Agosto 2010


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Descrição de Macau na década de 1950: passeio do forte de São Tiago da Barra à Porta do Cerco (excerto do livro abaixo mencionado):
“O forte ergue-se junto à costa, só uma avenida o separa da água. De muralhas cinzentas e compactas, tem um ar sólido, ar de pessoa ou de coisa que nada teme. Orgulhoso? Que ideia! O forte da Barra não é orgulhoso. Está ali para defender a terra que há muitos anos lhe confiaram, terra por que já lutou. Se forem precisas testemunhas, ali estão aqueles velhos e dignos canhões que sabem muitas histórias de piratas.
À tardinha, vêem-se lá em cima soldados a decansar, olhando a Ilha da Lapa, mesmo em frente, a dois passos, aquela ilha gigantesca e negra, quase deserta, que transforma o Porto Interior numa espécie de canal estreito. Um pouco mais ao lado, há outra, mas esta muito pequenina, pouco mais do que um penedo, coberto duma fina camada de terra e vegetação: a pedra d’Areca.
Mas se os soldados de São Tiago da Barra se cansarem de olhar a paisagem, podem observar uma casa de pescadores que fica ligeiramente à esquerda. É construída sobre a água e sustentada por grossas estacas de bambu espetadas no lodo. Para se lá chegar, é necessário atravessar-se uma frágil e estreita ponte de madeira que a liga à terra. A cabana consta duma única divisão onde vive toda uma família.
Do lado oposto à entrada tem uma outra porta que dá sobre uma ponte igual à primeira e que termina no engenho de pesca. Este engenho não passa de quatro canas altas, também espetadas no fundo da baía e nas quais assenta uma enorme rede quadrada.
Todo o sistema está ligado a uma roldana que levanta a rede para se colher o peixe, ou a inclina para a esquerda ou para a direita, segundo as marés. De tantas em tantas horas, o pescador, munido duma longa vara que tem numa das pontas um pequeno saco, dirige-se para o extremo da última passadeira e recolhe o peixe que há-de vender no dia seguinte.
Há várias dessas cabanas ao longo da Praia Grande e aí se vêem também uma linda avenida marginal com frondosas árvores dum lado e do outro e vivendas apalaçadas que terminam nos dois campos de ténis da cidade. É ali que a gente elegante passa as tardes de Verão.
Se olharmos para cima, podemos ver um pouco do maravilhoso jardim do Palácio de Santa Sancha, residência oficial do Governador. Para lá do Palácio, que fica na encosta duma pequena colina, encontramos, aqui e ali, casas de funcionários públicos, casas arejadas e modernas, e miradouros de horizontes largos. Ali perto, fica o Hotel Bela Vista que é frequentado quase só por Europeus. É o melhor bairro da cidade, o mais fresco e calmo.
Ainda mais acima, está a colina da Penha com outro grande e majestoso palácio que é a residência do Bispo da Diocese.
A Praia Grande continua contornando a costa. Na próxima curva, depara-se-nos a Fortaleza do Bom Parto e, logo ao pé, um jardim infantil com veados e macacos. Seguem-se mais casas, mais vivendas, antes de chegarmos ao Palácio do Governo onde estão instaladas várias repartições do Estado. Uma sentinela, impecável, passeia dum lado para o outro.
No cruzamento com a Avenida Almeida Ribeiro, começamos a encontrar mais movimento e aparece-nos o primeiro polícia sinaleiro. Chega até nós uma música americana tocada no “dancing” do Hotel Riviera que fica numa das esquinas deste cruzamento e mesmo em frente do edifício do Banco Nacional Ultramarino.
À nossa direita e lá ao longe, vê-se a enorme estátua daquele que foi o grande Governador Ferreira do Amaral. Foi ele que no século passado restaurou a autoridade portuguesa nas ilhas da Taipa e de Coloane e pôs fim às alfândegas chinesas que, indevidamente, cobravam impostos no nosso território. Todos esses factos e a sua constante atitude de firmeza, criaram-lhe ódio entre os mandarins que não hesitaram em o mandar assassinar perto das Portas do Cerco. É justo que tenha a maior estátua de Macau.
A Praia Grande, que já deixou de ir ao longo da costa, termina num pequeno jardim que tem à esquerda o Colégio Santa Rosa de Lima e à direita o Clube Militar (NA: na imagem, um retrato recente), onde se fazem lindas festas no Natal e no Ano Novo. Entre o Colégio e o Clube, há um grande edifício amarelo que é o Quartel de S. Francisco, outrora um convento.
Desviamo-nos ligeiramente e entramos na larga Avenida Dr. Oliveira Salazar que é uma verdadeira pista de corridas. Estamos agora em pleno Porto Exterior.
Levanta-se a uns metros dali o belo monte da Guia, cheio de verdura e de passeios tentadores. É a maior elevação de Macau — 106 metros de altura — com o mais antigo farol de toda a China e uma acolhedora capelinha que tem o mesmo nome do monte.
A Avenida Dr. Oliveira Salazar passa pelo reservatório de água que abastece a cidade e tem ligação, por meio duma rua estreita, com os aterros da Areia Preta.
Antes de chegarmos às Portas do Cerco, talvez não seja má ideia darmos uma saltada ao Monte de D. Maria, subindo pela “Montanha Russa”, para descansarmos um pouco no miradouro e observar a paisagem.
No regresso, tornamos a fazer um desvio para visitarmos o Pagode de Mong Há — também chamado Lin-Fong — que fica na Estrada Almirante Lacerda. Foi construído antes de Macau nos pertencer e, diz-nos a lenda, habitado por uma comunidade de bonzos que tinham como superior Un-Tch’an, homem sabedor e virtuoso.
Certa vez, estando ele a fazer as suas orações, ouviu vozes estranhas e, quando se voltou, viu um ridículo macaco que, aos pulos, foi instalar-se no altar principal. O bonzo deixou-se ficar no mesmo sítio e continuou as suas orações. Mas o macaco voltou no dia seguinte e em todos os outros dias e a comunidade inteira entretinha-se a observá-lo. De princípio aparecia de mãos vazias e depois começou a trazer deliciosos frutos que depunha no altar dos Três Budas Preciosos.
Todos se espantavam com tal procedimento, tanto mais que ele parecia estar a fiscalizar o fervor das orações de Un-Tch’an. Acabaram por respeitá-lo profundamente e já quase fazia parte do templo, quando o superior morreu. A partir desse dia, nunca mais voltou e ficou conhecido pelo “macaco espiritual”. Ainda hoje existe no Pagode o altar dos Três Budas Preciosos.
Mas deixemos Mong-Há e as suas lendas para nos pormos a caminho das Portas do Cerco. A estrada que lá nos leva é estreita e a gente é tanta que mal se pode caminhar. Uns trazem carrinhos de mão, outros grandes fardos que os fazem vergar com o peso. Lá estão, à esquerda, as hortas verdes e ajardinadas que só têm um defeito: cheiram horrivelmente mal. Só aos encontrões se pode furar por aquela multidão de chineses.
Quase ao fim da rua, corta-se à direita e vamos ter a um magnífico Campo de Corridas de Cavalos, um dos melhores de todas aquelas paragens e nos dias de corridas é uma verdadeira parada de elegâncias. Começamos a ver as primeiras casas dos oficiais e sargentos da guarnição da fronteira; soldados pretos com fardas de cáqui, muito bem engomadas; rolos de arame farpado, espalhados pelo chão e, ao fundo, um muro em forma de arco: as Portas do Cerco. Acaba ali a cidade; do outro lado começa a China. Já andámos quatro quilómetros!
Temos de voltar pela mesma estrada, dar e receber mais encontrões, ver a longa fila de gente que entra e sai de Macau. Abrem passagem aos gritos: ôh! ôh!…
Agora vamos em direcção à Ilha Verde que já deixou de ser ilha por estar ligada à península, mas ainda conserva o mesmo nome. Passamos por outras hortas e bairros pouco limpos. Andamos bastante, mas sempre chegamos e depois de visitarmos a grande fábrica de cimento, vamos dar um passeio pela bela Ilha Verde que inspirou tantos poetas. Dizia um deles, Ien-Kuong-Iam: ‘Sobre o mar, o firmamento está repleto de formas vaporosas./ A chuva miudinha apoderou-se da Ilha Verde./ Onde a fragância das flores torna o Inverno em Primavera./ E a exuberência e a frescura transformam o Verão em Outono./ O toque dos sinos morre mergulhando-se na praia./ As sombras das velas flutuam doidejando, desordenadamente como gaivotas./ Tal paisagem excede a de Siu-Seong./ Quem há que não se debruce à janela para a admirar ao longe?’
E ainda o bonzo Tchek-Sam: ‘Surgindo altaneira no meio do mar e correndo,/ desordenadamente, as águas em volta da sua rocha borda,/ a Ilha Verde, tão minúscula, lembra-nos uma ilha de fadas…’. Notamos que estas duas poesias foram escritas no tempo em que a Ilha Verde era, realmente, uma ilha.”

“Macau, terra de lendas”, de Hermengarda Marques Pinto: Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1955, 127 páginas – Colecção Educativa Série E nº 1.
Trata-se de um livro que, segundo a autora, na altura com 28 anos,  foi escrito “para ganhar dinheiro” (em 1955) e que acabou reeditado “sem a minha autorização” em 1974. Estes dados foram manuscritos pela própria num autógrafo nessa 2ª edição e à qual tive acesso recentemente.
NA: imagens da década de 1950 – fotografias e postais
Livros como este – que  para além da descrição da cidade em jeito de passeios e com  a inclusão de algumas pequenas lendas nas primeiras páginas – deram a conhecer aos portugueses da então Metrópole como era o Território no início da década de 1950. Pouco ilustrado era um livro com o carimbo do Ministério da Educação. A 2ª edição de 1974 custava 10 escudos.
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Através das fotografias publicadas no seu blog tenho visitado o Macau da minha infância . Dele guardo religiosamente imagens e lembranças dum tempo doce e sereno .Vivi no Largo do Pagode da Barra junto à ponte n. 1, acho que exactamente no lugar onde se ergue o Museu Marítimo . Por trás eram as Oficinas Navais , onde vivemos algum tempo antes de estarem prontas as casas do Largo . O meu pai viveu em Macau entre 1950 e 1959 (ano da sua morte ) . Foi numa viagem Austrália, julgo que no Gonçalo Velho, que decidiu ficar lá . Era, na época, marinheiro radiotelegrafista . Trabalhava na Capitania dos Portos. Eu e a minha mãe viajámos então para lá onde vivemos durante alguns anos . Lá nasceu o meu irmão . Por razões de saúde tivemos que regressar, deixando lá o meu pai . Entretanto dá – se a morte do meu pai (Joaquim Fernandes Martins ) e nunca mais lá voltámos . Os contactos que a minha mãe tinha também se perderam no tempo . Só as lembranças ficaram e, agora , uma enorme vontade de voltar . O meu pai foi sepultado no cemitério de S. Miguel Arcanjo, lugar que gostaria de visitar.
Eis o teor do primeiro e-mail que recebi da Zaida. Desde logo desafiei-a a contar as suas memórias. O que ela em boa hora acedeu. Aqui fica o meu agradecimento pela partilha da sua história com os milhares de leitores do blog Macau Antigo. Obrigado Zaida!
Traçado do percurso do navio Gonçalo Velho de Lisboa a Macau 1949-1951 (Zaida)
Nasci na Murtosa (Aveiro) em Julho de 1949 após a vinda da minha mãe do Faial, onde o meu pai, Joaquim Fernandes Martins, estivera algum tempo em serviço. Em Dezembro do mesmo ano meu pai partiu no “Gonçalo Velho” numa viajem à Austrália. Foi na sua passagem por Macau que decidiu ficar. Julgo que estávamos no ano de 1950. Tinha eu 2 anos quando a minha mãe resolveu ir para Macau também. Embarcámos no “Índia” em 1952. A minha mãe conta que a bordo seguia muita tropa e uma comitiva do Governo. Por essa razão viajámos no porão, bem como outras mulheres e crianças. Como era a mais pequenina, era a mascote de bordo a quem o Sr. Humberto, chefe de copa, tratava ternamente por “carochinha”. Disso nada me lembro. As minhas recordações são posteriores. Chegadas a Macau, vivemos numa casa improvisada no recinto das Oficinas Navais enquanto se concluíam as casas no Largo onde, julgo eu, se situa hoje o Museu Marítimo. Tanto estas casas como as do outro lado do largo eram habitadas por famílias de funcionários do Governo Português.
Porto Interior de Macau, 1951. Na frente o Gonçalo Velho; atrás o João de Lisboa (Zaida)
Em Fevereiro de 1953 nasceu o meu irmão Manuel Belmiro. Assim lhe chamaram em homenagem ao Sr. António Belmiro Ferreira, que substituiu o padrinho quando do seu baptizado, e que, na altura, era Patrão-mor das Oficinas Navais. A filha deste senhor, Matilde, que terá hoje a minha idade (61 anos), foi uma das minhas amiguinhas daquela época. Já agora lembro o Mário (Márinho), mais velho do que eu, filho da Sra. D. Argentina e do Sr. Joaquim Leiria, com quem tenho fotografias tiradas numa festa de Natal em 1952. Lembro também a Família Guterres, uma família macaense das nossas relações. Tínhamos também como “vizinhas” as tancareiras, que viviam no bairro flutuante e que, por vezes, quando passávamos, me ofereciam um bocado dum tal “pato cor-de-rosa” que eu, deixando-me ficar para trás, ia regaladamente comendo um pouco contra vontade dos meus pais.
Fica do outro lado do Largo, em frente ao Museu Marítimo. Na janela, eu e a minha mãe, no riquexó o Marinho, filho da D. Argentina que viviam nesta casa (Zaida).
Brinquei muito nesse Largo, bem como no recinto do Pagode onde a empregada, para nos entreter, nos levava. Aí assisti às Festas do Dragão que me assustavam um pouco. Também me impressionavam as carpideiras que, com os seus lamentos passavam à noite em frente da nossa casa para ir buscar água, para lavar a cara ao defunto quando este morria no mar. Disso não sei. Lembrei-me agora do dia 29 de Julho de 1952, dia em que se festejava o meu 3º aniversário. Havia pessoas amigas em minha casa. A certa altura os homens foram chamados. As luzes tiveram que ser apagadas e as mulheres e crianças ficaram lá em casa. Soube depois que tinha havido tiroteio do lado da China e as Oficinas eram um alvo fácil.
Lembro-me de mascar cana-de-açúcar, de andar de riquexó, de escorregar na pedra do Pagode como via fazer às outras crianças e que deu mau resultado. Foi lá também que deixei escapar o meu primeiro balão que, com tristeza, vi desaparecer no céu. Foi lá que assisti pela primeira e única vez ao Grande Prémio de Macau em 1954.
Entretanto a vida se encarregou de mudar o rumo das nossas vidas. Acometida pela doença, a minha mãe foi aconselhada a regressar e com ela também nós viemos. Meu pai ficou. Em 1959 estava projectado o nosso regresso para Julho, mas a morte trágica do meu pai em Maio impediu-o. A partir daí foram-se perdendo os contactos com Macau.
Largo do Leal Senado 1952: Correios e cinema Apollo (Zaida)
Vivemos na Murtosa até 1968, ano em que a minha mãe emigra com o meu irmão para o Canadá. Já com o curso terminado e a trabalhar, eu fiquei. Macau ficou então fora do meu alcance. Só as memórias restavam, memórias essas que a minha mãe teve o mérito de não deixar que se perdessem no tempo. Acho que agora, finalmente, chegou a hora de começar a pensar no meu regresso para visitar os lugares da minha infância.
Postal: ca. 1940/50
Perante a minha insistência para que a Zaida contasse ainda mais detalhes sobre o tempo que viveu em Macau eis a resposta.
Chegámos a Macau em 1952. A viagem durou 37 dias até Hong Kong. De lá, seguimos de ferryboat para Macau pois o Índia só partiria alguns dias depois. Regressámos em 1955. A viagem de regresso foi mais longa, 67ou 68 dias. Nesta viagem fizemos escala em Timor. O navio ficava ao largo e éramos transportados para terra em barcaças. A barcaça em que seguíamos a certa altura começou a meter água e alguém deixou cair também um remo. Gerou-se então o pânico pois não parávamos de andar às voltas. Nós permanecíamos junto da nossa mãe que tentava transmitir-nos tranquilidade. Vendo de bordo o perigo em que nos encontrávamos, o comandante rapidamente tomou conta da situação. Só com um remo, remava ora de um lado, ora de outro enquanto outros iam escoando a água que ia entrando. Quando chegámos a terra, as imagens com que me deparei e que ainda hoje guardo, foram de destruição. Eram de tal ordem que me deixaram impressionada. Ficámos alguns dias em casa duns amigos do meu pai. Depois de deixarmos Timor e já com algum tempo de viagem deu-se um triste acontecimento, o suicídio de um elemento do exército que se atirou ao mar. Foram infrutíferas as várias tentativas para o salvar e a viagem prosseguiu normalmente e sem mais incidentes.

Zaida no Natal de 1952 (Zaida)

NA: as fotografias são maioritariamente da Zaida M. Estrela (assinaladas); as restantes imagens – postais – são a forma que encontrei de agradecer à Zaida o seu testemunho… ‘transportando-a’ para a Macau da sua infância.
Vivi desde então em Portugal, na Murtosa até 1969 donde saí quando casei para vir viver para Pardilhó, Estarreja. Aqui trabalhei e permaneço até hoje. Fui professora do 1ºciclo até 2001, ano em que me aposentei.
Como já deve ter calculado não frequentei a escola em Macau. Frequentei sim, aulas, em casa duma Professora do Ensino Primário já reformada, para onde o meu pai me mandou depois de fazer os 3 anos. A vida na época era calma. Muitos dos Domingos eram passados em casa do nosso médico, sr. Doutor João Francisco, que me ia buscar a casa para eu passar o dia com os filhos. Às vezes levavam-nos ao cinema. Íamos também à praia. Desta, só me lembro que não era de areia branca e que as barracas eram talvez de bambu ou madeira. Foi numa destas idas que se esqueceram de mim. Como havia 2 carros acharam que eu seguia num deles até que resolveram parar e verificaram que não seguia em nenhum. Voltaram atrás e encontraram-me, nada preocupada, a conversar com desconhecidos numa barraca. Isto não era de admirar pois naquela idade eu era de fácil relacionamento e adorava conversar. Aliás, mal cheguei a Macau, comecei a frequentar a Messe nas Oficinas Navais para onde o sr. Belmiro me chamava quando passava para almoçar. Diziam eles que lhes animava as refeições.

Templo A-Ma perto das Oficinas Navais

Conversando há pouco com a minha mãe fomos relembrando coisas quase esquecidas: Os penteados mais ou menos elaborados usados pelas chinesas e que eram executados muitas vezes nos passeios; os vendedores ambulantes; a forma como as mulheres transportavam os seus bebés às costas usando como suporte um pano quadrado de cujos cantos saíam 4 tiras que, depois de juntas, amarravam à frente (não nos lembramos do nome); os barquinhos feitos com papeis coloridos que, de quando em vez, víamos lançar à água e cujo ritual, julgamos nós, teria a ver com as suas crenças. Falámos também nos tufões e do trabalho que as tancareiras tinham quando algum se aproximava já que tinham que puxar todos os barcos para terra; da forma como trajavam, um casaco de gola subida a abotoar ao meio ou ao lado e umas calças largas em baixo, tudo isto em preto.

Pais de Zaida num riquexó junto ao Largo do Pagode da Barra (Zaida)

Os meus pais tinham por hábito dar um passeio à noitinha pela estrada que passava ao Palácio do Governador. Eu chamava-lhe a “rua dos caracóis” porque por lá abundavam uns caracóis maiores do que os que eu conhecia e com uma casca muito semelhante à dos búzios. Estas são mais algumas das minhas recordações de Macau.

Panorâmica de Macau na década de 1950

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O jogo terá começado em Macau ainda no século XVI mas a  primeira legalização do jogo em Macau ocorre somente no século XIX com a proliferação das casas de Fan Tan. Segue-se a primeira concessão na década de 1930. O primeiro concessionário, a empresa “Hou Heng”, de Fok Chi Ting, conquistou o monopólio em 1930 e o direito de explorar todos os jogos permitidos na lei. Em 1937, é a vez da companhia “Tai Heng”, dos empresários Fu Tak Iam e Kou Hou Neng, assumir o monopólio dedicando-se apenas a jogos chineses como o “fan-tan”, “p’ai kao” e “cussec” em espaços como o hotel Central.
Com a chegada de Stanley Ho ao sector, em 1961, o negócio dos casinos evoluiu e o Governo português de então começou a retirar dividendos financeiros da industria, mas só em 1977 é que o cálculo do imposto passa a ser contabilizado tendo em consideração a receita gerada nos espaços de jogo.
Dos 3,35 milhões de patacas pagos por Stanley Ho no primeiro ano de operação, as sucessivas revisões do acordo de concessão e a contabilização das receitas a partir de 1977 permitiram ao Governo local arrecadar mais dinheiro e garantir investimentos cruciais ao desenvolvimento da cidade.
Já no início do século XXI surge a concorrência americana e Macau acaba por ultrapassar em todos os campos os números da até então maior ‘meca’ do jogo de casinos, Las Vegas. É maior indústria do mundo, o jogo.
                            
Uma imagem obtida em 1909 de uma casa onde se jogava o Fan Tan
Fan-tan is game which originated in China. This game means repeating divisions. This game has been one of China’s oldest games with gambling. This game is not as famous as it was once because of the other games usually found in casinos. There are other popular games which are also of Chinese origin. These are Pai Gow and another traditional game called Mah Jong. In the earlier years of modern America many Chinese brought Fan-Tan and played it during their free time.
In the beginning of the nineteenth century San Francisco had one of the first Chinatowns. The town had become a home to many fan-tan venues during that time. There was a police officer named Jesse Cook who claimed that there were around fifty places for playing fan-tan back then. The tables were given numbers with one up to twenty four. The number of tables depended on the room’s size.
Casinos in Macau still offer Fan-tan. They can be played daily which last twenty four hours. People can place a five cent bet up to as much as five hundred dollars.
Fan-tan is one of the simplest games from China. There is a Fan-tan table which have been marked one up to four on both sides. The tables are made of plastic which has a dome shape.A metal square can be found on the center. Fan-tan has a banker always. Bankers for Fan-tan games are responsible for putting coins, beads or buttons. Beans can also be used at times. The banker will cover them with a bowl ideally made of metal. The Chinese called the cover a “tan koi”.
The bets are placed on the side where the numbers can be found. Putting it on the corners can also be another way of placing the bets. After players put their bets the banker will remove the cover. The croupier may use a stick made from bamboo to take out the coins. In Macau a wand is used by the croupier. He counts the coins in groups of four.
The winner wins by counting the remainder and dividing It by four. Odds for this game are fairly calculated from getting ninety five percent of the bet. Five percent is deductible from the amount as commission prior to the calculation. This is not the same to purchasing and outlining the odds in other games like craps because the winning is calculated on the full amount.
Uma rua de Macau num postal de 1927

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Um envelope de Abril de 1937 enviado de Macau para os EUA. O carimbo ‘especial’ à esquerda assinala o ‘feito’: “Primeiro Vôo de correio do Trans-Pacific Macau – USA”. A sigla PAA significa Pan America Airlines. Estes hidroaviões ‘aterravam’ em Macau na zona do Porto Exterior.

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Templo Kuan Iam
Jardim S. Francisco
Penha
Porto Interior
Fortaleza do Monte
Fort. Monte vendo-se as Ruínas de S. Paulo
Ruínas de S. Paulo
Edifício dos Correios

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Teatro Nan King
The Teatro Nan King was a large neighbourhood cinema, located on Rua de Cinco de Outubro at Rua do Visconde Paço de Arcos. It was opened in the 1930’s on the first floor of the building, with a meat, fish and vegetable market on the ground floor. The Teatro Nan King closed in the early-1950’s. 966 seats. It stood empty for a few years, and was converted into a workers leisure hall. Second-run films were screened. Demolished in the 1990’s, in March 2010, the site is still an empty plot of land, with the outline of the building still marking adjacent buildings.
Text by Ken Roe
Teatro Oriental
Located in a side street in the historic centre of Macau. The Teatro Oriental opened in the 1950’s, and screened mainly first-run Cantonese films. 1020 seats. The street where the cinema was located was re-named after the cinema, but old street signs are still on the street today. The Teatro Oriental was closed on 28th February 1973, and in the late-1970’s it was demolished and the Oriental Centre office block was built on the site.
Text by Ken Roe
Teatro/Cinema SankioThe Teatro Yue Lok was a small neighbourhood cinema in the building of Sankio Market in Macau in the 1930’s and 1940’s. The cinema later renamed as the Teatro Sankio. Sankio[Nova Ponte]is the name of a district in Macau. Sankio is the Cantonese pronunciation of its Chinese name, literally meaning new bridge. The exact opening and closing date of the cinema is unavailable. According to “Study Project A Review of Cinemas in Macau” published by Museu de Macau in April 2000, the cinema showed Cantonese and Mandarin films as its main programmes, and its ticket office was at the Teatro Apollo. As advertised by the flyer of the cinema, the cinema had equipped with talkie apparatus, and besides talkies, silent films were also shown. Interpreters were hired by the management of the cinema for interpretation. The cinema was reportedly destroyed by a fire in 1942, and a church and school was built on the site of the cinema and market.
Contributed by Raymond Lo
Cinema/Teatro Taipa
Located on the Taipa Island district of Macau. The Teatro Taipa was opened in 1965, the first film being “Happiness in the Hall”. The Teatro Taipa was closed in 1975, and was later stripped of its fittings and seating and began use as a storage facilitiy for construction materials.
Contributed by Ken Roe

Cinema/Teatro Vitória
Located in the historic centre of Macau. The Teatro Victoria (806 seats) first opened on 8th January 1910, and screened its first film the following day. The building was made of wood, and was located on the Calcada Oriental. It had an unusual placement of the screen, which was hung in the centre of the auditorium, with seating on both sides, and a narrator describing the film from the side of the screen. The cheaper seats behind the screen saw the image in reverse. A new Teatro Victoria was built in 1921 on the corner of the main road Avenida Ameida Ribeiro, with an entrance on the narrow Rua dos Mercadores. It became the first cinema in Macau to be equipped for ‘talkies’ from 28th March 1928. Closed in July 1934, due to out-dated equipment and bad hygienic conditions, it was renovated and re-opened in 1935. The building now boasted a modern cinema, a casino, nightclub and a restaurant. The cinema was again renovated in 1938. The Teatro Victoria was closed on 25th November 1971, and was later demolished. A Tai Fung Bank building now stands on the site.
Contributed by Ken Roe
Teatro D. Pedro V
The Teatro Dom Pedro V was built in 1858. It is the oldest theatre in Macau, and also claims to be the first Western-style theatre in China. The architect of this theatre was Macauese Pedro Marques and is in Portuguese design. The theatre is located on Calcada do Teatro at the corner of Largo de Santo Agostinho, so local people used to call it Teatro de Santo Agostinho or Cinema de Santo Agostinho. With total seating of 360 seats, it is today functioning as a concert hall. From the end of 19th century to the early 20th century, the theatre was a venue mainly for drama, opera and concerts. It was also a “hot spot” for local high society activities. From 1915-1929, the theatre was rented to show movies and changed its name to the Teatro Ma Gau. It later was renamed the Cinema Macau. By the 1930’s, when more and more modern cinemas were built, the theatre once again returned to live performances. Until early-1980’s, the old, broken theatre became the “Crazy Paris Shows”, featuring adult entertainment. After the restoration by the government, this theatre was listed as one of the historical buildings of the Historic Centre of Macau, which was listed on the World Heritage list by UNESCO in July 2005.
Teatro Hoi Kiang
Teatro Hoi Kiang was a small neighbourhood – Praia do Manduco – cinema in Macau. According to “Study Project A Review of Cinemas in Macau” published by Museu de Macau in April 2000, the cinema was in business in the 1930’s and 1940’s. The exact opening and closing date of the cinema is unavailable. Hoi Kiang is the Cantonese pronunciation of its Chinese name, literally meaning Sea and Mirror.
Contributed by Raymond Lo
Teatro/Cinema Império
Located in the historic centre of Macau, the Teatro Imperio was a popular cinema that opened as the Teatro Broadway on 21st March 1953 with “David and Bathsheba” starring Gregory Peck. After being re-named Imperio, it was still locally known as the ‘Broadway’ cinema. After closing on 1st June 1982, it was later demolished and the Broadway Centre of shops and apartments was built on the site.
Contributed by Ken Roe

Lido: foto de Manuel Noronha

Cinema Lido

Located at the intersection of Avenida do Almirante Lacerda and Avenida Coronel Mesquita. The Teatro Lido (1260 seats) opened on 22nd June 1968. In the 1970’s it screened Mandarin Chinese, Cantonese, Western and Japanese films. It was a a very popular cinema in the 1980’s. Due to the death of one of the owners, and his partner not wanting to continue operating the Teatro Lido, it was closed on 19th May 1995 with the Hong Kong film “The Queen of Temple Street. There were plans to convert the building into a supermarket, which came to nothing. The seating was stripped out and was sent to mainland China. The three projectors were still in the building in 2000, however the building remains empty and derelict.
Text by Ken Roe
Cinema/Teatro Nam Van
The Teatro Nam Van, situated in the historic central district near the picturesque Praia Grande, was the largest cinema in Macau. It stood on the corner of Avenida de Almeida Ribeiro and Rua do Dr. Pedro José Lobo. It opened to business on 20th November 1964, with Rodolfo Abate in “The Big Business” and Sylva Koscina in “Copacabana Palace”. With a 60-foot wide screen, it boasted having the widest screen in Macau. The 1,600-seat auditorium with stadium seating in the rear part was on the ground floor of the theatre building. On 15th March, 1975, a home-made bomb exploded in the men’s toilets on the right hand side of the screen after the management of the theatre was blackmailed by gangsters a week prior. It showed first-run Chinese dialect and English films until its closure on 1st January, 1995. It was demolished and a commercial building, the Macau Square Shopping Centre, was built on the site of the theatre.
Contributed by Raymond Lo

Apollo (à esq.): foto Time Life (1949

Teatro/Cinema Apollo (aka Peng On)

The Teatro Apollo situated in the Central district of Macau Largo do Leal Senado). It opened to business on 2nd February, 1935 with the English language motion picture “The Merry Widow”. The theatre building had shops and apartments on the front part, with the 1,038-seat auditorium on the ground floor at the rear. It showed first-run Chinese dialect and English films until its closure on 1st February 1993. In the 1940’s and 1950’s, the theatre was also used as a venue for stage performances. Since the old buildings on the Avenida Ameida Ribeiro have to be preserved as historical heritage, the theatre building will not be redeveloped for the time being. The stalls and the lobby of the theatre have been converted into a shop (Sprite clothing), while the balcony is enclosed as a warehouse.
Contributed by Raymond Lo
Cinema/Teatro Capitol (aka Kok Va)
The Teatro Capitol was the only cinema listed on the cultural heritage list of the Macau SAR Government. It opened to business on 13th April, 1931 with Maurice Chevalier in “The Love Parade”, and had an original seating capacity of 837. It had a high arched door at the entrance as typical of the style of the cinemas in Canton, Hong Kong and Macau in the 1910’s and 1920’s. Teatro Capitol closed on 1st August, 1987, and the interior of the theatre building was rebuilt into a shopping centre, while its exterior was preserved. In 1991, a 380-seat auditorium was added on the second floor of the theatre building. It was closed on 1st September 1997. The building has been converted into a ‘low-end’ mixed use market and arcade on four levels, which in March 2010 had only the basement in use as as a games arcade and the ground floor shop units, with the remainder of the building unused.
Contributed by Raymond Lo
Teatro Cheng Peng
Located in the historic centre of Macau, in a narrow street off the main Avenida Ameida Ribeiro. The Teatro Cheng Peng (1342 seats) opened in 1875, and presented Cantonese opera. Seating was provided in orchestra stalls and circle areas, and there was a stage and dressing rooms. In 1925, it was equipped to screen films and the first film screened was Lilian Gish in “The White Sister”. It was one of the main cinemas in Macau during the 1940’s and 1950’s, but reverted back to staging Cantonese opera in the 1960’s. It was renovated in the 1970’s, and given an Art Deco style. Films returned, but it became a 2nd run cinema screening ‘B’ movies and after over 20 years of bad maintainance, it was closed on 21st August 1992, when the air-conditioning sytem failed. The building was left empty and unused for many years. When seen in March 2010, it was in use as a parking garage, with the interior decoration intact, but deteriorating.
Text by Ken Roe
NA: textos retirados do site Cinema Treasures; esta lista não é exaustiva já que existem ainda referências aos cinemas Jade (Fei Choi), Pak Wai (no antigo bairro Albano de Oliveira, já demolido), Cinema Alegria (Veng Lok), Cineteatro de Macau (no Jardim de S. Francisco e ainda no activo), Cinema Pérola (Meng Chu), entre outros.
Podem ser vistas mais imagens dos diferentes cinemas em diversos post’s incluindo este:
 http://macauantigo.blogspot.com/2010/01/antigos-teatroscinemas.html

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Em 1972 o pai de Michael Cairns (que tem o mesmo nome) trabalhava para a Intercontinental, uma empresa do ramo hoteleiro. Nesse âmbito visitaram Macau numa viagem de negócios… de prospecção para um eventual investimento no Território. É tudo quanto o filho – que me cedeu as fotos – se recorda.
Eis o seu testemunho:
“These were taken by my father and I was not on this particular trip so I don’t know too much about the history; however, I suspect that my father and his colleagues were visiting Macao to look for possible hotel sites. He worked for Intercontinental at the time and they were looking to expand into Hong Kong and Macao. That is about all I know about the pictures.”

Nota: Photos taken by Michael Cairns; qualquer publicação posterior, à semelhança do que acontece com todas as imagens deste blog, no respeito pelos direitos de autor, devem mencionar o seu nome e o blog Macau Antigo como as duas fontes das imagens/textos.

Na Fortaleza do Monte
O hydrofoil “Penha”
Vista a partir da Fort. do Monte sobre o hotel Lisboa e a Ponte Nobre de Carvalho ainda em construção
Ao fundo a “Porta do Cerco”
Zona do Porto Exterior
Ruínas de S. Paulo

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