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Camarada de profissão (e com quem tive o prazer de trabalhar), o João Guedes (jornalista e investigador) estreou-se há alguns meses no mundo dos blogs com o seu “Tempos do Oriente” de onde por vezes reproduzo aqui com a devida autorização alguns dos seus artigos. Para além dos vários livros que tem escrito sobre temas menos conhecidos da história de Macau há vários que escreve semanalmente nas páginas do Jornal Tribuna de Macau uma página tb dedicada à história do território. Pessoas como ele deveriam ser mais apoiadas para que os temas que investiga vissem a luz do dia em forma de livro. 
Porque a homenagem é mais do que merecida, reproduzo artigo sobre a vida e obra de João Guedes publicado na edição em português do jornal Tai Chung  Pou a 29 de Janeiro de 2008. O texto é de Isabel Castro a fotografia de António Falcão.
O investigador presente do passado
São duas vidas completamente distintas, como se fossem as de dois homens, com Macau a marcar o fim de uma e o início de outra, em tudo diferente. Ou então não: a vinda para o território só alterou o método e o objecto. Ninguém pode ser quem não é e João Guedes transportou os hábitos e capacidades para um novo meio.
Já lá vão 27 anos desde que deixou de ser investigador criminal para passar a vestir a pele do jornalista. A verdade é que “o jornalismo é muito parecido, há muita investigação”. Hoje em dia, não tanta quanto gostaria, que a velocidade do tempo não o permite. É o jornalismo do quotidiano que faz os dias. Mas a investigação está lá sempre, de uma forma ou de outra.
Nascido na região de Lamego, há quase três décadas no território, João Guedes, jornalista da Teledifusão de Macau desde o início das operações da televisão, autor de vários livros, apaixonado por literatura e história, sente-se mais daqui do que de outro local qualquer. “É interessante, acaba-se por se gostar de Macau… e ao fim destes anos todos perde-se muito a ligação a Portugal”, sorri. “Vou lá todos os anos, mas é um país que já não tem muito a ver comigo. Tenho a família toda aqui, de modo que Macau é a minha pátria”, abrevia, com uma gargalhada.
Foi precisamente por questões familiares que se mudou para Macau. Para trás deixou a carreira de investigação criminal na Polícia Judiciária, que o levou a passar por Paris e Inglaterra. Em 1981, pediu uma licença ilimitada, que lhe foi concedida. Começava então a segunda vida, a de Macau.
O Gabinete de Comunicação Social era o destino à chegada. “Na altura, estava a formar-se a televisão e fui convidado para integrar a TDM. Estive dois ou três anos na rádio, depois passei para a televisão.” Contam-se um ano na Tribuna de Macau, um período no Correio de Macau e colaborações com outros jornais. Mas o território é significado de televisão, muita televisão.
“Colaborei no lançamento do novo figurino da informação, juntamente com Judite de Sousa, Fernando Maia Cerqueira e José Alberto de Sousa”, conta. “Em 1984, passei a apresentar o resumo da informação na televisão, segmento de notícias emitido, então, diariamente às 18 horas.” Um ano depois, chegava a apresentação do telejornal. Em 1987, começou a dirigir a informação da TDM. Treze anos depois, foi nomeado director de informação e programas portugueses. Desde Junho de 2005 que é assessor da informação para os canais portugueses de rádio e televisão.
Pelo meio, perde-se o número às entrevistas a nomes sonantes da política e da história, umas quantas viagens, programas e documentários sobre questões tão diversas como a presença de Camões em Macau, a história portuguesa no Japão e a vida no final da década de 1980 na Coreia do Norte. Ao trabalho na TDM junta o de correspondente, tanto de televisão como de imprensa, com colaborações para Agência France Press, a revista Sábado, o Hong Kong Standard e o Expresso, entre outros. Foi correspondente da CNN e da portuguesa RTP.
João Guedes tem uma ligação forte à forma de comunicação que a televisão assume, mas gosta também de rádio. “E gosto essencialmente de escrever”, sintetiza. E é aqui que entram os livros e que a capacidade de investigar encontra espaço para fugir aos limites que o jornalismo do quotidiano impõe. Quando chegou a Macau, descobriu que havia muito para descobrir. “As pessoas passavam por aqui um ano ou dois, a história ia-se esquecendo”, conta. “Lembro-me que, quando cheguei, encontrei temas que não fazia ideia sequer que existiam e só as pessoas mais velhas se lembravam de ter ouvido falar.” Depois, havia também os assuntos “tabu”, como o “1,2,3”. “Ninguém falava disso, acabei por escrever sobre o tema. O mesmo se passou com os conflitos de 1922, que já tinham caído no esquecimento.”
João Guedes escreveu sobre temáticas variadas, sempre com os séculos XIX e XX a servirem de enquadramento, e é o autor de um livro sobre uma questão sensível que nenhum escritor de língua portuguesa tinha, até então, abordado: as seitas. “Tive contacto com as seitas de Macau quando estava na Polícia Judiciária em Portugal”, recorda. “Quando cheguei aqui fascinou-me esse mundo. Tinha bons contactos na polícia, fui investigando a história e reparei que não havia nada em português sobre as seitas.” E assim escreveu livro “As Seitas – Histórias do Crime e da Política em Macau”, obra que aborda as associações secretas chinesas em Macau desde inícios do século XIX até 1978.
“Não é um trabalho muito profundo, mas foi o primeiro a aparecer em português. A bibliografia em inglês é extensíssima, mas em português só havia alguns artigos de jornal e um ou outro livro muito antigo que fazia referências às seitas”, analisa. O tema é “fascinante”, porque se trata de “um mundo de facetas, de aparências, de coisas que não se conhecem e, por isso, muito interessante de investigar”, sendo que continua a despertar interesse ao investigador que pediu licença ilimitada para ser jornalista em Macau. “Ainda hoje vou guardando coisas sobre as seitas mas não tenciono escrever mais nada sobre o assunto.”
Sobre outras questões João Guedes poderá ainda escrever mas, diz, está numa fase de “pouca produção literária”. No computador vão-se guardando textos mas não existem datas nem metas para cumprir. É o tempo que corre demasiado depressa e deixa poucas horas do dia para a pesquisa, trabalho do qual sente saudades, quer no papel de investigador, quer enquanto jornalista.
Macau tem pano para mangas para quem se interessar por história. E porque não o presente, investigar o que se passa agora? “Não acho que tenha grande interesse, mais a mais porque é difícil discernir as coisas, está tudo a acontecer muito depressa. Ao se escrever sobre o que se passa hoje corre-se o risco de dizer asneiras”, atira. É que Macau é um enigma.
“Não é possível conhecer Macau”, diz. Os 27 anos de residência a Oriente não acabam com a capacidade de ser surpreendido. “O território tem uma população flutuante muito grande, esta sociedade está em permanente mudança, ainda mais agora com os novos casinos e esta americanização, que traz coisas novas, forma movimentos diferentes”, analisa. “O quotidiano altera-se. Macau está hoje radicalmente diferente do que era antes de 1999, em todos os aspectos.”
Por uma questão de nostalgia, João Guedes “gostava mais do Macau antigo”, mas não vira as costas ao momento presente. “Não tenho nada contra este desenvolvimento. Acho que se está a desenvolver o melhor possível dentro dos condicionalismos que tem, porque Macau é uma cidade pequena e tem investimento a mais.”
É este desenvolvimento que faz com que o trabalho do dia-a-dia continue a ser “aliciante”. “Macau está numa nova fase, em que acontecem muitas coisas, é interessante ir acompanhando, continuam a acontecer coisas que não esperava.” Ao final de tantos anos, a cidade continua a surpreendê-lo. “Quanto mais conheço Macau, mais surpresas acontecem”, constata.
O jornalista que divide o seu tempo entre a televisão e os livros (os seus e os dos outros) descobriu que gostava de escrever ainda em adolescente, quando começou a ser redactor da revista do colégio onde estudou. Tinha uns 13 ou 14 anos e era colaborador da revista “Contr’O Vento”, publicação que acolhia artigos de escritores externos. “Alguns, como Frias dos Santos, eram apenas conhecidos a nível regional. Outros, como António Quadros e Aquilino Ribeiro, eram universalmente reconhecidos e dignavam-se inserir artigos nessas páginas.” Agora, “mais de quarenta anos passados, a honra que tal significa mais se me afigura importante”, diz. “Era um miúdo a redigir artigos tolos e eles os grandes escritores que escreviam coisas sérias e importantes”.
A paixão pela literatura vem desses tempos, “em casa toda a gente lia, havia essa mania”, e embora “a escrita a sério” tenha começado só em Macau, os hábitos de leitura vêm de sempre. Não é fácil fazer a lista de favoritos; Dostoievsky acaba por surgir em primeiro lugar. “Foi um dos escritores que me marcou fortemente. São romances densos, com aspectos sociais intensos, e que ainda tinham a ver com a vida do meu tempo.” João Guedes descodifica a comparação: “Portugal, antes do 25 de Abril, ainda não estava muito distanciado da Rússia do século XIX.”
Tolstoi faz parte também das preferências, bem como “alguns brasileiros”. “Vou enchendo a minha casa de livros. Ficar com o que leio só para mim é um bocado redutor.” Às terças-feiras, João Guedes partilha as palavras que lê com os espectadores da TDM. “Conto às pessoas o que leio e do que gosto.” É a literatura sempre presente. E a eterna ligação ao ecrã.
Os livros de João Guedes
As Seitas – Histórias do Crime e da Política em Macau, Livros do Oriente, Abril de 1991.
Macau Via da Seda, Missão de Macau em Lisboa, 1992.
O Sortilégio de Macau, com fotografias de António Conceição Júnior (inédito)
Laboratório Constitucional, Livros do Oriente, IPOR, 1995
História do Desporto em Macau, Inédito (Aguarda publicação).Instituto  Desportos de Macau, 1995.
Duas Instituições Macaenses (1871–1878–1998) parceria com José Silveira Machado. APIM, 1998
Dicionário da História de Macau (em fase de publicação),Inst. Estudos Portugueses Universidade de Macau.
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