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Ao longo dos quase dois anos de existência deste blog tenho publicado diversos post’s sobre Henrique Senna Fernandes. Numa altura em que a sua saúde está débil – e reactivada a sua memória através de uma solicitação de uma leitora do blog – presto aqui nova homenagem e faço votos para a sua rápida recuperação. A imagem é do Jornal Tribuna de Macau.
Henrique de Senna Fernandes, antigo aluno da Faculdade de Direito, tinha 15 anos quando foi a Cantão e conheceu Mamiu. Ela tinha 18 e ele apaixonou-se. Mas nunca a beijou. Um dia Mamiu disse àquele que havia de se tornar o maior escritor contemporâneo de Macau, que ia partir. O pai tinha-a vendido para Hong Kong onde – depois da invasão japonesa – havia muito trabalho para meninas bonitas de famílias carenciadas. “O mundo desmoronou–se para mim. Tive um grande desgosto. Percebi a vulnerabilidade da mulher”, recorda Senna Fernandes. Este episódio havia de ser o primeiro de uma vida dedicada a amar as mulheres. Na vida e na literatura.
Anos depois, quando foi estudar, Henrique conheceu Coimbra. Foram tempos duros. Queria ter seguido Medicina mas rebentou a Guerra e Henrique já não embarcou para a Universidade. Entretanto passaram 4 ou 5 anos e como queria tirar um curso optou por Direito. Formou-se com 10 valores. “Sofri muito durante aqueles anos, não era o curso que eu queria, nunca pensei que seria tão difícil”, diz enquanto aponta para o diploma na parede com ar de indiferença.
Hoje, aos 86 anos, o autor de “Amor e Dedinhos de Pé”, tem as mãos grossas, com dedos compridos cobertos por uma pele rugosa, engelhada e amarela. Não podia ser de outra forma: nas suas veias misturam-se os sangues português, goês e chinês.
O nome Senna Fernandes é bandeira de uma das mais antigas famílias macaenses, que aqui nasce há mais de dois séculos.
As unhas, cortadas de forma irregular, sobressaem nas suas mãos, expressivas. Têm gestos largos, de contador de estórias. Ainda há pouco tempo Senna Fernandes gostava de descrevê-las como “umas mãos que sabem acarinhar”, mas actualmente Henrique não consegue falar. Recentemente, uma doença tomou-lhe de assalto a garganta. A medicina devolveu–o à vida mas sem voz. E agora são as mãos e os olhos que falam por ele, solidários.
Apesar da doença lhe ter diminuído a carne até aos ossos, o seu rosto é ainda muito agradável. O nariz redondo e achatado arruma-se entre dois olhos doces, profundos e felizes, reflexo de uma vida vivida sem medo. Para além das rugas, por onde se escondem estórias com quase 90 anos, sobressaem as sobrancelhas despenteadas e rebeldes como o homem, que hoje caminha apoiado numa bengala, também já foi. Maria Teresa Ho Heong Sut foi sua mulher durante 40 anos. O seu nome significa “neve perfumada” em chinês. Quem vê fotografias do dia do casamento dos dois percebe porquê. Bonita, elegante, vestida de branco, de braço dado com o homem que acabava de aceitar para toda a vida, parece esconder uma daquelas forças interiores discretas, subtis. É o pró-prio companheiro de toda a vida que reconhece: “era uma rapariga corajosa”.
E era preciso coragem para ser apaixonada por Senna Fernandes. A figura feminina esteve sempre presente na vida do escritor. Na realidade e na ficção. Emocional e apaixonado, ou como descreve o filho Miguel “um amante da vida”, Henrique é um bon-vivant. Ainda pouco tempo antes de perder a voz Senna Fernandes recordou com nostalgia um tempo em que “à tardinha os homens iam admirar as meninas”. Sempre nos jardins, que “são lugares comuns dos poetas e escritores”.
Nos seus romances é à mulher que dedica maior atenção e foram as mulheres que conheceu ou as que se cruzaram por acaso na sua vida que o ajudaram a construir as personagens da sua obra, um retrato fidedigno de Macau do antigamente.
Para além de advogado, Henrique de Senna Fernandes foi também professor, caminho pelo qual enveredou por falta de clientes. Mas foi aí, garantem os antigos alunos, que Senna Fernandes descobriu “a verdadeira vocação”. José Sales Marques, ex-aluno, recorda com um sorriso rasgado que “nas aulas de História de Arte as conversas sobre o Louvre eram ilustradas com descrições das belas francesas que o professor tinha conhecido por lá”. Se lhe pedirem para descrever o antigo professor em poucas palavras a resposta sai-lhe cúmplice:
“É um malandro; mas um bom malandro”. Leonel Alves, deputado, também foi aluno de Senna Fernandes e conta que o docente lhe “ensinou muito e também sobre a vida”. Foi o antigo professor de História que lhe explicou “as artes de fumar um bom charuto”, recorda feliz.
Para além dos livros e das árvores que plantou, quando partir Henrique deixa sete filhos: Cristina, Marina, Miguel, Vasco, Filipe, Nuno e Ana Maria, com apenas 20 anos. O filho Miguel, advogado como o pai, fala de Henrique como “um bom compincha”, mas garante que o escritor “é um homem orgulhoso, de personalidade muito forte”. A fama de mulherengo do pai não parece incomodar o filho. Pelo contrário. Os olhos brilham-lhe quando reconhece que o pai “viveu muito”. Como se estivesse a concluir a ideia do irmão, o filho Miguel acrescenta: “ele educou-nos muito bem, para a cultura, mas também para a vida; ensinou-nos a perceber as pessoas”.
Agora já não são as mulheres, mas a escrita que o prende à vida. Está a terminar o livro “Pai das Orquídeas”. E mesmo frágil e debilitado, garante que há-de arranjar força para o terminar porque a obra não pode ver a luz do dia sem os cinco capítulos que lhe faltam. “Ainda o vou acabar”, assegura, fazendo um esforço imenso para pronunciar as parcas palavras. Só quem não o conhece é que duvida.
Artigo da autoria de Martha Mendes publicado na edição nº 24 da Revista Rua Larga da Reitoria da Universidade de Coimbra, 2009.
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