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Através das fotografias publicadas no seu blog tenho visitado o Macau da minha infância . Dele guardo religiosamente imagens e lembranças dum tempo doce e sereno .Vivi no Largo do Pagode da Barra junto à ponte n. 1, acho que exactamente no lugar onde se ergue o Museu Marítimo . Por trás eram as Oficinas Navais , onde vivemos algum tempo antes de estarem prontas as casas do Largo . O meu pai viveu em Macau entre 1950 e 1959 (ano da sua morte ) . Foi numa viagem Austrália, julgo que no Gonçalo Velho, que decidiu ficar lá . Era, na época, marinheiro radiotelegrafista . Trabalhava na Capitania dos Portos. Eu e a minha mãe viajámos então para lá onde vivemos durante alguns anos . Lá nasceu o meu irmão . Por razões de saúde tivemos que regressar, deixando lá o meu pai . Entretanto dá – se a morte do meu pai (Joaquim Fernandes Martins ) e nunca mais lá voltámos . Os contactos que a minha mãe tinha também se perderam no tempo . Só as lembranças ficaram e, agora , uma enorme vontade de voltar . O meu pai foi sepultado no cemitério de S. Miguel Arcanjo, lugar que gostaria de visitar.
Eis o teor do primeiro e-mail que recebi da Zaida. Desde logo desafiei-a a contar as suas memórias. O que ela em boa hora acedeu. Aqui fica o meu agradecimento pela partilha da sua história com os milhares de leitores do blog Macau Antigo. Obrigado Zaida!
Traçado do percurso do navio Gonçalo Velho de Lisboa a Macau 1949-1951 (Zaida)
Nasci na Murtosa (Aveiro) em Julho de 1949 após a vinda da minha mãe do Faial, onde o meu pai, Joaquim Fernandes Martins, estivera algum tempo em serviço. Em Dezembro do mesmo ano meu pai partiu no “Gonçalo Velho” numa viajem à Austrália. Foi na sua passagem por Macau que decidiu ficar. Julgo que estávamos no ano de 1950. Tinha eu 2 anos quando a minha mãe resolveu ir para Macau também. Embarcámos no “Índia” em 1952. A minha mãe conta que a bordo seguia muita tropa e uma comitiva do Governo. Por essa razão viajámos no porão, bem como outras mulheres e crianças. Como era a mais pequenina, era a mascote de bordo a quem o Sr. Humberto, chefe de copa, tratava ternamente por “carochinha”. Disso nada me lembro. As minhas recordações são posteriores. Chegadas a Macau, vivemos numa casa improvisada no recinto das Oficinas Navais enquanto se concluíam as casas no Largo onde, julgo eu, se situa hoje o Museu Marítimo. Tanto estas casas como as do outro lado do largo eram habitadas por famílias de funcionários do Governo Português.
Porto Interior de Macau, 1951. Na frente o Gonçalo Velho; atrás o João de Lisboa (Zaida)
Em Fevereiro de 1953 nasceu o meu irmão Manuel Belmiro. Assim lhe chamaram em homenagem ao Sr. António Belmiro Ferreira, que substituiu o padrinho quando do seu baptizado, e que, na altura, era Patrão-mor das Oficinas Navais. A filha deste senhor, Matilde, que terá hoje a minha idade (61 anos), foi uma das minhas amiguinhas daquela época. Já agora lembro o Mário (Márinho), mais velho do que eu, filho da Sra. D. Argentina e do Sr. Joaquim Leiria, com quem tenho fotografias tiradas numa festa de Natal em 1952. Lembro também a Família Guterres, uma família macaense das nossas relações. Tínhamos também como “vizinhas” as tancareiras, que viviam no bairro flutuante e que, por vezes, quando passávamos, me ofereciam um bocado dum tal “pato cor-de-rosa” que eu, deixando-me ficar para trás, ia regaladamente comendo um pouco contra vontade dos meus pais.
Fica do outro lado do Largo, em frente ao Museu Marítimo. Na janela, eu e a minha mãe, no riquexó o Marinho, filho da D. Argentina que viviam nesta casa (Zaida).
Brinquei muito nesse Largo, bem como no recinto do Pagode onde a empregada, para nos entreter, nos levava. Aí assisti às Festas do Dragão que me assustavam um pouco. Também me impressionavam as carpideiras que, com os seus lamentos passavam à noite em frente da nossa casa para ir buscar água, para lavar a cara ao defunto quando este morria no mar. Disso não sei. Lembrei-me agora do dia 29 de Julho de 1952, dia em que se festejava o meu 3º aniversário. Havia pessoas amigas em minha casa. A certa altura os homens foram chamados. As luzes tiveram que ser apagadas e as mulheres e crianças ficaram lá em casa. Soube depois que tinha havido tiroteio do lado da China e as Oficinas eram um alvo fácil.
Lembro-me de mascar cana-de-açúcar, de andar de riquexó, de escorregar na pedra do Pagode como via fazer às outras crianças e que deu mau resultado. Foi lá também que deixei escapar o meu primeiro balão que, com tristeza, vi desaparecer no céu. Foi lá que assisti pela primeira e única vez ao Grande Prémio de Macau em 1954.
Entretanto a vida se encarregou de mudar o rumo das nossas vidas. Acometida pela doença, a minha mãe foi aconselhada a regressar e com ela também nós viemos. Meu pai ficou. Em 1959 estava projectado o nosso regresso para Julho, mas a morte trágica do meu pai em Maio impediu-o. A partir daí foram-se perdendo os contactos com Macau.
Largo do Leal Senado 1952: Correios e cinema Apollo (Zaida)
Vivemos na Murtosa até 1968, ano em que a minha mãe emigra com o meu irmão para o Canadá. Já com o curso terminado e a trabalhar, eu fiquei. Macau ficou então fora do meu alcance. Só as memórias restavam, memórias essas que a minha mãe teve o mérito de não deixar que se perdessem no tempo. Acho que agora, finalmente, chegou a hora de começar a pensar no meu regresso para visitar os lugares da minha infância.
Postal: ca. 1940/50
Perante a minha insistência para que a Zaida contasse ainda mais detalhes sobre o tempo que viveu em Macau eis a resposta.
Chegámos a Macau em 1952. A viagem durou 37 dias até Hong Kong. De lá, seguimos de ferryboat para Macau pois o Índia só partiria alguns dias depois. Regressámos em 1955. A viagem de regresso foi mais longa, 67ou 68 dias. Nesta viagem fizemos escala em Timor. O navio ficava ao largo e éramos transportados para terra em barcaças. A barcaça em que seguíamos a certa altura começou a meter água e alguém deixou cair também um remo. Gerou-se então o pânico pois não parávamos de andar às voltas. Nós permanecíamos junto da nossa mãe que tentava transmitir-nos tranquilidade. Vendo de bordo o perigo em que nos encontrávamos, o comandante rapidamente tomou conta da situação. Só com um remo, remava ora de um lado, ora de outro enquanto outros iam escoando a água que ia entrando. Quando chegámos a terra, as imagens com que me deparei e que ainda hoje guardo, foram de destruição. Eram de tal ordem que me deixaram impressionada. Ficámos alguns dias em casa duns amigos do meu pai. Depois de deixarmos Timor e já com algum tempo de viagem deu-se um triste acontecimento, o suicídio de um elemento do exército que se atirou ao mar. Foram infrutíferas as várias tentativas para o salvar e a viagem prosseguiu normalmente e sem mais incidentes.

Zaida no Natal de 1952 (Zaida)

NA: as fotografias são maioritariamente da Zaida M. Estrela (assinaladas); as restantes imagens – postais – são a forma que encontrei de agradecer à Zaida o seu testemunho… ‘transportando-a’ para a Macau da sua infância.
Vivi desde então em Portugal, na Murtosa até 1969 donde saí quando casei para vir viver para Pardilhó, Estarreja. Aqui trabalhei e permaneço até hoje. Fui professora do 1ºciclo até 2001, ano em que me aposentei.
Como já deve ter calculado não frequentei a escola em Macau. Frequentei sim, aulas, em casa duma Professora do Ensino Primário já reformada, para onde o meu pai me mandou depois de fazer os 3 anos. A vida na época era calma. Muitos dos Domingos eram passados em casa do nosso médico, sr. Doutor João Francisco, que me ia buscar a casa para eu passar o dia com os filhos. Às vezes levavam-nos ao cinema. Íamos também à praia. Desta, só me lembro que não era de areia branca e que as barracas eram talvez de bambu ou madeira. Foi numa destas idas que se esqueceram de mim. Como havia 2 carros acharam que eu seguia num deles até que resolveram parar e verificaram que não seguia em nenhum. Voltaram atrás e encontraram-me, nada preocupada, a conversar com desconhecidos numa barraca. Isto não era de admirar pois naquela idade eu era de fácil relacionamento e adorava conversar. Aliás, mal cheguei a Macau, comecei a frequentar a Messe nas Oficinas Navais para onde o sr. Belmiro me chamava quando passava para almoçar. Diziam eles que lhes animava as refeições.

Templo A-Ma perto das Oficinas Navais

Conversando há pouco com a minha mãe fomos relembrando coisas quase esquecidas: Os penteados mais ou menos elaborados usados pelas chinesas e que eram executados muitas vezes nos passeios; os vendedores ambulantes; a forma como as mulheres transportavam os seus bebés às costas usando como suporte um pano quadrado de cujos cantos saíam 4 tiras que, depois de juntas, amarravam à frente (não nos lembramos do nome); os barquinhos feitos com papeis coloridos que, de quando em vez, víamos lançar à água e cujo ritual, julgamos nós, teria a ver com as suas crenças. Falámos também nos tufões e do trabalho que as tancareiras tinham quando algum se aproximava já que tinham que puxar todos os barcos para terra; da forma como trajavam, um casaco de gola subida a abotoar ao meio ou ao lado e umas calças largas em baixo, tudo isto em preto.

Pais de Zaida num riquexó junto ao Largo do Pagode da Barra (Zaida)

Os meus pais tinham por hábito dar um passeio à noitinha pela estrada que passava ao Palácio do Governador. Eu chamava-lhe a “rua dos caracóis” porque por lá abundavam uns caracóis maiores do que os que eu conhecia e com uma casca muito semelhante à dos búzios. Estas são mais algumas das minhas recordações de Macau.

Panorâmica de Macau na década de 1950
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