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Capa da revista “Colecção Ídolos do Desporto” de 24 Junho 1960

“Sinto-me muito honrado em poder dizer algo sobre o que penso do pingue-pongue metropolitano, desde que me encontro no Benfica. Por motivo deste livro vir a ser publicado dentro de pouco tempo, é possível que na sua confecção se encontrem alguns erros, por lapsos de memória. Agradeço, por isso, que me perdoem. Ao jornalista e técnico da modalidade Ernesto Silva, assim como a tantos outros, presto a minha homenagem pela valiosa colaboração que sempre me têm dispensado desde que me encontro na metrópole.Alberto Ló (na imagem acima à chegada a Lisboa). Macau. 1925 -1975. Ténis de Mesa.
Esta publicação satisfez-me plenamente, porque mercê dela, o pingue-pongue passará ainda a ser mais falado nas tertúlias desportivas. Isso contenta-me.
Quanto a outros assuntos que o mesmo insere, devo dizer que embora todos me considerem o melhor, gostaria que todos os técnicos jamais deixassem de me corrigir os defeitos, de modo a que a minha colaboração ao pingue-pongue português seja, se possível, mais valiosa. Finalmente, cabe-me saudar todos os que se interessarem pela leitura da modesta história da minha carreira de desportista. A todos, muito obrigado”

Ló com a mulher e os dois filhos

Aconteceu em 1932, quando Alberto Ló ainda frequentava a escola de instrução primária. Com oito anos apenas, experimentou as suas “habilidades” no desporto da bola de celulóide.
E, tão bem se houve que, um dos seus professores o aconselhou a continuar e a aperfeiçoar-se, augurando-lhe desde logo um futuro muito promissor.
Estimulado pelo que fora dito, por quem já não se recorda, Alberto Ló tomou a sério a sugestão e procurou como é lógico, corresponder, treinando-se assiduamente, com o objectivo de conquistar a auréola que, mais tarde viria a alcançar a ser o melhor jogador português de todos os tempos.
Para que tal viesse a acontecer teve que no entanto “trabalhar” muito, quase sem parar e durante longo período de tempo. Pouco depois, Alberto Ló passou a ser um autêntico ídolo do desporto macaense. Era, assim, pode dizer-se o “Homem de quem mais se falava”. Os seus frequentes êxitos e a rapidez com que ascendeu ao mais alto nível do desporto da raqueta, fez dele um atleta à beira da celebridade… Até pelas simpatias que desfrutava, dada a sua modéstia.
Era já então, como agora, um rapaz difícil de se deslumbar com as contumélias de que era alvo frequentemente. Mas nada disse o perturbou como oriental que é. Continuou a fazer a sua vida normal, alheio a todas as lisonja que lhe dispensavam por onde quer que passasse. A sua única ideia era a de continuar a cumprir profissionalmente e de, nas horas vagas, só nessas, jogar pingue-pongue, longe de tudo e de todos, a fim de se aperfeiçoar. Já não seria muito jovem para iniciar uma carreira que lhe proporcionasse triunfos de grande projecção, dir-se-ia. Mas Alberto Ló cônscio das suas possibilidades, que eram muitas, jamais, desistiu de tentar aquilo que muitos ambicionaram e não conseguiram – triunfar. Passou a ser um jogador em evidência no pingue-pongue oriental. Sensacional, porque de um momento para o outro, passou a jogar tanto como os melhores de então.
Mercê do contacto a que foi submetido e às reais qualidades que evidenciava, a sua ascensão foi rápida. Dentro de breve espaço de tempo, passou a dominar tudo e todos, tornando-se então um autêntico ídolo.
Apesar de tudo, jamais deixou de ser um rapaz pacato, pouco dado a “farras” ou coisas semelhantes, só se preocupando com a vida profissional, a de professor de instrução primária, e a de ensinar os seus pupilos a praticar o desporto em que ele tanto se evidenciara.

Em Sevilha onde venceu o Troféu Internacional de 1958
Nos campeonatos nacionais disputados, há dias na Figueira da Foz, Alberto Ló, o “mago” do pingue-pongue português, conquistou mais três títulos de campeão nacional, proeza digna do maior realce, não porque surpreenda, atendendo ao seu valor, mas porque constitui uma “performance” de que só os atletas de eleição podem orgulhar-se.

Alberto Ló interveio em quatro competições e ganhou três. Só nos pares-mistos cedeu. Mas a ausência de Ana Maria, talvez explique o insucesso, se assim o possamos considerar.

Alberto Ló continua, pois, a ser o grande artífice da maioria dos triunfos alcançados pela Benfica. Só por si vale meia equipa… (sem desprimor para os briosos atletas que com ele colaboram). Até quando as coisas continuarão a decorrer–lhe tão favorávelmente? Ninguém poderá dizê-lo…

Tão rápida foi a sua evolução que, meses depois, Alberto Ló foi chamado a representar Macau, de parçeria com Rosa Duque, para alguns encontros em Singapura, Hong Kong e Japão tendo perdido em Hong Kong com Johnny Leach, (na altura detentor do título mundial individual), pela contagem tangencial de 2-3, e de nesse mesmo certame ter saído airosamente do confronto com René Roothooft, um dos mais famosos jogadores franceses.
Normalmente, a esposa que chegou a ser campeã de Macau, jamais deixava de o acompanhar onde quer que ele se exibisse. E isso era para Alberto Ló um estímulo precioso, tantos foram os triunfos que ela lhe proporcionou, mercê não só da sua presença, como até de alguns “conselhos”, embora muito disfarçados que lhe deu. E com resultados práticos…
Em 1952, quando da realização dos campeonatos mundiais disputados em Bombaim, em que Rosa Duque ficou classificado em oitavo lugar, encontrava-se em Hong Kong. E, segundo sua opinião, só por esse motivo não interveio na competição, visto encontrar-se na melhor forma de sempre. “Tive muita pena. Nesse ano podia, de facto, competir com alguns dos considerados “muito bons” que lá apareceram, para “discutir” a questão… asseverou-nos o campeão nacional quando com ele trocámos breves impressões. Estava então na sua melhor condição física e técnica. E além disso, tinha menos oito anos, o que é importante para o rendimento de um atleta”.
Contratado em Tóquio, talvez não. Mas “conversado” sim. Quando da deslocação à capital do Japão, o ex-presidente da Federação convidou-o a vir para a Metrópole. Alberto Ló recusou alegando várias razões. Mais tarde, o mesmo dirigente escreveu para Rosa Duque no sentido de resolver a questão, mas Alberto Ló voltou a recusar o convite, alegando o mesmo motivo, isto é, a separação da família, que era tudo para si.
Seis meses depois, o mesmo dirigente, que era e é adepto do Benfica, voltou a escrever a Rosa Duque, com quem mantinha amistosas relações. Foi então quando as coisas tomaram outro rumo, ou por outra, feição diferente.
Alberto Ló pensou bem na questão…
Os seus êxitos com os três jogadores da Índia e do Vietnam, tiveram influência no seu espírito, tanto mais que o seu vencimento não era famoso para um chefe de família. Decidiu-se então a tentar a sua “chance” num meio mais propício a alcançar o que desejava. A família ficava, mas viria depois se, porventura as coisas lhe corressem de feição.
E… em 5 de Janeiro de 1958 estava em Lisboa, pronto a ganhar campeonatos e a corresponder ao valor que se lhe atribuía e que de facto demonstrou possuir. Desde logo, foi unânimemente considerado, não só uma excelente aquisição para o Benfica, como também para o pingue-pongue metropolitano, do qual passou a ser, e por mérito absoluto, a figura mais destacada, até por ser o único considerado elemento “fora de série”.
O seu triunfo foi total.
Superou tudo e todos. E, fazendo alarde de uma “classe”excepcional, que levou muitos aficionados da modalidade a retornar aos recintos de onde se haviam ausentado pelos maus espectáculos que lhes proporcionaram.
O Benfica considerou-se de parabéns. E, justificadamente.

Ló num caricatura e olhando para os troféus conquistados em Portugal

Chegou, viu e … venceu
Em face da sua real categoria, não se tornou difícil a Alberto Ló, marcar, desde logo, posição absolutamente àparte, entre os jogadores que com ele contactaram. É o que se chama “chegar, ver e vencer”.
O seu nome popularizou-se, como o de poucos praticantes dos chamados desportos pobres. E, justificadamente, porque Alberto Ló, não só por ser macaense, era, como é, um caso àparte no pingue-pongue português.
Quando chegou à Metrópole não sabia se vingava. Aqui tudo era diferente. E isso podia naturalmente influir no seu rendimento, tanto mais que estava ausente da família, a quem tanto quer. Mas não. A excelente capacidade demonstrada era suficientemente pronunciada para que isto ou aquilo, pudesse transformar o que estava à vista de tudo e de todos – uma superioridade incontestavelmente esmagadora.
A sua vinda para a metrópole foi, portanto, benéfica sob todos os aspectos, pela agitação que provocou nos meios afectos à modalidade, como ainda e, principalmente, pelo muito que contribuiu para a sua valorização.

Dentre as muitas “vedetas” do pingue-pongue mundial que Alberto Ló viu, foi o húngaro Ferenc Sido, sem dúvida, o que melhor o impressionou. Considera-o cem por cento perfeito em todos os pormenores, talvez um tanto ajudado pela sua extraordinária envergadura. Assim, embora menos rápido de reflexos e de movimentos do que os jogadores do Oriente, como quase todos os europeus, considera-o cem por cento mais perfeito do que aquele, conseguindo por isso impor a sua vontade e dominar os seus mais perigosos opositores. Um jogador excepcional na opinião de Alberto Ló.

Entre os portugueses distingue sobremaneira a boa categoria evidenciada por Rosa Duque, Oliveira Ramos e António Osório.

Rosa Duque é o 2º a contar da direita

“Se tivesse vindo mais cedo…”
Alberto Ló apesar dos seus sucessivos êxitos, desde que chegou ao continente, não se cansa de dizê-lo que se tivesse chegado mais cedo, as coisas tornar-se-lhe-iam mais fáceis. “Há seis ou sete anos atrás valeria o dobro. E, portanto o Benfica contaria comigo…” – disse-nos.
Agora já não espera valer mais do que valeu. Procurará manter a boa forma e corresponder às responsabilidades que adquiriu, para com o clube que o traz no coração.
“Procurarei continuar a conquistar títulos regionais e nacionais e, quando chamado a representar o meu País, não deixá-lo ficar mal nos confrontos a que for submetido” – assegurou.
Espera jogar até aos 40 anos. E, depois, ensinar os muitos jovens que por aí pululam, sem terem quem os conduza. “Farei tudo o que puder para valorizar o pingue-pongue português. Dentro de dois anos, se verá” – Augurou Alberto Ló.
Como se sabe o pingue-pongue macaense sempre esteve muito em contacto com o chinês. Os confrontos são mesmo muito frequentes.
Assim, como é óbvio, Alberto Ló várias vezes teve ensejo de defrontar os melhores jogadores de Hong Kong e de Singapura, triunfando amiudadas vezes, sendo até o actual campeão do mundo Jung Kuotan, que há três anos se encontra na China comunista, uma das suas maiores vítimas…

FICHA BIOGRÁFICA

Nome: Alberto Ló, em português, e Ló Kam Sun, em chinês.

Data de Nascimento: 7 de Julho de 1924, em Macau.
Filiação: Ló Chin Choi e de Ló Ao Si, ambos chineses.
Estado: casado em 1954 com Vong Git U. Tem dois filhos: Antônio Ló, de 4 anos e meio de idade, e Maria Ló, com dois anos.
Profissão: Professor de instrução primária (diplomado), da língua chinesa.
Outras modalidades que praticou: Basquetebol e voleibol, nas quais chegou a marcar posição de relevo.
Internacionalizações: 19 Vietnam, Coreia, China, Estados Unidos, Checoslováquia, Egipto, Austrália, Irlanda, Jamaica, Alemanha, Espanha (2), Suécia, Bélgica, índia, Suíça, Brasil, Japão e Marrocos.
Clubes que representou: Sport Lisboa e Benfica.
NA: O que atrás ficou escrito é uma reprodução na íntegra do texto publicado na edição de 24 de Junho de 1960 da Colecção Ídolos do Desporto.
Ficou célebre uma final do campeonato regional de Lisboa, contra o Sporting. O Benfica perdia por 4-2 e cabia a Alberto Ló defrontar o melhor jogador sportinguista, António Osório. Ló ganhou facilmente o primeiro set, mas, durante o segundo, ressentiu-se de uma lesão antiga. Mesmo assim, aguentou as dores até ao final do jogo e o Benfica acabou por ganhar o título. É mais um exemplo para se comprender que, na época, Ló se tornou um ídolo benfiquista e quase uma lenda do clube.
Épocas no Benfica: 5 (58/63). Títulos: 4 (Campeonato Individual de Lisboa), 4 (Campeonato Individual Nacional) e 5 (Campeonato Nacional de Equipas).
A colecção “Ídolos do Desporto” foi uma das melhores revistas desportivas, dentro do género biográfico, editadas em Portugal. Tratava-se de uma revista que, tal como o próprio nome da colecção sugere, se debruçava sobre a vida e a carreira de grandes desportistas portugueses e não só, com especial relevo e destaque para os jogadores de futebol. Existiu entre 1956 e 1972. Era semanal e custava 1 escudo e 50 centavos.
Trio Majestoso: Ramos, Carvalho e Ló. Taça de Portugal 1960/1961
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