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Com a morte de Henrique Senna Fernandes neste dia 4 de Outubro Macau perde não apenas um filho da terra mas também o que melhor captou a identidade do território no século XX.
Em 1956 (foto de cima e de baixo): professor de História e Filosofia no Liceu de Macau
Final década de 1960: o 4º a contar da esq. Director da Escola Comercial Pedro Nolasco

Na Praia Grande com o Gov. Nobre de Carvalho no final da década de 1960

Dois dos seus livros e na capa do “Ponto Final” de 25 de Junho deste ano

O miúdo que escrevia romances de amor
Como todas as histórias que realmente merecem ser contadas, foi uma história de amor que esteve no início de tudo. Andava no liceu, adolescente, tinha começado então o primeiro ano da década de quarenta do século passado. Ela era “tão bonita, tão realmente bonita”, uma das mulheres mais bonitas de Macau, e ele apaixonou-se. Ao contrário dos filmes, a história não teve um final feliz. “Foram desencontros e mais desencontros, más compreensões” e aquele “amor platónico” nem sequer vivia das palavras, que não se falavam. Mas há um dia no liceu em que desceu do primeiro andar para o rés-do-chão e cruzaram-se. “Deitou-me um olhar rápido, mas tão perturbador. Mas este parvo não fez mais nada, não soube actuar”, recorda. “São esses pequenos desencontros que decidem a vida das pessoas”. Este foi, talvez, o mais decisivo.
As aulas acabavam às 4h30, antes das seis já estava em casa. “Estava tão inspirado, já estava na minha mente fazer uma história. Fui para a sala de jantar, papel branco almaço e lápis, escrevi ‘capítulo primeiro’. E fiz uma história, o meu primeiro volume”. O livro acabou por se perder, juntamente com outros. Da história de amor ficaram as memórias e a descoberta que a escrita pode ser a fuga que leva ao reencontro.
Na verdade, o princípio da história, não a de amor mas a da escrita, começa mais cedo, tinha 11 ou 12 anos. Henrique de Senna Fernandes conta histórias como quem come cerejas, elas vêm todas juntas e só assim fazem sentido. Advogado de formação, curso tirado em Coimbra, foi a escrita que o marcou. Viveu oito anos em Portugal e sobre o país onde ficava a metrópole também escreveu, pois grande era o deslumbramento. Mas foi Macau que passou para os livros, em “Amor e Dedinhos de Pé” e em “A Trança Feiticeira”, entre outros volumes, alguns perdidos, outros editados. Enquanto fala gesticula muito, como se as mãos escrevessem no ar, num escritório da Praia Grande, que noutros tempos “era mesmo a praia grande, o mar chegava aqui”.
Desses tempos vem, então, o princípio da história. Desta vez, não de um desencontro mas sim de um encontro, com um professor da escola primária, do quinto ano, opcional para os alunos que se queriam preparar melhor para o liceu. “Foi decisivo para a minha vida nas letras. Era um profundo conhecedor da língua portuguesa, um homem muito esquisito, que tinha estudado para ser jesuíta, todo ele era jesuíta”. Pelo meio o escritor contextualiza a dificuldade que era, para os miúdos de Macau, com forte influência da língua chinesa, aprender o português que vinha do outro lado do mundo. O drama do jovem Senna Fernandes eram os verbos, com todos os imperfeitos, perfeitos e mais-que-perfeitos que a língua exige na conjugação. “Aprendi os verbos à força, na terceira classe”, recorda. Verbos mais ou menos dominados, a prosa vem pela influência do tal professor, através das redacções.
“Ele tinha um livro chamado Leituras Morais, em que se exaltavam as virtudes e se carregava nos defeitos. Pegava no livro e contava uma história, lendo. Tínhamos que reproduzir a historia à nossa maneira.” A redacção que mudou a forma de olhar as palavras era sobre a inveja. “Escrevi e entreguei. Eu era um dos melhores a português, lia muito desde pequenino, o meu pai incutiu-nos o gosto pela leitura”, explica. Quando viu os traços a vermelho – alguns verbos ainda por apurar – veio a desilusão, que passou, no entanto, depressa. E isto porque, conta, o professor gostou, disse-lhe que ele “tinha ideias, continua”. Foi a “palavra mágica”, que o deixou “radiante”. “Fui para casa, contei aos meus pais, mostrei, fiquei muito contente”. O professor “disse que era preciso ler muito e comecei a ler ainda mais do que lia”.
Os anos que separaram a quinta classe ao encontro no rés-do-chão do liceu foram mais de leituras do que de escritas. Ao primeiro volume, que não foi publicado, “nem podia, era muito infantil”, escrito com 17 anos, seguiram-se muitos, “uns dez no tempo do liceu”. Se o primeiro foi obra de uma paixão, os que se seguiram foram uma fuga à realidade. “A guerra começou na Europa em 1939 mas chegou ao Oriente em 41, quando os japoneses atacaram Hong Kong,” enquadra Senna Fernandes. “O meu pai perdeu a fortuna toda que tinha, ficámos praticamente na miséria. Mas uma coisa foi legada pelos nossos antepassados: um imenso orgulho, que vem da educação que recebi, o orgulho de esconder a miséria e o sofrimento”. E assim foi fugindo para os livros, escrevendo histórias. “Tinha como leitoras as minhas irmãs”.
Seguiu-se Coimbra, os tempos da universidade. As histórias acompanharam-no, arquivadas num baú, que foi para Portugal e voltou para Macau. Destes primeiros escritos, não sobram vestígios. “O baú foi para o meu primeiro escritório, na Avenida Almeida Ribeiro. Deu-se na vizinhança um incêndio e os bombeiros regaram as casas todas, o prédio que ardeu foi o vizinho mas os edifícios eram velhos, a água entrou no meu escritório de tal ordem que o telhado desabou. O baú apanhou água. Quando fui tirá-lo, bem como os livros que lá estavam, já não se aproveitava nada”.
Outras histórias viriam a ser escritas – as que foram publicadas e que inscreveram Senna Fernandes na literatura lusófona. Se nos tempos de Portugal os escritos eram sobre “um Portugal mítico, que não tinha visto ainda”, nos textos redigidos em Macau o amor volta a ser o tema principal. O profundo conhecimento da terra onde nasceu, os passeios com o pai pelas várias cidades que Macau sempre foi, servem de mote a contos e romances, como a história de A-Chan, a tancareira que se apaixonou e teve um filho demasiado louro para ser possível esconder a origem do progenitor. “A A-Chan é, em parte, fruto da imaginação, mas fisicamente existiu”, conta, “porque eu vi-a”. Uma das personagens centrais de “A Trança Feiticeira”, A-Leng, também era real, “era tão bonita”. Adozindo, que com A-Leng vive o amor proibido, “é uma mistura de muitas pessoas, com traços de uns e de outros”.
Nos livros de Senna Fernandes encontram-se, espelhadas nas histórias de amor, as diferenças sociais e preconceitos da época, em que amores vividos entre etnias distintas “eram complicados”. Em Hong Kong “era pior, havia a elite, as pessoas a que hoje chamam eurasianas eram muito discriminadas”. Como a Maria Marinheiro de Macau, filha de um marinheiro que abandonou a descendente, “bailarina de um cabaret que existiu no Porto Interior, chamado O Gato Preto, uma rapariga linda, uma chinesa com traços europeus”, personagem de uma história que o escritor ainda quer passar para o papel.
De regresso às personagens que já ficaram para a história, Henrique de Senna Fernandes explica o processo de construção dos actores dos seus livros. “Fisicamente as personagens existem, ou eram misturas de várias pessoas, depois deixa-se correr a imaginação. Certos factos eram retirados da vida de Macau daqueles tempos”. Uma vida muito mais calma, entre festas em enormes casarões e passeios pelos bairros da cidade, porque o escritor espreitou tudo. De “Amor e dedinhos de pé”, revela a inspiração para a construção de Victorina Vidal, a donzela que não obedecia aos padrões de beleza da época. “Existiu e ela própria sabe que é ela,” ri-se.
A carga autobiográfica também está lá, “pela forma como se sentem as coisas” que surgem nos livros. O Adozindo de “A Trança Feiticeira”, jovem que, por amor, perde a vida confortável que tinha, é a personagem que tem mais de Senna Fernandes, confessa, pela “sua desgraça, porque eu senti muitas vezes o que é a pobreza”.
Do passado para o presente. Henrique de Senna Fernandes tem 83 anos e continua a escrever, embora sem obra que planeie editar em breve. Um manuscrito em que ressuscitou algumas personagens de “Amor e Dedinhos de Pé” perdeu-se “no antigo escritório, no meio daquela papelada toda”. Há um outro livro, “faltam poucos capítulos para acabar mas eu já o estraguei”. Há que o deixar respirar e depois logo se vê, mas fica desde já a fórmula e o conselho: “Pego num papel e escrevo, o primeiro jacto é sempre muito lacunoso, mas é preciso ter aquela base. Depois começo a construir. No entanto, a minha experiência diz-me que não se deve demorar muito a tentar melhorar, porque acabamos por, no fim, estragar o livro”.
Henrique Senna Fernandes diz sentir “um isolamento em Macau” e adivinha-se muita prudência à publicação dos seus escritos actuais. Uma história passada há coisa de dez anos, que diz recordar sem mágoa, está na origem da desmotivação. “Uma das coisas que me quebrou o ritmo foi quando pensei em concorrer com o ‘Amor e Dedinhos de Pé’ a um prémio em Portugal. Numa conversa em Lisboa alguém me disse que dificilmente poderia ser considerado um escritor português, eu sei que quem o disse não teve a mínima intenção de me ofender, foi com boa fé”. Na altura riu-se do comentário, mas não concorreu. Para o então septuagenário que tem Portugal catalogado como “a Pátria e Macau a Mátria”, ficou a certeza de poder dizer que “sim, sou um escritor de Macau”, numa terra pouco pródiga em matéria literária local.
Para o fim fica o amor, o regresso ao amor. Senna Fernandes contempla a beleza com modos de outros tempos, em que “as paixões eram terríveis”, o olhar sorri quando percorre as memórias das mulheres bonitas, dos amores que teve, de outros que imaginou. A história de amor dos 17 anos, a que deu origem à inspiração e ao primeiro volume, teve um segundo capítulo, o final necessário para a vida em paz. Tanto ele como ela já estavam perto dos oitenta, quando finalmente conversaram e compreendeu “perfeitamente os erros” que fez “e, se calhar, ela também”. E porquê o amor, porquê sempre presente? A resposta dá-se em duas frases, de tão simples que é. “O amor e o sexo têm uma influencia enorme na vida de uma pessoa. Praticamos erros imensos, outras vezes é a redenção”.

Texto de Isabel Castro e foto (esta última) de António Falcão – in Tai Chung Pou a 30-09-2007

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