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“O primeiro Amarante em Macau foi o meu Avô Materno, nascido a 27 de Fevereiro de 1891 e registado em Gôve, concelho de Baião, com o nome de Simão Amarante, filho de Ana Amarante. Os registos não indicam o nome do pai. O meu Avô falava pouco disso, dizia que tinha irmãos e que a mãe trabalhava numa quinta. Nunca estudou, porque a escola era muito longe e tinha de andar muitas horas para lá chegar. Em pequeno vendeu jornais (citou O Século), aos Domingos dava ao fole no órgão da igreja e, de vez em quando, recebia uns pontapés do padre organista, quando adormecia ao fazê-lo. Quando chegou a altura do serviço militar obrigatório foi mobilizado para Macau onde conheceu e casou com a minha Avó.
A minha Avó vinha de uma família da classe média alta. O pai era guarda-livros e a mãe tinha ascendência nobre de um avô brasonado, que teria sido Cônsul em Singapura ou Manila, já não sei precisar. Tinha duas irmãs. A dada altura, os pais separaram-se; as irmãs ficaram com a mãe em Manila e a minha Avó com o pai e foram viver para Macau. Como o pai viajava muito, a minha Avó foi internada num colégio de freiras, onde recebeu uma educação esmerada. Infelizmente, o pai morreu cedo e a minha Avó passou a ser apenas tolerada, com mais obrigações que direitos. Foi-lhe nomeado um tutor, um capitão, que soube gerir a sua pequena herança recebida do pai, o que lhe permitiu completar a instrução no colégio e ingressar numa escola de enfermagem.
A minha Avó, para a época, era uma muito alegre e bonita tendo, assim, muitos pretendentes. Um deles, filho de boas famílias, lá conseguiu o seu intento. Quando tudo já apontava para o casamento, surge o escândalo. Enquanto namorava a minha avó, o pretendente engravidara uma rapariga, pelo que, segundo os hábitos de então, foi obrigado a casar com ela.
A minha Avó sofreu um grande desgosto. Deixou de sair e de responder às cartas dos pretendentes. As companheiras diziam que ela ia ficar para tia pois nunca mais casaria. Tanto fizeram que a minha Avó disse que continuava a receber pedidos de namoro e que aceitaria o primeiro que viesse. Quis o acaso que a primeira carta fosse do meu Avô, que finda a comissão de serviço militar, decidira não regressar a Portugal e tinha entrado para a Corporação dos Bombeiros de Macau. Ora o meu Avô não sabia escrever, o pedido de namoro tinha sido escrito por um colega. Durante o período pré-nupcial, com obrigatoriedade de “chaperon”, nunca olharam um para o outro de frente nem de perto. Só na noite de núpcias a minha Avó soube que o meu Avô era bexigoso, apesar de ser um homem alto, forte e bem parecido.
Do casamento nasceram oito filhos, quatro rapazes e quatro raparigas: Branca (casou e teve cinco filhos), César (casou e teve quatro filhos), Vasco (nunca casou), Henriqueta (casou e teve três filhos, Tito (morreu jovem), Gisela (casou, e teve dois filhos), Hugo (casou e teve dois filhos) e finalmente Nídia (casou e teve quatro filhos).
O meu Avô chegou ainda a ser Chefe da Corporação dos Bombeiros de Macau, com bons serviços prestados, medalhado e louvado várias vezes. Reformou-se, era muito popular e até morrer era conhecido como o Chefe Amarante. O meu tio César fez carreira na Polícia de Macau onde atingiu um posto de destaque, reformou-se e morreu na Austrália. O Tio Vasco, homem dos sete ofícios, depois de percorrer as sete partidas do mundo, morreu em Hong Kong com idade avançada; as suas cinzas repousam na Noruega onde tinha uma casa. Henriqueta, a minha Mãe, casou com o meu padrasto (que considero o meu Pai), viemos viver para Portugal. Ambos já faleceram. A Tia Gisela, depois de casar, foi viver para Angola até à Descolonização, após a qual veio viver para Portugal. Faleceu há alguns anos. Tem uma filha em Portugal e um filho em Macau. O Tio Hugo foi polícia e bombeiro. Reformado, é ainda vivo, em Macau. A Tia Gija (Nídia), depois de casar emigrou para a Austrália. Vive com a família em Sidney.
Em Macau, além do meu Tio Hugo, mulher e filhos, tenho um primo, Jojo, filho da Tia Gisela e uma prima, Ivone, filha do Tio César. É casada e tem três filhos. Tanto quanto sei, os filhos da Tia Branca estão espalhados entre a Tailândia e as Filipinas. Dos restantes filhos do Tio César, dois estão na Austrália e um filho estará em Portugal.
Quanto a mim, nasci de uma ligação de minha Mãe com um músico filipino que tocava em Macau durante os anos da guerra. Curiosamente, nasci em Cantão em 16 de Julho de 1949, onde o meu pai biológico trabalhava temporariamente, embora tenha sido registado em Macau, na freguesia da Sé. Os meus pais separaram-se teria eu dois anos. O meu pai biológico regressou a Manila onde era originário e tinha família constituída. Queria levar-me com ele, mas a minha Mãe não quis. Mais tarde, a minha Mãe passou a viver com aquele que considero o meu verdadeiro Pai, na altura, alferes, em comissão de serviço. Desta ligação tiveram dois filhos, os meus irmãos Mário Vasco e Diana. Meu Pai adiou várias vezes o regresso à então Metrópole e frequentava um curso de Engenharia Electrónica, por correspondência, com vista a uma eventual emigração para Austrália. A nossa vida decorria normalmente, fiz a Escola Infantil “D. José da Costa Nunes” até 1956 e frequentei a primária na Escola Central até à 2ª classe, quando, em 1958 o meu Pai recebeu uma proposta de regresso a Portugal para frequentar um Curso de Oficiais para ingresso no Quadro Permanente do Exército. Meu Pai optou pelo regresso e, assim, aconteceu a nossa vinda para Portugal nesse mesmo ano. Meus Pais casaram em 1972. Nunca mais voltei a Macau. Eis, o mais resumido possível, a história dos Amarante em Macau.”
Avós de Reinaldo Amarante -Simão e Henriqueta – 
no dia do casamento e na década de 1950
Csamento da tia Gija (Nídia) com Vasco Sales da Silva em 1961 e Natal do mesmo ano
Reinaldo com o pai

Testemunho de Reinaldo Amarante que tem um blog onde conta as histórias da Avó Má http://conversas-com-avo-ma.blogspot.com/ e da restante família.
PS: aqui fica o agradecimento em jeito de homenagem ao Reinaldo que aceitou o meu desafio para contar as suas memórias de Macau e que este mês completou 61 anos de vida. Obrigado e parabéns!

Reinaldo (o da garrafa) ontem, tal como hoje, a celebrar em família
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