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Nascido em Macau em 1923, Henrique de Senna Fernandes sempre se orgulhou de ser um dos poucos habitantes de seu país – colonizado pelos portugueses durante séculos e que só em 1999 passou novamente ao domínio da China – a fazer literatura. Nesse círculo intelectual praticamente inexistente, que pouco contribuía para a divulgação de seus autores, Senna Fernandes destacou-se e sua literatura ultrapassou as fronteiras do pequeno país. No Brasil, a editora Gryphus lançou “Nan Van”, “Amor e dedinhos de pé” e mais recentemente “A trança feiticeira”. O escritor morreu no início de outubro, depois de um longo período de doença. A entrevista a seguir foi feita por Miguel Conde há vários meses. Por conta do seu estado de saúde já frágil, o autor demorou a responder e a conversa acabou não sendo publicada na época.
Quando o senhor começou a escrever? Sempre escreveu em português?
Comecei a escrever desde os meus onze anos e sempre em português, pois embora em Macau a comunidade portuguesa local entendesse o chinês (ou melhor, o dialecto de Cantão), não o domino a ponto de me exprimir nessa língua. Foi sempre em prosa, sob forma de contos. Cheguei a publicar nos anos 40 do século passado no semanário diocesano “O Clarim” três contos, infelizmente não fiquei com nenhuma cópia.
Que autores de Macau estiveram entre suas primeiras leituras? E autores brasileiros?
Os autores macaenses foram sempre muito esporádicos. Em Macau nunca houve condições para desenvolver uma verdadeira literatura macaense. A pequenez do território e, por conseguinte, da comunidade portuguesa, aliada ao facto de Macau ter uma parca importância para Portugal, não proporcionava a existência de uma comunidade literária. Por isso, as minhas leituras não começaram com autores locais. Sempre tive uma admiração pelos autores brasileiros. A forma ‘despreendida’ de se escrever português, quase como brincando com a língua de Camões, pondo e dispondo das suas palavras, deram-me uma visão completamente diferente do que ela pode ser, levando-me à sua autêntica redescoberta. Machado de Assis, Erico Verissimo, Gilberto Freyre e Jorge Amado marcaram presença nas minhas leituras.
Escrevendo em português num pequeno país ao lado da China, o senhor se sente de alguma forma solitário?
Sempre me senti solitário nessa senda da escrita em português, na Ásia. A falta de incentivo e a indiferença do público desencorajavam sobremaneira quem tivesse o sonho de cingrar pela escrita. Atrevo-me a dizer que escrever em português neste canto do mundo é puro desporto, que só a paixão o pode justificar. Quem tenha pretensões para voos mais elevados, a escrita em português não lembraria o diabo! Mas a verdadeira solidão está no facto de não haver uma literatura portuguesa, na acepção mais comum da palavra. Existiram sempre escritores em língua portuguesa, mas em Macau nunca houve uma comunidade literária portuguesa. Os livros que se leem em Macau são de autores oriundos do exterior. Durante a administração portuguesa houve uma actividade editorial mais intensa. Não obstante ter havido publicação de obras de natureza vária, estava-se longe de se falar de uma literatura macaense. Neste ambiente, escrever é penosamente solitário. O que vale é a paixão e a persistência em construir o meu espaço, o meu mundo, em que eu me sinta plenamente realizado.
O fato de tematizar com frequência casos de amor entre macaenses e chinesas fez com que o senhor sofresse algum tipo de censura?
Talvez. Há que entender que em Macau, não obstante a administração portuguesa ter perdurado durante séculos, as comunidades chinesa e portuguesa em regra não se misturavam. Viviam paredes meias uma com a outra, mas o cruzamento das gentes era tabu, quer para uma, quer para a outra. Tendo eu nascido no seio de uma comunidade católica e muito conservadora que foi a comunidade macaense luso-descendente, não era fácil abordar o tema de amor entre macaenses e chinesas. E de certa forma fui censurado. Todavia, isso não me demoveu, antes, pelo contrário, me incentivou a apaixonar-me por este tema, pois, contra tudo e contra todos também eu me casei com uma chinesa.
Como a transferência de Macau para administração chinesa mudou a vida dos macaenses?
A transferência trouxe mudanças para a comunidade portuguesa de Macau. De um modo geral, não se pode queixar muito. Se historicamente o luso-descendente tinha um papel de intermediário entre chineses e portugueses, com o retorno de Macau à República Popular da China o seu papel adquiriu um cunho diferente. O macaense (luso-descendente) é um tradutor nato, característica que continua a manter. Todavia, agora ele é instrumento vivo para a aproximação da Grande China aos países lusófonos, entre os quais se destaca o Brasil. A administração chinesa em Macau soube ao longo desses dez anos manter o espaço natural da comunidade portuguesa e dar voz às suas manifestações culturais. Nesse aspecto, apesar de as mudanças poderem ser do desagrado pontual de alguns, elas revelaram-se benéficas para a comunidade.
Qual o atual estado da literatura em língua portuguesa em Macau? Há muitos outros autores escrevendo em português?
Infelizmente, há poucos que escrevem em português aqui em Macau. E há muito que não se realizam lançamentos de obras de autores locais. Não existe uma comunidade de escritores em língua portuguesa de Macau, o qual por isso mesmo torna parca ou mesmo inexistente uma literatura macaense, com todo o respeito por todos os que, como eu, fazem da pena a sua sublime paixão.
O senhor pretende aderir às normas do acordo ortográfico da língua portuguesa? O que pensa dessa meta de padronização da ortografia da língua?
Ainda não me sinto atraído pelo fulgor da “unificação” da língua. Sou um ortodoxo no que respeita à ortografia. Não menosprezo a utilidade da sua padronização. Há que reconhecer que os escritores de Portugal possam extrair daí algum proveito, apenas no sentido de que as suas obras possam ser apreciadas pelo grande público brasileiro, sem terem de passar pelo crivo da prévia revisão ortográfica pelas editoras do Brasil, como tem acontecido até à presente data. Quanto a mim, a língua é meu instrumento de criação e obvimente é algo com que tenho que me identificar. O português do novo acordo ortográfico não é a minha língua, e desta feita, vou mesmo ter que correr o risco de me considerar mau escritor.
in “O Globo” suplemento Prosa & Verso 25-10-2010
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