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Este texto, em homenagem ao poeta Couto Viana, foi escrito quando partiu de Macau, onde viveu algum tempo. Agora partiu para a eternidade. Não existe despedida para quem deixa, como ele, a marca da escrita, tão profunda.
“Não cabem aqui os poemas acabados de fazer, que me mostrava ainda com a tinta fresca, os apontamentos que pedagogicamente apunha em textos que me dava a ler, as dedicatórias em verso ou prosa, quando nos oferecia os seus livros. Se passava à nossa porta, nas intermináveis deambulações sempre a pé, de certeza subia e, na mão, lá vinha mais um poema e outro e outro.
Percebi assim, com a humildade do aluno frente ao mestre, a maravilha que é a criação poética no seu mais elevado expoente. Couto Viana, simplesmente, respira a realidade e devolve-no-la com o valor acrescentado da estética. Tudo é emoldurado por essa natureza impressiva do poeta, tudo na Vida o inspira e extasia. No meu espírito passei a ter pelo poeta a reverência que , até então só tinha pelo genial Robert Schumann, também ele pronto a beber a inspiração do mundo da criança, nas “Cenas Infantis”, a inspiração das coisas simples e a grande fonte criativa que é o sofrimento, produzindo as belíssimas peças do “Carnaval”, onde a Alegria e a Tristeza se animam num diálogo doloroso de máscaras. É produção fértil, generosa, infinita!
Ler Couto Viana a ouvir Schumann é, para mim, um pedacinho do paraíso! Couto Viana faz da Vida um hino lírico de composições-apontamento, onde perpassa a graça e alegria, o desconcertante, o pitoresco ou a coita de amor à maneira medieval, merencórica e triste. Impulsiona-o, quase a contra-gosto, a realidade, que o agarra para que a molde em poesia, porque na sua alma de poeta cabe inteira, e porque, como ele próprio diz “Morre sem alma quem esconde a voz” (Soneto Agudizante III – Nado Nada).
Voz que lhe vem dos ancestrais, como o apelo de uma cruzada, acordando nele o cavaleiro que luta infatigável e imperativamente por ideais nobres. Um desses ideais o fervor da sua alma portuguesa, manifesta-se sofridamente no momento em que se cortam para sempre as amarras da nau portuguesa que ia a “trato” a Macau.
Macau foi o porto a que cada um de nós, os que tivémos a felicidade de ali viver, ficámos para sempre ligados; não há determinações administrativas que apaguem os laços de quem viu e viveu Macau com o coração.
António Manuel Couto Viana sem largar as raízes de árvore antiga, antes a adensou de ramagens novas, fruto de uma mocidade interior, infinitamente bela e surpreendente, que nos envolve e devolve a beleza da nossa própria juventude.
O Poeta soube encontrar a simbiose entre os leques de seda preciosa da China, e o brilho dourado das arrecadas minhotas, soube perceber a riqueza da troca de valores, iniciada há séculos, quando as caravelas iam ao extremo-oriente com missionários e especiarias, para voltar de lá com pérolas, cetins, lacas e chá! E escreveu, derramando a alma, primeiro extasiada, depois tão dorida. Trabalhou, com o fim de estruturar a actividade dramática no Território de Macau, ao lado do chinês Shi Lee Chou, professor do teatro, propondo ambos a criação de um organismo denominado Teatro Oficina de Macau.
A sua facilidade de comunicação e lhaneza de trato grangeou-lhe a amizade de outros chineses com quem o vi trocar cartões de visita com o seu nome em português, mas também em chinês: Wai Pok Man, um nome cheio de significado a que dedica a primeira das “Orientais”, com legítimo orgulho.
As figuras típicas locais fascinaram-no. Já o demonstara bem na obra “No Oriente do Oriente”, feita com os modelos à vista. Agora envolvida com delicadeza, à maneira de preciosa aguarela, protege do esquecimento a “pei-pá-chai” (3º. poema) reduzida à condição de simples número, explicando em nota, o decadente costume. O trabalho (2º. poema), as festividades chinesas (4º. poema), as superstições e seus enquadramentos (6º. e 7º. poemas) gravou-os com o cinzel do sentimento, para sempre. A Ásia entrara-lhe na vida com os
alvores da infância – fala frequentemente do fascínio do Oriente distante – e era seu destino recolher no sangue minhoto, por jus a ter Macau como terra sua, uma gota de sangue, de sofrimento, de amargura, lembrada no 6º. poema. A essa filiação, se juntaram as experiências que, como português e como poeta, evoca nas duas Chinas (Continental, Formosa), no Sião, na Malásia, Índia, Singapura.
Também eu própria me senti mais portuguesa, melhor portuguesa, depois de ver os vestígios e imaginar os nossos antepassados nessas paragens. A experiência dos ancestrais é uma herança rica, inesgotável, que bem faria a todos os portugueses conhecer (8ª. poema).
A Pátria das “Armas e Barões Assinalados”, a alma das fortalezas, o rasto das caravelas, a luz do Farol da Guia iluminando gentios, tudo se esbate no pulsar angustiado do poeta a quem tudo parece que perece. Bebeu intensamente o lado exuberante da aculturação que o português acarretou pelo mundo fora, em Macau tão visível, e manifestou esse encontro com o exótico, sem deixar uma só vez de o ver com a sua alma lusa, genuína, magistral. Por isso lhe doi a hora da partida. Doi-lhe como um abandono de um filho.
Mas, querido Amigo, a sua capacidade de converter a saudade em poesia leva-o a resignar-se cristâmente, eu sei. São seus esses versos com que acabo:
Nasce a ogiva da pedra quando a mão
Obedece ao destino de uma ideia.
O mar é nau se houver navegação.
O vinho e o pão sagraram-se na Ceia.
Quando a espada me abriu o coração,
Fortaleceu-me de aço veia a veia.
Ultrapassei, em riste, o Cabo Não,
Para haver horizonte na epopeia.
Sigo solene como um ritual,
A caminho da pátria prometida
(Sempre dentro de mim, de Portugal),
Pedaços a pedaços reunida,
do Sangue celebrado no Graal,
da vida gloriosa além da vida.
( In: “Estado Estacionário” )
Coimbra, 8 de Junho de 2010 – Dedicado in memoria por Beatriz Basto da Silva
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