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Macau assinala, na segunda-feira, o centenário da última operação naval da monarquia portuguesa contra piratas que abundavam na região e que levou os portugueses a bombardear a ilha da Coloane para salvarem um grupo de crianças.
Coloane fazia parte de Macau, como conta o jornalista e investigador João Guedes, mas a falta de acessos à ilha e o tempo necessário para lá chegar levavam a administração portuguesa a manter no local apenas uma “meia dúzia de polícias e um isolado administrador civil que nada mandavam, nem ordem impunham”, o que levou os piratas que operavam na região a assentarem ali o “quartel general”.
Por um lado estavam a salvo da autoridade chinesa, por outro misturavam-se com a população que os acolhia sem grandes perguntas até porque o produto do saque acabava sempre por beneficiar os habitantes.
Um dia, porém, o rapto de 16 crianças, filhas de gente muito rica da localidade chinesa de Tong Hang veio alterar o cenário.
Constâncio José da Silva, dono do jornal “A Verdade” e advogado dos pais de algumas das crianças raptadas, critica sucessivamente a atuação das autoridades portuguesas que, tendo em Macau o cruzador D. Amélia, nada faziam para recuperar os menores.
Além da pressão do advogado português, também a imprensa inglesa, e por consequência a francesa, americana, italiana ou alemã, criticavam as autoridades portuguesas por nada fazerem contra os piratas, que não constituindo nem o perigo nem a força que se relatava nos jornais, se escondiam e misturavam com a população da ilha de Coloane.
Eduardo Marques, o último governador de Macau antes da proclamação da República, viu-se então obrigado a usar a força de fuzileiros embarcados no cruzador D. Amélia, navio português fortemente armado de artilharia pesada que efetuava anualmente um périplo de “ronda imperial” pelo Extremo Oriente.
É que, além da pressão da imprensa, havia também, como conta João Guedes, recentes tentativas alemãs de ocupar a adjacente ilha da Lapa, que Portugal reclamava como sua.
Assim, a 12 de Julho de 1910, os fuzileiros do D. Amélia, apoiados por algumas peças de artilharia de montanha, são desembarcados na ilha.
A canhoeira Macau era um navio de menores dimensões mas capaz de se aproximar das águas baixas de Coloane lança ferros nas imediações e ataca a vila, destruindo casas e matando civis. Ninguém sabe quantas pessoas morreram, já que as entidades oficiais nunca fizeram estatísticas sobre o caso, mas provavelmente alguns piratas que habitavam no local e que não conseguiram pôr-se a salvo foram abatidos.
Os fuzileiros atacam então a aldeia, recuperam as crianças raptadas mas os piratas fogem para umas grutas situadas num ponto remoto da ilha.
“Ao outro dia, quase em linha de batalha – como nos tempos napoleónicos – é que se conseguiria retirar os piratas das grutas com recurso ao lançamento certeiro de granadas de enxofre – percursoras das granadas de gás lacrimogénio da polícia de choque dos nossos dias -, já que a artilharia nessas circunstâncias não valeu de nada contra as falésias naturais e inexpugnáveis de duro granito”, contou João Guedes.
Um dia depois de lançada a operação, a 13 de julho, os piratas foram detidos e Portugal recuperava respeito internacional no combate aos piratas.
Coloane ficava parcialmente destruída por força dos bombardeamentos, mas acaba por ser alvo de maior atenção das autoridades portuguesas que passam a construir edifícios, nomeadamente uma escola oficial, e um quartel onde se instalou um contingente militar permanente bem como uma esquadra da polícia.
Artigo de José Costa Santos, da Agência Lusa em Macau, a 11 de Julho de 2010 escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Monumento que recorda o combate aos piratas
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