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Da autoria do reverendo Eusébio Arnaíz Alvarez; edição de 1957: Tradução do original espanhol pelo Pe.Artur Augusto Neves; impresso na Tiopografia Salesiana. Também é o autor de “A Princesa Mártir” de 1951, livro sobre Timor.
 Sé e Seminário S. José

A este propósito reproduzo artigo da autoria de António Vale, investigador da história de Macau.  Intitula-se “Macau: a porta da China”.

Os missionários idos de Macau estiveram na origem de uma grande parte das igrejas e das cristandades do Extremo Oriente. Reza a lenda que o padre Alexandre Valignano, grande impulsionador das missões da Companhia de Jesus no Extremo Oriente, ao chegar a Macau em 1578, costumava olhar para China e bradar: «Ó rochedo, rochedo, quando acabarás por te abrir?»
Curioso este grito do jesuíta para que se abrisse uma brecha por onde os missionários pudessem aceder ao interior da China. Curioso, dizia, mas também significativo, porque os chineses de Macau dão à cidade o nome de Ou Mun, isto é, a Porta da Baía, que faz a ligação com o mar. Igualmente interessante o facto de, a partir de Macau, se aceder à China, por via terrestre, através da Porta do Cerco ou dos Limites. Meras casualidades? Não há dúvida que sim, mas a História encarregou-se de lhes dar consistência, porque esta ideia de Macau como porta por onde se entra na China, se encontra expressa com frequência na documentação oficial até ao séc. XIX, frisando-se que não se podia perder Macau, porque com isso se fecharia a porta por onde entrava o cristianismo na China. E não é, certamente, por acidente que ainda hoje se continua a falar de Macau como local privilegiado para o encontro entre o Oriente e o Ocidente. No fundo, é a ideia de porta que se mantém no nosso subconsciente.
Frases feitas e mecanicamente repetidas, não passam, muitas vezes, de mera retórica, todavia a ideia de Macau como porta das missões da China não é, historicamente, destituída de conteúdo. Foi, efectivamente, a partir de Macau que, em Dezembro de 1582, entraram na China os missionários Miguel Ruggieri e Francisco Pasio para fundarem a primeira missão. Estes e todos os outros que se lhe seguiram até 1687 se dedicaram, na cidade portuguesa, ao estudo da língua e da cultura chinesa e aqui regressavam sempre que as adversidades o exigiam.
Átrio da grande casa chinesa, Macau foi cobiçada pelos missionários espanhóis e mais tarde pelos franceses. Os portugueses defenderam ciosamente o seu monopólio, mas, em 1633, os dominicanos espanhóis, idos das Filipinas, abriram mais a norte, na província de Fujian a sua própria porta para entrar na China. Macau perdeu o exclusivo e, pela porta recém-aberta entraram logo a seguir os franciscanos e os agostinhos espanhóis, mas também os franceses das Missões Estrangeiras de Paris e os jesuítas enviados por Luís XIV para a corte de Pequim.
A existência de outras portas não retirou a Macau a primazia, porque foi por aqui que entraram na China todos aqueles que, como afirmava Mateus Ricci (missionário na China de 1583 a 1610), tinham a tarefa de devastar os bosques e de afastar as serpentes e as feras para que, mais tarde, viessem outros para semear e colher os frutos. Os macaenses acompanharam os primeiros passos desta grande empresa, partilharam com os missionários a enorme esperança depositada na florescente missão nos finais do séc. XVII e assistiram, impotentes, à sua decadência a partir de 1707.
Missão cobiçada
Ditadas pela concorrência entre as potências europeias, pela rivalidade entre as ordens religiosas e pela estreita ligação entre o nacionalismo e a missionação, as prolongadas controvérsias que se instalaram entre os missionários estiveram prestes a provocar o desaparecimento das promissoras cristandades chinesas. Minada pelas dissensões e proibida pelas leis imperiais, a missão conseguiu sobreviver graças aos missionários que se aventuraram a entrar clandestinamente na China. Apesar do enorme risco, os evangelizadores continuaram a chegar, mas alguns pagaram a ousadia com a morte e muitos outros com a prisão e a expulsão para Macau. Nestas precárias circunstâncias, a cidade portuguesa continuou, ao longo do século XVIII, a desempenhar a sua função de átrio, que tanto acolhia os que insistiam em entrar como aqueles que eram obrigados a sair.
Criada em 1576, a diocese de Macau englobava, entre os seus extensos territórios, todo o Império chinês, mas, em 1690, por insistência de D. Pedro II, a Santa Sé desanexou os territórios que constituíram as dioceses de Pequim e de Nanquim. Apesar de independentes, os novos bispados continuaram a ter em Macau o centro e a base de apoio. Era a partir daqui que os jesuítas iam, habilmente, contornando os condicionalismos impostos pelo Império do Meio à missionação, conseguindo manter-se em actividade até à sua expulsão de Macau, em 1762. Com este rude golpe, a missão portuguesa na China ficou ferida de morte e teria mesmo sucumbido se os inacianos não se tivessem mantido ao lado das suas cristandades, após a supressão da Companhia de Jesus em 1773.
Os governantes em Lisboa só passados 20 anos sobre a expulsão dos jesuítas começaram a tomar medidas para evitar o total descalabro da tão cobiçada missão portuguesa na China. Aproveitando, em 1782, a nomeação do franciscano D. Alexandre de Gouveia para bispo de Pequim, o Governo português decidiu erigir, em Macau, o Seminário de S. José, destinado à formação de clero para as dioceses de Pequim e de Nanquim. Com o novo prelado, seguiram alguns lazaristas, que ficaram em Macau a dirigir o seminário e, a estes, juntaram-se outros que, em Pequim, tentaram substituir os jesuítas, tanto na evangelização como no serviço da corte.
As determinações, embora interessantes, não impediram o avanço do acelerado processo de decadência que afectava as missões portuguesas. Falecido em 1808, D. Alexandre de Gouveia foi o último bispo português de Pequim a residir na sua diocese. O seu sucessor, o lazarista D. Joaquim de Sousa Saraiva, sagrado em Macau, nos finais de 1805, aqui morreu, em 1818, sem que a porta da China se tivesse aberto para ele entrar.
Rampa para o Japão
Quando se iniciou a evangelização na China, já Macau participava desde a sua fundação, em 1557, no desenvolvimento da missão do Japão. Na cidade portuguesa residiu, desde 1568, D. Belchior Carneiro, que, em 1576 viria a ser nomeado bispo de Macau com jurisdição em toda a China, Japão e Coreia. Poucos anos vigorou esta situação, porque a grande pujança da cristandade japonesa determinou, em breve, o primeiro desmembramento do extenso bispado macaense, dando origem, em 1588, à diocese japonesa que teve a sua sé em Funai.
Com bispo próprio, a Igreja nipónica continuou intimamente ligada a Macau através dos jesuítas, que aqui mantiveram a sede da sua província do Japão. Pelo entreposto macaense, continuaram a passar todos os jesuítas destinados às missões japonesas e aqui se acolheram quando circunstâncias adversas ditaram a sua expulsão e o encerramento da promissora cristandade do Japão. Episódio traumatizante, que os moradores de Macau partilharam com os filhos de Santo Inácio com a mesma intensidade com que tinham participado no lançamento daquela que foi a mais auspiciosa das cristandades do Extremo Oriente.
Por solidariedade e por interesse comercial, os macaenses alimentaram com os missionários o sonho de regressar ao Japão. Irrealizável, como todas as utopias, a memória desse regresso perdurou até aos nossos dias cristalizada nas ruínas da Igreja da Madre de Deus, em cuja construção trabalharam os cristãos japoneses. Pelo seu lado, os jesuítas, com a esperança do milagroso regresso à sempre acarinhada missão nipónica, conservaram a denominação da província do Japão, cuja sede funcionou no Colégio de S. Paulo, de Macau, até à sua expulsão, em 1762.
Na realidade, na denominada província do Japão, os inacianos incluíam não só as missões do Império do Sol Nascente mas também todas as outras espalhadas por territórios que hoje pertencem à Tailândia, ao Vietname, à Coreia e à China. Expulsos do Japão, os jesuítas continuaram a dedicar-se a todas estas missões, que estiveram sob a jurisdição do bispo de Macau até aos meados do séc. XVII. Nessa altura, a Santa Sé erigiu os vicariatos apostólicos, retirando à diocese macaense muitos dos territórios que antes lhe pertenciam. Os embates com os novos missionários foram muitos e, por vezes graves. Os jesuítas, sempre que lhes foi possível, permaneceram nas suas missões sob a jurisdição dos novos prelados, mas sem romperem os laços que os prendiam a Macau.
Foi, portanto, por Macau que passaram todos os acontecimentos da missionação do Extremo Oriente até ao século XIX. Sob a jurisdição do bispo macaense estiveram todos os territórios que pertencem hoje às dioceses do Vietname, da Coreia, da China e do Japão. Foi ainda com Macau que a diocese portuguesa de Malaca teve uma privilegiada ligação, continuada com a anexação do território de Timor à diocese de Macau, que teve lugar já na segunda metade do século XIX. Antes, porém, desta decisão já os dominicanos destinados a Timor passavam por Macau e aqui mantiveram no início do séc. XIX um centro para formar missionários destinados às missões timorenses.
O padre Manuel Teixeira, sacerdote de Macau, que publicou 16 volumes sobre a história do seu bispado, gosta de salientar que a diocese de Macau foi a mãe de todas as igrejas do Extremo Oriente. Com menos ambição, podemos, no entanto, afirmar que foram os missionários idos de Macau que estiveram na origem de uma grande parte das cristandades do Extremo Oriente. Esta gesta, composta por capítulos gloriosos e por outros menos edificantes, continua em grande parte a ser ignorada, mas seria importante conhecer melhor esta faceta de Macau, porque, afinal, a cidade foi muito mais do que o local privilegiado para o jogo e os negócios fáceis.

in Revista Além Mar, Dezembro, 1999

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