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Dia 13 de Julho é feriado municipal, nas ilhas de Taipa e Coloane. Procurando uma data marcante para a vida das ilhas, as autoridades portuguesas escolheram a que assinala a vitória sobre os piratas que se haviam instalado na ilha mais a sul do Território de Macau.
A existência de piratas na ilha, a sua posterior erradicação constituíram, de facto, um acontecimento decisivo na história da ilha e da própria presença portuguesa.
Sobre o acontecimento, monsenhor Manuel Teixeira escreveu uma monografia baseando-se em diversos documentos e jornais da época.
O problema parece ter sido levantado pela primeira vez em Maio de 1910, quando um chinês de Hong Kong comunicou ao proprietário do semanário macaense «A Verdade», a ocorrência de determinados incidentes.
No dia 5 do mesmo mês, alguns piratas haviam desembarcado na aldeia chinesa de Tong-hang, do distrito de San-neng, assaltando uma escola e levando para a ilha da Taipa 18 prisioneiros. Posteriormente os chefes da quadrilha dirigiram várias cartas aos habitantes da aldeia exigindo resgate e ameaçando com a morte dos cativos e a destruição da aldeia.
Os acontecimentos foram relatados ao advogado e director do jornal «A Verdade», Constâncio José da Silva, que posteriormente comunicou ao Governador de Macau, Eduardo Marques.
Veio a saber-se mais tarde que os reféns se encontravam em Coloane num cárcere privado, juntamente com mais 50 pessoas raptadas em várias aldeias chinesas próximas de Coloane.
Ao contrário do que se verifica nos nossos tempos, as ilhas não se encontravam tão acessíveis a quem vivesse na cidade, e era guardada por um exíguo destacamento de cerca de vinte homens que, segundo monsenhor Teixeira, «mal chegavam para guardar a fortaleza e o quartel de Ká Hó, quanto mais para patrulhar as aldeias e as montanhas» .
A situação desprotegida da ilha terá assim contribuído para que os piratas a escolhessem para seu quartel-general, actuando depois em terras da China, vizinhas de Coloane.
Os piratas ter-se-ão estabelecido progressiva e subrepticiamente ao longo dos anos, escondendo os seus intentos e apresentando-se como cidadãos pacíficos.
«Iludindo as autoridades – diz monsenhor Teixeira na sua monografia – foram-se ali infiltrando no decorrer dos anos: aqui montavam uma mercearia, além uma loja de peixe; uns trabalhavam nas pedreiras, outros entregavam-se à agricultura; por isso tinham de ter casas para as suas «famílias».
O autor acrescenta ainda sobre o assunto: «é de crer que os seus vizinhos soubessem que espécie de gente eram eles, mas não os denunciavam por duas razões: eles não os incomodavam, pois a quadrilha fazia as suas operações em terra chinesa e para ali traziam os seus roubos e as suas armas; se os denunciassem, sujeitavam-se a terríveis represálias. O melhor era deixá-Ios em paz. E assim se passaram dezenas de anos».
O sequestro de habitantes de Tong-hang, acompanhado do envio de uma carta pedindo resgate não foi caso único. Na sua comunicação ao Governador, Constâncio José da Silva juntou exemplos de três cartas enviadas pelos raptores em tempos diferentes à aldeia de Tong-hang e outras.
As cartas denunciam a existência entre os piratas de um grau considerável de organização denominando-se «Ang Hgui T’ong» (Sociedade de Perfeita Justiça).
É reveladora a linguagem utilizada nas mensagens enviadas às assembléias dos anciãos das aldeias em que os piratas se referem ao seu «grémio» como se de uma instituição de direito se tratasse.
Diz uma das cartas:
«Esta sociedade manteve sempre as melhores relações com as três aldeias de Tong-hang, Pac-seac e Hông-kóng, não indo jamais incomodá-Ias. Os vossos sin-teang (tipo particular de embarcação de pesca) e sampán (pequenas embarcações de vigia) têm transitado livremente sem que jamais vos hajamos feito dano a uma sapeca».
Em seguida fazem referência ao incidente do assalto à escola como uma medida de represália na sequência de um incidente anterior:
«Mas como no dia 17 da primeira lua do ano passado, tendo ido os camaradas deste grémio à aldeia de Ho-chao .e assaltado ali um negociante de apelido Chou, os anciãos das mesmas três aldeias – quem o poderia supor?! – cobiçosos do prémio com que o mesmo Chou os recompensaria, houvessem pretendido cercar e acossar esses nossos camaradas e levar-Ihes o rebanho (dos prisioneiros) para se apresentarem com este a receber o referido prémio, os camaradas deste grémio ficaram indignados à vista de um tal procedimento».
A denúncia feita pelo director de «A Verdade» pareceu no entanto decisiva para a intervenção das autoridades portuguesas.
Um primeiro passo foi dado pela polícia secreta chinesa que .foi a Coloane na tentativa de libertar os prisioneiros por meios pacíficos, mas sem sucesso.
A primeira tentativa para a resolução do problema foi feita depois da nomeação do tenente AIbino Ribas da Silva para comandante e administrador das ilhas da Taipa e Coloane.
Foi no dia 12 de Julho de 1910 que 45 soldados de infantaria foram a Coloane com a missão de capturar os piratas e libertar os reféns. O que veio a revelar-se como não sendo fácil.
O grau de organização dos piratas e a forma como estavam implantados na ilha era ainda desconhecido e só relativamente tarde foi tomada consciência detando eseu quartel-general estava naquela ilha.
A primeira tentativa resultou em fracasso em que as forças portuguesas foram obrigadas a bater em retirada.
Acontecimentos decisivos seguiram-se à suspensão das garantias constitucionais na Taipa e Coloane, decretada no próprio dia do incidente.
Logo no dia 13 a ilha de Coloane foi bombardeada, tendo participado no ataque a lancha canhoeira «Macau», comandada pelo primeiro-tenente Anselmo Mata e Oliveira, que foi mais tarde Governador de Macau.
Apesar do ataque a Coloane ter sido decisivo, obrigando os piratas a refugiarem-se nas montanhas e grutas, não significou o fim da pequena guerra que se prolongou, de facto, até dia 23 de Julho.
Os acontecimentos durante os onze dias de combates e buscas, revelaram o verdadeiro alcance da implantação dos piratas nas ilhas.
Após o bombardeamento da vila de Coloane e a fuga dos piratas, o Governador Eduardo Marques telegrafava para Lisboa informando: «piratas abandonaram todas as povoações levando quantos géneros alimentícios encontraram constando estar a quadrilha numerosa, superior a 310, em cavernas onde tem depósitos de munições».
A quadrilha acabou por ser completamente destruída mas só depois de, usando uma expressão de um dos jornais da época, «todos os pássaros terem sido expulsos do ninho».
Os acontecimentos foram acompanhados dia-a-dia pela Imprensa de Hong Kong e pelas autoridades chinesas, que elogiaram a. actuação portuguesa.
Coloane não esqueceu os acontecimentos de 1910. Fazer perguntas sobre os piratas não soa como estranho, se toda a gente sabe do que se trata e tem qualquer coisa para dizer. Nem que seja com algum humor, «familiares dos piratas. Todos são descendentes dos piratas, menos a minha família», disse-nos um comerciante da vila de Coloane.
Sobre os piratas diz-se, pelo menos a um desconhecido, muito mais do que se sabe. Um passado que se guarda, uma relíquia que se protege como pilar de uma identidade.
A sra. Cheong Tai Iao tinha cinco anos de idade em 1910. No dia 13 de Julho daquele ano, encontrava-se a bordo de uma embarcação, junto ao Pagode, acompanhada da mãe, da tia e da avó, quando os navios portugueses fizeram fogo. A embarcação em que se encontravam foi atingida e incendiou-se. Cheong Tai Iao ficou ferida sob as balas portuguesas e sua mãe morreu. Quando os portugueses começaram a disparar a avó gritou «amigos, não somos piratas».
«Quando viram os piratas,. Eles, não vieram, eles estavam cá», disse-nos a senhora Maria Teresa Xavier de Assis, viúva de um militar português dessa época.
Os testemunhos são na generalidade coincidentes. Os piratas reinavam mas, por um cento consenso pragmático. Eles tinham armas e a presença portuguesa era pouco expressiva. Quando partiam para as suas operações passavam em fila indiana, armados, pelas ruas da vila. Pouco mais era necessário acrescentar para se saber quem podia dar ordens.
Apesar do seu poder, os habitantes de Coloane sublinham que os piratas não eram agressivos para a população da ilha. Eles realizavam as suas operações sempre fora da ilha, em terras chinesas.
Os nomes dos piratas ainda hoje são recordados. Por exemplo Lam Ká Si, ou Leong Sin Yi, pirata benemérito segundo alguns, cuja antiga residência é uma casa em ruínas situada na rua dos Negociantes, na vila de Coloane. Morreu há 40 anos e ainda tem filhos em Hong Kong.
Artigo da autoria de Luís Ortet publicado na revista Nam Van nº 11 de 1 de Abril de 1985. As imagens também foram publicadas nesta revista.
Gruta em Coloane que servia de refúgio para os piratas
Antiga casa de Penhores na Vila de Coloane
Nesta casa da Rua dos Negociantes terá vivido o pirata Leong Sin Yi
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