resultou da confusão originada pela questão dos Ritos na China. Uma das casas era a Procuradoria da Missão de Nanquim.
Quando, mais tarde, o Seminário começou a construir um muro em volta da propriedade, surgiu uma acrimoniosa disputa com os Agostinianos sôbre a linha limítrofe.
André Ljnngstedt, que consultou todos os papéis e manuscritos do Bispo D. Joaquim de Sonsa Saraiva, o último Bispo Português do Nanquim, manuscritos êsses preparados e catalogados em Macau, durante muitos anos de estudo, formando uma admirável colecção de documentos e notas, diz: «O plano da igreja e do Colégio é o dos Jesuítas. A pedra angular foi lançada há muitos anos, mas os jesuítas não tiveram o prazer de ouvir Missa em S. José antes de 1758.»
Parece, pois, que a igreja foi começada cedo e só levada a cabo por volta do ano de 1758. Esta indicação parece dar a data da conclusão da Igreja de S. José e das actuais casas do Colégio, que foram também erigidas nesse tempo.
Podemos conjecturar que a escola e a missão começaram cêrca do ano de 1732 e que as casas existentes foram concluídas pelo ano de 1758.
Um dos primeiros, senão o primeiro Reitor do Colégio de S. José foi o P. João Duarte. Êste padre, que era Vice-Provincial da China, assinou um documento como Reitor do Colégio em 1749.
Numa descrição da Embaixada de Francisco Xavier de Assis Pacheco e Sampaio à China (1752-3), lemos que, após o seu regresso de Pequim a Macau, o Embaixador foi festejado e que «Sendo os sucessos da Embaixada tão gloriozos. ….. se cantasse o Te Deum, e celebrasse Missa Solemne, nomeando-se para orador o Padre Luíz de Siqueira, Superior do colégio de São Joze, que dezempenhou com hum elegante panegyrico o grande conceito e reputação, que nesta terra lhe tem adquirido as suas prendas».
Estava ainda no seu alvorecer a actividade do Colégio de S. José, quando chegou a Macau a ordem de prisão de todos os Jesuítas.
As instruções foram guardadas em segrêdo e tiveram inesperada execução no dia 5 de Julho de 1762, às 3 h. a. m., quando António Bernardo Ribeiro, Juiz dos Órfãos e do Fisco real, e António de Mendonça Côrte-Real, Governador e Capitão-geral, acompanhados de soldados e oficiais, bateram à porta do Colégio de S. José e prenderam os padres que então ali residiam. Eram êles:
Padre Luiz de Sequeira, Reitor
Padre Dionizio Ferreira, Padre Ministro
Padre Manuel de Aguiar
Padre Francisco da Silva
Padre José da Silva
Padre António Falcão
Padre António Simões
Padre Manuel Carvalho
Padre António Xavier Morabito
Irmão José Folleri
Irmão Simão de Almeida
Irmão Francisco da Cunha
Irmão Simphoriano Duarte
Todos êstes padres foram escoltados até ao Convento de S. Francisco e ali ficaram entregues ao cuidado de Frei Joaquim de Santa Roza.
Ali permaueceram alguns meses, após os quais foram transportados para Goa, tendo morrido o Pe. Luís Sequeira pouco antes de chegarem à capital da Índia. De Goa fizeram-nos embarcar para a Baía e finalmente para Lisboa, onde foram internados nas prisões da Tôrre de S. Julião.
Logo após a extinção da Companhia de Jesus, foram confiscados e mandados para Goa todos os fundos do Colégio de S. José, juntamente com os dos outros membros da Ordem nas possessões Portuguesas do Oriente. Em Macau ficaram exceptuados dez mil taéis, que ficaram guardados no cofre e administração do confisco e, do rendimento anual dêste capital, eram aplicados 500 taéis à conservação do edifício e ao custeio das despesas da igreja.
Assim fecha o primeiro período da história do Colégio de S. José de Macau. A sua actividade cessou e as portas desta nobre instituïção foram fechadas, porém não sem profundo pesar da parte de todos aquêles que se interessavam pelo trabalho dos ilustres padres jesuítas. Os consideráveis haveres da Ordem foram perdidos e dissipados, sem mencionar os grandes bens que possuíam em Oitem (Lapa), e ilha de Malanchou, dada pela China aos padres, em paga de serviços. A perda dêstes bens tem sido profundamente lamentada muitas vezes durante êstes dois séculos que decorreram desde então.
Macau, Fevereiro de 1941 – J.M.BRAGA
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