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Ondina Oliveira (Mona), natural de S. Vicente, Cabo Verde, de nacionalidade portuguesa, de 44 anos de idade, chegou a Macau quando ainda era menina, a 3 de Janeiro de 1973, após uma longa viagem de navio (o paquete Príncipe Perfeito, na foto), juntamente com o seu pai, mãe e sua irmã que ainda estava por nascer. “O meu pai é Manuel Maria de Oliveira, natural de Portimão e a minha mãe, Olga Maria Nogueira, família Nogueira de Macau, que há muito tempo viveu no Lilau. O meu pai foi militar. Trabalhava na área da contabilidade e estava encarregado dos vencimentos dos funcionários das FSM.”
A pequena Ondina com o pai e a mãe no Príncipe Perfeito em 1973
O Príncipe Perfeito foi lançado à água em 1961 e ‘abatido’ em 1998; pertenceu à Comp. Nacional de Navegação (era o maior e mais luxuoso da empresa) até 1976; tinha capacidade para alojar mil  passageiros; foi vendido em 1976 por 40 mil contos quanto custou 500 mil… As brochuras da época dão um ideia muito clara de que o turismo de cruzeiros deveria ter continuado como outros países o fizeram nos anos que se seguiram. 
Desembarcou em Hong Kong, onde as luzes coloridas e vivas à roda de todo o porto a deslumbraram… e onde a transferência de toda a tropa para uma outra embarcação a vapor se procedeu, com destino a Macau, onde veio a desembarcar no Porto Interior.
A noite escura e nevoenta, não a tinham animado e durante alguns meses só tinha saudades de Portugal, onde viveu durante alguns anos, após ter deixado a sua terra natal e ter ainda vivido em Angola, quando o seu pai exercia funções militares.
Não foi fácil a sua estadia em Macau, sem boas praias, a que estava habituada, cultura e gentes com mentalidades diferentes…, mas com o tempo, a tudo se habituou, com o passar dos anos foi ingenuamente aprendendo a língua chinesa e ainda o continua a fazer… são imensos os caracteres que tem que aprender, mas o idioma em si, domina-a perfeitamente.

Estudou no Liceu Nacional Infante D. Henrique na Praia Grande, demolido, e agora o terreno serve um edifício habitacional altivo e brincando muitas vezes dizia ao seu marido que a sua escola agora se tinha transformado numa discoteca, e de forma fantasiosa, quando se divertia nas caves da discoteca DD, imaginava que ainda estava na sua escola, mas agora de noite, e com outro ambiente mais divertido e sofisticado.
Cresceu e estudou sempre em Macau, tendo fixado aqui a sua residência e nunca deixado os seus laços com Portugal. Acredita na tese de ´´um país, dois sistemas´´ e ´´vida mais colorida e felicidade para todos os seres existentes´´.
Concluiu o curso de Comunicação Gráfica no Instituto Politécnico de Macau. O seu gosto pelas artes plásticas, veio então a ocupar os seus tempo livres, distraindo-se nas compras do material, afixando o papel, ou tela no tripé e começando assim a disfrutar do entusiasmo e alegria de ver nascer uma obra de traço a traço…
No terraço do prédio onde morava – Av. Dr. Rodrigo Rodrigues –
e a ver o Grande Prémio no Quartel de S. Francisco
Mona com a Praia de Hac Sá ao fundo
Pequena entrevista feita via e-mail no início de 2010…
Uma frase sobre cada década vivida em Macau?
“Macau dos anos 70 ainda estudava no liceu, anos 80 tive duas crianças, anos 90 estive a tirar o meu curso superior, na primeira década do séxulo XXI a minha vida sofreu algumas mudanças no sentido familiar e agora em 2010 estou a terminar a licenciatura em artes visuais e o mestrado em artes gráficas.”
Uma vida intensa?
“Pintei alguns quadros, alguns trabalhos gráficos, algumas pedras, trabalho no Governo de Macau como Relações Públicas e aqui continuo.”

O que recordas do Liceu?
“O Liceu Nacional Infante D. Henrique, como se chamava, deixou boas recordacoes, das nossas brincadeiras de adolescentes, assim como os bons alunos, também haviam os alunos malandros… Escrevíamos bilhetinhos e cartas que passavamos a terceiros para nos ajudar a entregar e assim ficavamos a saber quais eram os nossos pretendentes, muito engraçado, namoro por cartas, depois namoro ao telefone, cinema, etc. Cada um sabia de si.” (…) Recordo-me da Lília Sapage, funcionária, tinha a sua secretária instalada no átrio, entretanto reformou-se, depois veio a D. Cristina. Recordo-me dos meus professores assim por alto, a prof. Santos Ferreira – matemática, Graciete Batalha – português – já falecida, do dr. Jorge Rangel – jornalismo e turismo, e da nossa professora de canto coral já que fiz parte do coro. Os pequenos almoços na cantina do Campo dos Operários era vulgar entra a malta da Escola Comercial e do Liceu durante as horas de furo. Lembro ainda o professor de Filosofia, qq coisa, apelido ‘Preto’.”
Que mais recordas do Território nessa altura?
“O Hotel Lisboa tinha as máquinas flippers e uma piscina onde eu costuma ir, até tivemos lá uns pequenos cursos de natação no Verão. Jogava-se bowling e a maior parte das festas eram celebradas no Restaurante Portas do Sol. Lembro-me ter ido à praia de barco e os meus pais jogavam mha-jong, enquanto nós, os putos andávamos a brincar, a nadar e pular naquela água barrenta.
Lembro-me de haver tourada, pelo menos uma vez,  dos Jogos Sem Fronteiras e do Grande Prémio, nessa altura era o maior evento no Terrritório.
O hábito dos jovens era ir ao cinema, compras, cafés. Recordo-me do Algarve Sol, Sintra, Lucie, etc. Os vendilhões andavam nas portas das escolas a vender acepipes chineses e comida vegetariana. Andava-se muito de bicicleta, um modelo chopper, com um voltante bem alto, brincava-se muito aos polícias e ladrões e apanhada, salto a corda, salto ao elástico. À medida que as coisas iam evoluindo a gente lá andava sempre a perseguir a moda.”

Turma de Jornalismo e Turismo no Liceu
Aula de Educação Física no Liceu
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