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Foi por pouco, mas os peritos ainda foram a tempo de salvar a casa. Chan Su Weng, director-geral da Associação de História de Macau, foi um dos primeiros a reparar no perigo. Sabendo de antemão que já tinham sido apresentado os documentos necessários para demolir o edifício para dar lugar a dois prédios de apartamentos de seis andares, o “alarme” soou quando moradores do bairro telefonaram no domingo a avisar que grandes tábuas de madeira tinham sido colocadas no exterior do antigo edifício. Chan ligou imediatamente a outro entusiasta, que também se queixou ao presidente o Instituto Cultural (IC) Ung Vai Meng, para inspeccionar todos os danos na noite de domingo.
“Não havia muito no interior, como uma janela feitas de concha de ostra e algumas decorações de madeira curvada. Achei esse sinal alarmante porque uma vez começada a demolição, levaria apenas um par de dias para deitar abaixo todo o edifício. Por isso, liguei imediatamente para Cheang Kuok Keong [director-geral da Associação para Protecção do Património Histórico Recuperadas peças antigas de alegada base secreta de Sun Yat-Sen Património quase ia abaixo e Cultural de Macau] que agarrou na lista telefónica e apressou-se a pôr Ung a par da situação”, conta Chan, acrescentando que a reacção do presidente do IC foi rápida e positiva. Uma vez denunciado o risco de danos para o património, o IC terá contactado o proprietário e a Direcção dos Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) para apelar à suspensão da demolição.
O vice-presidente do IC, Chan Chak Seng, disse ontem à imprensa que o proprietário concordou em limpar a confusão no interior do edifício para futura avaliação da casa, enquanto um porta-voz do organismo confirmou que o IC estava a considerar comprar de volta as peças em falta e avançou que os média seriam posteriormente convidados a visitar a propriedade. De acordo com um comunicado do IC, o Museu de Macau dirigiu-se a coleccionadores e lojas de antiguidades numa tentativa de localizar as peças desaparecidas, com alguns moradores a confirmarem a devolução das relíquias, levando o IC a expressar a sua gratidão pela resposta positiva. O IC também recebeu chamadas e e-mails de pessoas que afirmavam possuir conhecimentos e documentos que comprovavam a localização da farmácia. O proprietário também foi, durante uma breve conferência de imprensa ontem, saudado pela cooperação. A acção de demolição foi interrompida, mas a dor de cabeça para o IC neste momento é como provar ao proprietário que esta casa velha tinha abrigado outrora a célebre Farmácia Chong Sai, um alegado disfarce da base secreta de Sun Yat-Sen para derrubar o governo imperial Qing, fundada em 1892. Uma conferência de peritos locais em património foi organizada ontem de manhã para melhor compreender o valor da casa. Além dos dois ilustres especialistas que descobriram o caso, representantes da Associação dos Embaixadores do Património de Macau e da Associação de História Oral de Macau também participaram no encontro e houve um acordo geral de que a casa era a localização original da farmácia de fachada.
Outros dados indicados previamente pela DSSOPT e outras agências governamentais já haviam indicado esse ponto de vista, mas nem os especialistas nem outros órgãos do Governo foram capazes de o provar com documentos. Chan Su Weng disse ao Hoje Macau que o seu conhecimento sobre a antiga farmácia se baseava apenas em testemunhos, incluindo o proprietário de uma loja, cujo avô convidava Sun Yatsen
para o “yam-cha”. O já falecido proprietário de uma loja de tecidos localizada na mesma construção também havia dito a Chan, há mais de dez anos, que um letreiro apagado onde se podia ler Farmácia Chong Sai (中西藥 局) chegou a ser recuperado no muro exterior quando o espaço foi reformado em 1960. Descrições escritas da vizinhança da farmácia também coincidem com a situação actual da farmácia.
Apesar da crença comum passada de geração em geração, Chan admitiu haver falta de documentos para o comprovar. Por isso, o IC está agora a apelar ao público que forneça provas mais fiáveis de que confirmem o estatuto da antiga casa antes que o IC possa avançar para novos planos de conservação. O secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Cheong U, disse ontem à rádio chinesa e à televisão MASTV que o Governo desejava ouvir as opiniões de todos os lados porque faz parte da tomada de decisão da comunidade científica, que também se irá basear em estudos e estatísticas. E também apelou ao público que esperasse a actualização da lista do património protegido pelo Governo. Chegou a ser equacionado se o património relacionado com Sun Yat-sen, possivelmente incluindo a farmácia, poderia ser ligado em conjunto por uma marcha pelo património que iria coincidir com o centésimo aniversário da revolução republicana contra a dinastia Qing no próximo ano.
Artigo do jornal Hoje Macau de 12-05-2010
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