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Reprodução de depoimentos sobre a vida e a obra de HSF em diversos jornais de Macau.
Capa do jornal Hoje Macau 5-10-2010 que dedicou a HSF um suplemento especial. Fotografia de António Falcão
Jorge Rangel, Presidente do Instituto Internacional de Macau

“É uma referência importantíssima que a comunidade macaense acaba de perder. Como professor, escritor, homem público, dinamizador cultural, advogado e mestre de gerações de jovens de Macau, será lembrado como uma das personalidades maiores da história da comunidade macaense”.
Leonel Alves, deputado e membro do Conselho Executivo da RAEM
“Com a morte de Henrique de Senna Fernandes não fica uma comunidade mais pobre, uma literatura mais pobre, uma história viva mais pobre. Macau fica mais pobre na medida em que o Dr. Henrique foi um Homem de referência para vários sectores sociais de Macau, dados os valores humanistas e de multiculturalidade que sempre defendeu e divulgou de forma aberta, sincera e convincente. Os valores que, afinal, são os valores de Macau. O seu legado ultrapassa os livros, a advocacia, o ensino ou a intervenção sócio-política. O seu espírito de Homem das letras e cultura, de amor a Macau e às suas gentes continuarão a ser uma importante referência para muitos que com ele tiveram oportunidade de conviver e de aprender, quer nas escolas e nos tribunais, quer nas tertúlias e nas actividades cívicas, ao longo de várias décadas.” 
António Conceição Júnior
“Alguém disse que morrer é não mais ser visto. Não subscrevo, mas respeito. Henrique de Senna Fernandes não morreu. Não será visto na forma a que nos habituámos a conhecê-lo. Persistem os seus livros, e a Memória, algo que se situa numa inatingível geografia sem coordenadas palpáveis, e que, para mim, se configura numa obscuridade onde se repetem, em planos paralelos, todas as histórias e estórias de Macau.”

Celina Veiga de Oliveira, Investigadora e editora
“Despedi-me de Henrique de Senna Fernandes em 2009, quando estive em Macau, entre Março e Maio, a trabalhar com a equipa do Albergue da Santa Casa da Misericórdia na homenagem a Carlos d’Assumpção. Henrique de Senna Fernandes era como aquelas pessoas de família de quem se sente saudades diárias e por quem se pergunta sempre como estão. Soube que estava hospitalizado e com a saúde muito debilitada. E fui com a Fátima Cid, recém-chegada a Macau, vê-lo e abraçá-lo ao Hospital de S. Januário. O Dr. Henrique, apoiado em duas senhoras do hospital, chegou ao pé de nós feliz, risonho, cheio de vontade de falar e de pôr a conversa em dia. Mas, dadas as circunstâncias, ouviu muito e quase não falou. Contámos-lhe todas as novidades de que nos lembrávamos, falámos de amigos, dos nossos tempos de Macau, de Portugal. Cada uma das suas mãos agarrava uma das nossas, com força e energia, como se quisesse transferir para elas a emoção do reencontro, como se elas pudessem substituir a voz que lhe faltava. Saímos de lá com a inquieta sensação de que, com a previsível partida de Henrique de Senna Fernandes, era um pouco de um certo Macau que partia também, um Macau que já não existe, mas que permanece vivo nas nossas memórias mais felizes, um Macau que nos aparece como o segmento jovem das nossas vidas. Falámos disso enquanto descíamos a colina. Mas felizmente que esse tempo macaense por nós vivido é o prolongamento de um outro que conhecemos através dos romances de Henrique de Senna Fernandes – vivência e conhecimento que cobrem todo o século XX, criando uma imagem de Macau que enriquece aquela que a História nos concede. E se nunca vamos esquecer a bonomia risonha do Dr. Henrique, a extraordinária capacidade de nos espevitar a curiosidade com as histórias espantosas que contava, a simpatia amável e acolhedora com que nos cumprimentava sempre que o encontrávamos, é a sua obra literária que o vai colocar no patamar raro das coisas sublimes e manter o seu nome ao lado de outros vultos da cultura portuguesa de Macau. Nam Van – Contos de Macau, Amor e Dedinhos de Pé e A Trança Feiticeira são saborosas obras de literatura que nos falam de uma cidade excêntrica, quase imaginária e irreal, justaposta e sedutora. Graças a este fabuloso legado, Macau pode sempre ser objecto de recriações, de revisitações culturais e de certezas quanto ao valor que a literatura de inspiração macaense oferece como fonte de (re)conhecimento e de (re)encontros.”

Oswaldo Veiga Jardim, maestro

“Apesar de ter sempre vivido num meio pequeno e relativamente fechado, o Dr. Henrique se destacava por ser aberto, alegre e desprovido de preconceitos. Acho que tudo isso provinha do seu jeito simples e da sua natureza sensível. Infelizmente não convivi muito com ele; porém tive o privilegio de compor a banda sonora para um filme baseado no seu romance A Trança Feiticeira. Em geral, as pessoas preferem se proteger guardando para si suas opiniões e suas verdades. Ele, ao contrário, dizia o que pensava, abertamente e sem medos. O filme estreou em 1996, num momento particularmente difícil na minha vida profissional em Macau. Algumas pessoas me evitavam pois eu estava na lista negra e não sabia. O Dr. Henrique todas as vezes que me encontrava publicamente, me abraçava comovido dizendo: “Que rapaz de talento! Como eu gosto da musica que você fez para a minha Trança!” E tornamo-nos amigos, unidos pela música que era também uma das paixões dele.
A última vez que o vi foi em Fevereiro deste ano, no hospital Conde de S. Januário. Eu tinha ido lá visitar uma pessoa amiga e encontrei-o por acaso nos corredores da urgência, também a sair, acompanhado por uma das filhas que mora no Brasil e que o levava numa cadeira de rodas. Tinha passado mal e estivera lá algumas horas em observação. Já não conseguia falar, estava muito magrinho, mas mesmo assim me reconheceu. Notei que apesar da doença que o martirizava, ele mantinha os olhos muito vivos e brilhantes. Esboçou um sorriso como se nada se passara, e pude ver por detrás dos óculos aqueles olhos se emocionarem, como se quisessem falar comigo do mesmo jeito de sempre, com a mesma alegria, com a mesma amizade e com o mesmo carinho. Vai deixar um enorme vazio e muita saudade em todos nós.”
Isabel Castro, jornalista
“Com Henrique desaparece a arte de contar histórias de Macau, de fixar a cidade e os seus tempos. Desaparece também aquele encanto e a gentileza que já não se usam, que é raro encontrar. Há dias que não se esquecem e ontem foi um deles.”

Capa do suplemento especial do jornal Ponto Final – Ilustração de Victor Marreiros
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