Julho 2010


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Verso de um postal enviado de Macau para Lisboa em Abril de 1905:
inclui selo de Macau e carimbos dos correios de Macau e Hong Kong.
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Comemorativo da “erradicação do paludismo”

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Praia de Hac Sá depois da passagem de um tufão.
Fotografia de Francisco Lima
Tradução fonética: Praia Preta.. ou seja, praia de areia preta. Retenho na memória da minha passagem por Macau na década de 1980: as piscinas (novinhas em folha na época ca.1986), o Fernando, a Colónia Balnear e, claro, a praia e as actividades ali realizadas no âmbito da Associação de Estudantes… entre outros aspectos que deixo para futuros post’s.

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“O primeiro Amarante em Macau foi o meu Avô Materno, nascido a 27 de Fevereiro de 1891 e registado em Gôve, concelho de Baião, com o nome de Simão Amarante, filho de Ana Amarante. Os registos não indicam o nome do pai. O meu Avô falava pouco disso, dizia que tinha irmãos e que a mãe trabalhava numa quinta. Nunca estudou, porque a escola era muito longe e tinha de andar muitas horas para lá chegar. Em pequeno vendeu jornais (citou O Século), aos Domingos dava ao fole no órgão da igreja e, de vez em quando, recebia uns pontapés do padre organista, quando adormecia ao fazê-lo. Quando chegou a altura do serviço militar obrigatório foi mobilizado para Macau onde conheceu e casou com a minha Avó.
A minha Avó vinha de uma família da classe média alta. O pai era guarda-livros e a mãe tinha ascendência nobre de um avô brasonado, que teria sido Cônsul em Singapura ou Manila, já não sei precisar. Tinha duas irmãs. A dada altura, os pais separaram-se; as irmãs ficaram com a mãe em Manila e a minha Avó com o pai e foram viver para Macau. Como o pai viajava muito, a minha Avó foi internada num colégio de freiras, onde recebeu uma educação esmerada. Infelizmente, o pai morreu cedo e a minha Avó passou a ser apenas tolerada, com mais obrigações que direitos. Foi-lhe nomeado um tutor, um capitão, que soube gerir a sua pequena herança recebida do pai, o que lhe permitiu completar a instrução no colégio e ingressar numa escola de enfermagem.
A minha Avó, para a época, era uma muito alegre e bonita tendo, assim, muitos pretendentes. Um deles, filho de boas famílias, lá conseguiu o seu intento. Quando tudo já apontava para o casamento, surge o escândalo. Enquanto namorava a minha avó, o pretendente engravidara uma rapariga, pelo que, segundo os hábitos de então, foi obrigado a casar com ela.
A minha Avó sofreu um grande desgosto. Deixou de sair e de responder às cartas dos pretendentes. As companheiras diziam que ela ia ficar para tia pois nunca mais casaria. Tanto fizeram que a minha Avó disse que continuava a receber pedidos de namoro e que aceitaria o primeiro que viesse. Quis o acaso que a primeira carta fosse do meu Avô, que finda a comissão de serviço militar, decidira não regressar a Portugal e tinha entrado para a Corporação dos Bombeiros de Macau. Ora o meu Avô não sabia escrever, o pedido de namoro tinha sido escrito por um colega. Durante o período pré-nupcial, com obrigatoriedade de “chaperon”, nunca olharam um para o outro de frente nem de perto. Só na noite de núpcias a minha Avó soube que o meu Avô era bexigoso, apesar de ser um homem alto, forte e bem parecido.
Do casamento nasceram oito filhos, quatro rapazes e quatro raparigas: Branca (casou e teve cinco filhos), César (casou e teve quatro filhos), Vasco (nunca casou), Henriqueta (casou e teve três filhos, Tito (morreu jovem), Gisela (casou, e teve dois filhos), Hugo (casou e teve dois filhos) e finalmente Nídia (casou e teve quatro filhos).
O meu Avô chegou ainda a ser Chefe da Corporação dos Bombeiros de Macau, com bons serviços prestados, medalhado e louvado várias vezes. Reformou-se, era muito popular e até morrer era conhecido como o Chefe Amarante. O meu tio César fez carreira na Polícia de Macau onde atingiu um posto de destaque, reformou-se e morreu na Austrália. O Tio Vasco, homem dos sete ofícios, depois de percorrer as sete partidas do mundo, morreu em Hong Kong com idade avançada; as suas cinzas repousam na Noruega onde tinha uma casa. Henriqueta, a minha Mãe, casou com o meu padrasto (que considero o meu Pai), viemos viver para Portugal. Ambos já faleceram. A Tia Gisela, depois de casar, foi viver para Angola até à Descolonização, após a qual veio viver para Portugal. Faleceu há alguns anos. Tem uma filha em Portugal e um filho em Macau. O Tio Hugo foi polícia e bombeiro. Reformado, é ainda vivo, em Macau. A Tia Gija (Nídia), depois de casar emigrou para a Austrália. Vive com a família em Sidney.
Em Macau, além do meu Tio Hugo, mulher e filhos, tenho um primo, Jojo, filho da Tia Gisela e uma prima, Ivone, filha do Tio César. É casada e tem três filhos. Tanto quanto sei, os filhos da Tia Branca estão espalhados entre a Tailândia e as Filipinas. Dos restantes filhos do Tio César, dois estão na Austrália e um filho estará em Portugal.
Quanto a mim, nasci de uma ligação de minha Mãe com um músico filipino que tocava em Macau durante os anos da guerra. Curiosamente, nasci em Cantão em 16 de Julho de 1949, onde o meu pai biológico trabalhava temporariamente, embora tenha sido registado em Macau, na freguesia da Sé. Os meus pais separaram-se teria eu dois anos. O meu pai biológico regressou a Manila onde era originário e tinha família constituída. Queria levar-me com ele, mas a minha Mãe não quis. Mais tarde, a minha Mãe passou a viver com aquele que considero o meu verdadeiro Pai, na altura, alferes, em comissão de serviço. Desta ligação tiveram dois filhos, os meus irmãos Mário Vasco e Diana. Meu Pai adiou várias vezes o regresso à então Metrópole e frequentava um curso de Engenharia Electrónica, por correspondência, com vista a uma eventual emigração para Austrália. A nossa vida decorria normalmente, fiz a Escola Infantil “D. José da Costa Nunes” até 1956 e frequentei a primária na Escola Central até à 2ª classe, quando, em 1958 o meu Pai recebeu uma proposta de regresso a Portugal para frequentar um Curso de Oficiais para ingresso no Quadro Permanente do Exército. Meu Pai optou pelo regresso e, assim, aconteceu a nossa vinda para Portugal nesse mesmo ano. Meus Pais casaram em 1972. Nunca mais voltei a Macau. Eis, o mais resumido possível, a história dos Amarante em Macau.”
Avós de Reinaldo Amarante -Simão e Henriqueta – 
no dia do casamento e na década de 1950
Csamento da tia Gija (Nídia) com Vasco Sales da Silva em 1961 e Natal do mesmo ano
Reinaldo com o pai

Testemunho de Reinaldo Amarante que tem um blog onde conta as histórias da Avó Má http://conversas-com-avo-ma.blogspot.com/ e da restante família.
PS: aqui fica o agradecimento em jeito de homenagem ao Reinaldo que aceitou o meu desafio para contar as suas memórias de Macau e que este mês completou 61 anos de vida. Obrigado e parabéns!

Reinaldo (o da garrafa) ontem, tal como hoje, a celebrar em família

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Na baía da N. Senhora da Esperança cinco moradias construídas em 1922 foram recuperadas no final da década de 1990. Pelo seu projecto de renovação das cinco moradias na Ilha da Taipa a arquitecta portuguesa Maria José de Freitas – radicada em Macau desde 1987 – foi distinguida com uma Menção Honrosa no âmbito do Prémio Arcasia 2002, na categoria de Projectos de Conservação.
A entrega do prémio realizou-se durante o 10º Congresso dos Arquitectos da Ásia (ACA) e o 23º Encontro do Conselho do Arcasia (Architects Regional Council of Asia), que decorreu em Nova Delí, na Índia. O galardão visa premiar a excelência dos trabalhos a concurso e a sua atribuição contribui para melhorar a divulgação dos projectos realizados como exemplos a seguir pelas novas gerações, de forma a garantir a sustentabilidade da boa arquitectura na Ásia. Informações adicionais  neste post http://macauantigo.blogspot.com/2010/06/vivendas-taipa-desde-1921.html
                            
As imagens representam o antes (década 1970) e o depois (década 1990) do projecto de renovação.
Imagem da década de 1920
Imagem da década de 1990 cedida por Maria José de Freitas

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Antes de ser nomeado Governador de Macau – tomou posse a 4 de Fevereiro de 1957 no Ministério do Ultramar – já era um profundo conhecedor do Território. Pedro Correia de Barros nasceu em Loulé a 20 de Junho de 1911, filho de Miguel Correia de Barros e de Joaquina Correia Dourado de Barros. Ingressou na Escola Naval da qual se graduou em 1932, tendo também tirado os cursos de piloto observador militar de hidroaviões (1937) e o curso geral naval de guerra (1949). Foi Governador de Macau entre Março de 1957 e Setembro de 1958 e de Moçambique entre 1958 e 1962. Regressando à Metrópole (Portugal foi promovido em 1962 a Capitão de Mar e Guerra, posto no qual veio a morrer em 1968.
Em Macau foi comandante do Centro de Aviação Naval entre Outubro de 1941 e Outubro de 1943, nesta altura com a patente de 1º Tenente. Em simultâneio era ainda Presidente do Leal Senado e foi ainda Delegado do Governo na Comissão Administrativa da Caixa Escolar e Professor interino do 2º Grupo do Liceu Nacional Infante D. Henrique.  Terminada a comissão em Macau seguiu para Moçambique em 1945 acompanhando (a julgar pela coincidência das datas) o Gov. Gabriel Maurício Teixeira.

Regressaria a Macau no dia 8 de Março de 1957 onde desembarcaria do navio “Gonçalves Zarco” no Porto Interior já como Governador. Foi proclamado Cidadão Honorário de Macau. Mais uma entre as vastas distinções e condecorações da sua ‘folha de serviços’.

Faleceu em Lisboa com o posto de Capitão de Mar e Guerra em 2 de Fevereiro de 1968. No dia 23 o Diário de Notícias escrevia um artigo onde traçava o perfil do comandante Correia de Barros e dizia “uma carreira brilhante que bruscamente a morte veio interromper aos 56 anos.”

O Centro de Aviação Naval de Macau no Porto Exterior ca. 1941

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O Osprey nº 4 aterrando nas águas de Macau.
Um Osprey a ser içado para bordo do Afonso de Albuquerque
Com 3 Fairey IIID, foi organizada em 1927, em Macau, a terceira unidade da Aviação Naval portuguesa. Em 1934 a unidade de Macau foi reforçada com 8 Hawker Osprey (ou 4? ou 6? os números variam consoante as fontes). Estes foram integrados na Aviação Naval em 1935 e durante algum tempo serviram a bordo dos avisos Afonso de Albuquerque e Bartolomeu Dias, sendo os únicos aviões embarcados da Armada. Após serem substituídos a bordo por canhões anti–aéreos, estes dois aviões foram destacados para o Centro de Aviação Naval de Macau, onde serviram até 1941.
Outros seis foram adquiridos pelo Ministério das Colónias para o C.A.N. de Macau. Tinham um motor Rolls Royce Kestrel II – M 5 de 630 h.p. atingindo uma velocidade de 282 Km/h e uma autonomia de 600 Km.
O CAN, Centro de Aviação Naval de Macau era uma hidrobase instalada na ilha da Taipa em 1927 para apoio às forças navais que combatiam a pirataria nos mares da China. O centro foi desactivado em 1933 mas reactivado em 1937, por ocasião da Guerra Civil chinesa e da invasão deste país pelo Japão. Em 1940 o centro foi transferido para as novas instalações construídas no Porto Exterior (ver imagem abaixo). Em 1942 foi definitivamente desactivado.
Perto do final da II Guerra Mundial, em 16 de Janeiro de 1945, a aviação americana atacou a cidade. A razão principal do ataque foi a destruição dos depósitos de gasolina existentes no hangar do antigo Centro de Aviação Naval de Macau, no Porto Exterior, que ficou reduzido a escombros. O quartel de S. Francisco foi atingido por tiros que partiram vidros, danificaram a cobertura, perfuraram canalizações e esgotos e causaram feridos ligeiros. A fortaleza de D. Maria, onde se encontrava o Posto de Rádio ficou danificada. O ataque cifrou-se em cinco mortos. E foi repetido em 5 de Março e 7 de Abril. Todos os ataques foram realizados por esquadrilhas da “Taskforce 38” da USAF, sob o comando do Almirante William Halsey.

Fairey III D nº 20, da Aviação Naval, ao serviço do C.A.N de Macau
(em baixo sobrevoando Hong Kong)
O Fairey III D chegou a Portugal em Janeiro de 1922, devido ao interesse da Marinha em experimentar o lançamento de torpedos a partir do ar. Entre o primeiro conjunto de três hidroplanos Fairey entregues, havia um especial, o Transatlantic Fairey III D, que o comandante Sacadura Cabral tinha solicitado para concluir a travessia planeada do Atlantico Sul.
O F-400 Transatlantic, denominado “Lusitânia”, tinha uma maior envergadura de asa que os outros, um maior alcance em distância e podia transportar dois tripulantes lado a lado. Este foi o avião no qual Gago Coutinho e Sacadura Cabral começaram a sua travessia em 30 de Março de 1922 e que se despenharia perto das rochas de S. Pedro, ao largo da costa do Brasil. O F-401, um III D cujas asas tinham sido expandidas, foi então expedido para Fernando de Noronha para substituir o “Lusitânia”. Este avião acabaria também por cair no mar após uma falha de motor. O avião que concluiria a travessia seria um F-402, outro III D, chamado “Santa Cruz”, que se encontra em exposição no Museu da Marinha, em Lisboa. Uma réplica do mesmo avião pode ser vista no Museu do Ar em Alverca. Aos modelos F-401 e F-402 foram dadas os códigos 16 e 17. O Lusitânia não teve código por ter sido considerado um avião destinado a uma missão especial.
Em Novembro de 1922 a Aviação Naval obteve mais três Fairey III D, que foram registados com os códigos 18, 19 e 20. Numa emergência, dois destes aparelhos (19 e 20), juntamente com o “Santa Cruz” inaugurariam o Centro de Aviação Naval de Macau, localizado na ilha Taipa. Quando a tensão na zona baixou, o “Santa Cruz” regressou a Lisboa, enquando os outros dois ficavam em Macau. O centro de Aviação Naval de Macau foi desactivado em 1933 e quando foi reactivado em 1938, estes dois aviões ainda lá se encontravam, mas já tinham sido oficialmente retirados do serviço em 1930.

Desenho do hidroavião Fairey
NA: post escrito a partir de artigos de José Fernandes dos Santos; Fotografias do Museu da Força Aérea Portuguesa.

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