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Pátio do Espinho
Desenho de George Chinnery
Postal de 1904 e fotografia a partir da qual foi feito o postal (imagem acima):
foi este o estado em que ficou a área depois do terrível tufão de 1874
A existência de possíveis vestígios arqueológicos do antigo complexo de São Paulo foi a primeira razão avançada para a demolição dos prédios do Montepio de Macau, situados na Rua D. Belchior Carneiro. Mas há uma outra: a construção de um parque de estacionamento.
Fizemos, em primeiro lugar, a história dos edifícios da Rua D. Belchior Carneiro e das pessoas que os habitaram. Hoje, fazemos a história dos vestígios.
Na área do antigo Complexo de São Paulo, a Igreja de Madre Deus e Colégio de São Paulo, realizaram-se escavações arqueológicas em três zonas diferentes: a igreja (1988-1994), o colégio (1995-1998) e a fortaleza (1996-1998). Em cada uma das áreas os achados foram naturalmente diferentes, mas as investigações permitiram reconstituir o desenho da antiga igreja, do colégio de São Paulo, bem como a cerca do colégio, em parte coincidente com a primeira muralha da cidade de Macau.
Para a realização das escavações organizaram-se equipas multidisciplinares compostas por arquitectos, historiadores e arqueólogos. Joaquim Franco integrou a primeira equipa de escavações arqueológicas realizadas na área da Igreja, Clementino Amaro foi um dos coordenadores das escavações na zona do colégio de São Paulo e da Fortaleza e Francisco Chan, membro desta segunda equipa. Consultámos os catálogos, mapas, gravuras e desenhos e passeámos por toda a colina.
A IGREJA E O COLÉGIO
César Guillén Nuñez, autor da obra “Macao’s Church of Saint Paul: A Glimmer of the Baroque in China”, conta que “Quando chegaram a Macau os Jesuítas estabeleceram-se junto à actual Igreja de Santo António, mas logo depois mudaram residência para a colina do monte.”
Uma nova residência e um novo colégio, com a respectiva igreja foram construídos na encosta do Monte, em 1594. Este colégio destinava-se a formar missionários que cumprissem o sonho de São Francisco Xavier de evangelizar o Império do Meio. O estabelecimento recebeu importantes donativos do Leal Senado por se destinar também à educação da juventude de Macau.
Foi necessário fazer uma plataforma, cortando grandes pedras de granito e levantando muros para sustentar o novo complexo religioso e colegial. Mas em 1601, um violento incêndio destruiu a igreja da nova residência. Uma nova igreja, cujo desenho é tradicionalmente atribuído ao Padre Carlo Spinola, foi construída entre 1602 e 1603. A adaptação da mensagem cristã à cultura oriental informa o programa iconográfico da fachada.
Para assinalar o lançamento da primeira pedra da nova igreja foi gravada uma inscrição VIRGINI MAGNAE MATRI/ CIVITAS MACAENSIS LIBENS / POSSUIT. NA. 1602 (ainda hoje visível). A fachada de granito só foi concluída entre 1637 e 1640. Em 1762, os Jesuítas foram expulsos e o imóvel entregue ao Leal Senado. Em finais de setecentos foi instalado nas dependências da Casa Professa (residência) e do colégio o Batalhão do Príncipe Regente. A 26 de Janeiro de 1835 um violento incêndio destruiu todo o complexo e a igreja, restando apenas a fachada e partes das paredes do templo e de alguns sectores do colégio.
A FORTALEZA E A MURALHA
Em 1601 deu-se a primeira tentativa de assalto dos holandeses a Macau. As mulheres e famílias dos moradores recolheram-se na cerca do Colégio. Os Jesuítas tinham já organizado os seus domínios com certo aparato defensivo.
A necessidade de dotar o Monte de uma fortificação mais eficaz crescia diariamente, dados os ataques dos holandeses e as ameaças de ataques organizados a partir de Cantão, em juncos de guerra. Em 1606, ficou concluída (reforçada ou melhorada) a cerca do colégio de São Paulo.
Os Jesuítas deram início, em 1617, à construção da fortaleza do Monte. Para essa obra foram usados troncos da cerca do colégio ou mesmo antigos perímetros amuralhados da cidade.
A construção do complexo igreja – colégio – fortaleza obrigou à reorganização da antiga muralha da cidade e das muralhas defensivas do colégio, em toda a área do Monte e zonas circundantes. Em 1622 dá-se o famoso ataque a Macau pelos holandeses que foi repelido por dois tiros de canhão disparados da fortaleza do monte.
O primeiro Governador D. Francisco Mascarenhas, Capitão Geral de Macau toma posse da fortaleza pela força, expulsando os Jesuítas. A reconstrução dos sistemas defensivos de Macau foi organizada entre 1623 e 1626.
RUÍNAS DE UMA HISTÓRIA
O que hoje existe no topo da colina do Monte são as ruínas de uma história. Sucessivos incêndios deixaram visível apenas a fachada. Para se transformar as ruínas em cemitério provisório foi improvisada uma morgue na capela-mor e as paredes do templo que restaram do incêndio foram cortadas para instalação de jazigos.
Segundo o Padre Manuel Teixeira, em 1934 os Muros do Colégio da Madre de Deus foram destruídos para com eles fornecer entulho aos aterros da Praia Grande.
Mais tarde, em 1954, abriram-se as ruas, Calçada de São Paulo e Rua da Horta da Companhia e construíram-se os Prédios do Montepio, continuando dessa forma a destruição dos antigos vestígios do complexo de São Paulo.
Vieram então os arqueólogos, em 1988. Fizeram-se as escavações na Igreja e organizou-se o espaço. Exibiram-se os achados que mostram o traçado original da antiga igreja e os túmulos de alguns Jesuítas.
Na década de 90, decidiu-se construir o Museu de Macau dedicado à história da cidade. Para fazer o museu era necessário escavar dois pisos no interior da montanha. As obras começaram e os vestígios do antigo complexo de São Paulo não tardaram em surgir. Chamaram-se os arqueólogos e historiadores, mas a decisão da construção do Museu era definitiva. Os vestígios arqueológicos encontrados durante as escavações poderiam ser registados, fotografados, descritos, cartografados, mas seriam destruídos para a construção desse Museu dedicado à história da cidade de Macau. As escadas rolantes do Museu estavam inicialmente previstas para a zona onde hoje estão expostos vestígios do colégio junto à igreja depois da Rua de São Paulo, felizmente acabaram por ser preservados. Encontrou-se uma torre dentro da fortaleza do Monte, mas foi destruída porque se impunha construir o Museu da cidade.
Agora destroem-se os prédios do Montepio de Macau para se encontrarem os vestígios que foram destruídos aquando da sua construção, porque se impõe a construção de um parque de estacionamento.
QUE DIZEM OS ARQUEÓLOGOS E HISTORIADORES?
César Guillén Nuñez confessa “não tenho a certeza que no local onde estão implantados os prédios do Montepio se possam encontrar vestígios arqueológicos. É necessário investigar”. E sugere “Seria muito interessante poder realizar-se escavações no Pátio de Espinho, aí talvez se pudesse encontrar alguma coisa”.
Por sua vez Joaquim Franco refere: “Julgo que ali não será possível encontrar nada. A Rua da Horta e Companhia e as casas do Montepio foram construídas a uma cota diferente da cota dos vestígios do colégio de São Paulo. A construção da Horta e Companhia, bem como das casas, escavou o monte em cerca de 2.5 metros e por isso todos os vestígios que aí poderiam existir já devem ter sido destruídos”. Para além disso, “a abertura daquela Rua cortou o transepto da igreja de São Paulo. O traçado completo da Igreja ocupa hoje parte do passeio da antiga Rua do Horta e Companhia”. E acrescenta “Os vestígios que se poderiam encontrar devem situar-se no Pátio de Espinho”. Francisco Chan adianta que “Há um poço no Pátio de Espinho, ainda hoje se pode ver, basta passar por lá”.
Contudo, para Joaquim Franco: “Existe um tramo completo da primeira muralha de Macau que se prolonga pela Rua de Tomás Vieira, em algumas partes é visível, e que corre por detrás de vários prédios antigos que ali estão construídos. Esse troço de muralha deveria ser todo descoberto e exposto para se poder ter uma ideia de como foi a primeira muralha de Macau”.
Clementino Amaro, coordenador da segunda e terceira fase das escavações, explica que “conforme expressa a toponímia, Rua da Horta da Companhia, naquela zona situava-se a Horta e o Pomar da Companhia de Jesus. Não é muito provável que ali se encontrem vestígios significativos. O melhor que poderia acontecer era encontrar um poço. Na horta existiam poços que são achados arqueológicos de grande valor. Ao longo dos tempos os utilizadores dos poços deixam cair objectos que se depositam por ordem cronológica e nos permitem saber muitas coisas sobre quem os usou”.
MÉTODOS ALTERNATIVOS
Existiriam métodos alternativos à simples destruição das casas do Montepio? “Os scanners que usamos em céu aberto não podem ser usados dentro de edifícios. Gera-se interferência e a informação que recebemos à superfície da terra, dada a existência das estruturas do prédio, não permite uma leitura dos dados”, explica Clementino Amaro.
“Nesse caso, a alternativa passa por fazer um buraco ou vários buracos que permitam esclarecer acerca do que ali existe. Talvez se pudesse usar este método nos prédios da Rua D. Belchior Carneiro”, acrescenta Joaquim Franco.
FUTURO DAS RUÍNAS
É curioso observar que no que diz respeito ao Complexo de São Paulo a mudança de administração não significou uma mudança de política. Os vestígios poderão ser fotografados, registados, desenhados, cartografados, mas serão destruídos para a construção do parque de estacionamento. Contudo, podemos desde já esperar que os arqueólogos vindos do interior da China contem uma história diferente da que acabamos de relatar. Por duas razões: a primeira é que nenhum dos arqueólogos participantes das escavações anteriores foi até à data consultado sobre a matéria, e a segunda prende-se com o facto de esta nova história constituir uma nova narrativa nacional, a da China.
De certa forma, é difícil compreender que se destrua um conjunto arquitectónico relevante para se poder construir um parque de estacionamento. Sobretudo, porque esse conjunto arquitectónico constitui-se como singular na cidade de Macau, por consubstanciar uma arquitectura que não lhe é própria. Assim, a cidade fica mais pobre, menos diferente, mais igual a qualquer outra, assistindo sucessivamente à destruição daquilo que a caracteriza, que a distingue, que lhe dá futuro.
O valor do património de Macau reside sobretudo nos conjuntos urbanos. Saímos de uma igreja e ao virar da esquina há um templo, percorremos uma praça de carácter mediterrânico e ao virar da esquina encontramos um bazar chinês. Nesse sentido, cada vez que se suprime diferença, empobrece-se o conjunto.
Torna-se igualmente difícil compreender que se destruam edifícios com certa relevância para fazer escavações arqueológicas quando os vestígios que estão à vista de todos não são valorizados.
Todo o centro histórico de Macau, incluindo a área do complexo de São Paulo, merece um plano de requalificação. O aumento das áreas pedonais é sem dúvida uma prioridade. Mas para além disso, há um grande troço da muralha ainda visível na Rua Tomás Vieira, há ainda um poço bem visível no Pátio de Espinho. Talvez se pudesse recuperar todo esse troço de muralha existente, mediante o realojamento de uma dúzia de famílias, como se planeia fazer no Fai Chi Kei.
Os troços da muralha que já não existem poderiam ser reconstruídos de forma a assinalar pelo menos parte desse primeiro sistema defensivo da cidade de Macau. Entre a muralha e a fortaleza, visto que ali se situava a horta e o pomar da companhia de Jesus, seria um belo e aprazível jardim de acácias rubras, os autocarros teriam como destino um parque subterrâneo.
Não devemos esquecer-nos que é ali que nasce a história da cidade. A história de uma cidade que se torna diferente das demais do sudeste asiático dada a presença portuguesa. É um lugar fundador! Ou como disse alguém há muito tempo: “Um lugar sagrado!”.
Artigo da autoria de Margarida Saraiva, Mestre em Planeamento e Políticas Culturais Europeias, Montfort University, Leicester, Inglaterra – Maio de 2010
A igreja “Madre de Deus” foi construída em 1602, contígua ao Colégio Jesuíta de São Paulo, o primeiro colégio ocidental no Extremo Oriente onde estudaram missionários como Mateus Ricci e Adam Schall antes de servirem na corte Ming, em Pequim, como astrónomos e matemáticos. A igreja, que era feita de taipa e madeira, estava ricamente decorada e mobilada, de acordo com relatos de viajantes da época. A fachada de pedra trabalhada foi construída entre 1620-27 por cristãos japoneses exilados e artistas locais sob a orientação do jesuíta italiano Carlo Spinola.
Depois da expulsão dos jesuítas, o colégio foi utilizado como quartel e em 1835 um incêndio deflagrado nas cozinhas destruiu o colégio e o corpo da igreja. A fachada, que sobreviveu, ergue-se em quatro filas com colunas, estando coberta com esculturas e estátuas que ilustram com eloquência os primeiros tempos da Igreja na Ásia. Há estátuas da Virgem e de Santos, símbolos do Paraíso e da Crucificação, anjos e o demónio, um dragão chinês e um crisântemo japonês, uma caravela portuguesa e inscrições religiosas em chinês.
Actualmente pode ser visto o que resta da antiga Igreja Madre de Deus e ainda conhecer a Cripta-capela, especialmente construída no espaço outrora ocupado pela capela-mor da igreja do colégio da Madre de Deus para conservar e oferecer à veneração dos fiéis os ossos dos Mártires do Japão e do Vietname, que se encontram parcialmente expostos em elegantes relicários abertos nas paredes laterais, forradas a mármore vermelho-alaranjado vindo especialmente de Itália. Existe ainda o Museu de Arte Sacra onde estão expostas pinturas, esculturas e objectos litúrgicos de igrejas e mosteiros da cidade.
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