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Num serão cheio de histórias, Henrique de Senna Fernandes transportou a audiência para um Macau que já não existe mas que continua vivo na memória dos muitos que cá viveram… Palestra proferida n IIM em 2002.
… Naqueles tempos as filhas serviam apenas para casar, os filhos eram tudo, uma injustiça aos olhos de Senna Fernandes, mas um modo de pensar que felizmente hoje em dia está ultrapassado. O Santa Rosa de Lima para as raparigas e o externato do Seminário para os rapazes eram as melhores escolas da altura, disso se assegurava a severidade das freiras e dos padres. Externato que entretanto desapareceu, “falta imperdoável daquele que já morreu e acabou com isso” diz Senna Fernandes com cara triste, mas sem revelar o nome do personagem.
Falando dos bairros que existiam na altura, Senna Fernandes conta que todos conheciam o bairro em que cada família vivia. O bairro de Santo António era o bairro dos “mamões”, os chás gordos que lá se davam “eram de caixão à cova”, tendo mesmo falecido uma pessoa durante um desses chás gordos, “era um indivíduo que comia, comia, e depois sentava-se, comia tanto que um dia morreu mesmo de tanto comer” contou Senna Fernandes fazendo os presentes rir.
Em 1940 é construído o estádio onde se encontra o Canídromo, “lá se defrontavam o Tenebroso e o Argonauta” relembra, mas a febre do futebol passou quando surgiu o hóquei -“havia muita actividade, as pessoas discutiam e torciam pelas equipas, os jogadores eram os nossos ídolos”.
O cinema teve grande força em Macau, terra que chegou a ser considerada o local do mundo onde mais se via cinema. “Passava-se a vida no cinema” conta Senna Fernandes; lembrando “o Capitol que hoje é horroroso, o Apolo e o Victoria que entretanto desapareceram, e o Império em que se fazia rolar latas de bebida.
Alguns elementos da audiência também se recordavam e acrescentaram mesmo – “o Oriental”. O ambiente é de cumplicidade quase como se a sala inteira fosse um café onde se reúnem amigos para lembrar os velhos tempos e contá-lo aos mais jovens e aos que cá não viviam.
“Chique era aos sábados no ‘Apolo’, depois do cinema ia-se tomar um café ao ‘Rubi’. Macau não tinha noção das distâncias, o ‘Golden Gate’ no Hotel Central, já em decadência, ficava muito longe”, porque naqueles tempos as Portas do Cerco eram no fim do mundo, lembra Senna Fernandes, que adianta mais uma história caricata.
“Os cinemas tinham várias classes, primeira, segunda, terceira, e uma outra “classe” grátis para as pessoas pobres, que se sentavam atrás do palco em bancos rasos, e viam tudo ao contrario”, diz com o entusiasmo de quem se lembra de quando a vida nem sempre era fácil, ela era muito mais alegre.
Falou também dos restaurantes da altura. “Ia-se à messe da Marinha, os cozinheiros eram magníficos, espantosos, sargentos vindos de Portugal”, recorda, salientando que “na altura não havia restaurantes portugueses, nos anos 50 e 60 por vezes tínhamos almoços que começavam à uma da tarde e às seis ainda estávamos a comer”.
É nos anos 50 que se dá uma diáspora. Hong Kong abre as portas e cerca de mil e setecentos jovens macaenses aceitam o desafio. “Isto enfraqueceu os macaenses” diz Senna Fernandes, contando que também nessa altura, muitos foram para os Estados Unidos, para o Brasil e para a Austrália, “um golpe terrível para a comunidade macaense” acrescenta.
Os macaenses estavam na função pública, que na altura não tinha lugar para muitas pessoas, e “com a velha mania de todos quererem ser doutores”, os macaenses deixaram outras profissões nas mãos dos chineses, não havia um alfaiate macaense, os carpinteiros, os electricistas, os mecânicos, todas profissões de mérito mas que na altura eram consideradas inferiores foram tomadas por pessoas que mais tarde vieram a fazer fortunas. E foi esta uma das razões pela qual os macaenses saíram de Macau a partir dos anos 50, para encontrar empregos que em Macau escasseavam.
Com os anos 60 uma nova diáspora leva famílias tradicionais, inteiras, a desaparecer de Macau, “os Borges, os Silva…” entre outros que Senna Fernandes referiu, desaparecem de Macau completamente.
Em 1961 dá-se um acontecimento histórico, a criação da STDM que mudou Macau para sempre, “uma mudança radical” segundo as palavras de Senna Fernandes. Apesar disso, em 1965 os garotos ainda brincavam com carros de madeira nas ruas de Macau sem que os automóveis os perturbassem, momentos que em breve passariam à história.
Os empreendimentos da STDM trouxeram um desenvolvimento muito positivo, uma das primeiras novidades foram os hidroplanadores; o Hotel Estoril, que hoje é secundário mas que na altura tinha um estaurante de muito bom gosto decorado à portuguesa; e também o “Solmar” que teve logo um rival, “O Nosso Café”.
O primeiro grande espectáculo veio a Macau quando Senna Fernandes era director do Turismo, teve como palco o “Macau Palace”, depois da guerra os costumes abrandaram um pouco, “e eu como director do Turismo, fui ver” disse, continuando “o espectáculo realizado por um grupo de japonesas em ‘topless’ foi de muito bom gosto, as artistas eram muito elegantes e a mudança de cenários era fantástica, mas depois do espectáculo veio uma ordem súbita, de cima, para cancelar todos os próximos espectáculos do género”.
Senna Fernandes falou por mais de hora e meia. Se calhar, se o deixassem, ainda agora estaria a desfiar histórias daquele tempo. Mas por boas razões. Um elemento da audiência sintetizaria que – “aprendi mais sobre Macau esta noite, do que em todo o tempo que aqui tenho vivido”. Afinal Senna Fernandes tinha escrito (oralmente) mais um dos muitos livros que tem na cabeça…
In Tribuna de Macau
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