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O último adeus a Henrique de Senna Fernandes aconteceu este fim-de-semana com as exéquias fúnebres que levaram muitos dos residentes de Macau a deslocarem-se à igreja de São Lázaro e à Sé Catedral para uma homenagem sentida ao escritor macaense. Um dos testemunhos que solicitei  para o Blog sobre HSF  a pessoas que o conheceram de perto foi Rodrigo Leal de Carvalho.
Fechada a última página da capítulo vida, é preciso começar desde já delinear e efectivar o perpetuar da sua memória e o honrar do seu legado. É este o grande desafio e responsabilidade que se coloca a todos em Macau, governantes e governados, chineseses, macaenses e portugueses. Estátuas, nomes de rua, seminários, bolsas de investigação e, acima de tudo, uma marca na História de Macau que é preciso ensinar aos jovens.
Por mim, vou fazendo o que posso, casos da publicação de testemunhos que passaram ao lado da imprensa local…

HENRIQUE E EU

A notícia da morte do Henrique de Senna Fernandes apanhou-me de chofre. Abalou-me forte e relembrou-me que também eu estou já na linha da frente para a grande viagem; mas teve o mérito de me trazer à memória dias passados cuja recordação o tempo, esse comparsa cruel e inabalável de todos nós, ia fazendo esquecer.
Quando, há mais de 50 anos, passageiro do ferry Tai Loy, desembarquei pela primeira vez em Macau como jovem delegado do procurador da República, o Henrique, então substituto nomeado e em exercício nesse cargo, estava à minha espera, com outros profissionais do foro, na Ponte-Cais nº 16, ao Porto Interior. E a partir de então desenvolveu-se uma saudável amizade, alimentada pela convivência profissional e, mais ainda, por uma afinidade de interesses que até então raramente tinha encontrado nas minhas deambulações por esse mundo de Cristo e do Império: para além das questões profissionais, o mesmo gosto pela literatura, pelo cinema, pela História e pela vivência de um passado de Macau que eu não vivera mas que falava alto à minha imaginação de romancista (então apenas em potência ), e até pela saborosa culinária local, alimentavam largas horas de amena cavaqueira, no meu gabinete, na mesa do Solmar ou até no seu gabinete, ali à Almeida Ribeiro, mesmo na esquina com uma Travessa de cujo nome já me esqueci.
Foi ele quem me abriu o álbum de recordações macaístas que ainda hoje folheio com saudade. Com a sua generosidade tipicamente macaense, abriu-me as portas da sua casa – vivia então e ainda na casa dos pais, (pessoas encantadoras de quem me tornei amigo por direito próprio), na Rua da Penha da cidade cristã – e me iniciou em inúmeras histórias reais ( ou porventura temperadas pela sua viva imaginação de romancista, já então sobejamente revelada em livros publicados: “A-Chan, A Tncareira”, ou a publicar: “Amor e Dedinhos de Pé” e a “A Trança Feiticeira”.
Mas ainda mais do que estes romances, objecto depois de tratamento cinematográfico em fitas do mesmo nome, encantaram-me as crónicas regulares que escrevia para o então “Notícias de Macau”: críticas de filmes, pequenos estudos sobre escritores que eu também tinha lido, recordações da guerra do Pacífico, ou de um passado macaísta que eu não vivera, mas com tão vívida nitidez que me parecia perceber-lhe a cor, os cheiros, os ruídos e os sabores de Macau, a minha pátria de adopção.
Por tudo isto – e por muito mais que as escassas linhas deste “ad memoriam” me não permitem alargar – estou-te, Henrique, muito grato e saudoso. Para toda a família – e em particular para o Miguel, seu primogénito – a minha amizade e as minhas sinceras condolências.
Rodrigo Leal de Carvalho
RLC é Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, na situação de jubilado. Nascido em 1932 nos Açores, viveu em Macau entre 1959 e 1999 (com pequenos interregnos).
A sua faceta de escritos levou-o a escrever até hoje oito livros onde Macau está sempre presente: Requiem por Irina Ostrakoff (1993) ; Os Construtores do Império (1994) ; A IV Cruzada (1996) ; Ao Serviço de Sua Majestade (1996) ; O Senhor Conde e as Suas Três Mulheres (1999) ; A Mãe (2000) ; O Romance de Yolanda (2005) ; As Rosas Brancas do Surrey (2007).
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