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Seguem-se 4 artigos publicados nos últimos anos na imprensa de Macau. São de outros tantos jornais, mas o tema é o mesmo, a D. Aida Jesus, que já tem 95 anos (em 2010)… e o restaurante Riquexó há várias décadas instalado na Av. Sidónio País, ali bem perto do Hoi Fu. Mais recentemente enveredou pelo sistema self-service ao ocupar o espaço do antigo supermercado dos anos 80, o Park’n’Shop.
Na ementa não podiam faltar pratos típicos como Minchi, feijoada, galinha de caril, capela, entre outros. Receitas que experimentou no Solmar onde esteve 4 anos e onde se estreou, e depois no Hotel Estoril, Hotel Lisboa e mais tarde no Riquexó.
Aida Jesus

“Ponto Final” – Hélder Beja – 23 Fev. 2010
“Estou farta da comida macaense”
Pode não parecer mas frase é de Aida Jesus, uma das grandes cozinheiras da gastronomia da RAEM. Aos 94 anos, quer ver os sabores macaenses preservados, só não lhe falem em sentar-se à mesa para comer uma feijoada ou um minchi. São muitos anos à volta dos tachos e da vida do território, da cozinha do Hotel Lisboa à do Riquexó, aqui passados em revista.
Uma mulher bem arranjada e expedita que zanza atrás do balcão, o passo pouco firme da idade que pesa, as costas cansadas dos 94 anos. Chegamos ao restaurante Riquexó e Aida Jesus, dona Aida como é tratada, está com ar de quem sabe que vai ser entrevistada. Marcámos para as 15h mas adiantamo-nos quase uma hora, para almoçar.
Conhecemos dona Aida, das fotografias dos artigos que sempre a conotam com o melhor da gastronomia macaense, mas ela não nos conhece. De maneira que passamos por clientes normais e ainda por cima tardios. A empregada de mesa vai debitando o que há para o repasto. Caril de galinha, costeleta, feijoada. Pedimos aconselhamento, paramos na feijoada e esperamos pela caçarola de carne, feijão e couve a fumegar. Na sala do Riquexó só há mais uma mesa com gente.
A comida vem e faz jus à fama. Bom tempero, ingredientes à séria – tudo para envolver numa valente pratada de arroz que acompanha a feijoada. Ao fundo da sala, dona Ainda olha para o relógio. São 14h50 e adivinhamos que é bom que o tal do jornalista não se atrase. Estugamos o garfo, atacamos a chouriça e o molho que pede pão. Sobram cinco minutos para a sobremesa. Perguntamos por doces típicos de Macau. Há bolos mas nada de muito tradicional, diz-nos a empregada. E pudim flan. Pois seja.
Ainda estamos a começar o pudim quando dona Aida veste o casaco. São 15h05 e está ali uma mulher pontual, sem tempo para esperas. É pois tempo de nos denunciarmos: falamos, recebemos um sorriso simpático e mudamo-nos de malas e pires de pudim para a mesa de uma das cozinheiras mais experientes da RAEM.
Hoje, dona Aida já não mete as mãos na massa como antes. É uma espécie de “chef executiva”, que supervisiona o trabalho dos cozinheiros de outras paragens que trabalham no Riquexó e que ali aprenderam alguns dos segredos da gastronomia de Macau. Com três filhos, seis netos e dois bisnetos, é uma mulher dinâmica que todos os dias está no restaurante durante a hora de almoço. “Toda a gente tem folgas, eu venho sempre”, orgulha-se. Se da fama não se livra, tampouco lhe dá muita importância. “Há mais pessoas que fazem boa comida macaense, não sou só eu”, atira enquanto assina mais uma factura. Não há tempo a perder, muito menos quando se é nonagenária.
– Como é que a gastronomia entra na sua vida?
Aida Jesus – Aprendi desde muito nova com a minha mãe e as minhas irmãs e fui fazendo. Nasci em Macau e vivi sempre cá. A cidade era muito diferente. Antes, a gente sentava-se à porta da rua e não havia carros, a gente brincava nas ruas… Agora não, é muito diferente.
– Como é que olha para essa evolução?
AJ – Há partes boas e partes más. Em certas coisas a cidade está mais moderna, tem mais emprego para as pessoas, muito por causa dos casinos. Antes as pessoas de Macau tinham de emigrar para Hong Kong. A minha filha trabalhava no banco de Hong Kong mas agora consegue ter os seus negócios em Macau. A parte má é o tráfego exagerado e o preço das coisas, mesmo das moradias. Antes era tudo muito mais barato.
– Voltemos à comida. Quando é que percebeu que tinha jeito para cozinhar?
AJ – Já tinha vinte e tal anos… Durante muito tempo só via as outras mulheres cozinhar, não participava naquilo.
– Mas depois começou a participar. E a mostrar a sua comida nos restaurantes.
AJ – Este restaurante é do meu genro. Está aberto há mais de 30 anos. Mas eu trabalhei como cozinheira no Hotel Lisboa durante 14 anos, era assistente de chefes estrangeiros. Talvez seja por isso que nós aqui não fazemos só comida macaense. Fazemos comida portuguesa, comida chinesa também, porque agora vêm muitos chineses de Hong Kong. Muitos gostam de feijoada, caril, comida portuguesa e macaense.
– E como é que foram esses tempos no Hotel Lisboa?
AJ – Já havia muitos estrangeiros, aprendi a fazer bastante comida estrangeira. Os chef’s eram alemães, austríacos. Depois ajudei o meu genro num outro restaurante. Agora, finalmente, ajudo aqui no Riquexó. Trabalho aqui há vinte e tal anos.
– O que é que as pessoas gostam de comer aqui?
AJ – Os portugueses gostam de minchi com ovo estrelado, feijoada, polvo guisado, bacalhau feito à portuguesa, à brás ou à minhota. Os chineses, alguns provam as nossas comidas, outros pedem pratos mais parecidos com o que estão habituados a comer.
– E há um doce mais típico de Macau?
AJ – No Natal, empadas e coscurões têm muita saída. Durante o ano, muitos bolos diferentes como o de ananás. Também fazemos mousse, pudim flan, coqueiras, arroz doce. São doces parecidos com os portugueses.
– Ainda se sente com força para ajudar no restaurante?
AJ – Enquanto estiver viva e puder, vou andando por aqui. Quando não puder, não trabalho mais.
– E quais eram as suas especialidades na cozinha?
AJ – Não tinha nenhuma, são todos mais ou menos iguais. Claro que há pessoas que comem sempre a mesma coisa e é porque devem gostar, como porco bafa assa ou minchi.
– E a dona Aida, quando toca a comer, do que é que gosta?
AJ – Eu? Vejo todos os dias esta comida, já estou farta, quase que não como. Como pão com qualquer coisa. Já não me lembro se tinha algum prato favorito. Agora faço mas não como (risos). Bem, na realidade são os cozinheiros que fazem, eu só provo os pratos, dou indicações. Eles estão cá há muitos anos, sabem trabalhar bem.
– São cozinheiros macaenses ou chineses?
AJ – São chineses. E temos uma filipina, que faz mais comida portuguesa, bacalhau, polvo guisado. Os chineses fazem mais comida macaense. Ao todo trabalham 12 pessoas aqui. Há uma pessoa que faz apenas sobremesas e eu ensino-lhe receitas portuguesas.
– Foi algumas vezes a Portugal?
AJ – Várias vezes. Tenho uma filha que trabalha lá e às vezes vou visitá-la. Mas a viagem é muito dura.
– E do que é que gosta mais?
AJ – Olhe, gosto da comida e do país. Tem muitas coisas para ver, é diferente de Macau. Costumo ir a Lisboa mas tenho uma amiga no norte e às vezes vou lá passar férias com ela. E trago sempre coisas que não há cá, coisas de comida. E a minha filha também me envia muitas encomendas.
– A cozinha de Macau teve várias influências de diferentes partes do mundo? Com a sua experiência certamente que se apercebeu disso.
AJ – É uma mistura. Há pratos que vão variando, até porque muitas vezes não há ingredientes. Vai-se fazendo conforme se pode. Mas também os chineses muitas vezes não sabem bem o que estão a comer, não lhes faz diferença se é mais macaense ou mais português (risos).
– Quais são os ingredientes indispensáveis da cozinha macaense?
AJ – Açafrão, molho de soja, feijão, piri piri, mais carne que peixe…
– Acha que é dada a devida importância à gastronomia típica do território?
AJ – É uma tradição e é pena que só uns poucos restaurantes façam a verdadeira comida macaense. Outros dizem que a sua comida é macaense mas não é.
– Luís Machado, presidente da Confraria da Gastronomia Macaense, disse que a gastronomia está em vias de extinção. Concorda?
AJ – Está em extinção, sim. Há grupos como esse, de que faço parte, ou a Associação dos Macaenses, que tentam preservá-la, mas pouco a pouco vai desaparecendo. Nem toda a gente a faz e a tradição vai morrendo.
– Mas a dona Aida tem tentado passar o seu conhecimento.
AJ – Bom, eu só escrevo as receitas para as minhas filhas, porque não sei escrever bem português e nem falo muito bem português. Muita gente dizia-me para escrever um livro. Mas já há tantos livros sobre a cozinha de Macau, há o da Cecília Jorge, há de outros macaenses… Não vale a pena eu escrever. Só escrevo para as minhas filhas e há segredos que só elas sabem, porque muitas vezes a gente escreve mas não diz todos os segredos. Há segredos que as pessoas não escrevem…
– A Confraria costuma dizer que há cozinheiras a trabalhar noutros sítios que aprenderam consigo.
AJ – Quem?
– A dona Manuela, do restaurante Litoral, por exemplo.
AJ – Ela trabalhava comigo no Hotel Lisboa mas daí a ter aprendido comigo… Ela fazia parte da secção das saladas e claro que foi vendo e aprendendo. Havia muitos chef’s, não era só eu.
– Acha que a Confraria é um instrumento importante para preservar a gastronomia de Macau?
AJ – Tem um papel muito importante. Fomos para Portugal em grupo, reunir com confrarias de lá durante dez dias. De Évora, do Algarve… Mas não fizemos comida, só nos juntámos para conversar. Realmente deveríamos ter mostrado lá a comida macaense mas o que mais houve foi reuniões, festas e tudo mais. A comida que havia era a portuguesa.
– E gosta de algum prato da comida portuguesa em especial?
AJ – Gosto de tudo. Sempre que vou lá como frango assado, apesar de aqui também fazermos. Em Macau, ia sempre ao Miramar comer os pratos portugueses porque antes era do meu genro. Gosto muito de arroz de marisco também. Por acaso gosto muito de comida portuguesa, mais do que de macaense. Talvez por estar enjoada de a ver e fazer todos os dias, todos os dias…. Já estou farta da comida macaense. Quando vou a Portugal adoro comida portuguesa.
– É difícil aprender a cozinhar os pratos macaenses?
AJ – Não, é fácil. Está-se em Macau, tem-se as coisas à mão.
– Esteve sempre em Macau. Atravessou quase todo o século passado. Sabe falar patuá?
AJ – Falo, sim (risos). Mas não tenho ninguém para falar comigo, os meus amigos que falavam patuá já morreram. Eu sou tão velha… Quase que não há ninguém para falar patuá comigo, por isso se vai perdendo o dialecto. Falava com a minha mãe, tias, cunhadas. Mas recordo-me muito bem do patuá. da comida maqueísta.
– Tem uma família grande?
AJ – Tenho três filhos, seis netos e dois bisnetos. A minha filha que está em Portugal vivia em Macau, mas em 1999, quando passámos para a China, decidiu ir embora. Não sabia o que ia ser de Macau, se coisa boa ou má. Por acaso não está mau mas naquela altura… Muitos foram para América, Inglaterra, todos saíram de Macau com medo. Mas afinal não está tão mau. Eu como tenho idade e já não quero sair de Macau, gosto disto, decidi ficar.
– O que é que sentiu nessa altura da transição de poder?
AJ – Foi um pouco triste, ninguém sabia o que ia acontecer em Macau. Ouvíamos sempre dizer que os comunistas eram maus e fomos criando esse preconceito. Recordo-me bem desse dia, as pessoas não estavam tranquilas mas ninguém mostrava. Sentiam por dentro mas não diziam nada. Já passei muitas coisas aqui, como quando os chineses queriam invadir Macau…
– A Revolução Cultural de 1996. Lembra-se dessa altura?
AJ – Lembro. E também dos japoneses [Segunda Guerra Mundial]. Recordo-me dos aviões a sobrevoarem Macau. A minha filha era pequenina e eu tinha medo que começassem a bombardear Macau. Depois, vieram os chineses e até derrubaram aquela estátua do [coronel Vicente Nicolau] Mesquita que estava no Leal Senado. É muito triste… Felizmente que agora as coisas estão bem.
– Alguma vez teve medo de viver em Macau?
AJ – Lembro-me de uma vez, nos anos 40, a minha filha era pequena e tinha ido à rua com a empregada. Passaram uns japoneses à minha porta e mataram um homem à minha frente, vi tudo. Saí e corri à procura da minha filha, com aqueles homens que mataram ali ao pé de mim… Tive sorte. Fiquei com muito medo nessa altura.
– Ao longo da vida, viajou muito ou esteve mais tempo por Macau?
AJ – Quase sempre em Macau. Tenho viajado, mas esta é a minha terra. Gostei muito do Canadá, mais que de Inglaterra. Tenho uma amiga lá e fui passar um mês com ela.
– E como era a questão da língua?
AJ – Falava inglês.
– Fala inglês?
AJ – Sim (risos).
– Então fala patuá, cantonense, português e inglês. É obra.
AJ – E falo chinês, não sei é escrever.
– Mas estudou inglês, por exemplo?
AJ – Inglês estudei um pouco e português só no primeiro. Chinês nunca estudei, aprendi só a falar com as pessoas, mas não falo muito bem, não consigo ter uma conversa profunda.
– Com a sua idade, o que é que gosta de fazer em Macau?
AJ – Gosto de passear, não sei jogar mahjong. De vez em quando vou brincar um pouco nas máquinas dos casinos. Um jornal publicou isso e todas as minhas amigas me vieram dizer “ah, agora já sei que você aos sábados vai jogar no casino”. Perguntaram-me tantas coisas que eu disse: trabalho tanto, também tenho de me divertir um pouco, não é passar os dias todos só a trabalhar. Aos sábados vou brincar um pouco. É por isso que não gosto de falar de muitas coisas aos jornais, às vezes saem asneiras (risos).
“Jornal Tribuna de Macau” – Alexandra Lages – Junho de 2007
“Riquexó” inseparável da jovialidade de Dona Aida
De portas abertas há mais de 30 anos, o Clube Amigos do Riquexó tornou-se uma imagem de marca da cozinha macaense. Apreciado pelas comunidades luso-falantes do território, o espaço adquiriu um traço fortemente cultural e turístico, onde se destaca a presença de Aida de Jesus, a “mestre” da cozinha.
O Clube Amigos do Riquexó já ganhou lugar nas páginas da história do território. Aberto há mais de 30 anos, este estabelecimento de comida macaense sobreviveu à transferência da administração e tornou-se uma paragem obrigatória para residentes e turistas. Situado perto do edifício Hói Fu, o espaço tem duas facetas – durante o dia é restaurante “self-service” e, quando cai a noite, transforma-se em bar com música ao vivo.
Sentada num canto, atarefada com papéis de encomendas, Aida Jesus toma conta da casa quando o proprietário se ausenta. “Há mais de dez anos que o meu genro, Frederico Palma, é o dono deste restaurante”, contou.
No entanto, a senhora macaense de 91 anos de idade possui uma função valiosa no Clube Amigos do Riquexó. “Sou eu que ensino os cozinheiros”, frisou. Na cozinha, trabalha uma equipa de cinco profissionais – quatro “chefs” e um ajudante com origens chinesa e filipina. “Agora já sabem fazer as coisas, já adquiriram prática, mas se está mal eu corrijo”, acrescentou.
O currículo da Dona Aida (como é carinhosamente conhecida) é invejável. Os hotéis Lisboa, Sintra e Mandarim são apenas alguns dos nomes mais sonantes de uma extensa lista. “Ensinava a fazer as comidas”, recordou. Os seus conhecimentos gastronómicos são se limitam à comida macaense. “Também temos comida portuguesa”. Auto-didacta, aprendeu quase tudo através de livros de culinária.
O cardápio do restaurante junta pratos macaenses como o pato de cabidela, capella, minchi e o tacho, com vários sabores de Portugal, quase todos derivados do famoso bacalhau e acompanhados de vinho bem português. “Os clientes portugueses preferem a feijoada, o minchi e o frango assado, à comida chinesa”, salientou.
Por força do ajustamento do negócio ao tipo de clientes que começou a chegar depois de 1999, a gerência do restaurante introduziu gostos chineses no menú. O chau min é apenas um exemplo.
Na suas palavras, o negócio já viu melhores dias. “Actualmente, há poucos portugueses e grande parte dos macaenses foram embora”, lamentou. “Vêm cá muitos chineses e turistas de Hong Kong, australianos e ingleses”, continuou.
A fama do restaurante e a fotografia da Dona Aida já ultrapassaram as fronteiras do território. “Uma vez um grupo de Hong Kong pediu-me para fazer um leitão e tirou-me uma fotografia. Dias depois apareci num jornal”, exclamou. “Ajudaram-me a fazer publicidade e nem tive que pagar”, gracejou com ar jovial.
A decoração do espaço prima pela simplicidade. Apesar de o serviço ser “self-service”, respira-se um ambiente familiar, graças ao excelente espírito anfitrião da Dona Aida. Os clientes de todos os dias têm direito a uma atenção especial e alguns dedos de conversa em que, claramente, tem prazer.
“É muito difícil arranjar empregados e decidimos optar pelo ‘self-service’, mas muitas vezes os funcionários ajudam a carregar o tabuleiro”, garantiu.
O estabelecimento é composto por mais duas salas que servem para acolher festas para grandes grupos. Por outro lado, a gerência também apostou no negócio de comida para fora. A antiga professora de culinária não tem mãos a medir com encomendas, desde escolas a festas particulares.
Ao cair do dia, o Clube Amigos do Riquexó substitui os fogões e os pratos pelas bebidas e pela música ao vivo. As sessões de jazz já dispensam apresentações. “Costumamos ter jazz e isto fica cheio até às três da manhã”, frisou ainda enquanto nos conduzia numa visita pelas instalações.
O restaurante que foi buscar a sua imagem de marca ao típico riquexó, é presença assídua nos folhetos de informações turísticas de Macau. Cada vez mais, o Clube Amigos do Riquexó vê reforçado o seu papel histórico e a sua missão cultural – elevar o prestígio da gastronomia macaense e portuguesa na RAEM. E a Dona Aida de Jesus é inseparável do Riquexó.

Hoje Macau – Sónia Nunes – Dez. de 2009
A Senhora da terra
As memórias que atravessam quase dois séculos ficam para ela. O passado já foi dito, escrito e repetido. Nada a acrescentar. Sim, aprendeu com os antigos a fazer coisas antigas que deixaram de encher as vitrinas e claro que se divertiu para chuchu na Macau namoradeira dos anos trinta, quando as moças se diziam nhonhas – mas isto são daquelas coisas que “não tem fim de falar”. Aos 94 anos, Aida Jesus, com licença, Dona Aida, tem mais que fazer do que ficar a contar histórias. Devota de Santo António e jogadora religiosa de slot machines aos sábados à noite, a senhora da terra que mete a colher na gastronomia macaense só se queixa de não ter ninguém que fale a língua dela.
Nasceu numa casa desafogada, filha de sargento e irmã de duas raparigas e seis rapazes, onde pais, tios e cunhados e mais quem viesse se entendiam no dialecto maquista. “Eu falo patuá. Mas não tenho ninguém que fale comigo. Ninguém sabe. Há aquele advogado, o Miguel [de Senna Fernandes] que sabe, mas encontro-me pouco com ele. O resto, é tudo chinês ou inglês”, diz. Os desencontros da Dona Aida com a língua começaram cedo, era menina a aprender as primeiras letras. “Na escola, estudei português. Não deixavam falar chinês – éramos castigados”, conta. Ela não; ela era bem comportada na expressão: “Por isso falo muito mal chinês. O português também não é muito bom: depois do primeiro ano, mudei-me para o inglês”.
A meninice passou-a fora de portas. Todos os irmãos ansiavam pela ordem do sargento: “Depois de rezar, podem sair para a rua”, consentia o pai. Assim era. “Púnhamos as cadeiras lá fora. Não havia carros, lá ficávamos. A jogar às escondidas. Sentados. Era uma vida muito pacata”, recorda. Aos 16 anos vieram os primeiros bailaricos e namoricos; aos 25 anos o casamento, que resultou em três filhos, duas meninas e um menino, que lhe deram seis netos, que já lhe deram dois bisnetos. O marido, “um homem muito bonito”, conheceu-o numa festa. “Foi engraçado. Ele não sabia dançar. Fui eu que o tive de ensinar”, lembra com um doce sorriso aberto.
E como eram os bailes, a Macau dos antigos? “Ainda ontem [anteontem] deu naquele programa, o Portugal no Coração. Macau…toda a gente já sabe, já viu”, desfaz. E, com a classe muito própria dos noventa anos, muda de assunto. “Eu só vejo o canal português da TDM. Mais nada. Só a TDM. Gosto porque gosto de ver Portugal. Vou lá às vezes. Ainda no ano atrasado fui visitar a minha filha”, avança. A Dona Aida já esteve na América, na Austrália, no Canadá, em Inglaterra, em várias cidades da China (destaca Xangai) e nestas terras aqui à beira. Para viver, só em Macau. Nem Portugal a convence a mudar de arraiais: “Lá é tudo muito longe. Além de estar a trabalhar, aqui posso andar a pé. É tudo muito perto. Em Portugal, gosto de ir às compras à baixa; compro bonecas, velas e coisas bonitas para os aniversários”.
Era já mulher casada quando começou a trabalhar, no Hotel Lisboa, quando Macau tinha só um rei dos casinos. “O meu gerente, Pedro Lobo, era um homem muito bom. Mas eu não fazia comida macaense; fazia comida estrangeira”, ressalva. Por lá ficou durante 14 anos. Passou por vários restaurantes de Macau e chegou a ensinar gastronomia maquista no Mandarim. “É uma cozinha fácil de aprender. Mas, depois, eles vão embora e esquecem. Não fazem nada do que ensinei. Parece que perdi o meu tempo. Aqui [no Riquexó], os empregados sabem fazer tudo. Se depois quiserem abrir um restaurante, isso é lá com eles”, refere.
A Dona Aida é sabedora de muitos segredos. “Aprendi da minha mãe, das minhas tias, das pessoas antigas. Quando me pedem – ainda há quem peça – faço as coisas antigas, mas já não ponho na montra. Como não tem quem faça, também não há quem coma. As pessoas antigas sabem o que é, a nova geração não”. Os portugueses é mais minchi e feijoada; os chineses, galinha à Macau. Tudo o resto fica para quem sabe. Diz que não tem pena para dar à estampa as coisas antigas que os antigos lhe ensinaram. “Já tem tantos livros na montra. Eu já escrevi quatro para as minhas filhas. Está lá tudo. A mais velha, começa a aprender. A outra, pede-me as receitas, eu dou, ela faz lá em Portugal, e, pumba, o bolo cai. Ela não vê como faço. Quando está cá quer passear e, depois, cai tudo”,aponta.
Há dois dias sagrados nos vinte anos que a Dona Aida soma à frente do Riquexó. As terças e os sábados. “Sou muito católica. Todas as terças-feiras de manhã vou pôr uma velinha ao Santo António. Peço para mim e para os outros”, confessa. E quando a semana fecha é hora de ir apostar. “O meu único passatempo é ir brincar com as máquinas do Venetian ou do MGM ao Sábado à noite, depois de fechar a loja. Fico lá até às duas da manhã. É um jogo barato. Não jogo majong – é preciso estar uma tarde inteira sentada, não tenho tempo para isso”, descarta.
A genica não sabe onde herdou, nem como a conserva. “Oiço mais novas que eu a dizer ‘doi aqui, doi ali’. Eu ainda consigo. Às vezes sinto que devia fazer mais coisas, mas não tenho muitas amigas, e os mais jovens não querem sair comigo”. Os convites para as festas e bailaricos continuam a ser feitos (e aceites), o coração basta-se “quando a família vem toda”, mas haveria outro gosto na vida se na rua “alguém respondesse a um como tá vai?”. Nós tudu tá bom.
Riquexó began as a simple Macanese restaurant above a basement Park and Shop supermarket owned by Sónia and her husband, Fred Palmer. Run in its first few years by Geca, a friend of the family, Riquexó came under the supervision of Dona Aida upon Geca’s relocating to Portugal, and when Sónia retired, she joined culinary forces with her mother.
In the years since, the supermarket closed and the basement space was converted into two large banquet and entertainment halls, complete with wet bar and sound stage and available for hire for large, private parties catered by the restaurant. “We used to hold parties in the restaurant on the ground floor,” Sónia explains, “but that interfered a bit with the regular dinner customers.”
“Now we have two spaces downstairs,” her husband, Fred, continues. “One is quite large and the other is a bit smaller. Depending on the size of the party the organiser can choose either, or even use both.”
The couple had a go at running the downstairs as a private members’ club with a bar and musical performances, called the Clube Amigos do Riquexó (CAR Club) at the Basement, but government restrictions and licensing requirements eventually thwarted the plan. “Somehow, people misinterpreted our club as a public club,” Fred says. “Another difficulty was our very small staff.”
The solution has been to offer catered buffets for private parties in the spaces. “A party organiser can order a buffet for a minimum of 25 guests, and we provide the space free of charge and run the bar as well,” Sónia explains. “Buffet style is less labour-intensive for our staff.” The buffets can be charged per head, or the party organiser can choose items from an extensive list of Macanese specialties, as well as Portuguese and Chinese cuisine.
“We introduced some Portuguese dishes in the days when there were still a lot of Portuguese people here,” Sónia recalls. “Then, after the Handover, we added Chinese food to the menu, as well, because now we have a lot of Chinese customers. At the parties, people like to provide a mix of cuisines, since their guests also represent a mix of cultures. We’ve diversified a bit, but the main dishes are still real, traditional Macanese cuisine.”
One such traditional dish is Minchi with Bitter Melon. An alternative version of the iconic Macanese recipe of minced meat over rice – slightly sweeter and featuring the bitter vegetable instead of diced potatoes – it is difficult to find outside of Riquexó. “These days only the older people know it, and they ask for it by special request,” Sónia explains. “The younger generation is perhaps not aware of it, and some people just aren’t accustomed to the bitter taste.”
Sónia shares the list of requests for a private party held on March 7th, as an example of the variety she and her mother can provide. The menu includes authentic Macanese preparations like Porco Tamarinho (Spareribs in Tamarind Sauce), Caril de Galinha (Chicken Curry), Lacassá (Macanese Style Fried Rice Noodles) and Capela, a delicious pork meat loaf (see recipe below). Joining these are Portuguese dishes like Arroz de Pato no Forno (Baked Duck Rice), Feijoada (Pork and Red Bean Stew) and Pudim de Ovos (Egg Pudding).
“One might imagine the curry chicken is Indian, but Macanese curry is quite different,” Sónia says. “Indians use ghee, or clarified butter, as an oil, but our curry has a Malaysian influence and uses coconut milk.”
In spite of this mother-daughter duo’s culinary talents, parties at Riquexó don’t always revolve around eating. “Occasionally we host amateur musical groups that like to play for their own entertainment, so they hire our hall and have a jam session night,” Sónia says. Her husband Fred adds, “For these and other types of functions, we can provide the spaces under an hourly rental arrangement.”
Apart from Riquexó, the seemingly tireless Sónia and Aida run the canteen at CTM headquarters, provide off-site catering services and prepare take-away for home parties. Sónia is also a member of the recently formed Confraria da Gastronomia Macaense. This association, dedicated to the promotion and preservation of Macanese cuisine, visited Portugal last October for a culinary exchange.
Sónia is confident about the future of Macanese cuisine in the region. “It seems to be surviving,” she says. “When we first opened this Macanese restaurant, we were the only one in Macau. Now you have others. Of course, there are a lot of Chinese-run restaurants called Macanese or Portuguese which are not genuine, but there are ongoing and new efforts to preserve the authentic recipes.”
Text by by Ray Granlund in “Macau Closer”

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