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José Saramago, que faleceu na última sexta-feira, teve em Macau a sua porta de entrada num Oriente que até então nunca tinha visitado, e cuja estranheza e incompreensão confessa nos seus “Cadernos de Lanzarote”. Em Março de 1997, quando aqui chegou, alguém lhe lançou de longe o apodo de “perigoso escritor”. É a primeira impressão que guarda de uma terra cujo futuro via incerto a dois anos da transferência de Administração.
“Macau não me recebeu com palavras de boas vindas”. Assim escreveu José Saramago a 4 de Março de 1997, na sua chegada ao território pela primeira vez, numa visita a convite do Instituto Cultural (IC) na qual foi apresentada a tradução para língua chinesa de “Memorial do Convento”, uma das mais popularizadas obras do autor que faleceu na última sexta-feira, deixando órfãos de novas histórias leitores de todos o mundo.
Personalidade controversa, também aqui foi recebido como “perigoso escritor”, num apodo que lhe foi atirado por um desconhecido quando ainda nem tinha desfeito as malas. Foi o primeiro impacto no território, registado nos “Cadernos de Lanzarote” do escritor agora falecido, um ano antes de ser reconhecido como Nobel, no âmbito de uma deslocação que trouxe o escritor até cá,e também o levou a Pequim e a Hong Kong.
“Depois de treze ou catorze horas de uma desgastante viagem aérea, depois de uma noite praticamente sem pregar olho, quando, ainda meio sonâmbulo, vinha a empurrar o carrinho da bagagem, ouvi uma voz dizer atrás de mim: ‘Vai ali o perigoso escritor Saramago’”, escreveu o até aqui único Nobel literário português no início das impressões sobre o território que então preparava o regresso à China.
“’Até aqui, na Cidade do Nome de Deus de Macau’, murmurei sucumbido, sem reconhecer entre os rostos à sua retaguarda o autor do epíteto, lançado “em claríssimas palavras portuguesas, distintamente pronunciadas”, escrevia.
À chegada, receberam-no a então responsável do IC, Gabriela Cabelo, e também Ana Paula Laborinho, actual presidente do Instituto Camões e à época presidente do Instituto Português do Oriente. A recepção terá sido calorosa o suficiente para fazer com que Saramago pudesse suspirar “de alívio”. “Não está tudo perdido”, considerou.
“O grande arrepio que tardava”
Foi sem emoção, e com muita estranheza, que o escritor confessou ter vivido os dias do seu primeiro encontro com o Oriente, recriminando-se, nos seus “Cadernos de Lanzarote”, pela algo apática reacção ao programa de visita que o conduziu pela cidade até ao Farol da Guia, às Ruínas de São Paulo ou templo de A-Ma.
Foto de Lei Chiu Wang – década 1970
“’Pela primeira vez na tua vida estás no Oriente’, repreendia-me, ‘como é possível que não te sintas emocionado’”, interpelava-se o escritor num passeio pelo centro da cidade, no qual se fez acompanhar da mulher, Pilar del Rio.
Saramago, que esperava “o grande arrepio que tardava”, sentia-se dormente em face de uma nova cultura. “Sei, de antemão, que não irei conseguir encontrar neste mundo chinês, que nunca foi suficiente abrirem-se as portas para que a casa se nos entregue. Bastante atípico neste sentido, sou um ocidental que não só rejeita por instinto qualquer espécie de imposições culturais como aceita, por respeito, ficar do lado de fora daquilo que nunca chegará a entender satisfatoriamente. Estou consciente de que daria uma mau antropólogo. E certamente um catequista ainda pior…”, contava.
Com o discurso de ironia face à igreja católica que lhe ficou associado, é também com humor que o escritor relata uma pequena anedota de uma queda, dolorosa, frente à fachada das Ruínas de São Paulo.
Postal do início do séc. XX
Um tropeção puniu-o por tentar saltar a vedação que controla o circuito das visitas ao ex-líbris de Macau. “Ao saltar uma vedação a fim de encurtar caminho, como se ainda me encontrasse na flor dos meus ágeis 70 anos, não levantei o joelho esquerdo tão acima quanto conviria, do que resultou enganchar-se a ponta do sapato numa das correntes de ferro que rodeiam o recinto, e aí se estatela o autor do ‘Evangelho’, por assim dizer à porta da igreja, com todo o jeito de ir pagar finalmente com os ossos os insuportáveis sacrilégios e heresias que no segregado livro debitou”, descreveu num dos tomos dos seu diário, que assinalava a data de 5 de Março de 1997.
De A-Ma e outros milagres
Descreve também o que deverá ter sido, certamente, um passeio pelo jardim de Lou Lim Ieoc, mas cujo nome não recorda. Saramago fala de “um belo jardim, com uma pequena ponte que dá voltas e voltas (sete? onze?) antes de se decidir a chegar ao outro lado” e de um pavilhão, “como um coreto”, onde “alguns chineses, homens e mulheres, tocavam e cantavam a sua música”. Conhece também o tempo de A-Ma, e a história da zelosa deusa que olha por Macau inspira-o a comparações com o rol dos milagres cristãos e das aparições das suas santas: “a história que os homens andam a contar, desde o princípio dos tempos e em todos os sítios do mundo, é uma só história, a história do ‘milagre’ da sua sobrevivência”.
Há também prelecções perante alunos de liceu e da Universidade de Macau, onde o escritor dá mostras de não sentir que o auditório terá acompanhado o seu pensamento, mas onde admite ter encontrado “rostos tão sérios, tão concentrados, olhares tão fixos”, que confessa raro ter reconhecido a mesma postura noutros públicos e noutras ocasiões.
Passeia nas ilhas, com a sorte de um Março ameno e soalheiro. “Dia bonito, de sol descoberto e temperatura suave”, aponta a 8 de Março, enquanto nota já que “no lado da China andam ocupados em ciclópicos trabalhos de arrasa-montanhas” e imagina que servirão “para a construção, ou talvez para fazer aterros, tão comuns nestas paragens”.
A visita de José Saramago inclui também as instalações do Arquivo Histórico, Biblioteca Central e Instituto Português do Oriente, do qual recorda uma arquitectura interior “verdadeiramente traumatizante”, “capaz de criar alucinações diurnas e pesadelos nocturnos em quem lá trabalhe”. Que diria o escritor se tivesse tido ocasião de se reencontrar com o território alguns anos mais tarde, face às novas construções ‘vegasianas’ da RAEM?
E que teria dito também do momento presente, dez anos após a RAEM, sobre o qual em 1997 profetizava com pouco optimismo?
“Construímos um bom aeroporto, abrimos estradas, ganhámos terrenos ao mar, temos andado a levantar nas praças e avenidas enormes peças escultóricas para recordação (de quê?), mas ouvir falara a um chinês, nas ruas de Macau, algo que mesmo remotamente tenha parecenças com a língua portuguesa, só por um milagrosos acaso. A Revolução Cultural acabou, mas eu pergunto-me por quantos anos poderá ainda Camões continuar a trocar impressões sobre os destinos da pátria com João de Deus, seu companheiro no jardim do Leal Senado…”, questionava o escritor a 15 de Março, na última entrada que evoca Macau dos seus “Cadernos de Lanzarote”.

Artigo da autoria de Maria Caetano in jornal “Ponto Final” 21 de Junho de 2010
NA: as imagens são fruto da minha selecção.

Postal da Gruta de Camões de cerca de 1910 – editado em Hong Kong
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