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Macau no século XX, assistiu a diversas convulsões sociais, umas delas terrível e horrorosa, como foi a tão documentada, Guerra do Pacífico, durante o período da segunda guerra mundial, que foi antecedida pela a selvática ocupação da China pela superpotência bélica dos primórdios do século, o Japão, que flagelou esta parte do planeta!

Ao longo desta época deu-se um movimento de refugiados muito grande, no interior do continente chinês passando por Macau e Hong Kong e com eles veio a miséria e a fome que assolaram estas duas cidades do mar do sul da China, como não podia deixar de ser visto á enorme concentração desta massa humana que arribava diariamente, tornando de todo impossível saciar estes desgraçados ao mesmo tempo.
Há mesmo relatos de cadáveres encontrados diariamente espalhados pelas arcadas da Almeida Ribeiro e por vários becos e ruas de indivíduos exaustos que perdiam a vida… no esgoto! Tempos horríveis!
Para tentar aligeirar o sofrimento destes refugiados, diversas entidades governamentais a Igreja, associações católicas e não só, assim como o organismo fundado para este efeito pelas Nações Unidas, faziam o que podiam e estava ao seu alcance , mas sempre com imensas dificuldades financeiras e de meios humanos.
É sobre uma figura ímpar que se notabilizou nesse período que irei hoje contar um episódio engraçado ocorrido nos anos 1956/57.
Refiro-me a uma personagem marcante desse tempo longínquo, que foi o Chantre (*) Morais Sarmento – um eclesiástico forte, desassombrado, que irradiava simpatia, que estava sempre “em todas” e muito apreciava a boa mesa, como me contaram os meus Pais que aqui chegaram em 1954 e o conheceram muito bem.
Viveu e trabalhou quase toda a sua vida em Macau e sentia-se macaense pelo coração. Em tudo, a última palavra era sempre dele. Sabia viver e conviver. Usava geralmente um capacete colonial branco, como branca era a cor da sua longa sotaina. Teria nessa altura 85 anos bem sadios. Uma figura inesquecível!
Ora, numa tarde de Outono após mais um funeral e à saída do Cemitério de S. Miguel Arcanjo, houve quem convidasse o reverendo Chantre a tomar um “chasinho” da Escócia no Clube Militar, convite que ele aceitou de bom grado sem se fazer rogar.

Pelo caminho, um dos oficiais que iam com ele, jovem capitão, disse-lhe em tom meio irónico:
-Hoje morreu este justo. Amanhã, outro fechará os olhos e qualquer dia será a sua vez, Senhor Padre …?!?

-Pois é – respondeu ele pensativamente – A morte é assim, não escolhe idades, por isso o mais certo é verem-me fazer mais uma vez esta caminhada … mas é à frente … cantando!…
O capitão embatucou e nunca mais quis fazer de engraçadinho com o Chantre Morais Sarmento que Deus haja.
São estas figuras que fazem parte da história de Macau e que os mais novos têm o dever assim como todo o direito de conhecer!

NA – Chantre é o eclesiástico que dirige o coro na Sé.
Artigo de Luís Machado publicado no Jornal Tribuna de Macau.

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