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O Instituto Cultural do Governo da RAEM procedeu na semana passada no Teatro D. Pedro V, ao lançamento de Breve Monografia de Macau, de Yin Guangren e Zhang Rulin, obra bem conhecida dos estudiosos da História de Macau.
Esta nova tradução de Jin Guo Ping, a partir da versão preparada por Zhao Chunchen e publicada em 1988 em Cantão e, mais tarde, já revista e anotada, em Macau pelo então Instituto Cultural de Macau, e a que o tradutor acrescentou centenas de notas, vem colmatar uma significativa lacuna, já que há muito se encontra esgotada a primeira versão em língua portuguesa, da responsabilidade de Luís Gonzaga Gomes*.
A Breve Monografia de Macau foi redigida durante o período Qianlong por dois letrados e funcionários chineses encarregados dos assuntos de Macau que aproveitaram as frequentes vindas à cidade, entre 1744 e 1746, para recolher informações pormenorizadas sobre a história, a geografia, a organização social e as actividades económicas do pequeno estabelecimento português.
Se, por um lado, revela, de forma bem clara, que Macau desde sempre constituiu motivo de preocupação e de debate para as mais diversas instâncias políticas e administrativas chinesas, por outro, apresenta testemunhos excepcionais sobre a visão chinesa dos portugueses de Macau, materiais importantíssimos para os estudos, hoje tão em voga, sobre as recíprocas imagens luso-chinesas.
Com esta edição, o leitor de língua portuguesa passa a dispor da mais importante fonte chinesa para o conhecimento dos primeiros 200 anos da presença dos Portugueses em Macau.
A partir de um texto publicado no site do ICM em Julho de 2010. 

Reproduzo em seguida um excerto de um artigo publicado no jornal Ponto Final a 28 de Junho último.
Traduziu Fernando Pessoa e outros autores e textos grandes da língua portuguesa antes de encontrar uma parede de mais de dez anos: “Monografia de Macau”, documento que deu trabalho e se arrastou no tempo. Agora, a meio do mês de Julho, Jing Guo Ping estará em Macau para apresentar o resultado. Em entrevista ao PONTO FINAL, por telefone e a partir de Pequim, fala de uma obra que considera essencial.
(…)

– Este foi um trabalho que se arrastou no tempo.
J.G.P. – É um livro que levei dez anos a traduzir, só terminei nos últimos meses. Já houve uma versão portuguesa, de Luís Gonzaga Gomes. O livro é muito citado mas o conteúdo é pouco usado, porque é pouco legível. Mas não podemos culpar Luís Gonzaga Gomes disso, porque houve de facto dois trabalhos: primeiro paleografia [estudo de textos manuscritos antigos e medievais], porque ele traduzia a partir de uma versão chinesa sem pontuação, era muito difícil. E depois ainda traduzir para português. Ele não teve o conhecimento suficiente de paleografia, por isso a tradução dele – embora o português seja correcto – não se percebe, é muito difícil.
– Mas esta nova edição é uma ideia antiga, que vem de trás.
J.G.P. – Há muito tempo que se tem a ideia de fazer uma nova versão. As sucessivas direcções do IC sempre têm prestado muita importância a uma nova edição deste livro. Ainda na administração portuguesa, comecei a traduzir e anotar, não só traduzir. Esta deve ser a edição mais actualizada, mesmo em termos de edições chinesas, porque houve duas edições modernas, uma na China Continental, outra pelo IC, mas desta vez traduzi a partir de uma edição chinesa publicada em Cantão. Também pus muitas notas novas a partir de fontes portuguesas e chinesas. Esta nova versão tem à volta de duas mil notas.
– E continua a ter notas de Rui Loureiro, historiador português, conforme estava previsto?
J.G.P. – Não, é tudo feito por mim. O texto foi corrigido pelo professor Rui Loureiro, mas o Luís Ferreira teve um papel decisivo, porque levámos quase dois anos na revisão do texto já corrigido pelo professor Rui Loureiro, primeiro com uma revisora oficial do IC e depois directamente com o doutor Luís Ferreira [do Instituto Cultural]. Foram quase dois anos a definir a última versão.
– Mas temos a informação de que a tradução estava pronta há vários anos e que se foi retardando a publicação do livro sem motivo aparente.
J.G.P. – A minha versão, com as correcções do professor Rui Loureiro, já está concluída há vários anos. Só que no último momento fiz grandes remodelações na minha tradução. Não se pode culpar o IC por atrasar isto, eu próprio tenho dado retoques na versão original e tudo isso levou a quase 11 anos de trabalho.
– Recorreu à versão de Luís Gonzaga Gomes?
J.G.P. – Li alguma coisa do Gonzaga Gomes, mas para fazer bem a minha tradução afastei-me dela o máximo possível. Para quem não saiba chinês, talvez a versão dele sirva de alguma coisa. Mas para quem saiba chinês, a tradução dele é muito deficiente, quase não se percebe nada. Por isso é que normalmente se cita muito o título, mas o conteúdo é pouco utilizável.
– A sua tradução vem acabar com essa limitação?
J.G.P. – Pelo menos o português foi bem corrigido. O problema do Gonzaga Gomes foi que ele tinha um português bom, mas traduzia a partir de um texto chinês não muito bem interpretado, daí a confusão toda. Na minha versão, pelo menos quanto à compreensão do texto em chinês, não deve haver problema. Depois, o português foi corrigido por dois portugueses, portanto também não deve haver problema.
– Como classifica este livro?
J.G.P. – Acho que talvez seja o livro mais importante da história sistematicamente escrita de Macau. Só existe um livro assim, que é “Monografia de Macau”.
Ainda na mesma edição o jornal publica um artigo sobre o tema da autoria de Helder Beja.
O Instituto Cultural edita em Julho, com nova tradução para português de Jing Guo Ping, “Monografia de Macau”, documento escrito pelos mandarins Ying Guangren e Zhang Rulin. Falámos com o tradutor que visitará a RAEM e espreitámos a primeira versão portuguesa da obra, da responsabilidade de Luís Gonzaga Gomes.

O que nos agarra logo são as ilustrações. “Monografia de Macau” (‘Ou-Mun Kei-Leok’ em cantonês), documento datado de 1751 e vertido pela primeira vez para português por Luís Gonzaga Gomes (1907-1976), nos anos 1950 do século passado, está “esgotado há vários anos”, de acordo com a livreira Cristina Lai, mas ainda se encontra na Biblioteca Central da RAEM. Agora, conhecerá nova edição do Instituto Cultural (IC), com tradução de Jing Guo Ping (ver entrevista nestas páginas) e lançamento previsto para 15 ou 16 de Julho, na Livraria Portuguesa.
Ying Gaungren e Zhang Rulin são os nomes dos dois mandarins – diferentes dos grafados por Gonzaga Gomes mas aqui actualizados com a ajuda da historiadora Tereza Sena – que escreveram, ainda na primeira metade do século XVIII, “uma série de relatórios sobre as gentes de Macau, os seus costumes, a fauna, a flora”, explica a investigadora.
O livro traduzido pelo sinólogo Gonzaga Gomes, com prefácio de 22 de Junho de 1950, está salpicado de desenhos que vão dos mapas do território à imagem de jesuítas, dos meios de transporte aos estrangeiros de Macau, conforme publicamos nestas páginas. Neste que é um “documento fundamental para a compreensão da história de Macau”, como o classifica Tereza Sena, encontramos passagens sobre os forasteiros em geral e os portugueses em particular. O capítulo “concernente aos estrangeiros de Macau” começa assim: “Escrevendo sobre os estrangeiros de Macau, temos a dizer que os há de várias espécies. (…) Os primeiros que erigiram casa foram os lóng-kei (Portugueses). Os que disputavam o comércio aos Portugueses, mas mais tarde passaram a entender-se bem com eles, a fim de poderem implorar o trato, foram os Holandeses. Os que se utilizavam de Macau para refúgio de criminosos fugitivos foram os Japoneses”.
O excerto da tradução do filólogo macaense que aqui deixamos é compreensível. Até que ponto é exacto, desconhecemos – e essa foi, ao longo dos anos, a questão que pairou sobre este trabalho. “Essa tradução, embora tenha sido a primeira e muito importante – até porque feita por alguém que consultava as fontes dos dois lados, portuguesas e chinesas – foi criticada por não ser muito exacta, por ter algumas falhas”, prossegue Tereza Sena.
O livro que agora será editado é, garante, o resultado de um projecto cujo manuscrito traduzido por Jing Guo Ping foi entregue em 2001. “Por algum motivo que desconheço – e que acompanhou um vazio de edições por parte do IC – o livro nunca foi editado”. A historiadora diz ainda que “sendo um documento fundamental, não se percebe que tenha demorado todos estes anos” a ver a luz. “Fico contente por saber que vai finalmente acontecer”, refere.
À data, além da nova tradução, era suposto fazer uma edição crítica da versão de Gonzaga Gomes, e ainda incluir anotações do historiador português Rui Loureiro. Conforme conta Jing Guo Ping na entrevista que publicamos, os planos terão sido alterados. Mantém-se ainda assim o modelo de edição anotada e que actualiza a obra a partir das novas versões dadas à estampa em língua chinesa.
Também Carlos Marreiros, que conhece bem a obra e o trabalho do seu primeiro intérprete para português – que a seu tempo terá lugar na série de fotobiografias que o Albergue conta arrancar em breve, com os retratos da vida de Carlos d’Assumpção e José Vicente Jorge – considera Gonzaga “o maior sinólogo de Macau, mas que naturalmente tinha falhas”, até porque a escrita de “Monografia de Macau” é “muito poética e susceptível de enganar, tem vários aspectos de erudição”. E conclui que “Gonzaga Gomes era bom mas era um autodidacta”.
O arquitecto que, aquando da passagem pela presidência do IC avançou com o projecto de “verter para um chinês mais moderno, e com notas de pé de página” a referida obra, considera-a “uma das mais interessantes sobre Macau, um livro notável” do qual também destaca as ilustrações. Já sobre a nova tradução de Jing Guo Ping, alguém que “sabe muito de português e que vive em Portugal há mais de 20 anos”, o responsável pelo Albergue da Santa Casa da Misericórdia considera-a “uma óptima notícia”.
Trabalho difícil
O próprio Luís Gonzaga Gomes – autor da tradução para o chinês de “Os Lusíadas, contados às crianças”, do “Resumo da História de Portugal” e dos “Vocabulário Cantonense-Português” e “Vocabulário Português-Cantonense” – admite as limitações da sua empresa no prefácio de “Monografia de Macau”. Define o livro como “uma raridade bibliográfica”, de que à data eram conhecidas pouquíssimas cópias, e através dos exemplares que possuía “não foi possível reconstruir certos caracteres que, devido à incúria do seu primitivo possuidor, se encontram delidos pela voracidade das traças”. Também as últimas páginas do segundo volume se encontravam “quase que ilegíveis (…), muito enxovalhadas e roídas pela bicharia”.
E depois dá conta de uma das principais contrariedades, que Jing Guo Ping também assinala: “Os caracteres desta obra, redigida no obsoleto estilo erudito, seguem-se uns atrás dos outros sem um único sinal de pontuação a facilitar a compreensão do texto (….). A cada passo, topa-se com um poema intercalado, a meio do texto, e ninguém desconhece quão difícil é traduzir para uma língua europeia, versos chineses com as mirabolantes imagens criadas pela fértil fantasia dos poetas nativos e as suas gongóricas citações mitológicas e históricas, num desconcertante alarde de exótica erudição”.
É esta “insuficiência de conhecimentos sinológicos” reconhecida e que coloca o trabalho “longe da perfeição” que Jing Guo Ping conta suprir com a nova tradução.
*A alusão à obra de L. G. Gomes é esta: Monografia de Macau / por Tcheong-Ü-Lâm e Ian-Kuong-Iâm. Tradução de chinês por Luís G. Gomes. Editada pela Repartição Central dos Serviços Económicos, Secção de Publicidade e Turismo, 1950. Este livro é tb conhecido pelo título Ou-Mun Kei-Leok.

Aomen Jilue – Uma Monografia de Macau – é, pois, um relatório sobre Macau, escrito por dois delegados do Imperador, Yin Guan-ren e Zhang Yulin (primeira edição 1751). A obra incluia poemas que tinham a dupla função de testemunho dos relatos e embelezamento do texto. Os temas dos poemas englobam descrições de viagens e embaixadas dos oficiais enviados aos países asiaticos com os quais a China mantinha relacções na época (o reino de Champa, Malaca, Vietname, Java, Filipinas e outros estados tributários) ou encontros e trocas culturais com os povos que aqui aportavam vindos do Grande Oceano Ocidental (Portugal, Espanha, Holanda…).
LGG foi um ilustre macaense. Nasceu em Macau em 1907 e faleceu na sua terra em 1976. Personagem plurifacetada, dotada duma enorme sensibilidade para a arte e literatura, postulou, toda a vida, uma simplicidade franciscana. Filólogo por excelência, foi, durante duas décadas, Professor do Ensino Primário e Director da Escola Pedro Nolasco da Silva, assumindo-se, desde muito novo, como um esclarecido conhecedor da língua e da cultura chinesa.
Tradutor e intérprete de reconhecido mérito, verteu, em língua chinesa, “Os Lusíadas, contados às crianças”, elaborou o “Resumo da História de Portugal”, o precioso “Vocabulário Cantonense-Português”, assim como o “Vocabulário Português-Cantonense”.
A ele se deve também a tradução (1945/6) para a língua portuguesa do conhecido livro “Ou Mun Lei-Leok”, de autoria de Tcheng U Lám e Jan Kuong Iâm, dois altos funcionários chineses que no século XVII visitaram Macau e elaboraram pormenorizado levantamento sobre a administração, os usos e os costumes dos residentes estrangeiros.
Musicólogo de eleição, exerceu durante vários anos as funções de Director da Emissora de Radiodifusão de Macau, a par de outras como as de Conservador do Museu Luís de Camões (Macau), por si instalado na década de cinquenta, fundador e Director do Boletim do Instituto Luís de Camões (9 vol.), dos Arquivos de Macau (12 vol.), Tesoureiro do Grupo de Amadores de Teatro e Música, Secretário do Círculo de Cultura Musical, Chefe de Redacção da Revista “Renascimento”, Secretário do diário “Notícias de Macau”, etc.
A par da vida cultural, Luís Gonzaga Gomes, que nunca negava a sua prestimosa colaboração, foi também Secretário da Associação e da União Desportiva Macaense, Presidente do Rotary Club de Macau, etc., bem revelado do seu altruísmo.
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