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Flávia (61 anos) e Carlos Soares (63 anos) ‘encontraram’ no blog “Macau Antigo” uma forma de conhecer os seus antepassados que viveram em Macau “de que ouvíamos falar muito,” mas, na verdade, pouco ou nada sabiam sobre as ligações dos avós e pais a Macau. Perante as informações dispersas que me foram chegando procurei dar respostas às questões e, sobretudo, fazer a ligação dos eventos que apareciam isolados.
Ajudei no que pude e partilho agora parte da história. Uma parte porque as pesquisas continuam, nos EUA, em Portugal e em Macau e é provável que surjam novos conteúdos.
Esta é uma história de vida que não só atravessa gerações como atravessa continentes já que tem ligações entre os EUA (Boston e Califórnia), a Europa (Lisboa e Açores) e a Ásia (Macau). Começa nos primeiros anos do século XX com a ida para Macau de José Augusto Machado, natural de Lisboa e primeiro sargento da Marinha, casado com Emília Faria Machado, natural dos Açores.

“O meu irmão Carlos Soares escreveu no seu blog um comentário a dizer que tinha duas fotografias tiradas em Macau pelo fotógrafo Man Fook. Eu também tenho fotografias da nossa mãe, tia e avós tiradas pelo o mesmo fotógrafo. A foto das duas meninas tem uma dedicação com a data de 15 de Janeiro de 1915.” As meninas são a mãe de Flávia e Carlos (à esquerda e que tb se chamava Flávia) e a sua irmã, tia da Flávia e dos Carlos, que se chamava Alda. Carlos recorda que “a minha mãe tinha 4 anos e a minha tia, 5. A outra fotografia que eu tenho é da familia toda e parece que foi tirada no mesmo dia.”

A 31 de Janeiro de 1917 no número 51 da Rua Central, freguesia de S. Lourenço, viria a falecer “de morte natural e sem os sacramentos da Santa Madre Igreja” a avó de Carlos e Flávia. Chamava-se Emília Faria Machado e tinha apenas 23 anos. Deixou duas filhas menores ao cuidado da Casa de Beneficiência. Ali ficaram até cerca de 1920 altura em que regressaram a Portugal na companhia do pai (avô de Flávia e Carlos). “Não sei quando regressaram a Portugal. A minha mãe falava muito da viagem que fizeram de barco de Macau até Lisboa, penso que num barco inglês. Também não me lembro com quem fizeram essa viagem. Segundo o que ela me contava, ela e a irmã ficaram ao cuidado de uma senhora enquanto aguardavam entrar no Colégio de Odivelas para filhos de militares o que acabou por não acontecer já que quem tinha morrido não era militar, era mulher de um militar,” recorda Flávia Soares.
“A foto do avô tem data de 13 de Junho de 1919. Estava na Marinha Portuguesa e esteve destacado em Macau vários anos (penso que 6 ou 7). A minha mãe falava muito de Macau. Quando eu era pequena ela ensinou-me a contar até 10 em chinês”, recorda agora Flávia.

Família Machado em 1915 no estúdio de fotografia de Man Fok

Terão ficado pouco tempo por Lisboa e acabaram por  ir para S. Miguel “para casa de um irmão do meu avô”. Existem cartas do avô de Flávia às filhas escritas em Lisboa com datas de Junho de 1922, e Fevereiro e Abril de 1924.
Ele morreu em Ponta Delgada a 3 de Dezembro de 1925 “e aí começou outra saga na vida da minha mãe e da minha tia que ficaram sem pais aos 14 e 15 anos”… Acabaram por emigrar para os EUA. O irmão de Flávia ainda lá está. Flávia regressou no início da década de 1990 a Portugal.

O “Avô Machado” nasceu a 25 de Julho de 1879 na freguesia de Santa Izabel em Lisboa e morreu 46 anos depois, nos Açores, em 1925. Foi militar a maior parte da sua vida.
Prestou serviço nas canhoneiras “Quanza” e “Açor”. No documento da ‘reforma’ pode ler-se: “Sargento ajudante de máquinas nº 116/2 José Augusto Machado…. reformado no posto de guarda-marinha maquinista conductor, a contar de 4 de Maio do ano corrente (1923) para todos os efeitos legaes, data em que foi julgado incapaz de todo o serviço pela Junta de Saúde Naval e em que completou 28, 4 mezes e 8 dias de serviço para efeiros de reforma….. por contar 3:804 dias de serviço colonial e de campanha”.
Caso não haja nesta contabilidade de tempo de serviço nenhuma bonificação pelo facto de muito do serviço ter sido efectuado fora de Portugal, José Augusto Machado esteve na Marinha quase 11 anos. Reformou-se em 1923.
Em resumo, os familiares de Flávia e Carlos que que moraram em Macau foram (o resume é do Carlos): avô José Augusto Machado, sargento da Marinha, nasceu em Lisboa e morreu em Ponta Delgada; a avó Emília Faria Machado, nasceu no Faial e morreu em Macau. Deste casamento resultaram duas filhas: Alda Faria Machado (minha tia), nasceu no Faial morreu em Newton, Massachusetts, Estados Unidos; e Flávia Faria Machado Oliveira Soares (a minha mãe e a da miha irmã, que nasceu no Faial e morreu em Cascais. Houve ainda um outro filho… os meus avós tiveram um bebé em Macau que nasceu morto ou morreu muito pequeno; não sei se deram nome, mas era um rapaz.”

NA: A Flávia (Portugal) e o Carlos (EUA) procuraram-me para saber mais informações sobre os seus familiares, nomeadamente dos avós (que viveram em Macau) e mãe (que ali viveu a infância mas que de lá saiu muito nova). Para além do que partilhei a nível pessoal e respondi via e-mail mas que por motivos óbvios aqui não coloco, partilho com todos, algumas das minhas respostas, às muitas perguntas da Flávia e do Carlos. Agradeço aos dois os documentos que me enviaram e todos os que me ajudaram a encontrar respostas para as perguntas destes dois irmãos com uma ligação afectiva a Macau.

Se alguém tiver mais dados a acrescentar, é só contactar-me.
1) Dúvida; Man Fook, Man Took ou Man Foc?
Resposta: estamos a falar da mesma pessoa e do mesmo fotógrafo. Tratar-se-á sempre da questão de ‘traduzir’ um nome chinês para uma linguagem fonética… ; sendo que por norma é utilizado o ‘K’ em vez do ‘C’… mas a verdade é que aquela imagem do ‘reclamo publicitário’ ao estúdio datada de 1870 está com ‘C’.
Terá sido erro de quem pintou a letra? É que, de facto, existem outros documentos, nomeadamente fotografias em que a assinatura do fotoógrafo é Man Fook.
Em Macau existem muitos exemplos de traduções estranhas… o exemplo mais clássico (e extremo) é o letreiro de uma loja onde se podia ler (a loja já não existe) “loja de passarinhos quadrúpedes”…
Seja como for, Man Fook ou Man Foc tinha um estúdio fotográfico no Largo da Caldeira ao Porto Interior em meados de 1800 e manteve-o até às primeiras décadas de 1900.
Neste link http://macauantigo.blogspot.com/2010/01/largo-da-caldeira-1870-e-inicio-do.html pode ver uma foto do exterior do edifício onde ficava o estúdio em 1870… só que os ‘dizeres’ estão em caracteres chineses. Entre meados de 1800 e meados de 1900 o estúdio era o único de Macau e muito utilizado para fazer os ‘retratos’ das famílias mais abastadas (nos baptizados, crismas.. e dos militares portugueses.
2) Casa de Beneficiência?
Quando a sua avó faleceu tinha apenas 23 anos. O seu avô ‘andava’ no mar já que fazia serviço numa canhoneira, logo, não tinha tempo para cuidar das filhas que tinham  entre 6 e 7 anos. Naturalmente deixou-as aos cuidados da Casa da Beneficiência das Irmãs Canossianas, uma instituição criada em 1878 no Largo de Camões. (já aqui coloquei um post sobre o tema, pelo que quem estiver interessado basta pesquisar…)

Carlos e Flávia era assim Macau quando os vossos avós, mãe e tia lá viveram no início do século XX

Resta-me agradecer à Flávia e ao Carlos por terem partilhado as suas memórias. Estou certo que entre os milhares de leitores do blog poderão surgir novos contributos para vos elucidar ainda mais sobre os v. antepassados. Bem hajam! JB

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