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Numa conferência proferida em 30 de Novembro de 1983, intitulada “Macau de Ontem”, o advogado e escritor Henrique de Senna Fernandes identificou e descreveu, de forma profundamente sentida, as principais festas e festividades tradicionais da comunidade macaense.

“(…) O melhor tempo de inverno ia de Dezembro até ao Carnaval e ao Ano Novo Chinês. Era a época fria e dos grandes pitéus de culinária macaense como o ‘tacho’ e o ‘diabo’, e da chinesa, como o ‘ta-pin-lou’ e a sopa de cobra com pétalas de crisântemo. Apareciam também as pequenas delícias para temperar a comida como o ‘peixe esmargal’ e o limão de Timor. Consumiam-se com o arroz quente, o chouriço, o toucinho e o pato salgado, de confecção chinesa, e o chouriço ‘vinho e alho’, de inspiração inteiramente macaense.

Do Natal à Páscoa
Dezembro era um mês festivo. O primeiro domingo era dedicado à Primeira Comunhão, uma cerimónia tocante na Sé Catedral, onde se ajoelhavam, nervosos, dezenas de novos comungantes de ambos os sexos, de todas as paróquias da cidade. Havia, então, festa pela tarde fora, correndo-se dum lado para o outro para satisfazer todos os convites, não fossem os pais dos comungantes ficarem ofendidos.
Logo a seguir, vinham os preparativos para o Natal, as donas de casa atarefadas na cozinha, na confecção do aluar, dos coscorões, empadas e fartes, os costumados doces da época. Encomendavam-se o peru e outras carnes de Hong Kong e, em casa do meu Avô materno, não podia faltar o empadão gelatinado de peças de caça, o famoso ‘game-pie’ da Lane Crawford. Encomendavam-se também à loja de Omar Moosa, mais conhecido por Kassam, figura prestigiosa e mais destacada da larga comunidade moura de Macau, loja esta sita, primeiro, na Rua Central e, mais tarde, na Avenida Almeida Ribeiro.
A ‘missa do galo’ desse tempo, o jantar de Natal, o deslumbramento dos brinquedos, a mesa repleta de iguarias, onde se comia à tripa forra, a alacridade e as gargalhadas dos familiares, ainda se repercutem na minha saudade. Os dias seguintes até os Reis, com quebra no dia do Ano Bom, eram dedicados aos amigos e conhecidos. Ia-se de casa em casa, apenas para um cálice de vinho do Porto ou para deixar cartões à entrada. Para isso, organizavam-se, de antemão, listas para que ninguém fosse esquecido. E ai se isto acontecia, porque, então, eram relações frias por muito tempo!
Depois dos Reis, aguardava-se pelo Carnaval e pelos festejos do Ano Novo Lunar. Era a época dos ‘assaltos’ e tunas carnavalescas, culminando com os bailes brilhantes nos clubes. Comiam-se o ‘ladu’, a ‘barba’ e a ‘geleia de mão de vaca’, os doces macaenses próprios da quadra.
Os festejos do Ano Novo Lunar tinham a participação da comunidade portuguesa. Jogava-se o ‘grande e pequeno’ não só no Hotel Central, como nas ruas, nas célebres mesas de ‘clu-clu’, espalhadas no antigo Bazar, na área em volta da Avenida Almeida Ribeiro, Rua Cinco de Outubro, no Largo do Pagode do Bazar, na Rua das Estalagens e na dos Mercadores. E a população ordeira e pacata expandia-se naquele divertimento e na fraternidade geral, sem dores de cabeça para as autoridades policiais.
Terminado o Carnaval, no amanhecer de Quarta-Feira de Cinzas, começava a Quaresma. Logo no Sábado e Domingo, a seguir, realizavam-se respectivamente a Procissão da Cruz e a Procissão dos Passos, onde a imagem do Senhor percorria a cidade, procissões estas de profunda tradição macaense, ainda hoje preservadas com toda a devoção. Com a Quaresma, mudava-se o cariz da ‘cidade cristã’. Cessavam os bailes e, se festas e reuniões familiares havia, eram feitas discretamente. A cidade tornava-se soturna, coincidindo com o tempo de nevoeiro e humidade intensa. As senhoras trajavam de preto ou de roxo, os cavalheiros de casaco e gravatas de tom escuro. Ao advento da Semana Santa, as cerimónias religiosas decorriam na Sé Catedral, com solenidade impressionante. (…)
Na Sexta-Feira Santa, sofria-se um jejum rigoroso e era proibido brincar, cantar ou mesmo assobiar. Para a criançada, era um autêntico martírio. A minha Avó materna, à imitação de tanta gente, guardava silêncio, a partir do meio-dia até às três horas da tarde, ‘hora em que morreu Jesus’, como ela dizia em tom triste. E logo saía de casa, com a melancolia duma pessoa enlutada para a Procissão do Senhor Morto. No Sábado de Aleluia, acabavam-se o jejum e a tristeza. Nas ruas, nos encontros com os amigos, gritava-se ‘Aleluia!… Aleluia!’ No dia de Páscoa, na missa chique das onze horas, as senhoras e meninas vestiam-se de cores vistosas, os cavalheiros de fazenda ‘palm-beach’ e mais tarde de ‘shark-skin’ ou fazenda de pele de tubarão, muito na moda.
Actividades de verão
Pouco depois chegava o Verão. Vinha a grande procissão de Nossa Senhora de Fátima em 13 de Maio até à ermida da Penha que se iluminava pela noite fora. O Liceu terminava o seu ano lectivo em 18 de Maio para só reabrir no dia 10 de Setembro, o que era mais sensato que agora, justamente por causa do clima quente e insuportável.
Então, a gente de Macau matava o seu tempo nas barracas de banho, no Porto Exterior. A efeméride principal da época balnear era o dia 24 de Junho, dia de S. João Baptista e feriado da cidade, em comemoração da vitória sobre os holandeses. Tradicionalmente, naquele dia, organizavam-se piqueniques e, em todas as mesas e em todos os farnéis, havia o ‘arroz carregado’ que se comia frio e às fatias, com o acompanhamento obrigatório do ‘porco-balichão-tamarindo’, um prato típico da culinária macaense. (…) Outra efeméride do verão era a romaria, no dia 5 de Agosto, à Fortaleza da Guia, em honra de Nossa Senhora da Guia, protectora de Macau. E já que falamos em romarias, não esqueçamos a de S. Tiago da Barra, em que a devoção macaense se ajoelhava diante da imagem do santo guardião da “Cidade do Nome de Deus”. (…)
Outro passatempo existia no verão que era a largada do papagaio de papel também chamado o ‘sarangong’, preso à linha, esta de antemão preparada e tratada por uma massa de farinha, gema de ovo e vidro em pó que a tornava cortante. Assim se desafiava outro papagaio para um despique que se reduzia em ver quem cortava a linha do outro. Era o excitante ‘corta-corta’ que tanto entusiasmo produzia entre adolescentes e adultos que o céu de Macau, nas tardes prolongadas de verão, se enchia de ‘papagaios’ de diversas cores, para lutas renhidas. Empregavam-se estratégias, era uma pugna leal, havia verdadeiros campeões que eram galardoados pela admiração geral. Nisto se consumia a boa gente de Macau, num passatempo saudável e inocente, que traduziu bem a época ligeira e despreocupada em que se vivia, com a certeza de que o dia de amanhã seria igual ao dia de hoje. (…)
Depois veio a Guerra, vieram as profundas alterações políticas que flagelaram a nossa área geográfica. E surgiu a diáspora da emigração. Um estilo de vida sumiu-se.
No entanto, vestígios da era patriarcal existem, fluem teimosamente no nosso sangue. Costumes, tradições e hábitos que os nossos maiores nos transmitiram, não se apagaram de todo. Nos nossos lares, na intimidade da convivência entre famílias, na nossa mentalidade e maneira de ser. (…)
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