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A palavra colecção deriva do latim “Collectiône” e significa acto ou efeito de juntar, de reunir objectos da mesma natureza formando um conjunto, um ajuntamento, uma colectânea. Contudo, coleccionar não é apenas o acto de reunir objectos, mas também uma forma de “construir” sentidos e conferir significados. É um acto criativo e criador de identidade.
O Desejo
As tradições mais recentes do coleccionismo remontam, em Macau, no seio da comunidade portuguesa e macaense, a uma época anterior ao início da Primeira Grande Guerra Mundial, época em que “floresceu em Macau a mania dos coleccionadores de arte chinesa” (1) . Em 1911, o último imperador abdica do trono, a dinastia Manchú entra em colapso e a República é proclamada por Sun Yat Sen, em Nanquim. As convulsões político-sociais obrigam ao êxodo de importantes dignitários imperiais que fogem através de Macau e vendem as suas preciosidades, inundando o mercado local de antiguidades chinesas.
Relatos da época descrevem que por toda a cidade havia peritos a fazer considerações sobre obras de arte chinesa. Os “sói-hák” (2) ou “soi-disant”, andavam de porta em porta a vender objectos supostamente de grande valor artístico.
As casas das famílias macaenses viram-se repletas de chinesices. As arcas, as vitrinas, os armários, as mesas de sacrifício, as paredes e os móveis abarrotavam de objectos, bonecos, cerâmicas, vidros e bronzes.
As descrições dos interiores das casas, apesar de ligeiramente romanceadas, atestam a moda que se gerou e em alguns casos deu origem à constituição de colecções capazes de fazer história. A casa de Vicente Jorge, um dos maiores coleccionadores da época, era descrita da seguinte forma: “(…) Não existe sala nenhuma daquele vasto edifício, que não esteja a regurgitar de ceramos e de objectos representativos de todos os ramos da arte chinesa. Não obstante ter de lutar com a falta de espaço, o Sr. Jorge consegue dispor os objectos da sua colecção com apurado gosto” . (3)
À medida que avançamos no século XX, a China depara-se com uma série de guerras civis. A situação não pára de se agravar até 1945.
Nesse contexto de guerra, as falências sucediam-se. As dificuldades de importação fizeram disparar os preços e tornava-se necessário negociar para sobreviver. Nas tendas de bricabraque da Travessa do Armazém Velho, onde se vendia um pouco de tudo, os preços eram bastante mais acessíveis. Era aí que muitos coleccionadores compravam e vendiam as suas peças. Uns por necessidade, outros por curiosidade, todos acudiam às tendas capazes de satisfazer as mais diversas necessidades… Esta prática acabaria por se tornar num verdadeiro passatempo desenvolvendo, em alguns casos, o desejo de coleccionar.
Preferências
Em todos os lugares de “cavaco” se falava de bronzes, pedras de jade, porcelanas, barros e quejandos. As peças mais apreciadas eram as da dinastia “Han” e “Song”, enquanto que as da época Ming eram tidas como peças modernas; as obras dos últimos reinados da dinastia Qing, como as do reinado de Kang Xi e Qinglong, eram naquela época tidas como vulgares e pouco apreciadas. As cerâmicas eram também um dos tópicos de conversa mais apreciados. Os ânimos exaltavam-se em considerações comparativas entre as famílias “azul”, “verde”, “rosa”, sendo o “sangue de boi” menos apreciado. Por ser uma arte superior, a pintura não motivava tantas discussões, constituindo uma espécie de monopólio de uma elite. Os gostos iam desde os cristais da Bohémia, aos vidros antigos, às porcelanas chinesas, aos objectos de esmalte, aos bronzes”. Era comum entre os grandes coleccionadores a ideia de que em Macau não existiam grandes colecções, nem públicas, nem privadas, e que o museu era paupérrimo.
O Roteiro
O roteiro do coleccionador passava pelos “ferro-velhos” que expunham as suas “safadas mercadorias” (4) na feira que ficava situada no largo do templo de Lin Kai (hoje Largo do Bazar), ou na rua Almirante Sérgio. As casas de penhores do bairro chinês eram também lugares de visita obrigatória. No entanto, a aquisição de objectos de reconhecido interesse e valor fazia-se em lojas com tradição na venda de objectos artísticos. Era o caso da Hón-Ku-Tchái, que com o início da guerra se terá estabelecido na Rua do Jogo ou das Estalagens, da loja Sôi-Tche’éong, na Rua Central, e da Tâk-Tch’eong situada na Rua do Hospital Kéang-U, propriedade do conhecido A-meng, grande conhecedor de cerâmica chinesa. Só assim se completava o roteiro do coleccionador. Os mais exigentes deslocavam-se ainda a Cantão, Xangai ou Hong Kong.
Falsificações
Todos os que se iniciassem nesta actividade sem conhecimentos em arte chinesa corriam o risco de serem ludibriados, dada a perfeição dos métodos de falsificação de peças artísticas:
“São donos de firmas que enterram objectos de bronze novos para se deixarem corroer e por uma concreção que lhes dê um ar de venerada antiguidade, a fim de serem vendidos só pelos seus netos; são bordados recentemente saídos das mãos de veneráveis bordadeiras que passam pelo fumo para adquirirem o tom de velharia; são peças de porcelana que astutos tanganhões conseguem restaurar com tal meticulosidade que só chegam a traírem-se pelo seu sonido rouco, vazio de vibrações; pinturas com selos forjados de autores e possuidores célebres, etc.…” (5)
Deste modo, tornava-se difícil adquirir um conhecimento profundo sobre antiguidades chinesas. Além disso, a arte da emulação era, na China, já muito antiga. Era comum entre artistas e artesãos a produção de obras de arte ao estilo de outros artistas e outras épocas: “os ceramistas antigos aporem nas suas obras de arte, marcas propositadamente metamórficas, existindo assim peças de cerâmica fabricadas no reinado de Iông-tchên com marca do reinado anterior de Hong-Hei, etc..” (6)
Detalhe da casa de Camilo Pessanha – Desenho de Carlos Marreiros
Coleccionadores
As principais colecções de arte chinesa constituídas antes da Segunda Guerra Mundial, em Macau, foram as de Camilo Pessanha, Silva Mendes e José Vicente Jorge. Destas três, só duas se conservaram praticamente intactas: a de Camilo Pessanha e a de Manuel da Silva Mendes; só a colecção de Manuel da Silva Mendes permaneceu em Macau.
Casa de José Vicente Jorge cerca de 1940
José Vicente Jorge
Oriundo de uma família estabelecida em Macau, pelo menos, desde o século XVII e que se celebrizou dado ao grande envolvimento na vida cultural da cidade, José Vicente Jorge (1872 –1948) viveu desde cedo em ambiente propício ao desenvolvimento das suas aptidões culturais.
A Colecção do Dr. José Jorge era, segundo Gonzaga Gomes, “(…) sem dúvida das três a mais rica e mais numerosa” (7). O seu palacete era “(…) um verdadeiro e valorosíssimo museu pletórico de incalculáveis preciosidades, que nenhum estrangeiro ilustre de passagem por esta colónia deixa de visitar” (8)
José Vicente Jorge reuniu uma colecção de cerca de 10.000 peças. Ele próprio escreveu e publicou ainda em vida um catálogo referente à sua vastíssima colecção –mais tarde, reeditado pelo Instituto Cultural, incluindo uma vasta biografia escrita por Pedro Barreiros. José Vicente Jorge é considerado o grande impulsionador das restantes colecções existentes, sobretudo a de Camilo Pessanha, do qual era amigo. Conheceram-se em 1903, no Liceu Central, onde ambos leccionavam. Aí leccionava também o outro grande coleccionador, Manuel da Silva Mendes.
Consta que Vicente Jorge apoiava Camilo Pessanha nas suas traduções de poesia chinesa e que, por sua vez, Camilo Pessanha ajudava Vicente Jorge no refinamento do português.
José Vicente Jorge chegou a fazer parte da Direcção do Museu Luís de Camões, cargo para o qual foi nomeado a 12 de Outubro de 1911.
A Colecção de José Vicente Jorge, constituída ao longo de 50 anos, era composta por peças dos principais ramos da arte chinesa – cerâmica, bronze, Jade, pintura, caligrafia, escultura, gravura, esmalte, laca, bordado e mobília.
Na sequência da II Grande Guerra Mundial, a colecção de José Jorge conheceu o seu fim. Segundo o P.e. Manuel Teixeira foi, pelo menos em grande parte, vendida para os EUA e a restante, segundo Pedro Barreiros, dividida pelos seus filhos.
Camilo Pessanha
Em 10 de Abril de 1894, Camilo Pessanha chegou a Macau. Para o início da sua colecção, muito contribuiu a relação com José Vicente Jorge, que se lhe julga ter incutido e apurado o gosto pelos objectos de arte chinesa no decurso das muitas visitas que Pessanha lhe fazia. (9)
A colecção que Camilo Pessanha reuniu, para mais tarde oferecer ao estado português, era constituída por 61% de Pintura Chinesa, num total de “220 obras de pintura e caligrafia englobando obras de pintura e caligrafia”, entre as quais se destacam os trabalhos de Su Liupeng, Yu Qilin, Ren Bonian, Wang Xizhi, Ma Yuan Yu, Gai Qi, Zhang Um, Zhiyun nushi e Shao Mi. Era uma colecção centrada em representações de carácter litúrgico, designadamente em personagens do panteão budista, seguida de representações de paisagem e incluindo ainda um grande número de obras de caligrafia. (10) 
Ao que se sabe, Camilo Pessanha gastou grande parte do seu património na aquisição de objectos de arte chinesa. Depois da sua morte surgiram na imprensa de Macau anúncios dando conta da venda dos objectos chineses por ele coleccionados.
“(..) excluindo os objectos que fizeram parte das doações que o poeta em alturas diferentes fez ao estado português, os objectos remanescentes alimentaram, ao que parece uma loja de antiguidades, aberta pelo seu filho, João Manuel propositadamente para vender o espólio do pai”. 11
De facto, na sequência da exposição Colecção de Camilo Pessanha, que teve lugar no Palácio do Governo, em 7 de Fevereiro de 1915, as cerca de 125 peças de arte exibidas foram oferecidas ao Governo Português, nomeadamente ao Museu de Arte Nacional (Museu das Janelas Verdes). Mais tarde, em 1925/6, seriam oferecidas mais 220 peças da Colecção de Camilo Pessanha também ao Governo Português, desta feita ao Museu Machado de Castro, em Coimbra – para onde os objectos da primeira doação tinham sido entretendo enviados.
Silva Mendes
Silva Mendes (1876 -1931), advogado e professor do Liceu de Macau, chegou a esta cidade em 1901, para se tornar num dos primeiros homens a dedicar-se a coleccionar e a estudar a arte da província de Guangdong.
O espólio que reuniu durante a sua vida em Macau integra uma vasta colecção de Cerâmicas de Shiwan, uma grande colecção de Pintura Chinesa de Cantão, cerâmicas do Palácio do Governo, desenhos e aguarelas de Chinnery, Wattson, Borget, Lam Qua, entre outros.
Por ocasião da morte do professor, a sua colecção foi posta à venda. Os jornais de Macau reclamaram ao governo a necessidade e a importância da aquisição desse espólio. Foi, então, constituída uma comissão para a avaliação da colecção (12), mas concluiu-se que o governo não dispunha do capital necessário para concretizar a aquisição. Os membros da comissão sugeriram que fossem recolhidos os fundos necessários junto de capitalistas chineses locais e que a colecção fosse doada ao Museu Luís de Camões (13). Assim seria (14) .
A colecção de Manuel da Silva Mendes tendo sido adquirida em 1932, por forma a integrar o espólio do Museu Luís de Camões, foi a única entre as grandes colecções da sua época que permaneceu na cidade de Macau. Desde então os responsáveis pela “casa das musas” nunca mais deixaram de insistir na sua vocação artística; e é por isso que hoje existe um Museu de Arte. Apesar da colecção Silva Mendes constituir, ainda hoje, grande parte do espólio do Museu de Arte de Macau, ele foi entretanto enriquecido através de aquisições e doações.
No ano de 1959, o “Museu Luís de Camões”, com todo o seu espólio, foi transferido para o Leal Senado de Macau, que ficou responsável pela sua conservação e administração, mediante um subsídio anual concedido pelo governo (15). Em 1989, por falta de instalações, o Museu acabou por ser encerrado. A construção do Centro Cultural de Macau, que inclui uma área museológica, acabou por solucionar o problema. Sob a designação de Museu de Arte de Macau, foi inaugurado em 1999, o Museu que herdou todo o espólio do antigo Museu Luís de Camões, incluindo a colecção de Manuel da Silva Mendes. A cidade de Macau ficou desta forma dotada de um Museu exclusivamente dedicado à Arte, viu-se definitivamente transformado o panorama museológico e a memória colectiva da cidade.
Artigo da autoria de Margarida Saraiva, Mestre em Planeamento e Políticas Culturais Europeias, Montfort University, Leicester, Inglaterra, 12-07-2010

1. PE. TEIXEIRA, Manuel, in “O Clarim”, 17 de Abril de 1977 3. Gomes, Gonzaga, “Curiosidades Chinesas: O Museu do Senhor Vicente Jorge”, in Renascimento no. 2, 1943, p. 490.5. Idem, p. 488.7. GOMES, Gonzaga, “Curiosidades Chinesas: O Museu do Senhor Vicente Jorge”, in Renascimento no. 2, 1943, p. 490.9. JORGE, José Vicente, “Notas sobre a Arte Chinesa”, 1995, ICM, Macau.12. Portaria Provincial no 813, Boletim Oficial da Colónia de Macau, Março de 1932.
2. agentes que iam “desencantar peças de grande antiguidade em longínquas aldeias”, GOMES, Gonzaga, Curiosidades Chinesas: O Museu do Senhor Vicente Jorge, in Renascimento no. 2, 1943, p. 489.
4. Idem, p. 487
6. Idem, p. 488.
8. Idem, p. 490.
0. RIBEIRO, José Diogo, “Camilo Pessanha, Coleccionador de Arte Chinesa”, in Revista de Macau, III Série no 2, Julho de 2000, p 71.
11.Idem, p 73.
13. Relatório da Comissão nomeada para a Aquisição da Colecção de Manuel da Silva Mendes, 1932.
14. Livro de Actas das Reuniões da Direcção do Museu “Luís de Camões”, Acta no 5 de 18 de Julho de 1933.
15. Portaria Provincial no 231, Boletim Oficial da Colónia de Macau, 4 de Outubro de 1958.
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