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Texto do Padre M. M. Variz publicado no “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”, em Julho de 1938.

A “Rútila Glória da Cirurgia Portuguesa” / DR.JOSÉ CAETANO SOARES
Digno de um lugar de honra na História de Macau / Pelas brilhantes páginas de serviços
Prestados durante 21 anos / Como Médico devotadissimo do Municipio e Director do “Hospital S.Rafael”
O.D.C. / O AUTOR
Mais razão é que queira eterna glória
Quem faz obras tão dignas de memória
Lusíadas
O investigador histórico que de canhenho em punho viajasse pelo Delta do Chu-Kiang e Si-Kiang alguns anos antes de 1550,de-balde tentaria descortinar Macau e sua histórica origem.
Seu nome também ainda não figurava aos olhos ávidos do geógrafo que,debruçado sôbre as cartas do mar da China,lutasse por lobrigar sua existência.
Descoberto,porém,o novo caminho marítimo para a Índia,e dobrado o Cabo da Bôa Esperança por Vasco da Gama,quebrado assim o encantamento do Mar Tenebroso,espalharam-se a breve trecho os portugueses por todo o Oriente.
A varinha mágica das nossas velhas descobertas fêz logo surgir Macau,única possessão europeia na China durante três séculos,primeiro impório do comércio exclusivo com o Japão e o Celeste Império,Roma do Extremo Oriente,bêrço e asilo da fé católica naquelas remotas paragens.
Foi uma graça da Providência para a Europa e para o Cristianismo,diz Eudore de Colomban,êste estabelecimento às portas da China,e tôdas as nações da Europa deveriam de agradecer ao nobre Portugal ter ousado realizar,com tantos perigos,esta emprêsa,tão necessária,por assim dizer,à acção europeia,como aos disígnios de Deus sôbre a nação chinesa».
Macau foi em sua origem um pequeno pôrto,ninho de piratas e abrigo de pescadores.Foram colonizadores portugueses que arcaram com a nobre e árdua tarefa de transformar esse rochedo arido e inhospito na bela cidade que hoje se ostenta nésse recanto do império chinez.
Ao valor e bravura dos nossos soldados cabe a glória de tão merecido prémio,da parte da generosa dinastia Ming,por haverem conseguido exterminar a enorme praga de piratas que infestavam as regiões próximas,pondo a saque o comércio da vizinha cidade de Cantão e a navegação do mar de tôda a China meridional. O que as esquadras imperiais não haviam conseguido até ali,levaram-no a efeito um punhado de bravos portugueses que,em pouco tempo,limparam as ilhas de malfeitores,destruihdo os barcos de piratas e prestando à China o assinalado serviço que,mais duma vez,haviam de repetir.
Foi em 1557 que a raça lusíada se estabeleceu definitivamente em Macau,após o malôgro das suas tentativas de estabelecimento,em Liam-pó (1545) e Chin-cheu (1549). Mas já:
«Em 1553, refere Cardim, alguns portugueses abordaram pela primeira vez o lugar chamado Amagau (Macau) a-fim-de fazer secar sôbre a praia os objectos de seu comércio, molhados por uma tempestade».
«Antes disso operavam as suas transações em Sanchuão,em Tamau e sobretudo em Lampacan»
«Construiram algumas cabanas com juncos e bem de-pressa os comerciantes construíram casas de madeira,tijolo e pedra. Mas o seu estado era ainda muito precário».
Uma vez ao abrigo das tempestades e piratas,a Colónia,composta de comerciantes portugueses que afluíam das ilhas vizinhas e dum grande número de chineses e de escravos malaios e índios,pôs-se a trabalhar activamente.
A Colónia que acabava de nascer», diz o Pe. Francisco de Sousa, no “Oriente Conquistado”, «era uma feitoria comercial, contando apenas 900 portugueses; um vigário geral de Malaca, ajudado por alguns jesuítas fazia administração dos sacramentos.
Agora urgia nomear um chefe e caiu a escôlha num rico negociante, Diogo Pereira, que foi eleito capitão de terra pelos habitantes. Êste era ajudado no govêrno por dois cidadãos dos mais notáveis e influentes, formando assim,uma espécie de triunvirato, que tinha a seu cargo regular tôdas as questões de ordem pública e política.
Entretanto, a Colónia desenvolvia-se, a pouco e pouco, e construíam se várias casas para as bandas da enseada do Patane e alguns estabelecimentos já seculares já religiosos.
Camões foi um dos primeiros habitantes da cidade,entre 1556 e 1558. Aí,nesse rincão encantador, onde o mar não deixa de entoar litanias à epopeia do nosso passado, compôs algumas êstrofes do seu imortal poema e o soneto: Alma minha gentil, junto à gruta que hoje conserva o seu nome,então lambida por esse mar, cuja melopeia triste e dolente tantas vezes acompanhara os cantos e as tristezas do genial poeta português.
Por causa do número sempre crescente dos fiéis, diz E. Colomban, construiu-se em Macau em 1565, para satisfazer à nccessidades do culto, uma residência que teve por fundador o Pe. Francisco Peres; esta residência muito de-pressa se transformou num colégio, que veio mais tarde a ser o célebre Colégio de S.Paulo».
Em 1569 era a fundação da Santa Casa da Misericórdia e dos hospitais de S.Lázaro (Lazareto) e S.Rafael,obras do acendrado zêle e actividade do grande Prelado que em vida se chamou D.Melchior Carneiro, primeiro Bispo que governou a Diocese de Macau, desmembrada de Malaca e erecta em diocese em 1575.
O comércio desenvolvia-se a olhos vistos e tomou proporções tão grandiosas que Macau,breve,se tornou uma cidade riquíssima e o seu pôrto o maiór impório comercial no Oriente. Diogo de Conto assegura que era ela então a raínha,- a cidade mais opulenta de todo o Oriente. Era o grande entreposto dos mares orientais,a chave do comércio com a China,hospedando em sen seio os embaixadores estrangeiros que não logravam ser recebidos na Côrte Imperial As suas naus iam negociar à Europa, Índia, Manila e Japão. Foi esta, sem dúvida, a idade de oiro de Macau (1595-1602), em que viu seu brilhante florão abornado com o pomposo título de «Pérola do Oriente».
Nesta altura, o número de seus habitantes,agora mais numeroso do que nunca,pondo de parte as pequenas casas que, ao princípio, havia feito para seu uso, ocupou-se em construir lindas e nobres vivendas para seu domicílio. Não se esqueceram, porém, de melhorar a casa de Deus,a quem tudo deviam. Foi assim que,em 1602,seus olhos viram,com imensa satisfação, elevar-se para os ares a monumental fachada da igreja de S.Paulo, edificada em 1575-1585 e, enriquecida agora, com esta obra prima que lhe era adaptada. Esta relíquia histórica do passado, jóia preciosíssima de arquitectura,corre como sendo planta do Beato Carlos Spínola, apóstolo e mártir,e foi trabalhada por astistas vindos do Japão. Ainda hoje campeia por sôbre os escombros e ruínas do templo, devorado pelas chamas dum violento incêndio, em 1835, a atestar às novas gerações o génio e a fé daqueles tempos.
Daqui,dêste recinto sagrado partiram, nas eras de antanho, como que de novo cenáculo,os primeiros pioneiros da Religião, muitos mártires, que foram acender o facho luminoso do Evangelho nas regiões inóspitas da China e Japão. «Macau tem sido por espaço de três séculos o baluarte do Catolicismo no Extremo Oriente».
Se Portugal, no alto conceito que dêle fez um estrangeiro, se assemelha a uma grande nau, lançada sôbre o imenso Oceano, tendo por bandeira a cruz,símbolo daquela civilização que êle levou a tôdas as partes do mundo, a «Cidade do Santo Nome de Deus de Macau» deve afigurar-se-nos, como um magestoso pôrto, onde essa nau fundeava para descarregar esquadrões de missionários, zelosos obreiros da vinha do Senhor, que arrotearam,fertilizaram e purpuraram com seu sangue, suores e fadigas êste terreno sáfaro do Extremo Oriente.
«Aos padrões, que firmavam as descobertas e suas datas, sucederam as históricas fortalezas com seus altivos baluartes e atroadores canhões; mas, como as conquistas guerreiras, firmando o domínio não eram suficiente alicerce para consolidar o alargamento da pátria,as caravelas,que iam singrando os oceanos,junto com os heróis do mar, transportavam também os elementos indispensáveis, que deviam relacionar com a mãe-pátria os povos que iam descobrindo»:-os Missionários.
Assim se ergueu, em Macau, no alto do Monte, junto á igreja de S.Paulo, e contemporânea do templo, a primeira fortaleza, obra dos missionários, que garantisse a defesa dos cristãos à sua roda, que tão brilhantes serviços havia de prestar um dia nas lutas contra os holandeses. Só mais tarde é que outras fortalezas foram construídas, em Macau, de 1612 a 1638.
Voltando alguns anos atrás, vêmos que em 1583 era criado o Senado, a quem, em 1810, foi dado o justo e merecido título de «Leal». Este era composto do Bispo,juiz e algumas pessoas gradas da Cidade. A êle estava confiada a administração pública da cidade,estando o govêrno da Colónia confiado a um Governador Militar.
Durante a dominação espanhola em Portugal (1580-1640),nunca foi consentido que bandeira inimiga flutuasse sôbre fortalezas de Macau, pois os chineses nenhuma outra reconheciam como sendo a do Grande reino do mar de Oeste (Ta-Ssi-Yang-Kuó). Todavia, os holandeses, invejosos do nosso bom êxito comercial no Oriente, tentaram,durante êste período, atacar por várias vezes Macau,sendo sempre repelidos. É gloriosa para a cidade a data de 24 de Junho de 1622, em que os holanleses sofreram a mais estrondosa derrota.Já o inimigo cantava vitória,quando foi surpreendido da fortaleza do Monte (S.Paulo) pelo troar de quatro canhões que o Pe.Rhó aprestara. Ao mesmo tempo, as poucas tropas da cidade,compostas de soldados portugueses, indianos, cafres e senhores seguidos dos seus escravos, caiem com tal fúria sôbre os assaltantes que, de 800 homens que desembarcaram, sòmente 200 levaram vida.
Devido a êste acontecimento foi nomeado no ano seguin te (17 de Junho de 1623) o primeiro Governador efectivo de Macau, D.Francisco de Mascarenhas.
Com as perseguições movidas pelo Japão ao Cristianismo (1610-1640) viu Macau a era da decadência do seu comércio. Durasse êle mais 25 anos e traria a Macau tanto oiro e prata,como possuia Jerusalem no tempo de Salomão.
Também os ingleses, a pretextos políticos, ocasionados pela campanha do Rossilhão(1793), levados por intuitos meramente comerciais, fizeram as suas tentativas de desembarque em Macau,sendo a primeira em 1807,seguida duma segunda, em 1810, que terminou bem para os portugueses, graças à habilidade do Ouvidor Arriaga.
Durante o govêrno inérgico de Ferreira do Amaral foram ocupadas militarmente as ilhas da Taipa e Coloane, construindo-se na primeira uma fortaleza, em 1847,a pedido e com ininterrupta satisfação dos habitantes délla e sem litigio de senhorio differente pois eram constantemente incomodados pelos assaltos de piratas que lhes levavam os haveres e entes queridos.
A igual sujeição tributária se ofereceram,depois,as povoações das ilhas de D.João e Tai-Vong-Cam ou da Montanha.
A ilha da Lapa (também conhecida por ilha dos Padres), onde tivemos outrora uma bateria, oi também propriedade nossa e existem documentos que nos atestam êsse direito. Ainda que mais não seja, a tranquilidade e segurança das populações,que habitam Macau e daquelas localidades,exigem que a parte leste da Lapa esteja sob a ocupação portuguesa. O direito internacional confirma plenamente o direito de posse que Portugal tem a êsse território. Mas, na hora presente não nos é lícito ocupar-nos de assuntos tão melindrosos e delicados.
E, agora, para terminar, ascendamos, num vôo rápido de águia, às grandes altitudes dêsse prodigioso Himalaia do Passado. Lá no alto brilham os candores de rútila pupila do grande sol eterno da História. Que nos diz?
Diz-nos que a história de Macau até 1849, é uma espécie de milagre contínuo, se atendermos as grandes vicissitudes e lutas contínuas por que passou,terminando com a gloriosa arremetida e arrojado triunfo do Passaleão (25 de Agosto de 1849).
Hoje, nas horas que correm, mais do que nunca, parece a história de Macau um verdadeiro milagre da Providência, se bem considerarmos as muitas nuvens negras que se têm acastelado sôbre o lindo céu da «Cidade do Santo Nome de Deus».
Parece incrível como esta Colónia tenha podido e sabido conservar-se à margem dos acontecimentos políticos do grande conflito sino-nipónico, sem ser lesada.
Só o fino trato,alta diplomacia e profundo conhecimento da psicologia oriental dum Governador -três vezes Governador – que há-de passar à história com o nome de Dr. Artur Tamagnini Barbosa, têm sabido remediar tantos males e afastar tão iminentes perigos.
Glória ao Estado Novo! Glória ao Sr.Ministro das Colónias, Dr.Francisco Vieira Machado, que, num rasgo genial de inspiração e clarividência, numa hora em que as finanças de Macau iam também pela via da Amargura, soube obviar a tantos males, dando-nos um Governador que nos faz viver horas de paz no meio dos perigos que de todos os lados nos cercam.
Macau, 10 de Junho de 1938.
Pe. M. M.Variz
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