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Selecção de momentos da vida de Camilo Pessanha a partir do momento em que Macau lhe surge na vida…
A 19 de Agosto de 1893 é aberto o concurso para leccionar em Macau. Concorrem 39 professores. Camilo Pessanha é seleccionado, tal como os seus futuros amigos, Wenceslau de Moraes, João Vasco e Horácio Poiares.
A 18 de Dezembro Pessanha é nomeado para exercer o cargo de professor da 8.ª cadeira, Filosofia Elementar, do Liceu Nacional de Macau.
A 19 de Fevereiro de 1894 Pessanha parte para Macau, no navio espanhol Santo Domingo, chegando a 10 de Abril desse ano.
A sua adaptação ao território faz- se, devido à fraqueza que o assola, com extrema dificuldade. Reside na Hospedaria de Hing-Ki, pagando 40 patacas por mês. Em Abril o Governador José M. Horta e Costa determina que os professores do Liceu tomem posse do seu cargo.
Em Maio, perante a sua intenção pública de exercer a advocacia em Macau, os advogados locais caluniam-no, temendo a sua concorrência. Inicia, com entusiasmo, o estudo da língua e cultura chinesas. Numa carta enviada ao pai confidencia que nos primeiros três anos não deverá ter nenhuns alunos. A sua adaptação consolida-se: «Quase já estou animado a escrever sobre coisas do Oriente. A vida, por aqui, é cheia de impressões novas cada dia, ou eu me finjo que é, em um delírio artificial de grandezas, que me serviu de coragem para partir, e ainda me vai servindo para não esmorecer de todo.»
No final desse mês elabora o regulamento do Liceu, que será aprovado a 14 de Agosto. Em Setembro, por proposta sua, o Conselho Pedagógico do Liceu de Macau adopta o livro Compêndio de Filosofia Nacional, de P. A. Monteiro. A 28 desse mês começa a leccionar Filosofia e exerce o cargo de secretário do Liceu, auferindo 1,050 patacas, ou seja, 558$00.
No início de 1895 redige, em Macau, os poemas «Passou o Outono já, já torna o frio» e «Manhã de cera».Em Abril, com Horácio Poiares, entre outros, faz parte de uma comissão cujo papel é «receber todas as representações, relatórios de tribunais e quaisquer observações concernentes à solução das dificuldades que possam dar-se na aplicação das disposições do Código Comercial» e preside à primeira mesa do júri examinador da instrução primária do Liceu de Macau. No final desse ano deixa a Estalagem de Hing-Ki, passando a residir na Boavista. Ainda neste anio é atacado pelo jornal eclesiástico A Voz do Crente. Segundo Danilo Barreiros, compra uma concubina a um corrector, de quem vem a ter, um ano mais tarde, o filho João Manuel. Devido à peste bubónica que grassava em Macau, as autoridades propõem o encerramento do Liceu. Pessanha opõe-se a esta medida. Visita Hong Kong, na companhia de Wenceslau de Moraes. Colabora no jornal O Progresso com três poemas: «Paisagens de Inverno», «Neiges D’Antan» e «Manhã de Cera».
Na Primavera de 1896 adoece. Em Junho é nomeado presidente do júri de exames de Língua e Literatura Portuguesa e vogal do júri de Geografia, História e Filosofia Elementar. Em Julho uma Junta Médica que o examinou declara que tem uma astenia geral. Devido à sua fragilidade e ao clima de Macau, é-lhe recomendada, para tratamento, uma estadia em Portugal.
A 22 de Julho parte de Hong Kong para Marselha chegando a Lamego em Agosto. Em Setembro a Junta Médica que o examinou concede-lhe 90 dias de repouso.
A 21 de Novembro nasce o seu filho João Manuel, sendo a mãe a sua companheira chinesa, Lei Ngoi Long.
Em Fevereiro de 1897 inicia o regresso a Macau onde chega em Abril e retoma os seus cargos de secretário e de professor do Liceu. Aprofunda a sua amizade com Wenceslau de Moraes, seu colega no Liceu. Volta a ficar doente mas depois recupera. A 13 de Dezembro João Manuel de Almeida Pessanha, filho de pais incógnitos, é baptizado na igreja paroquial de Santo António. Foi seu padrinho Alfredo Augusto Ferreira de Almeida, funcionário público, natural de Lamego, e «madrinha, por devoção, Nossa Senhora da Conceição».
No início de 1898 Pessanha oferece-se para conduzir o processo de reabilitação do coronel Mesquita, oficial que, num ataque de loucura, matara a mulher e filhos, suicidando-se em seguida. Em fins de Abril realizou-se uma audiência no Paço Episcopal, para serem ouvidas as testemunhas do processo canónico de reabilitação do coronel Mesquita. Camilo Pessanha era o advogado que representava a comissão organizadora daquela iniciativa. Em Maio colabora no Jornal Único, periódico editado para comemorar o 4.° Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia, com o poema «San Gabriel».
A 4 de Junho o jornal O Porvir, de Hong Kong, afirma que correm boatos de que o Jornal Único foi publicado depois da data prevista por vários artigos terem sido excluídos. Entre estes, um de Camilo Pessanha «em que este distintíssimo advogado estigmatiza o facto, ocorrido, não se sabe onde, de ter um advogado, depois de conseguir uma separação, recebido como honorário a honra da sua patrocinada». Artigos de Horácio Poiares, Tamagnini Barbosa e João Vasco, também teriam sido cortados, ainda segundo aquele periódico.
Em Julho Pessanha é vogal do júri de Literatura Portuguesa, Geografia, História e Filosofia. A 28 de Agosto é publicado em Macau o primeiro número do jornal O Lusitano, que se prolongou até 24 de Dezembro de 1899, por 70 números. Este periódico, de que existem apenas o n.° 1, na Biblioteca Nacional de Lisboa, e o n.° 2, na Biblioteca Municipal de Coimbra, teve colaboração de Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes e de João Pereira Vasco, que o dirigiu.
Em Outubro Wenceslau de Moraes deixa de leccionar no Liceu, fixando-se definitivamente no Japão.
A 16 de Fevereiro de 1899 Pesaanha é nomeado conservador do Registo Predial de Macau. Não tomou posse por incompatibilidade com o cargo que ocupava no Liceu. No Verão o ministro da Marinha e Ultramar envia vários telegramas, convocando-o para se deslocar a Portugal. É presidente do júri de exames de Francês e vogal do júri de Latim e Filosofia. A 26 de Agosto embarca para Portugal num navio da companhia «Messageries Maritimes», via França.
Em Maio de 1900 pede a prorrogação da tomada de posse do cargo de conservador do Registo Predial e regressa a Macau em Junho tendo-se demitido do cargo de professor do ensino secundário e toma posse do cargo de conservador do Registo Predial. Em Agosto passa a leccionar Economia Política, Direito Comercial e História da China no Curso de Comércio. A 24 de Agosto João Manuel de Almeida Pessanha é perfilhado, de acordo com escritura notarial feita na residência de Camilo Pessanha, no Largo de Santo Agostinho, n.º 1, em Macau. Foram testemunhas os seus colegas do Liceu, João Pereira Vasco e Mateus António de Lima. No respectivo registo, afirma-se que a criança está a ser criada em «casa do china Kuoc-va-vai, que vive nesta cidade dos seus rendimentos». É nomeado vogal de uma comissão para apreciar a concessão de terrenos nas colónias e especificamente em Macau.

Camilo Pessanha em traje de mandarim ca 1894-1896

Em 1902 é auditor do Conselho de Guerra e em 1903 o Governador, coronel Arnaldo Novais Guedes Rebelo, convida-o para leccionar a cadeira de Economia Política e Direito Comercial.Uma informação acerca do seu desempenho, datada de 21 de Dezembro, menciona que esteve de baixa, até àquele momento, durante oito meses e 21 dias; Albano Alves Branco, seu superior hierárquico, afirma: «Este funcionário é muito inteligente e honrado. É digno de promoção» , apreciação ratificada por Pangim, Goa.
A 16 de Abrol de 1904 toma posse do cargo de Juiz de Direito Substituto de Macau e em Julho é nomeado presidente de uma comissão para elaborar um regimento administrativo de negócios sínicos. Em Setembro os advogados Nolasco da Silva e Manuel da Silva Mendes tecem várias acusações contra Camilo Pessanha: desorganização no cumprimento das suas tarefas judiciais, incúria relativamente aos registos da Conservatória, ausência do local de trabalho, corrupção, etc. Em Outubro o delegado Luís Horta afirma que Camilo Pessanha «é um magistrado digno e honesto em toda a acepção da palavra, gozando geral e merecidamente da fama de honrado e de um dos espíritos mais brilhantes do funcionalismo público de Macau».A 11 de Novembro é arquivado o processo que lhe fora instaurado por falta de provas.
12 de Abril de 1905 é a data da sua última assinatura na Conservatória do Registo Predial. Uma Junta Médica considera que sofre de anemia e concede-lhe 90 dias para tratamento. Em Agosto a referida Junta Médica aconselha-o a partir para Portugal, para se restabelecer. É isso que faz em Agosto. De Lisboa, escreve ao seu amigo João Pereira Vasco, ex-redactor de O Lusitano e ex-colega do Liceu de Macau, solicitando-lhe o empréstimo de 150$00 para se tratar. Confessa: «Cheguei meio morto: feliz, em todo o caso, de ter arribado a terra portuguesa, do que já tinha desesperado. […] Escrevo-lhe muito à pressa e, demais, os meus sofrimentos e a minha fadiga inibem-me de dizer-lhe muitacoisa, como desejava. Se alcançar algumas melhoras, irei procurá-lo pessoalmente, e conversaremos largamente.»Apresenta-se no Ministério do Ultramar em Lisboa. Em Setembro uma Junta Médica concede-lhe 120 dias para tratamento.
Em Janeiro de 1906 parte para Macau, no navio holandês Stoomvart-Maatschappij– Nederland–S. S.Voudel e chega a Macau a 16 de Fevereiro. Reassume o seu cargo de conservador do Registo Predial no dia seguinte e em Março é nomeado professor de Economia Política e de Direito Comercial. Em Junho toma posse do cargo de professor de «Noções de História Universal, História da China e especialmente das suas relações políticas e comerciais e história pátria». Em Junho é instalada a Loja n.º 309, Luís de Camões, do Rito Escocês, sendo venerável Camilo Pessanha, que na altura tinha o 9.º grau. As sessões realizam-se no «Templo» Macau, nos dias 1 e 16 de cada mês. O respectivo endereço é «Sociedade de Beneficência Agência do Trabalho».Em Junho um juiz de Hong Kong visita Macau. O Governador Roçadas oferece um jantar em sua honra, contando com a presença de Camilo Pessanha e de Francisco de Carvalho e Rêgo.
A 28 de Maio de 1920 profere uma conferência sobre estética chinesa, no Grémio Militar de Macau, a qual se prolonga por duas horas. Contribui com cinco patacas para a edificação de um mausoléu para o coronel Mesquita e colabora na edição do jornal A Verdade, integralmente dedicada ao Coronel Vicente Nicolau de Mesquita, com o texto «As Duas Datas». Em Agosto na qualidade de auditor, faz parte do júri que julga, em Conselho de Guerra, os piratas que raptaram dezoito crianças em Coloane. O julgamento realizou-se no Quartel de S. Francisco. em Novembro adopta Angélico como seu nome simbólico maçónico, sendo o número 6980. Pertence à «Loja Luís de Camões». Em Novembro com César Augusto Freire de Andrade e Fernando Celle de Meneses, fez parte de uma comissão que se debruçou sobre o estatuto das Canossianas, congregação também em causa na sequência do decreto de 8 de Outubro que estipulava a expulsão dos jesuítas.
Am Abril de 1911 faz parte de uma comissão cujo objectivo é estudar um projecto de regulamento de um «Tribunal Privativo» para os chineses. Em Junho o conselho pedagógico, advoga o não encerramento do Liceu de Macau, porquanto seria negativo para a população do território, que veria o acesso à cultura portuguesa bloqueado. Por outro lado, na sua opinião, a influência portuguesa no Oriente tenderia a enfraquecer.
Em 1912, no prefácio à obra de Morais Palha, Esboço Crítico da Civilização Chinesa, fustiga com severidade os mandarins chineses – a sua falta de palavra, a crueldade e insensibilidade perante o sofrimento alheio.No final do Verão, Alberto Osório de Castro visita-o em Macau: «Sâme-Khun entrava cerimoniosamente com a bandeja lacada de chá para mim, o amigo de Camilo, e a divina droga para ele. A bolinha negra, levemente amolecida e incendida à chama de álcool, entrou a fumegar no longo cachimbo popular de bambu, preparado silenciosa e pacientemente por Sâme-Khun, e a esparzir no quarto a acre emanação da sua magia de Além-Mundo. O Camilo fumava a longos haustos caladamente, e reanimava-se pouco a pouco como se o tocara vara de condão. Ficou outro, cheio de vida, de alegria expansiva. Rapidamente se vestiu e viemos ambos almoçar com minha mulher ao Hotel da Boa Vista de que também era comensal. Voltámos a sua casa todos os três, ainda na animação esfuziante, na euforia física que lhe dera o ópio da manhã; e foi-nos mostrando, uma por uma, as suas inumeráveis maravilhas, que enchiam salas e corredores, desde os painéis enroláveis dos séculos XV a XVII, às pinturas de Su-Loc-Pang, o Ho-Ku-Sai da China; as porcelanas de inestimável valor, as delicadíssimas e frágeis preciosidades de jade, de ágata, de cristal de rocha lapidado, de alabastro, de prata, de charão, de marfim, de ébano, de nácar, de sândalo.»
Em Setembro reassume a função de conservador do Registo Predial e em Dezembro Mário de Sá-Carneiro pede a Fernando Pessoa que lhe envie poemas de Camilo Pessanha: «Rogava-lhe encarecidamente que me enviasse para mostrar ao Santa Rita, os violoncelos do Pessanha e o soneto sobre a mãe – e mesmo mais algum se para isso estivesse.»
Em Janeiro de 1913 é nomeado Juiz da 1.ª Instância da Comarca de Moçambique, mas em Março renuncia à carreira de magistrado, alegando a sua saúde precária. Ainda nesse mês o Governador de Macau apoia o poeta no seu pedido para não ser colocado em Moçambique. Em Março requer, por duas vezes, que o cargo de Juiz lhe não seja atribuído por motivos de saúde. No segundo documento, solicita que, na impossibilidade de ficar na Conservatória do Registo Predial, possa concorrer ao cargo de professor da 5.ª cadeira do Liceu, como qualquer outro residente em Macau. Fernando Pessoa regista no seu diário: «Recitei versos do Pessanha.»
Em Setembro de 1914 O Progresso, jornal de Macau, publica a tradução de oito elegias chinesas, dedicando-as sucessivamente a Carlos Amaro, Wenceslau de Moraes, A. P. de Miranda Guedes e Albino Forjaz de Sampaio. Em Outubro Pessanha é nomeado professor de Português das primeiras classes do Liceu de Macau. Reprodução de um original de ca. 1915-1920
A 7 de Fevereiro de 1915 a sua colecção de arte chinesa é exposta no Palácio do Governo. Constituída por cem peças, incluía exemplares de pintura e caligrafia, bordados, brocados, indumentária, joalharia, cloisonné, champlevé, bronze com incrustações, escultura em madeira e marfim, unicórnio, pedras duras e vidro, embutidos em madeira, charão e cerâmica. O poeta ofereceu-a então ao Estado português.
Em Agosto solicita ao Reitor do Liceu de Macau que seu filho seja admitido ao exame da 3.ª classe e é exonerado do cargo de professor do Liceu. Em Setembro parte para Portugal em licença graciosa de sete meses e 14 dias. A viagem, na mala inglesa, a bordo do vapor Sardinia, em 1.ª classe, estava dividida em duas fases: Macau-Gibraltar, cujo bilhete foi custeado pelo Estado; para a segunda, Gibraltar-Lisboa, foi-lhe entregue a quantia de 27 escudos. Segundo o Oriente Português, «o Sr. Governador, que o tinha em muita conta, dedicou-lhe nesse dia um tiffin, findo o qual o conduziu na sua carruagem até ao cais de embarque, onde se via um grande número dos seus amigos a desejarem-lhe boa viagem».
Em Março de 1916 requer ao Ministro da Marinha e do Ultramar a interrupção da licença, provavelmente por, em Lisboa, não ter acesso ao ópio. Regressa a Macau onde chega em Maio e reassume o cargo de conservador do Registo Predial. É recebido, a 6 de Junho, no grau 15.° (Cavaleiro do Oriente ou da Espada) e a 22 de Julho no grau 18.° (Cavaleiro Rosa-Cruz), na Loja Maçónica de Macau. Os seus colegas da Maçonaria são José Vicente Jorge, Constâncio José da Silva e, eventualmente, Silva Mendes. A 9 de julho O Progresso, jornal editado em Macau, publica uma crónica de viagem de Velhinho Correia, que encontrara Camilo Pessanha em Singapura. De acordo com aquele jornalista e deputado, o poeta estava extremamente descrente em relação à situação político-social portuguesa. Os cinco meses passados em Lisboa teriam sido pouco gratificantes, o que o levara a antecipar a data de regresso. Ainda segundo Camilo Pessanha, as lutas partidárias e o oportunismo campeavam em Portugal. Para cúmulo, a colecção de arte chinesa, que doara ao Estado, ainda não tinha sequer chegado a Lisboa.
Em Abril de 1917 escreve a Trindade Coelho, lamentando a atitude arrogante do director do Museu de Arte Nacional, relativamente à colecção de peças de arte que oferecera ao Estado.
Em 1918 é louvado em portaria pela doação ao Estado de uma colecção de 100 peças de arte chinesa.
Em 1919 torna-se Juiz do Tribunal Militar Territorial e requer a exoneração do cargo de conservador do Registo Predial. É ainda nomeado professor do 4.° grupo do Liceu.
Recebe a comenda da Ordem de Santiago pelos «serviços prestados às letras e artes em Macau» e é nomeado l.° Substituto do Juiz de Direito de Macau para o ano judicial seguinte. Em Julho toma posse do cargo de professor efectivo, para que fora nomeado por decreto de 28 de Fevereiro e faz parte do júri de exames do terceiro ano do curso de intérprete-tradutor, na companhia de Mateus António de Lima, José Vicente Jorge, Chan-Shau-k’un e António Gonzaga de Melo. Em Agosto é eleito director das 3.ª e 4.ª classes do Liceu, para o ano lectivo que se aproxima, e vogal do conselho administrativo daquele estabelecimento de ensino. Em Setembro substitui o Juiz do «Tribunal Privativo dos Chinas» e a 15 de Setembro profere uma conferência na cerimónia de abertura do ano lectivo, no Liceu de Macau.
Em Março de 1920 é-lhe permitido o exercício da advocacia nos tribunais e nas repartições públicas. A 20 de Junho com José Vicente Jorge, Manuel da Silva Mendes, D. José da Costa Nunes, o Governador, Morais Palha e 14 outros intelectuais funda o Instituto de Macau, que tinha como objectivo estudar e divulgar a influência portuguesa no Oriente.
Em Outubro é publicada a Clepsidra, com organização de Ana de Castro Osório, proprietária da Editora Lusitânia. Em Novembro é nomeado director de classes (3.ª, 6.ª e 7.ª – Letras) do Liceu e em Dezembro, Carlos Delgado, Reitor do Liceu de Macau, afirma que Camilo Pessanha tem exercido o cargo de professor com «pontualidade, zelo e reconhecida competência». Nesse mês adere à organização de um baile de solteiros, dinamizado pelas mulheres solteiras de Macau.A
Reside na Rua da Boavista; publica os seguintes textos: «Legenda Budista (tradução do chinês)» em A Academia; «O Olho Vivo» em O Eco do Povo; «Passou o Outono já, já torna o frio» em O Liberal e «Comunicado» em O Macaense.
Em janeiro de 1921, na companhia de Manuel da Silva Mendes, parte para Cantão em busca de antiguidades chinesas.
Pessanha (Esq.) e Morais

Em Julho faz o seu testamento, perante o notário Luís Nolasco da Silva. Nomeia seus testamenteiros José Vicente Jorge, Mateus António de Lima e o Dr. Morais Palha. Deixa expresso o desejo de ser enterrado civilmente e de que o seu funeral «seja o menos dispendioso e aparatoso possível: sobretudo que não seja acompanhado de música». Pede ainda que as pessoas não enviem coroas. Favorece nitidamente Kuoc Ngan Yeng, a «Águia de Prata», em detrimento do filho. A sua companheira chinesa herdará, mais tarde, acções do «Hong Kong and Shanghai Banking», a mobília e os objectos do quarto, uma valiosa cama e uma mobília de sala. Lega a sua biblioteca à Repartição do Expediente Sínico, cabendo o restante ao filho. Ainda neste ano lecciona Geografia no Liceu de Macau; é o 1.º Substituto do Juiz de Direito do Tribunal Judicial, Delegação da Procuradoria da República e Conservatória do Registo Predial; continua a exercer a advocacia; reside na Rua da Praia Grande, n.° 75, em Macau. Publica o ensaio Serena Justiça (contraminuta de apelação em processo crime) e, em O Macaense, o poema «Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho».Na obra Palavras Serenas, Lencastre da Veiga narra, de uma forma capciosa, a sua agressão a Camilo Pessanha.
Em 1922 encontra-se bastante doente, com uma pneumonia. A 9 de Abril o jornal macaense O Liberal anuncia o seu restabelecimento. A 27 uma Junta Médica, constituída por Morais Palha e Peregrino da Costa, concede-lhe trinta dias para convalescença, por apresentar «fadiga muscular consecutiva a pneumonia gripal». A 30 de Maio reassume as suas funções de professor do Liceu de Macau. Durante este ano lectivo rege as cadeiras de Português e de História no Liceu.Publica, em colaboração, no jornal O Liberal, «Acta Única».
Em 1923 Sebastião da Costa visita-o regularmente e descreve, em pormenor, o seu quotidiano doméstico: «O poeta estava sempre em casa àquela hora, sempre na cama; passava assim as tardes inteiras e só por excepção saía. Aberta a porta, atravessava as duas salas-museus, dobrando em ângulo recto, para chegar ao quarto. Levantava o reposteiro e via, através das grades amarelas, as barbas ainda negras e aqueles olhos pequenos e luminosos do sonhador. […] Para o meu espírito de contextura clássica aquele desalinho romântico era afligente. Pelo chão, por sobre os armários, enchendo uma consola estilo império, atravancando os cantos, quase impedindo os nossos movimentos, uma infinidade de bonecos, jarros, vasos, porcelanas e bronzes chineses de variada forma, beleza e valor. Ao lado da cama grande outra pequena, fora de uso e mal coberta por um biombo baixo. Por trás daquela um cabide alto e desengonçado, sobre o qual se amontoavam rolos de pintura chinesa. Nas paredes, desenroladas muitas outras, apodrecendo no contacto da alvenaria humidíssima naquela China de atmosfera saturada muitos dias do ano. Por sobre o móvel império, uma bela pintura em seda, um açafate de flores, cheio de vida, rico de cor.[…]À cabeceira um rosário antigo que o poeta me contou, com lágrimas nos olhos, ter pertencido à sua defunta mãe e nunca mais o ter deixado.[…]Bastas vezes lemos poemas do Muy Antiguo y Muy Moderno y Muy Siglo XVIII de R. Darío. Embora os não lesse como uma Singerman, com dificuldade consentia que outrem o fizesse: deliciava-o a sua leitura. Mais de uma vez o vi chorar na estância da Sonatina.[…] As duas salas tinham as paredes cobertas de pratos, travessas e quadros. Diferentes móveis, armários e mostradores, continham as mais variadas peças de porcelana brilhante, azul esta, vermelha aquela, doirada, branca de Fukien, azul e branca de Quine-Lung, amarela de Pequim. A um canto figuras de todos os tamanhos. Pelo chão heróis e divindades da crença búdica ou da superstição local. Nos vãos das portas, rimas de pratos cobertos de pó e de teias de aranha. Pelo chão, três lindos tapetes persas, com vestígios evidentes de irreverências dos mal-educados pequinenses.Nesta barafunda, descobri sob muitos outros sem valor, um precioso prato Quang-Hi, que me confessou havia anos ter perdido de vista. O seu amor pela Arte era uma calamidade para a Arte: aquelas pinturas estariam reduzidas dentro em breve, a tiras e os belos tapetes a trapos cobertos de nódoas. Peças de loiça muitas os cães partiram. […] À medida que a tarde ia caindo, a tensão vital do poeta diminuía, amortecia-se o olhar; faltava-lhe alguma coisa, o excitante já agora indispensável da sua vida. Das primeiras vezes ainda fez cerimónia, depois, pediu desculpa, tocou a campainha a chamar a concubina chinesa e mandou preparar o ópio. A bolinha cor de mel três vezes inchava ao fogo da lâmpada: três haustos, e não num único como os adestrados fumadores chineses. […] Depois nenhum torpor; pelo contrário, um recuperar de lucidez e viveza, um acordar de nervos: mais palavras, mais ideias, mais fogo.»Continua a leccionar no Liceu de Macau, sendo da sua responsabilidade o ensino das disciplinas de História (3.ª, 5.ª e 7.ª classes) e de Filosofia (7.ª classe).
Em 1924 é director de classes. Blasco Ibañez visita Macau. O poeta e Silva Mendes, entre outros, esperam-no no Palácio do Governador. Em Fevereiro realiza-se um concurso de arte no Salão do Leal Senado. Camilo Pessanha faz parte do júri, que integra também o professor Lara Reis. Em junho num artigo publicado no periódico de Macau A Pátria, manifesta a opinião de que «toda a obra de arte precisa, antes de mais nada, de ser bem equilibrada». Afirma ainda: «Macau é o mais remoto padrão da estupenda actividade portuguesa no Oriente […] Note-se que digo padrão, padrão vivo: não digo relíquia.» Considera Wenceslau de Moraes um notável prosador. Em Junho profere um discurso na sessão de homenagem a Luís de Camões.O professor Eugénio Dias, demitido do seu cargo pelo Governador, ameaça Camilo Pessanha de morte. Em Julhoa ssocia-se à homenagem prestada aos aviadores Brito Pais, Sarmento de Beires e Manuel Gouveia, que fizeram a 1.ª travessia Portugal-Macau, publicando um breve texto num opúsculo alusivo. Por iniciativa de César de Almeida, recebe em sua casa Brito Pais e Sarmento de Beires. Este aviador confirma a forma descuidada como Pessanha conservava parte da sua colecção de arte chinesa e evoca o seu «rosto de olhar cavado e barba negra no qual havia o que quer que fosse de bíblico». A 17 de Setembro é nomeado para exercer o cargo de director da 3.ª, 6.ª e 10.ª classes do Liceu de Macau. Em Dezembro o Diário de Lisboa questiona José de Figueiredo, responsável pelos museus em Portugal: «Dez anos decorridos… Onde está a preciosa colecção de arte oferecida por Camilo Pessanha ao governo português?» José de Figueiredo responde à local do Diário de Lisboa, alegando que a referida colecção ainda não tinha sido exposta por falta de vitrines…
Em Julho de 1925 exerce o cargo de Reitor Substituto do Liceu de Macau e é nomeado director da 4.ª e 7.ª classes do Liceu de Macau para o ano lectivo seguinte. Em Setembro pede a exoneração daquele cargo. A partir de 28 de Setembro, está de licença por motivo de doença. Provavelmente nos finais deste ano, é visitado por A. de Albuquerque, quando já se encontrava numa fase terminal da sua doença. Este jornalista testemunha que os seus autores de cabeceira eram Baudelaire, Verlaine, Rimbaud e Mallarmé e que, antes de falecer, queimou poemas. Relata ainda que Camilo Pessanha pediu a dois avaliadores que seleccionassem os objectos de arte mais valiosos, para os oferecer ao Estado português. Perante opiniões antagónicas relativamente ao valor das peças, declarou que eles pretendiam, depois da sua morte, «comprar por duas patacas a essa pobre china e ao desgraçado do meu filho as melhores peças que possuo».
No início de 1926 doa ao Estado uma segunda colecção de arte chinesa, solicitando que este acervo seja reunido ao que doara em 1915, sendo então entregue ao Museu Machado de Castro, sediado em Coimbra, sua terra natal. A 1 de Março morre em Macau, após prolongado sofrimento, na sua residência na Rua da Praia Grande n.º 75, às oito horas da manhã, vítima de tuberculose pulmonar. A 2 deMarço é sepultado, pelas 17 horas, no Cemitério de S. Miguel, em campa rasa. Por sua expressa vontade, o funeral foi civil, sem música nem coroas, tendo o Governador estado presente. O Reitor do Liceu, Borges Delgado, fez-lhe um elogio fúnebre: «Espírito altamente filosófico e amplamente liberal, alma aberta a todas as dores e infortúnios, encarava a vida desprendidamente, sem os preconceitos vãos que por aí pululam, a contaminar tudo e todos.» A 3 de Março Luís Nolasco, seu colega, afirma: «Era já certo; questão defendida por Pessanha era questão ganha; tal a força da sua argumentação e a perspicácia do seu engenho.» a 18 de março a Rua do Mastro passa a chamar-se Rua Camilo Pessanha.
João Manuel de Almeida Pessanha requer o pagamento dos vencimentos de seu pai. A 28 de Março o Diário de Notícias divulga que deixou à Repartição dos Negócios Sínicos de Macau toda a sua biblioteca; ao Museu Nacional de Machado de Castro, de Coimbra, a sua colecção de álbuns de pinturas chinesas. Em Maio o filho põe à venda peças que faziam parte da sua colecção de arte chinesa, de acordo com o jornal O Combate. Neste ano, alguns periódicos assinalaram o falecimento de Camilo Pessanha, publicando vários poemas, designadamente o ABC, Boletim da Agência-Geral das Colónias, Contemporânea, Diário da Tarde e Diário de Notícias.
Fonte: Biblioteca Nacional Digital
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