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Descrição de Macau na década de 1950: passeio do forte de São Tiago da Barra à Porta do Cerco (excerto do livro abaixo mencionado):
“O forte ergue-se junto à costa, só uma avenida o separa da água. De muralhas cinzentas e compactas, tem um ar sólido, ar de pessoa ou de coisa que nada teme. Orgulhoso? Que ideia! O forte da Barra não é orgulhoso. Está ali para defender a terra que há muitos anos lhe confiaram, terra por que já lutou. Se forem precisas testemunhas, ali estão aqueles velhos e dignos canhões que sabem muitas histórias de piratas.
À tardinha, vêem-se lá em cima soldados a decansar, olhando a Ilha da Lapa, mesmo em frente, a dois passos, aquela ilha gigantesca e negra, quase deserta, que transforma o Porto Interior numa espécie de canal estreito. Um pouco mais ao lado, há outra, mas esta muito pequenina, pouco mais do que um penedo, coberto duma fina camada de terra e vegetação: a pedra d’Areca.
Mas se os soldados de São Tiago da Barra se cansarem de olhar a paisagem, podem observar uma casa de pescadores que fica ligeiramente à esquerda. É construída sobre a água e sustentada por grossas estacas de bambu espetadas no lodo. Para se lá chegar, é necessário atravessar-se uma frágil e estreita ponte de madeira que a liga à terra. A cabana consta duma única divisão onde vive toda uma família.
Do lado oposto à entrada tem uma outra porta que dá sobre uma ponte igual à primeira e que termina no engenho de pesca. Este engenho não passa de quatro canas altas, também espetadas no fundo da baía e nas quais assenta uma enorme rede quadrada.
Todo o sistema está ligado a uma roldana que levanta a rede para se colher o peixe, ou a inclina para a esquerda ou para a direita, segundo as marés. De tantas em tantas horas, o pescador, munido duma longa vara que tem numa das pontas um pequeno saco, dirige-se para o extremo da última passadeira e recolhe o peixe que há-de vender no dia seguinte.
Há várias dessas cabanas ao longo da Praia Grande e aí se vêem também uma linda avenida marginal com frondosas árvores dum lado e do outro e vivendas apalaçadas que terminam nos dois campos de ténis da cidade. É ali que a gente elegante passa as tardes de Verão.
Se olharmos para cima, podemos ver um pouco do maravilhoso jardim do Palácio de Santa Sancha, residência oficial do Governador. Para lá do Palácio, que fica na encosta duma pequena colina, encontramos, aqui e ali, casas de funcionários públicos, casas arejadas e modernas, e miradouros de horizontes largos. Ali perto, fica o Hotel Bela Vista que é frequentado quase só por Europeus. É o melhor bairro da cidade, o mais fresco e calmo.
Ainda mais acima, está a colina da Penha com outro grande e majestoso palácio que é a residência do Bispo da Diocese.
A Praia Grande continua contornando a costa. Na próxima curva, depara-se-nos a Fortaleza do Bom Parto e, logo ao pé, um jardim infantil com veados e macacos. Seguem-se mais casas, mais vivendas, antes de chegarmos ao Palácio do Governo onde estão instaladas várias repartições do Estado. Uma sentinela, impecável, passeia dum lado para o outro.
No cruzamento com a Avenida Almeida Ribeiro, começamos a encontrar mais movimento e aparece-nos o primeiro polícia sinaleiro. Chega até nós uma música americana tocada no “dancing” do Hotel Riviera que fica numa das esquinas deste cruzamento e mesmo em frente do edifício do Banco Nacional Ultramarino.
À nossa direita e lá ao longe, vê-se a enorme estátua daquele que foi o grande Governador Ferreira do Amaral. Foi ele que no século passado restaurou a autoridade portuguesa nas ilhas da Taipa e de Coloane e pôs fim às alfândegas chinesas que, indevidamente, cobravam impostos no nosso território. Todos esses factos e a sua constante atitude de firmeza, criaram-lhe ódio entre os mandarins que não hesitaram em o mandar assassinar perto das Portas do Cerco. É justo que tenha a maior estátua de Macau.
A Praia Grande, que já deixou de ir ao longo da costa, termina num pequeno jardim que tem à esquerda o Colégio Santa Rosa de Lima e à direita o Clube Militar (NA: na imagem, um retrato recente), onde se fazem lindas festas no Natal e no Ano Novo. Entre o Colégio e o Clube, há um grande edifício amarelo que é o Quartel de S. Francisco, outrora um convento.
Desviamo-nos ligeiramente e entramos na larga Avenida Dr. Oliveira Salazar que é uma verdadeira pista de corridas. Estamos agora em pleno Porto Exterior.
Levanta-se a uns metros dali o belo monte da Guia, cheio de verdura e de passeios tentadores. É a maior elevação de Macau — 106 metros de altura — com o mais antigo farol de toda a China e uma acolhedora capelinha que tem o mesmo nome do monte.
A Avenida Dr. Oliveira Salazar passa pelo reservatório de água que abastece a cidade e tem ligação, por meio duma rua estreita, com os aterros da Areia Preta.
Antes de chegarmos às Portas do Cerco, talvez não seja má ideia darmos uma saltada ao Monte de D. Maria, subindo pela “Montanha Russa”, para descansarmos um pouco no miradouro e observar a paisagem.
No regresso, tornamos a fazer um desvio para visitarmos o Pagode de Mong Há — também chamado Lin-Fong — que fica na Estrada Almirante Lacerda. Foi construído antes de Macau nos pertencer e, diz-nos a lenda, habitado por uma comunidade de bonzos que tinham como superior Un-Tch’an, homem sabedor e virtuoso.
Certa vez, estando ele a fazer as suas orações, ouviu vozes estranhas e, quando se voltou, viu um ridículo macaco que, aos pulos, foi instalar-se no altar principal. O bonzo deixou-se ficar no mesmo sítio e continuou as suas orações. Mas o macaco voltou no dia seguinte e em todos os outros dias e a comunidade inteira entretinha-se a observá-lo. De princípio aparecia de mãos vazias e depois começou a trazer deliciosos frutos que depunha no altar dos Três Budas Preciosos.
Todos se espantavam com tal procedimento, tanto mais que ele parecia estar a fiscalizar o fervor das orações de Un-Tch’an. Acabaram por respeitá-lo profundamente e já quase fazia parte do templo, quando o superior morreu. A partir desse dia, nunca mais voltou e ficou conhecido pelo “macaco espiritual”. Ainda hoje existe no Pagode o altar dos Três Budas Preciosos.
Mas deixemos Mong-Há e as suas lendas para nos pormos a caminho das Portas do Cerco. A estrada que lá nos leva é estreita e a gente é tanta que mal se pode caminhar. Uns trazem carrinhos de mão, outros grandes fardos que os fazem vergar com o peso. Lá estão, à esquerda, as hortas verdes e ajardinadas que só têm um defeito: cheiram horrivelmente mal. Só aos encontrões se pode furar por aquela multidão de chineses.
Quase ao fim da rua, corta-se à direita e vamos ter a um magnífico Campo de Corridas de Cavalos, um dos melhores de todas aquelas paragens e nos dias de corridas é uma verdadeira parada de elegâncias. Começamos a ver as primeiras casas dos oficiais e sargentos da guarnição da fronteira; soldados pretos com fardas de cáqui, muito bem engomadas; rolos de arame farpado, espalhados pelo chão e, ao fundo, um muro em forma de arco: as Portas do Cerco. Acaba ali a cidade; do outro lado começa a China. Já andámos quatro quilómetros!
Temos de voltar pela mesma estrada, dar e receber mais encontrões, ver a longa fila de gente que entra e sai de Macau. Abrem passagem aos gritos: ôh! ôh!…
Agora vamos em direcção à Ilha Verde que já deixou de ser ilha por estar ligada à península, mas ainda conserva o mesmo nome. Passamos por outras hortas e bairros pouco limpos. Andamos bastante, mas sempre chegamos e depois de visitarmos a grande fábrica de cimento, vamos dar um passeio pela bela Ilha Verde que inspirou tantos poetas. Dizia um deles, Ien-Kuong-Iam: ‘Sobre o mar, o firmamento está repleto de formas vaporosas./ A chuva miudinha apoderou-se da Ilha Verde./ Onde a fragância das flores torna o Inverno em Primavera./ E a exuberência e a frescura transformam o Verão em Outono./ O toque dos sinos morre mergulhando-se na praia./ As sombras das velas flutuam doidejando, desordenadamente como gaivotas./ Tal paisagem excede a de Siu-Seong./ Quem há que não se debruce à janela para a admirar ao longe?’
E ainda o bonzo Tchek-Sam: ‘Surgindo altaneira no meio do mar e correndo,/ desordenadamente, as águas em volta da sua rocha borda,/ a Ilha Verde, tão minúscula, lembra-nos uma ilha de fadas…’. Notamos que estas duas poesias foram escritas no tempo em que a Ilha Verde era, realmente, uma ilha.”

“Macau, terra de lendas”, de Hermengarda Marques Pinto: Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1955, 127 páginas – Colecção Educativa Série E nº 1.
Trata-se de um livro que, segundo a autora, na altura com 28 anos,  foi escrito “para ganhar dinheiro” (em 1955) e que acabou reeditado “sem a minha autorização” em 1974. Estes dados foram manuscritos pela própria num autógrafo nessa 2ª edição e à qual tive acesso recentemente.
NA: imagens da década de 1950 – fotografias e postais
Livros como este – que  para além da descrição da cidade em jeito de passeios e com  a inclusão de algumas pequenas lendas nas primeiras páginas – deram a conhecer aos portugueses da então Metrópole como era o Território no início da década de 1950. Pouco ilustrado era um livro com o carimbo do Ministério da Educação. A 2ª edição de 1974 custava 10 escudos.
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