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António Francisco – era assim o seu nome completo – foi um dos portugueses nascidos em Portugal (Pataias, Alcobaça, 13 de Maio de 1906) que mais tempo viveu em Macau. Ao todo, 65 anos. Chegou a Macau em 1927 incorporado num contigente militar tendo comçado por prestar serviço da Companhia de Metralhadoras. Muito provavelmente chegou em Outubro de 1927 no navio de transporte de guerra “Pêro de Alenquer”, um tema que será abordado num futuro post.
Tinha apenas 21 anos e nunca mais teve outra morada. Depois de uma vida inteira dedicada ao serviço público (primeiro no exército e depois na PSP,  e onde chegou a posto de Comissário) faleceu em 1991 com 85 anos no Hospital Conde de São Januário.

Ainda no tempo da vida militar estudou no Liceu Nacional Infante D.Henrique (ao Tap Seac) “tendo como colegas do Liceu Frederico Nolasco da Silva, Alberto Eduardo da Silva, Alberto Pacheco Jorge, Luis Freire Garcia e outros nomes conhecidos da comunidade macaense”, recorda o seu filho Rui Francisco.
Após alguns anos na tropa transferiu-se para a Polícia de Segurança Pública a 1 de Março de 1940 tendo ingressado como sub-chefe. “Na altura só existiam cerca de 5 a 8 em toda a corporação da Polícia e eram todos conhecidos localmente.” Esteve muitos anos neste posto “porque na altura só quando falecesse um chefe é que deixava uma vaga…”

Nesta época recorda Alberto Alecrim, num artigo sobre António Francisco publicado na Revista Macau em Outubro de 1990, “o único veículo motorizado da PSP era uma motocicleta com ‘side-car’. A maior parte da vigilância era feito pelos agentes de bicicleta.”

Foi no posto de sub-chefe que António Francisco teve os momentos mais difícies da sua carreira, nomeadamente no período da invasão da China pelo Japão e em que as tropas japonesas estacionaram junto às Portas do Cerco. O papel do sub-chefe Francisco foi de tal modo relevante que lhe chamavam o “comandante da zona norte”.
Outro dos episódios que Alecrim alude diz respeito à prisão de um famoso pirata que por aquela época ainda fazia estragos. “Tratou-se da captura de Wong Kong Kit, que recolheu à 4ª esquadra, onde António Francisco prestava serviço.”
Outro dos locais onde A. Francisco teve em missão foi a ilha da Lapa, “onde três polícias mouros foram mortos quando aquela ínsua deixou de ser portuguesa, sendo um dos últimos que prestou serviço na aldeia de Manió na ilha da Montanha, que foi também possessão portuguesa.”
Em 1947 A. Francisco foi nomeado chefe de posto administrativo da ilha de Coloane e por iniciativa própria resolveu construir com os parcos recursos de que dispunha a estrada de ligação à praia de Cheoc Van. Na década de 1980 esse seu acto fez com que a estrada tivesse o seu nome.

É na qualidade de chefe de posto administrativo que recebe o Ministro do Ultramar de visita ao Território em 1952. (para informações adicionais sobre este tema é só utilizar o motor de pesquisa) Em Janeiro de 1954 o Gov. Marsques Esparteiro concede-lhe um louvor pelo trabalho desenvolvido em prol de Coloane.

Apesar do louvor A. Francisco teve de esperar 20 anos para chegar a Chefe de Esquadra e, em 1968, ao fim de 41 anos de serviço efectivo e já como Comissário, passa à situação de reformado. Ainda assim mantem-se no activo como Vereador do Leal Senado.
Em Macau António Francisco casou com Alzira Maria da Luz Francisco (actualmente viva e com a idade de 93 anos estando internada no Lar de Santa Casa de Misericórdia). Dessa união nasceram 10 descendentes sendo actualmente cinco ainda vivos: Eduardo (Portugal), António, Rui, Alberto (Macau) e Maria de Fátima (Bélgica). Teve cinco netos e seis bisnetos.
“Meu pai após a aposentação ainda foi convidado pelo Leal Senado de Macau para Vereador (mas sem qualquer vencimento); na altura o presidente era o Dr. Rogério dos Santos. Teve como colegas o Dr. Neto Valente, e foi na altura em que Mário Soares visitou Macau pela primeira vez como primeiro-ministro tendo tirado uma fotografia juntos.”

Visita de Mário Soares ao Leal Senado em 1980;
António Francisco é o primeiro a contar da esquerda.

António Francisco faleceu a 30 de Setembro de 1991, ao fim de 65 anos de vida em Macau de forma ininterrupta. “Enquanto vivo foi considerado sempre como o portugês mais antigo de Macau superando mesmo o Padre Teixeira que na altura também estava vivo mas aconteceu que o Padre se ausentou por uns anos para Singapura e meu pai nunca saíu deste Território senão de licença graciosa…”

António Cambeta, outro português nascido em Portugal radicado em Macau desde a década de 1960, recorda-se do Comissário da PSP, António Francisco, e até pensava que ele tinha nascido em Macau. “Ele morava na Rua das Mariazinhas. Um dos filhos dele foi meu recruta no ano de 1965, trabalhava no Banco Nacional Ultramarino. Esse senhor Comissário fez parte do concurso que realizei para Subchefe da PSP no ano de 1967.”
Segundo familiares de António Francisco – o filho Rui e o neto José que me cederam esta fotografia – a mesma foi oferecida por Gastão Barros que chegou a ser Administrador Civil das Ilhas. António Francisco está sentado na primeira fila, ao meio, rodeado por comerciantes chineses da Taipa e de Coloane. A data da foto é muito provavelmente a década de 1950.

da esq. para a dtª: Carlos Assumpção, Delfino Ribeiro, José Assumpção, _ Kwai Chan, ? Silva, ?, Américo Cordeiro, Fernando Marques, Lopes ?, Rui Branco, Mário Robarts, “China?”, Jacinto e Gastão Barros  (foto do site Memória Macaense)

Gastão Barros fez parte do grupo de jovens católicos (composto por José Patrício Guterres, Herculano Estorninho, José Silveira Machado, Abílio Rosa, José de Carvalho e Rego, Rui da Graça Andrade e Rolando das Chagas Alves) que apresentou aos padres Fernando Leal Maciel e Júlio Augusto Massa a ideia de publicarem um jornal que viria a ser O Clarim, criado em 1948.

António Francisco tem o seu nome inscrito na toponímia de Macau. A sua dedicação de oito anos enquanto chefe do Posto Administrativo de Coloane valeu-lhe o nome inscrito na estrada de acesso à Praia de Cheoc Van. Poucos que por ali passam saberão por que razão se chama Estrada António Francisco… É que foi o próprio António que iniciou a construção da estrada.
Antes desta estrada existir o acesso à praia fazia-se através de uma escadaria (primeiro em terra e mais tarde em betão) que ficava por entre o mantagal, junto à casa de repouso do Colégio de D. Bosco (da década de 1960) e à casa de Verão do Dr. Pedro Lobo (da década de 1940), bem como da casa de Roque Choi que, aquando do ‘baptismo’ da estrada, terá cometando em jeito de graça, que finalmente a rua onde morava tinha nome.
A propósito de portugueses que mais anos viveram em Macau, António Cambeta diz o seguinte: “Segundo sempre ouvir dizer o português o Comissário Ferreira, era o português mais antigo residente em Macau, o filho foi Director da Conservatória dos Serviços de Registos, que ficava na curva da Rua do campo que vai dar para o jardim Vasco da Gama, esse senhor Comissário da PSP faleceu há cerca de 2 a 3 anos. Outro dos portugueses a residirem em Macau há mais tempo é o conhecido General, um senhor hoje com os seus 90 e tal anos, que ainda o ano passado andava de moto e sempre trabalhou na esquadra da PSP junto ao Canídromo. Era ele que trabalha a quinta da esquadra e pantava de tudo o que era bem português.”

Conta o filho Rui Francisco que o pai chegou um ano mais cedo a Macau do que o Com. Ferreira.
Sobre mais pormenores sobre a personalidade do seu pai, Rui recorda:
“Nunca foi adepto de futebol mas era um desportista. Gostava da pesca, andava de bicicleta, e também gostava da caça às aves. Durante a estadia dos oito anos em Coloane andava sempre na caça nos tempos livres. Também gostava muito da natação mas só nadava de bruços.”
(…) “foi um dos instrutores no quartel general ainda quando iniciava a sua vida militar em Macau na Companhia de Metralhadoras do primeiro grupo de mancebos locais recrutas de Macau e em coicidência eu Rui Francisco fiz parte do primeiro curso de Sargentos Milicianos do Exérctito no quartel de Ilha Verde em Janeiro de 1964/1966, incluída numa Companhia de Caçadores de Metrópole desta cado em Macau , e a seguir a mim o meu irmão Alberto também serviu o exército português também no curso de sargentos milicianos (2o. em Macau) em 1967/1969 e tinhamos que cumprir o tempo obrigatório de 30 meses.”
NA1: Eu também me recordo do ‘General’. Na década de 1980/90 convivi com ele e visitei a sua horta juntamente com os meus pais, nas imediações da esquadra da Almirante Lacerda. Não estarei a cometer nenhuma inconfidência se disser que muitas ceias de Natal ‘souberam’ mais a Portugal graças às couves que ele providenciava…
NA2: O Comissário Ferreira era compadre do Comissário Francisco (pq Ferreira foi padrinho de crisma do filho Eduardo do Comissário Francisco) e terá chegado a Macau um ano depois do Com. Francisco.
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