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Revolução chegou atrasada ao Oriente
Em Macau, foi a BBC (via rádio de Hong Kong) que transmitiu os primeiros relatos da “Revolução dos Cravos”. Para poder ler algo sobre o assunto na língua de Camões, foi preciso esperar dois dias
As notícias da revolução portuguesa do 25 de Abril de 1974, cujos 33 anos hoje se celebram, só deram entrada em Macau e na China Continental com alguns dias de atraso, devido à censura. Melhor: chegariam ao território sob administração lusa ainda no próprio dia da queda da ditadura, mas através da rádio de Hong Kong, que retransmitia o noticiário da BBC.
Nas edições de 26 de Abril de 1974 do “Notícias de Macau” e da “Gazeta Macaense”, o regime em vigor era ainda o marcelista. A razão é simples: as notícias nacionais e internacionais aceites para publicação pela comissão de censura local eram apenas as enviadas pela ANI e Lusitânia, as quais tinham mais de uma semana de atraso.
Porém, enquanto os jornais portugueses locais “desconheciam” o que se passava em Portugal, os meios de comunicação de Hong Kong iam acrescentando pormenores e até imagens dos acontecimentos. Era então evidente que o movimento vencera e que Spínola surgia como figura de proa. Motivos suficientes para que nos grupos anti-situacionistas de Macau se abrissem as primeiras garrafas de champanhe.
Finalmente, a 27 de Abril, aparecem as primeiras notícias sobre o Movimento das Forças Armadas. Ainda visado pela censura, o “Notícias de Macau” anunciava que Spínola fora “proclamado Chefe do Portugal Novo”. Quanto ao resto, pouco se sabia – importante mesmo é que “os governantes de ontem, de hoje e de amanhã sejam verdadeiros portugueses, pois isso é sobretudo e sobre todos o que interessa”, escrevia o periódico.
A mudança teve impacto imediato no posicionamento da Assembleia Legislativa (AL). A 29 de Abril, Nobre de Carvalho (depois de saber que se mantinha como Governador) elogiava a revolução. Em júbilo, o hemiciclo decide enviar um telegrama de apoio à Junta de Salvação Nacional. Só Graciette Batalha, vogal da AL (já falecida), se recusa a assinar. Motivo: aponta o dedo à incoerência de um órgão que, um punhado de dias antes, tinha enviando uma missiva de teor idêntico a Américo Thomaz e Marcelo Caetano. Começavam as movimentações de Abril no território.
CONTINENTE PIOR
Os relatos da “Revolução dos Cravos” chegaram ainda mais tarde à China Continental. Só três dias depois é que o jornal oficial noticiava o evento, destacando a guerra colonial como a causa directa do golpe.
O “Diário do Povo”, o jornal oficial do Partido Comunista Chinês (PCC) que era, à altura, o único com publicação nacional por toda a China, noticiava a 28 de Abril de 1974, na página 6, sem fotografia, que “um golpe de estado militar tinha acontecido em Portugal”.
“Informações de Lisboa dizem que um grupo de oficiais do Exército executou um golpe militar a 25 de Abril e derrubou o Governo de Marcelo Caetano”, dizia o jornal. “Os militares que realizaram o golpe declaram a rendição do ex-primeiro-ministro Caetano e dos membros do seu Governo. O Exército tomou já conta do Governo”, adiantava o “Diário do Povo”.
Em 1974, Pequim apoiava com armas, médicos, treino, formação e mesmo algum dinheiro os movimentos de luta contra o domínio colonial em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, entre outras ex-colónias portuguesas. Por isso, não é de admirar que o jornal oficial do PCC desse destaque – claramente parcial – à situação desses territórios.
“A facção no Governo em Portugal oprimiu brutalmente os movimentos de libertação nacional em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau e manteve teimosamente o domínio colonial nestas regiões”, considerava o “Diário do Povo”. “Seja como for, esta política perversa não conseguiu parar o desenvolvimento vigoroso dos movimentos de libertação nacional nas colónias tendo Portugal, ao mesmo tempo, ficado isolado internacionalmente. Isto causou grande oposição e descontentamento do povo português”, assegurava o jornal.
Em Abril de 1974, a China vivia uma outra revolução, a Cultural, os dez caóticos anos entre 1966 e 1976 em que terão morrido entre um a dois milhões de chineses nos movimentos de massa instigados por Mao Tsé-tung, com o pretexto da criação da sociedade sem classes. Na luta contra os “desvios de direita”, nada era mais importante que a ortodoxia marxista. Assim, era natural que a notícia do PCC interpretasse os acontecimentos de Lisboa à luz da historiografia marxista, que define que cada momento histórico tem em si o seu contrário, sendo dessa oposição que nasce a revolução.
Artigo publicado no Jornal Tribuna de Macau a 25 de Abril de 2007
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