Abril 2010


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O meu avô materno, que era militar, foi para Macau na década de 1930 onde conheceu a minha avó. Desse casamento teve 5 filhas sendo a quarta a minha mãe. Durante a II Guerra Mundial, quando os japoneses cortaram os abastecimentos, em 1943 a minha Avó faleceu, tinha a minha mãe 5 anos, por falta de medicamentos. O meu Avô voltou a casar tendo mais 6 filhos. Os meus tios ainda vivem em Macau, execpto dois que já faleceram. O meu pai nos anos 50 vai para Macau em comissão militar e conhece a minha mãe, tendo casado em 1959. O meu irmão mais velho ainda nasceu em Macau. Nesse período regressam a Portugal, tendo passado por Angola. Entretanto, dá-se a guerra do Ultramar e o meu pai é destacado em 70 para Moçambique. Regressam apenas em 1975, após o 25 de Abril. Em 1978 o meu pai consegue regressar a Macau. Eu nessa altura com 10 anos vou para Macau com a minha Mãe, tendo permanecido em Macau até aos 18 anos, altura em que tenho de regressar para a faculdade. Esses oito anos marcaram-me muito, principalmente pela cultura oriental, e pela acessibiidade a informação que na altura em Portugal era escassa. Ainda tenho primos e tios em Macau. A última vez que estive em Macau foi em 1997, seis meses após a transição de soberania de Hong Kong.
Texto e fotografias de José Passos Pereira. 
Pai de José Passos Pereira (1º à esq. de pé) com a equipa da Taipa
Década 1950: praia junto à casa do Administrador da Ilha (pai de JPP 1º à esq)
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Fotografia de meados do século XX

A conjunto das ruínas jesuítas de São Paulo em Macau, são na realidade os restos de um antigo complexo edificado da qual faziam parte a Fortaleza do Monte, a Igreja da Madre de Deus e o Colégio de São Paulo, ambos destruídos por um incêndio no séc. XIX, no ano de 1835. Um incidente da qual apenas se salvou a imponente fachada barroca em granito da igreja, a escadaria monumental com 68 degraus, e pequenas partes do Colégio. O que não impediu o conjunto monumental – fachada e escadaria – de se tornar actualmente o ex-libris da antiga colónia portuguesa e de figurar na Lista do Património Mundial da Humanidade da UNESCO.
Nos anos noventa o arquitecto Carrilho da Graça ficou encarregue do restauro e arranjo urbanístico do monumento e de projectar um museu adjacente destinado a um museu e cripta
Década 1990: depois de instalado no local um museu de arte sacra

No cunhal do edifício voltado para ocidente, ficou a célebre epígrafe, atestando a generosidade do povo de Macau: Virgini Magnae Matri Civitas Macaensis Libens Posuit Anno 1602 (À Excelsa Virgem Mãe a Cidade de Macau espontaneamente colocou esta pedra no ano de 1602).

Imagem de cerca de 1905

Ex-libris de Macau, a fachada da Igreja da Madre de Deus, também conhecida por ruínas de S. Paulo, está intimamente ligada à Companhia de Jesus e testemunha a intenção evangelizadora dos jesuítas em terras do Oriente.
Chegados a Macau em 1562, os jesuítas fundaram em 1594 o Colégio de S. Paulo, o primeiro estabelecimento de ensino superior na Ásia. Nas proximidades do colégio jesuíta erguia-se, no alto de uma colina, uma igreja de materiais pobres e precários, várias vezes reconstruída por ter sido alvo de destruição pelo fogo, ateado por parte da comunidade chinesa local. Dos escombros do seu último incêndio, em 1601, reedificou-se o grandioso templo jesuítico, de que subsiste somente a sua fachada de pedra.
De invocação à Virgem da Imaculada Conceição (a Madre de Deus), este templo foi edificado entre 1602 e 1603 por japoneses convertidos ao Cristianismo e que tiveram de fugir às perseguições que ocorreram no seu país de origem. Possuía três naves, cruzeiro com dois altares e capela-mor, toda ela coberta por tecto de madeira magnificamente entalhado e pintado.
Infelizmente, S. Paulo estava destinada a desaparecer. Primeiro, em 1762, por ordem do marquês de Pombal, a comunidade jesuítica foi forçada a abandonar Macau e parte do recheio do templo foi distribuído por outras comunidades religiosas ou ficou à guarda do Leal Senado e de particulares. Seguidamente, em 1835, um violento incêndio irrompeu na igreja e consumiu todo o seu interior. Várias tentativas para reconstruir S. Paulo foram planeadas, embora nenhuma tenha sido concretizada.
Do imponente templo da Companhia de Jesus subsistiram as poderosas e monumentais paredes graníticas da fachada, obra apenas concluída em 1644, da autoria do jesuíta genovês Carlos Spínola e inspirada no modelo da Igreja de São Paulo em Goa.
Uma extensa escadaria de 68 degraus conduz o visitante ao topo da colina onde se ergue a imponente fachada de S. Paulo. De linhas austeras e revelando a ordenadora linguagem da arquitectura jesuítica seiscentista, apresenta uma elevada fachada retabular, dividida em dois altos corpos sobrepujados por poderoso remate de dois andares, de linhas ondeadas e frontão superior triangular.
O andar térreo é constituído por três portais de vão rectangular, com a parte superior preenchida por baixos-relevos jesuíticos. O portal axial é de maiores dimensões, sendo todos eles ladeados por conjuntos de colunas jónicas sobre pedestais, sustentando forte entablamento reentrante. O segundo piso apresenta, no enfiamento dos portais, três arcos circulares vazados, onde se inseriam os sinos da fachada da igreja, ladeados por agrupamentos de colunas coríntias sobre pedestais, alternando com quatro nichos preenchidos por estátuas de bronze, representando figuras destacadas da Companhia de Jesus – Francisco de Borja, Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e Luís Gonzaga.
O remate superior, ritmado por colunas compósitas, aletas laterais e altos pináculos terminais, desenvolve-se em dois pisos e é rematado por frontão triangular. Na linha axial da fachada encontram-se dois nichos, o primeiro com a Virgem em oração rodeada de anjos e o segundo com o Menino Jesus, sobrepujado pela pomba do Espírito Santo e por cruz terminal. Lateralmente, uma simbólica de baixos-relevos em pedra cobre as paredes, com referências à Virgem Maria vencendo o Mal (representado por um dragão de sete cabeças) e alusões às tentações e à vaidade humanas, conjugando imagens orientais e iconografia cristã ocidental. Deste modo, S. Paulo de Macau afirma-se como vestígio material da miscigenação civilizacional entre a Europa e a Ásia.

Década de 1990: escavações arqueológicas
in Infopédia, Porto Editora, 2003-2010

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Monsenhor Teixeira será para sempre recordado pela sua figura exótica, com longas barbas brancas e batina também branca. Deixou 130 livros…
O Padre Manuel Teixeira nasceu a 15 de Abril de 1912, em Trás-os-Montes, Portugal. Após a conclusão da instrução primária na sua terra natal, embarcou com alguns seminaristas destinados às missões do Oriente, a 16 de Setembro de 1924. Após mais de 1 mês de viagem chegou a Macau, a 27 de Outubro, ingressando no Seminário de S. José.
Na igreja do Seminário de S. José recebeu de D. José da Costa Nunes o diaconado, a 15 de Junho de 1934 e o presbiterado a 29 de Outubro de 1934. A 1 de Novembro desse mesmo ano celebrou a sua primeira missa na igreja de S. Domingos, passando a ser pároco de S. Lourenço até 1946. Foi assistente diocesano da Juventude Independente Católica Feminina (JICF).
Aos 22 anos foi-lhe entregue a direcção do “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”, cargo que desempenhou até 1947, ao mesmo tempo que era professor no Seminário (1932-1946) e do Liceu (1942-1945). O “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau” tornou-se uma publicação internacionalmente conhecida, graças aos trabalhos do Padre Manuel Teixeira e ao valioso contributo de outras figuras de grande prestígio como José M. Braga e Charles R. Boxer. Em 1942, fundou a revista mensal “O Clarim” e foi co-fundador do seminário “União”.
Em 1948, parte para Singapura como superior e Vigário Geral das Missões Portuguesas de Singapura e Malaca. Em Singapura, organizou várias instituições religiosas e fundou a revista “Rally” que se publica em inglês. Em 1952, o Governo Português, em reconhecimento pelos seus relevantes serviços, agraciou-o com a condecoração do Oficialato da Ordem do Império Colonial. Em 1959, criou o Fundo dos Estudantes Pobres (St. Joseph’s Church Book Fund).
Em 1962, regressou a Macau e passou a exercer funções docentes no Colégio de S. José (1962-1965), na Escola Comercial Pedro Nolasco (1962-1964) e no Liceu Nacional Infante D. Henrique (1964-1970). Foi Director dos “Arquivos de Macau” (1976-1980) e do “Boletim do Instituto Luís de Camões”.
Em 1981, a Fundação Calouste Gulbenkian premeia o seu trabalho “Os Militares em Macau” com o prémio de História; dois anos mais tarde, o seu trabalho “Toponímia de Macau” foi galardoado novamente com o prémio de História da Fundação Calouste Gulbenkian.
Foi membro da Associação Internacional de Historiadores da Ásia, da Academia Portuguesa de História e da Academia Portuguesa de Marinha, sócio-correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, sócio da Sociedade Científica Católica Portuguesa, vogal do Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, vogal do Conselho da Universidade da Ásia Oriental e Doutor Honoris Causa em Letras, pela mesma Universidade. Em representação de Macau e de Portugal, participou em vários congressos realizados em Manila, Singapura, Taipé, Paris e Sidney, entre outros, onde proferiu comunicações.
Várias honras e distinções foram merecidas pelo Padre Manuel Teixeira, como a do Comendador da Ordem do Infante D. Henrique (1974) e Medalha de Valor (1985).
Em 1982, foi proclamado Figura do Ano em Macau, dado o seu cariz popular.
Por ocasião do seu Jubileu de Oiro Sacerdotal, em 1984, instituiu um fundo de apoio aos Estudantes Pobres de Macau com o nome Fundação Padre Teixeira, cujo capital excede já o montante de HK $600.000,00.
A 6 de Janeiro de 1989, foi proclamado Membro da Academia Portuguesa de História, e a 10 de Junho do mesmo ano foi condecorado, pelo Presidente da República Portuguesa, Dr. Mário Soares, com a Comenda da Ordem Militar de S. Tiago e Espada.
Em 1990, doou um fundo de $900.000,00 escudos em favor dos Velhinhos e Abandonados da Casa de Santa Marta de Chaves. Regressou a Portugal a 16 de Maio de 2001, onde veio a morrer, em Chaves, na Casa de Santa Marta a 15 de Setembro de 2003, com 91 anos.
Como investigador da história do Oriente Português, o Padre Teixeira vai buscar certas influências a uma tradição de estudos históricos já existente em Macau, desde o Século XVIII.
Em sua opinião: “Como estudioso da história de Macau, o mais importante trabalho é tomar notas de todos os acontecimentos importantes de Macau e da sua Diocese, pois a história da igreja de Macau está intimamente ligada à história civil do Território, tornando-se difícil dissociar estas duas realidades…”. Disse também: “O homem é pó, a fama é fumo e o fim é cinza (…) só os meus livros permanecerão (…) e essa é a minha consolação!”
O Padre Manuel Teixeira deixou centenas de obras as quais são testemunho das suas palavras.
NA: Em Algés, Oeiras, há uma rua com o seu nome. Em Macau, que eu saiba, não. Vai-se lá saber porquê…
O Monsenhor Manuel Teixeira dominava as línguas portuguesa, inglesa e chinesa. Os seus contributos académicos são reconhecidos pela sociedade de Macau e foram merecedores de vários prémios e honras por instituições académicas internacionais.
Durante 70 anos de vida profissional produziu uma grande quantidade de obras e artigos alguns dos quais editados em publicações dirigidas por ele, como o “Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau”, “Arquivos de Macau” e “O Clarim”. Outros artigos foram igualmente publicados na “Revista Nam Van”, “Revista de Cultura”, “Revista Macau”, entre outras.
Estas obras têm uma grande influência na investigação da história de Macau, especialmente para o estudo da história da Diocese de Macau. Por consequência, várias instituições académicas de Macau e Portugal efectuaram catálogos das suas obras. Em 1992, para comemorar o 80º aniversário do Padre Manuel Teixeira, a Biblioteca Central de Macau (BCM) publicou um boletim bibliográfico intitulado “O Homem e a Obra”, onde é possível encontrar fotografias e a referência de todas as publicações de sua autoria então existentes na Biblioteca Central de Macau.
Em 2001, antes do seu regresso a Portugal, Monsenhor Manuel Teixeira foi convidado pela Biblioteca Central de Macau (BCM) a assinar as suas obras que pertencem à Biblioteca. O seu espólio, conservado na Sala de Macau da BCM, inclui: 130 títulos, editados entre 1937 e 1999, 305 analíticos, referentes a diversas publicações periódicas e uma Bibliografia Passiva com 27 títulos.

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A edição nº 10 da revista Arquitectura 21 – Abril 2010, dirigida pelo arquitecto José Romano, antigo residente em Macau, é dedicada a Macau. Para além do balanço das transformações ocorridas entre 1999 e 2009, nas várias entrevistas com profissionais (arquitectos, mas não só…) que conhecem muito bem o território, o passado também marca presença. Para ler, reflectir e guardar.

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Memórias para demolir
Hoje, caminhando pela cidade, quem conta a história das ruas e das casas junto à fortaleza e às Ruínas de São Paulo é o arquitecto José Maneiras. Recorda: “Fui para Portugal estudar em 1953. Quando regressei, as casas estavam construídas. As casas datam da década de 50, meados da década”, explica o arquitecto.
Os prédios
“Pertenciam ao Montepio de Macau e eu vivia no 1º esquerdo. Eram habitadas sobretudo por funcionários públicos e militares. As rendas eram baixas, variando entre as poucas centenas e as mil patacas, dependendo da data do início do aluguer. Ali viviam 24 famílias, mas na rua existiam três carros apenas”, lembra o arquitecto.

Originalmente eram quatro prédios o 16, 18, 20 e o 22. Os dois últimos foram já destruídos, por se julgar que aí existem vestígios arqueológicos da Ala Norte e Nascente do antigo Colégio de São Paulo. Apesar de existirem métodos que permitem a prospecção arqueológica que não impliquem a demolição dos edifícios, a opção do governo local recaiu na demolição dos edifícios. A decisão tomada conjuntamente pela Direcção dos Serviços de Obras Públicas e Transportes, pelo Instituto Cultural e sob parecer de técnicos de Singapura, foi comunicada aos cidadãos poucos dias antes da saída de Heidi Ho da presidência do Instituto Cultural de Macau.

Os prédios correspondem a uma tipologia esquerdo direito, mas com as traseiras em galeria. São os únicos prédios em Macau que combinam estas duas tipologias. “Entre cada dois prédios existe um acesso. A cada uma das casas se podia aceder pela porta principal ou pela de serviço situada nas traseiras. A casa tinha uma sala com varanda, dois quartos, o quarto da empregada, cozinha e casa de banho. É uma arquitectura rudimentar de construção sólida, betão armado e telha. Nas traseiras das casas existiam varandas de um extremo ao outro do edifício, e uma escada que as unia”.

Ainda segundo o arquitecto José Maneiras, a linguagem das casas remete para o estilo da habitação social que se fazia em Portugal durante o Estado Novo, de que é exemplo o bairro social de Alvalade em Lisboa. Contudo, podem apontar-se algumas diferenças relativamente aos modelos de construção correntes em Portugal na mesma época. A primeira tem a ver com os índices de construção: se em Portugal se construía o tipo R/Chão mais três ou quatro pisos, porque este era o limite máximo para casas sem elevador, em Macau, talvez por razões económicas ou para minimizar o impacto da construção sobre a fortaleza e as Ruínas de São Paulo, optava-se pelo R/Chão mais dois pisos, explica o arquitecto. A segunda diferença diz respeito aos materiais de revestimento: em Macau recorria-se sobretudo ao Shanghai plaster, porque havia uma certa dificuldade em encontrar tintas e os edifícios coloridos usavam a cal com pigmento de cor, mas de 5 em 5 anos, os proprietários eram obrigados por lei, a caiar novamente os edifícios, o que se tornava bastante dispendioso. “Julgo que a obra foi assinada pelo Engenheiro Humberto Rodrigues, porque naquela época não existiam arquitectos em Macau”, acrescenta. Humberto Rodrigues não procurou a obra-prima, mas a obra relacional. Bem integrados na paisagem, os prédios da Rua D. Belchior Carneiro não agridem a cidade, não obstruem as vistas nem da Fortaleza, nem das Ruínas. E à data da construção tinham vistas de Rio e assim se ligavam à água.
A vida
Podemos ainda hoje reconstituir a vida dos prédios da rua D. Belchior Carneiro. Nas campainhas das portas e nas caixas do correio inscrevem-se os nomes de quem os habitou. Ali viviam os Maneiras, os Basílios, os Variz, os Pereiras, entre outras famílias. Os prédios eram habitados não apenas pela família nuclear, mas pela família alargada. Eram os pais, os tios e os avós que partilhavam os espaços. Sandi Basílio Manhão viveu no Nº18, 1º andar, até aos seus 13 anos: “Adorei viver aí, tenho óptimas memórias dessa altura. Lembro-me que quase não passavam carros naquela rua e vivíamos com as portas abertas. Estávamos sempre em casa uns dos outros. Para mim, era a casa perfeita. Eu e a minha irmã brincávamos muito naqueles espaços, principalmente nas escadas. Fazíamos imensas partidas e tropelias. Brincávamos também no pátio, trepávamos as grades, explorávamos a mata que ia dar à fortaleza do Monte. Não haviam muitos brinquedos e a nossa imaginação era muito fértil. Qualquer bocado de madeira, pedra, bicho encontrado no pátio era uma tarde de aventura. Apanhávamos raízes na mata e íamos para a rua vender aos transeuntes como ginseng. E ali vivíamos numa espécie de comunidade”. Quando voltou a Macau, 9 anos depois de ter deixado a cidade, voltou aos prédios com os seus filhos, para que eles pudessem também experimentar brincar naqueles pátios.
Jorge Maneiras, filho do arquitecto José Maneiras, também se recorda desses tempos: “Os meus pais foram viver para o prédio da frente, para ficarmos perto dos meus avós. Quando eu regressava da escola, e depois de dormir a sesta no sofá verde da casa da minha avó, ia brincar para os pátios e para a rua. Eu e o meu irmão saímos de bicicleta e andávamos por todo o lado, voltávamos a casa muito sujos e por vezes magoados”. “Era o terror das avós” acrescenta José Maneiras. “Havia uma brincadeira que a criançada fazia na rampa de São Paulo. Era uma espécie de bodyboard sobre a pedra. Poliam uma tábua de madeira e depois desciam a rampa sentados em cima da tábua.”
O Contexto
A actual Rua de D. Belchior Carneiro chamava se Rua da Horta da Companhia. Foi no ano de 1969, por ocasião do 4º Aniversário da Santa Casa da Misericórdia, que se lhe mudou o nome para Rua D. Belchior Carneiro, o nome do primeiro bispo de Macau. Em Chinês, o nome da rua não sofreu alterações, ainda se chamando hoje Kou Im Kai, isto é, Rua da Horta Alta. Na zona de São Paulo, na década de 50, os arruamentos não eram como hoje os conhecemos, lembra o arquitecto José Maneiras. Atrás das Ruínas existia um terreiro em terra batida e uma horta. Havia a rua que ladeia as Ruínas; entre a Estrada do Repouso e a Rua da Entena havia um caminho em terra batida e o resto era mata. Desde a Fortaleza do Monte aos Prédios da Rua D. Belchior Carneiro existiam socalcos de terra batida toscamente rematados, preenchidos com farta vegetação. Em frente aos prédios localizava- se o Pátio de Espinho, que se desenvolvia do lado oposto da estrada. Ali se vivia, como ainda hoje, numa espécie de comunidade, entre casas e pequenos quintais, numa aldeia dentro da cidade. Para a direita do Pátio de Espinho, e até à Travessa Tomás Vieira estendia-se um conjunto de pequenas casas chinesas, de lotes muito profundos, com pequenos jardins nas traseiras, varanda, janelas de vidros coloridos, revestidas a Shanghai plaster.
Rua D. Belchior Carneiro na rodagem de um filme com Bruce Lee
No alinhamento dos prédios situava-se a casa da família Souza, comerciante dedicado a negócios de importação e exportação. Era uma grande casa, cujos limites correspondiam por um lado, às casas da Rua D. Belchior Carneiro, e por outro à rua dos artilheiros. A casa terminava no contraforte da Fortaleza do Monte. Se caminharmos pela rua dos artilheiros ainda hoje podemos ver uma pequena moradia verde da década de 70, segundo o arquitecto José Maneiras ao estilo das que ocupavam toda aquela zona. Eram casas pequenas de um ou dois pisos, na sua maioria unifamiliares. Caminhámos até à Estrada do Repouso que liga o bairro ao Porto Interior e consequentemente à Calçada dos Artilheiros – o caminho mais antigo que ali existe.
É esta calçada que liga o bairro à fortaleza por um lado, ao Tap Seac e à Rua do Campo por outro. “A construção dos prédios da Rua D. Belchior Carneiro constituiu um pólo de desenvolvimento do bairro. Na sequência da sua construção foram abertas ruas que ainda hoje existem, o espaço foi organizado. A construção destes prédios abriu a rua que os turistas hoje percorrem e que permite o acesso às Ruínas e à Fortaleza”, remata o arquitecto.
O futuro
José Maneiras defende “uma progressiva pedonalização da zona. A ligação de São Lázaro, à Estrada do Repouso, à Calçada dos Artilheiros, à Rua D. Belchior Carneiro, às Ruínas de São Paulo e à Fortaleza do Monte e ao Leal Senado de Macau. As grandes zonas turísticas, na maior parte dos países, um pouco por todo o mundo, tendem a ser pedonalizadas. Só assim será possível atenuar a agressão que o trânsito provoca sobre a cidade e seus habitantes, sejam autocarros ou simples automóveis e motorizadas”. Ainda segundo o arquitecto José Maneiras: “A criação de um parque de estacionamento nesta zona vai permitir o estacionamento de entre 15 a 17 autocarros, agravando substancialmente o congestionamento de tráfego, a poluição ambiental e sonora que já se verifica na zona. Sacrificar estas casas para aqui se construir um parque de estacionamento, parece-me uma política desadequada. Até porque os moradores da zona estão cansados dos autocarros, da poluição e do barulho”.
Carlos Marreiros tem igualmente defendido publicamente a pedonalização progressiva do centro histórico, nomeadamente do Tap Seac às Ruínas de São Paulo. No passado dia 13 de Março, o arquitecto Vizeu Pinheiro questionou o porquê de não se aproveitar melhor o parque de estacionamento construído no Tap Seac e considerou não ser essa a melhor opção porque os autocarros significam mais barulho, mais poluição e menos espaço útil para os turistas, como jardins. Na mesma data, um morador afirmou: “Moro na Rua D. Belchior Carneiro e já vejo muitos autocarros estacionados por lá. Sinto-me sufocado!” Um outro residente declarou: “Tenho 65 anos de idade e levo dez minutos para chegar do Tap Seac às Ruínas de São Paulo”.
Reutilização dos Prédios e Pedonalização do Centro Histórico
A reutilização dos restantes prédios da Rua de D. Belchior Carneiro não oferece particular dificuldade: poderão ser transformados em ateliers para artistas e oficinas de indústrias criativas. Mantendo a tipologia esquerdo direito, as galerias traseiras, e um certo espírito comunitário que favorece a criatividade e interdisciplinaridade artística. Os pátios prestam-se à realização de trabalhos em grande escala e à realização de pequenos workshops, colocando a criação contemporânea ao Centro Histórico de Macau. Os ateliers e oficinas seriam alugados pelo governo, por quantias módicas, e os criativos que ali se instalassem teriam a obrigação de apresentar o seu trabalho aos turistas, mediante marcação prévia, e dentro de certos limites, naturalmente.
Entre o Tap Seac, onde estão já instaladas associações dedicadas às indústrias criativas e algumas lojas de criativos locais, e as Ruínas de São Paulo, existiria mais um ponto de atracção turística, os prédios da Rua D. Belchior Carneiro. O passeio entre o Tap Seac e o Leal Senado de Macau, passando pelas Ruínas de São Paulo seria todo feito a pé, sem o barulho e sem o fumo dos autocarros, para satisfação de turistas e cidadãos.
Para pensar
Alguns aspectos merecem reflexão. Primeiro, por que razão não foi explicado, claramente e em detalhe, a todos os cidadãos que tipo de achados arqueológicos se prevê encontrar naquele local?
Segundo, de acordo com as explicações dos painéis do Museu de Macau, a ala Norte e a ala Nascente do antigo Colégio de São Paulo coincidem apenas com os prédios no. 20 e 22, que já foram demolidos. Por que razão se prevê então a demolição dos restantes? Terceiro, se os achados arqueológicos que se prevêem encontrar naquela zona são de tão grande valor que justificam a simples demolição dos prédios, apesar de existirem métodos menos agressivos de prospecção arqueológica, como é que se pode imaginar a utilização daquele espaço como parque de estacionamento de autocarros turísticos? Finalmente, por que razão insiste o governo da RAEM em tomar decisões que vão contra os desejos, as necessidades e a saúde dos cidadãos, contra as opiniões de arquitectos e urbanistas, e contra as tendências internacionais de pedonalização dos centros históricos?

Artigo da autoria de Margarida Saraiva – Mestre em Planeamento e Politicas Culturais Europeias – publicado no jornal Hoje Macau a 27-04-2010

Fotografias de Keith Fong (não são as que ilustraram o artigo no jornal)

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Vista sobre a Praia Grande a partir da Guia
Av. Almeida Ribeiro
Rua dos Mercadores: à esq. vista parcial do teatro/cinema Vitória
Prédios nos então novos aterros da Praia Grande ca. de 1945: em cima a Sé
Edifício dos Correios no Largo do Leal Senado
Parece ser uma parte da Av. Cons. Ferreira de Almeida
O militar João Egreja
Esperando o novo Governador Albano de Oliveira
Guarda de honra ao novo Governador
Guarda de honra ao vice-pres. da China (governo nacionalista), Sun Fo em Setembro de 1947
O convite tinha partido da iniciativa do cônsul de Portugal em Hong-Kong, Eduardo Brazão, que lutou contra todos os obstáculos que o Comissariado Chinês tinha colocado à visita a Macau. A estadia de Sun Fo no território revestia-se de um simbolismo favorável para as autoridades portuguesas. Era importante para a diplomacia portuguesa dar a impressão que se tratava de uma visita oficial, a indiciar um entendimento que a ala mais radical do novo regime chinês não queria ver difundido e propagandeado nos jornais. Quando finalmente Eduardo Brazão conseguiu formalizar o convite, o vice-presidente chinês aceitou ficar uma só noite no Palácio do Governo, evitando quaisquer manifestações oficiais que pudessem deturpar o sentido da visita que era comemorar o aniversário de sua mãe. Apesar da confusão no desembarque do vice-presidente e o aspecto desolador da residência do Governo, descritos por Eduardo Brazão em carta dirigida ao Ministro dos Negócios Estrangeiros em Lisboa (Arquivo MNE), a visita serviu, no mínimo, os intuitos dos portugueses do território.
No jantar, oferecido no Palacete de Santa Sancha, Sun Fo proferiu um discurso improvisado no qual salientou a conveniência em manter a amizade que ligava os portugueses e os chineses : … porque Macau é, geograficamente, uma extensão dos territórios de Chong San, é bem de ver que a prosperidade e a paz desses territórios se reflecte igualmente no território de Macau e, consequentemente, só há que cuidar e acarinhar a continuação desta situação especial dos dois territórios, de modo que não haja razões que possam destruir as boas e amistosas relações que existem entre os dois povos.
A oportuna visita, associada às declarações de Chiang Kai Chek, foram de grande utilidade para o Governo que assim viu acalmadas as hostes mais acesas contra a administração Portuguesa em Macau.
Vista sobre o Farol da Guia
Em 1º plano o Hotel Macau e depois vista parcial do edifício do BNU
Estátua do Coronel Mesquita
Serviço de Obras Públicas na Rua Pedro Nolasco da Silva
Porta do Cerco destacando-se a estrutura de arame farpado que era atravessada na estrada ao pôr-do-sol quando a fronteira se encerrava
Igreja da Sé
Tancareiras
Em 1º plano – em baixo – o Jardim/Monumento da Vitória e ao fundo a Fortaleza do Monte que por esta altura funcionava como Depósito de Material de Guerra
Coloane em Junho de 1947
Hac Sa em 1947
Ka Ho – 1947
Ka Ho – 1947
Ka Ho – 1947
Militar de carreira; reformou-se com a patente de General;
Imagens cedidas pelo filho, José Egreja, a quem agradeço.

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… da década de 1960, embora seja bastante raro esta perspectiva lateral das ruínas de S. Paulo a partir da Fortaleza do Monte podendo ter-se uma interessante perspectiva sobre o canal do Porto Interior e a intensa actividade marítima; ao fundo, a China.

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