>

Uma tese de doutoramento sobre o patuá, que será apresentada nos próximos dias, envolveu trabalho de campo em Vancouver e São Francisco, onde reside o maior grupo de falantes. Muitos deles são idosos e a UM quer documentar o seu legado.
Existem casais de idosos que, no seu dia a dia, comunicam entre si em patuá. Mas não estão em Macau. Mário Pinharanda foi encontrá-los entre a vasta diáspora macaense radicada nas cidades de São Francisco e Vancouver. O investigador da Universidade de Macau (UM), que irá defender uma tese de doutoramento sobre o patuá nos próximos dias, esteve naquelas cidades do continente americano, onde recolheu dados sobre o maquista, tendo efectuado gravações com pessoas que o falam fluentemente.
A recolha sócio-linguística faz parte da pesquisa realizada no âmbito da tese de doutoramento daquele investigador, que se intitula “Estudo da expressão morfo-sintáctica das categorias de tempo, modo e aspecto em maquista”. A tese aborda as variações nas formas de falar crioulo macaense ao longo dos tempos, incluindo uma comparação com o kristang, de Malaca.
Os registos recolhidos deverão “funcionar como base de dados para futuras pesquisas e também para a comunidade em si”, segundo explica Pinharanda. As gravações foram captadas apenas em áudio, mas o áudio-visual deverá ser o momento seguinte da investigação. A documentação imagética torna-se mais pertinente dada a idade da população em causa: “Temos que ser rápidos, eu trabalhei com pessoas na faixa dos oitenta, noventa anos. Na véspera de eu chegar a Vancouver tinha falecido um informante com 107 anos, eu ia muito entusiasmado para o conhecer”, comenta o investigador, que está radicado em Macau desde 1997.
Os macaenses que Mário Pinharanda foi encontrar no Canadá e nos Estados Unidos são, sobretudo, provenientes da comunidade de Hong Kong. Trata-se de pessoas que saíram de Hong Kong nos anos sessenta e que já estão na América há cerca 40 anos. Apesar disso — ou talvez por causa disso – mantêm o patuá em contexto familiar, de uma forma bastante viva. Os dados recolhidos junto das Casas de Macau indicam que a maior comunidade de macaenses residirá na baía de São Francisco.
Com o andar do tempo, torna-se prioritário registar a herança destes macaenses, constituída por elementos como diários, livros de receitas e cartas. Mas, para isso, será necessário que os estudiosos tenham a possibilidade de passar mais tempo entra a comunidade, argumenta Pinharanda: “É preciso a pessoa ter um contacto prolongado com a comunidade, que não foi o caso, eu fui por uma semana, o projecto era assim e não permitia mais. Futuros investigadores têm que ter um projecto que lhes permita uma maior permanência. Até porque as pessoas não vão, de um dia para o outro, disponibilizar as cartas pessoais e coisas assim. Mas era fantástico que as várias comunidades começassem a pensar no sentido do legado, para quem cá fique”.
Os falantes de patuá pertencem a uma “geração bastante mais velha”, sendo que os filhos dessa geração “já pouco falam”, caracteriza o investigador: “Nas entrevistas que lhes fiz iam sempre ‘bater’ nessa questão da perda da língua e das tradições. Por outro lado, achei, estando inserido no contexto norte-americano – onde há tantos grupos minoritários linguísticos e onde há um grande incentivo para manter associações – que há uma camada jovem de macaenses, já nascida lá, e que é muito activa nas associações.”
BOLSAS PARA MALACA. Alan Baxter reconhece que há falantes de patuá, mas que estes não estão em Macau. “Com plenas funções linguísticas, aqui em Macau há cinco pessoas. Há depois muitas outras pessoas que sabem alguma coisa e que conseguem comunicar. Onde há falantes funcionais em maior número é em São Francisco e Vancouver”, revela o director do Departamento de Português da UM.
Com o patuá “à beira da extinção”, Alan Baxter considera que o que lhe acontecerá “vai depender da comunidade, dado que os especialistas podem dar conselhos, mas a própria comunidade fará o que bem quiser com a sua língua”. O responsável valoriza a iniciativa de conseguir a classificação por parte da Unesco do maquista como património imaterial da humanidade: “Acho interessante e poderia fornecer os meios para dar alguma continuidade simbólica ao patuá. O patuá não será reactivado como uma língua com funções plenas, mas pode ser reactivado no sentido simbólico, com mais presença, mais participação por parte dos jovens. Se entre os jovens houvesse um interesse para falar fluentemente o patuá, a sugestão que venho propondo há quase dois anos é que poderíamos criar umas bolsas e mandar alguns jovens a Malaca por uns meses. No regresso, faríamos ajustes no sotaque e no léxico e teríamos alguns falantes do patuá”.
A última ligação do “Ethnologe” lista 6909 línguas, mas há estimativas que apontam para que subsistam cerca de metade no início do próximo século. Baxter argumenta que a comunidade macaense continua a “gostar do teatro e de celebrar a sua cultura, sendo o patuá é parte da cultura local” e não considera, portanto, que seja inevitável a extinção do idioma. Embora seja difícil que venha a ter outro destino: “No século XXI, é cada vez mais inevitável [essa extinção], mas as minorias podem manter as suas línguas e podem utilizar outras línguas para o funcionamento sócio-económico. É uma questão de vontade, mas a língua precisa de funções e a comunidade tem que compreender como é que funcionam os factores condicionantes que vão afectar negativamente a língua, ou de maneira positiva, para aproveitar os efeitos positivos. A língua minoritária não tem de desaparecer, há muitos exemplos no mundo de línguas minoritárias bem conservadas em situações multilingues,” analisa o académico australiano.
Artigo da autoria de Paulo Barbosa publicado no Jornal Tribuna de Macau a 18-10-2010
Anúncios