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Por mais estranho que pareça, a modalidade desportiva mais popular entre os macaenses era o hóquei em Campo. Não admira pois que a comunidade macaense praticasse este desporto com tanta dedicação e destreza que fazia frente a qualquer das muitas equipas de Hongkong, inclusivé a sua própria selecção.
Devo acrescentar que nesse tempo, refiro-me à década de 50, os chineses de Macau não praticavam o hóquei, pelo que, reduzido a macaenses, havia apenas duas equipas, a principal e a dos suplentes; e era assim que os praticantes se treinavam, uns com os outros, e daí saía a formação principal que estava sempre pronta para defrontar as equipas de Hongkong. De referir também que na vizinha colónia, havia dezenas de equipas de hóquei devido às inúmeras comunidades de estrangeiros que ali viviam: indianos, paquistaneses, portugueses, holandeses, para não falar dos ingleses que eram os que tinham mais equipas e das mais fortes; desde a Army (equipa representativa do exército inglês estacionado em Hongkong considerada a equipa, na altura, mais forte), a Royal Navy (Marinha), a Royal Airforce (Força Aérea), várias equipas de civis (constituídas por funcionários públicos e privados ingleses a trabalhar na colónia, tanto em Hongkong como em Kowloon), a equipa do Clube de Recreio (formada por portugueses radicados em Hongkong, também considerada uma das melhores equipas e sempre candidata ao título), as equipas indianas e paquistanesas (onde existia, já nesse tempo, uma grande rivalidade entre essas comunidades, ambas também muito fortes), a Ducth H.C. (equipa holandesa formada por comerciantes e funcionários de empresas holandesas, talvez considerada a mais fraca), e outras.
Como em Macau não havia Campeonato, porque só existiam duas equipas, era frequente, e eu diria até que em quase todos os domingos, haver uma partida de hóquei entre a equipa de Hóquei Clube de Macau e uma qualquer de Hong Kong que nos vinha visitar. Os jogos eram no Campo de Tap Seac e não me lembro de ver alguma vez Macau perder com as equipas de Hong Kong; normalmente as que davam mais luta (Army e Recreio) perdiam por pouco, mas com as outras equipas eram sempre cabazadas! Naturalmente que a nossa equipa também visitava frequentemente Hong Kong para jogos de retribuição e convívios sempre muito animados. As únicas vezes que havia mesmo jogos muito renhidos era por ocasião dos Interports entre as selecções das duas cidades e, aí sim, a vitória tanto pendia para um lado como para o outro.
É evidente que, sendo a modalidade tão popular entre os macaenses, a própria juventude escolar também a praticava com a mesma intensidade e dedicação. Foi assim que surgiu, no ano de 1957, o 1º Campeonato Inter-Escolar de Hóquei em Campo com a participação de 3 Escolas Portuguesas: o Liceu (com duas equipas), a Escola Comercial “Pedro Nolasco” e o Seminário de S. José.

Liceu: a equipa vencedora do compeonato inter-escolar de 1957
agachados e da esquerda para a direita: Carlos Alberto Jorge (falecido em Portugal), Severino Silva (Macau), Francisco Rodrigues (Portugal), Jorge Basto da Silva (Macau) e Olavo Bilac (Portugal);
de pé e pela mesma ordem: Bañares (falecido nos Estados Unidos), Generoso Silva (Brasil),
Armando Almeida (Portugal), João Basto da Silva (Portugal), Humberto Barros (Estados Unidos) e Vítor Serra (Portugal).
No seguimento do Campeonato e à semelhança do que acontecia com os seniores, os mais jovens também tinham, como de costume, de enfrentar a Selecção de Estudantes de Hong Kong.


Selecção de Estudantes de Macau

agachados e da esquerda para a direita: Francisco Rodrigues (Liceu – Portugal), Armando Almeida (Liceu – Portugal), José Capitulé (Seminário S.José – Estados Unidos), Sá e Silva (Escola Comercial – Estados Unidos? ) e Jorge Basto da Silva (Liceu – Macau).

De pé e pela mesma ordem: Alberto Valoma (Liceu – Canadá), Rui Aires da Silva (Escola
Comercial – falecido nos Estados Unidos), António Capitulé (Seminário S.José – Estados Unidos), Vitor Serra (Liceu – Portugal), Frederico Cordeiro (Escola Comercial – Macau), João Basto da Silva (Liceu – Portugal) e o Treinador-Seleccionador Dr. João dos Santos Ferreira (já falecido).


Estudantes de Macau e de Hong Kong

A 3ª foto mostra as duas equipas, com a particularidade de Hong Kong ser representada por um grupo de jovens estudantes de várias etnias e nacionalidades, desde ingleses, indianos,

paquistaneses e portugueses a chineses. Gostaria de, a título de curiosidade, lembrar os 2
portugueses que faziam parte da equipa de Hongkong: de pé, à direita do Dr. Santos Ferreira,
António Jorge da Silva (mais conhecido por Toneco, por sinal meu primo e a viver nos Estados Unidos, como arquitecto), e o outro, também de pé, à direita do Alberto Valoma, Alberto Rodrigues (mais conhecido por Tito, julgo que foi médico em Hong Kong e tem casa em Almancil-Algarve); dos restantes está um indiano típico (com um carrapito na cabeça), muito conhecido na altura, Kuldip Sing, e ainda os ingleses Michel Mottu (de pé), Ted Belote e John Bechtel (ambos agachados); dos outros jogadores de Hong Kong, obviamente, já não me recordo.
O resultado desse Interport foi de 4-0 a favor de Macau com golos marcados por Sá e Silva (2), Jorge Silva (1) e Francisco Rodrigues (1).

“Macaenses” de Hong Kong, numa partida realizada em Fevereiro de 1958, que passo a identificar:
agachados e da esquerda para a direita: Kennet Barnes, Luís Cunha, Arnaldo Ribas, Alberto Colaço, Zoé Siqueira, Armando Jorge, Ludgero Siqueira, João Basto da Silva, Arnaldo Couto e Eng. Humberto Rodrigues;
de pé e pela mesma ordem: Josico Rocha, Fernando Nascimento (árbitro), Alexandre Airosa,
Armando Almeida, Ismael Silva, Amadeu Cordeiro, António Capitulé, Lourenço Ritchie, Alberto Valoma, Fernando Marques, Vasco Silva, Rui Aires da Silva, José Capitulé, Lisbelo Luz, Dr. António Rodrigues da Silva e Frederico Nolasco ( árbitro).
A grande curiosidade desta foto é que a maioria dos jogadores que tinham jogado nos campeonatos escolares, estavam agora a jogar já nas equipas seniores: Armando Almeida, Rui Aires da Silva e João Basto da Silva na equipa de Macau; e na equipa dos “Macaenses”, praticamente a totalidade deles, com excepção de Arnaldo Couto.
Mas o facto mais marcante é que, de um ano para outro, houve uma avalanche de emigração de jovens macaenses para o mercado de trabalho de Hongkong – a tal Diáspora Macaense que, infelizmente, foi uma realidade, comprovada aqui pelas duas últimas fotos. De resto, tenho ideia de que esta situação se manteve em força durante toda a década de 50. De Hong ong (onde a maioria deles se empregaram no Banco HKSBC) e passados alguns anos, muitos desses jovens tiveram ainda que se sujeitar a uma segunda emigração para países ainda mais distantes como Austrália, Brasil, Estados Unidos e Canadá.
O resultado deste jogo, que não foi mais do que um salutar convívio entre os próprios macaenses, foi de 5-0 favorável a Macau; nada de extraordinário, atendendo a que a equipa do Clube “Macaenses” tinha acabado de ser constituída e era, como tal, estreante e ainda pouco entrosada na modalidade. Devo acrescentar, contudo, que com o passar dos anos (bem poucos), essa mesma equipa, que passou a participar nos Campeonatos de Hóquei de Hong Kong, chegou a Campeã e ainda se deu ao luxo de fornecer vários dos seus jogadores para representar a vizinha colónia, em variados jogos e torneios internacionais.
Esta sequência que envio agora é verdadeiramente um documento histórico que fala das
dificuldades cíclicas que se viveram em Macau, ao longo dos séculos, por esta razão ou aquela. À fragilidade económica do Território, no entanto, souberam sempre os seus naturais responder com coragem, determinação e espírito positivo. Têm deixado em todos os países que os acolhem o melhor de si e o bom nome da sua terra – Macau.
João Bosco Basto da Silva – Coimbra, Agosto 2010
NA: É mais uma contributo valioso do amigo João Bosco a quem agradeço e um conjunto de documentos inéditos mais uma vez proporcinados pelo blog Macau Antigo.
É favor ‘clicar’ sobre as fotos para ver em tamanho maior.
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