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Um Jovem Romântico
José Carlos da Maia (Olhão, 16 de Março de 1878 – Lisboa, 19 de Outubro de 1921) foi oficial da Marinha de Guerra Portuguesa e destacado político republicano. Entre outras funções, foi deputado à Assembleia Constituinte de 1911 e à Câmara de Deputados do Congresso da República, Governador de Macau (1914-1916), Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Lisboa, de Janeiro a Março de 1918, e Ministro da Marinha durante três meses e meio em 1918. Encontrava-se afastado da política activa quando foi assassinado na Noite Sangrenta de 19 de Outubro de 1921, a revolta radical que ocorreu em Lisboa e no decurso da qual foram assassinados vários republicanos.
Durante os anos de 1914 a 1916, como Governador de Macau. José Carlos da Maia, projectou uma imagem de extrema competência e seriedade. Decorria a I Guerra Mundial, mas o rigor e a dinâmica da sua governação deixaram-lhe a fama de ter sido um dos melhores governadores que Macau conheceu. Construiu três escolas e uma leprosaria, organizou um corpo de voluntários, a corporação de bombeiros, melhorou as comunicações rádio-telefónicas e rodoviárias entre as ilhas e ainda teve tempo para ajudar os republicanos chineses. “Carlos da Maia é conhecido por ter recusado a extradição dos republicanos Chineses que se refugiaram em Macau no período conturbado dos Senhores da Guerra que sucedeu à República Chinesa, revelando com isso a franqueza da sua matriz ideológica e a disponibilidade de a estender, em moldes solidários, para além de qualquer realidade cultural ou diplomática”, acrescenta o arquitecto e docente convidado da Universidade de São José, Mário Duque.
A obra de Carlos da Maia em Macau é descrita de forma elogiosa numa obra que data de 1924, intitulada “Um Marinheiro Romântico: Como viveu e Morreu Carlos da Maia”. A monografia é composta por textos de dois autores, ambos amigos pessoais de Carlos da Maia, Rocha Martins e Bourbon Menezes. Este último relata a as obras deixadas por Carlos da Maia em Macau:
“Carlos da Maia deixou a sua passagem por Macau assinalada por uma obra. A capitania do Porto, que, por falta de materiais indispensáveis, estava impedida de fazer a necessária fiscalização marítima, dotou-a Carlos da Maia com esse material que ela não tinha, adquirindo cinco lanchas, logo postas no desempenho daquele serviço. As ilhas da Taipa e Coloane foram ligadas pela telegrafia sem fios e, para que a vigilância nocturna das imediações do porto de Macau pudesse fazer se como a prudência aconselhava que se assegurasse, mandou Carlos da Maia comprar os necessários projectores, os quais foram montados já depois da sua retirada para a metrópole (…).
O relato da obra de Carlos da Maia continua pormenorizadamente e acaba por concluir:
“Os jardins da cidade, por sinal lindíssimos, aformoseou-os por comum interesse e que só se da a medida da sua delicada sensibilidade, e a abertura da Avenida Almeida Ribeiro que cortando o bazar chinês, liga a Praia Grande com o Porto Interior, esta igualmente vinculada a sua acção governativa”.
A um nível mais privado, José Carlos da Maia era um romântico. Sonhava encontrar a sua princesa e levá-la num cavalo branco. “No coração de Maia havia desde algum tempo um amor enorme. Era a sua paixão. Eu conheci a esposa do Maia antes de a ver (…). É que ele falava de alguém cujo nome não dizia. Entrevi-o noivo, conheci depois o marido e o pai apaixonado” , conta-nos Rocha Martins. Assim, apaixonado, o republicano sonhava unir os mares e ambicionava o infinito do horizonte.
Fotografia de 1959: mais um inédito e exclusivo do blog Macau Antigo
A San Ma Lou na zona do Largo do Leal Senado
Uma Nova Avenida
Carlos da Maia rasgou Macau de costa a costa, unindo a cidade das igrejas cristãs à cidade dos templos do budismo chinês. A construção da Avenida Almeida Ribeiro, em Chinês San Ma Lou, que significa “Avenida Nova” visava unificar a cidade, ligar o porto interior ao porto exterior, abrindo a cidade em si e assim mais ao mundo e ao infinito do mar.
A “nova avenida” do jovem romântico transformou a vida económica, social e cultural de Macau, aproximou as pessoas e as culturas, e com uma clara visão de futuro modernizou a cidade.
Entre a segunda metade do século XIX e a primeira década do século XX, a Rua Central foi o centro da vida social e comercial da cidade Cristã. Em chinês, a Rua Central designa-se por Leong Sang Cheng Kai, isto é, Rua Direita do Cume do Dragão. Situada no bairro de S. Lourenço, foi aí que se instalaram os alfaiates e modistas, ourives e joalheiros, antiquários e livreiros, as lojas dos “mouros”, de sedas, cetins, toalhas e bordados, para além de roupas, chapéus, gravatas e brinquedos. Foi aí que se instalou inicialmente a famosa loja Omar Moosa, expressão da comunidade “moura” de Macau. No dia santo, terminada a missa das onze horas na Sé Catedral, a rua transformava-se numa espécie de Passeio Público, onde se exibiam as últimas modas, importadas das metrópoles europeias, conforme nos recorda Henrique Senna Fernandes.
A Avenida Almeida Ribeiro ficou concluída em 1918, depois da expropriação e demolição dos edifícios antigos que impediam o seu alinhamento regular. Com cerca de 600 metros a “nova avenida” rapidamente se transformou na via principal da cidade.
A documentação mais antiga existente no arquivo histórico de Macau sobre a “nova avenida” data de 1914 e refere-se à sua actividade comercial. A mostra patente no Arquivo Histórico de Macau durante o mês de Julho, intitulada “Lembrando a Almeida Ribeiro” esclarecia que o nome chinês da Avenida era um nome comum dado a todas as novas avenidas, mas dada a demora da construção da Almeida Ribeiro, em chinês o seu nome nunca mais se alterou. Estiveram em exposição documentos do espólio de processos, plantas e fotografias do Arquivo Histórico de Macau, ilustrando as origens da Avenida, incluindo o projecto da sua abertura através do bazar chinês, documentos sobre o Leal Senado e referencias a alguns negócios que outrora nela se encontravam. A mostra esclarecia igualmente que o projecto era anterior à sua execução.
A abertura da Almeida Ribeiro originou uma onda de novos projectos com o emprego do betão armado e o uso sistemático das arcadas. Na década de 30, a maior parte da vida que caracterizava a Rua Central tinha se transferido para a Avenida Almeida Ribeiro que era já a zona mais próspera da cidade, com lojas, bancos, hotéis, joalharias, cinemas, etc. Até a famosa loja Moss preferiu instalar-se na “nova avenida”.
Uma diferença porém: a Rua Central era o centro da vida cristã, a Nova Avenida era o centro da cidade, incluindo cidade cristã e bazar chinês, agora unidos em torno de um comércio próspero e dinâmico.
“O urbanismo tem a capacidade configurar o espaço público, não apenas assegurando os aspectos essenciais de suporte à vida dos humanos, mas também de dar expressão aos valores que norteiam esses humanos, seja por via das seus próprios mitos ou fundações intelectuais, seja por via dos ideais ou aspirações desses humanos em determinado momento. Por isso, urbanismo tem sempre uma dimensão civilizacional, conceptual e simbólica”, explica Mário Duque. “O que Carlos da Maia fez, unindo cidades dentro na mesma cidade, não foi apenas dotar a cidade de melhor acessibilidade e de melhores meios de administração, mas também dotar a cidade de elementos espaciais que significam abertura e comunicação, propícios a um sentido cosmopolita, porque é essa a ideia subjacente ao conceito de cidade para determinada matriz civilizacional e ideológica”.
A atestar a nova vaga de projectos em betão armado que se gerou com a abertura da Almeida Ribeiro destaca-se a construção do Grand Hotel, da autoria do engenheiro civil macaense José Canavarro Nolasco (1937), construído pelo empreiteiro Tai Man Hou . Situado no fim da Almeida Ribeiro, frente à Ponte Cais no. 16, também chamado Kouc Chai. O Hotel foi inaugurado em 1941 e durante a II Guerra Mundial foi palco de episódios dignos dos mais extraordinários filmes de espionagem. O alçado principal manteve-se inalterado até à actualidade. De facto, “à excepção de posteriores remodelações dos interiores ao gosto de outras épocas, as características do desenho arquitectónico de matriz Art Deco, na versão streamline, mantiveram-se inalteradas até à actualidade”, acrescenta o arquitecto Mário Duque.
Em 1947 iniciou-se o processo de reconstrução da Ponte do Cais. Fu Tak Lam , comerciante e proprietário, morador no Hotel Central, desejava construí-la por considerar a obra urgentíssima e de grande interesse para o Governo. Charles Lun Chou, engenheiro civil e construtor, assina o projecto e encarrega-se da obra de demolição e respectiva reconstrução da Ponte do Cais no. 16. O edifício foi sucessivamente alterado, ampliado e modificado. Mas foi durante muitos anos o principal lugar de chegada à cidade de Macau.
As casas-lojas que caracterizam a arquitectura da Avenida são edifícios de 3 andares cujo rés-do-chão seria de espaço comercial, servindo os outros dois pisos para habitação, seguindo a tradição chinesa (“Shop Houses”). Contudo, as arcadas, as janelas, as portadas em arco e os motivos decorativos florais atestam uma eclética influência europeia .
Nas décadas de 50 e 60, a avenida era um lugar muito concorrido. Ali se situava: o Café Ruby, Tabacaria Filipina, Camisaria Central, Café Belo…
O arquitecto Mário Duque enquadra o gesto de Carlos da Maia e a San Ma Lou num contexto mais vasto: “Nesta avenida configurou-se o mesmo esquema urbanístico que muitas das cidades europeias adoptaram, não só por vias das profundas transformações que sofreram, para se adaptarem aos transportes mecânicos e a novos moldes da vida urbana. Neste contexto, conduziram-se os novos meios de locomoção aos centros das cidades, fazendo do local da “gare” a nova recepção da cidade e dotando esse local de hotéis ao novo estilo da vida, os “hotéis de gare” (que muitas vezes pertenciam à mesma empresa que explorava o meio de transporte).
Dessa nova recepção das cidades chegava-se à tradicional “sala de honra” da cidade, a praça do município, através de um novo e importante boulevard (designação das novas vias com que as metrópoles foram equipadas para condução nas novas redes urbanas, para as novas acessibilidades e para a circulação de veículos motorizados).
Nessas cidades europeias acedia-se, na maior parte dos casos, por comboio e as “gares” eram ferroviárias. Em Macau essa “gare” era marítima (a Ponte do Cais no 16) mas o modelo é em tudo igual. O Hotel de Gare é o Grand Hotel e o novo boulevard, que conduz à praça do município (o Largo do Senado) é a nova Avenida Almeida Ribeiro (San Ma Lou).
“São realidades que hoje se revestem de valor histórico e que, no seu tempo, foram profundos rasgos de modernidade”, explica o arquitecto Mário Duque. Acrescentando, “Em verdade as imagens que se conhecem do passado da Avenida Almeida Ribeiro é dos estabelecimentos comerciais a competir em visibilidade no espaço aéreo da via, pejada de painéis publicitários coloridos e luminosos, que se projectavam em dimensões talvez mais arrojadas que hoje. Todavia um extravaso que se limitava a uma visibilidade publicitária, desenvolvendo uma paisagem urbana característica, hoje sinónimo da versão oriental do urbanismo europeu, mas sem com isso extravasar a regra urbanística da edificação propriamente dita, ou seja, do alinhamento das margens desta via aberta para ligação das duas frentes marítimas”.
Em 1983 foi elaborado um “Plano de Intervenção Urbanística da Almeida Ribeiro” pela Palmer & Turner. Era um regulamento pormenorizado com vista à orientação da construção da zona, tendo como objectivo a renovação urbana no quadro da preservação de edifícios e ambientes classificados. O Plano foi revisto em 1984.
Um Beco Sem Saída…
Houve contudo um aspecto que não foi previsto: que a Avenida que ligava Macau ao infinito do mar pudesse um dia vir a ser totalmente bloqueada nos seus extremos. A construção dos aterros da Praia Grande, deu lugar a uma outra avenida, a Avenida Infante D. Henrique, que prolongou o traçado da Almeida Ribeiro até ao mar.
O Hotel Lisboa, situado já nos novos aterros da Praia Grande, no extremo da Avenida Infante D. Henrique, foi o primeiro edifício a fugir ao alinhamento e a invadir, ainda que ligeiramente, o eixo central daquele sistema viário, na antiga tradição dos letreiros e neóns.
Com a liberalização do jogo, vieram mais uns tantos resorts. Ao Hotel Lisboa, seguiu-se o Wynn Resort que definitivamente invade o enquadramento visual e, finalmente, o MGM que acaba por fechar a Avenida ao mar. No outro extremo, o Resort Soffitel construído exactamente naquele que foi o principal lugar de chegada a Macau, a Ponte do Cais no 16, não só destruiu a ponte como bloqueou a Avenida Almeida Ribeiro, no outro extremo.
“O empreendimento Ponte Cais n.º 16 constitui o derradeiro tampão da Av. Almeida Ribeiro. É uma intervenção urbanística de índole revivalista, que queria reactivar o tecido urbano do Porto Interior, mas todavia fê-lo em sentido que não podia ser mais inverso ao que moldou aquela estrutura urbanística que hoje se contempla com valor histórico”, conclui o arquitecto Mário Duque. “Quando se intervém neste tipo de realidades urbanas, é imprescindível compreender os sinais da sua génese. Essa aptidão sequer é exclusiva às pessoas dessas cidades. É antes uma aptidão que resulta de uma formação profissional que se desenvolve“, acrescenta o arquitecto e docente convidado da Universidade de São José. “Sem dúvida que o fecho da San Ma Lou foi mais um valor subtraído à cidade, mas também uma constatação que pode servir de chamada de atenção para a necessidade urgente de desenvolver ideias para novos e adequados instrumentos urbanísticos, que permitam repor valor a uma via que ligava mar a mar, por terra, um pequeno canal do Suez ou do Panamá, e o lugar que foi significativamente o ponto de chegada e de partida de uma cidade, não seja hoje um beco sem saída nas traseiras da mesma cidade”.
Vista aérea da San Ma Lou em 1961

Texto de Margarida Saraiva – Mestre em Planeamento e Políticas Culturais Europeias – publicado no jornal Hoje Macau de 1 de Setembro de 2010.

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