>

“Ano próspero e feliz”
O actual contrato de concessão da Livraria Portuguesa de Macau termina no final deste ano e são dois os cenários possíveis: o espaço volta a ser gerido pelo IPOR ou continua nas mãos de gestão privada após um novo concurso de concessão do espaço. No Verão passado o Presidente do IPOR afirmava existir “muita gente interessada”. Na mesma entrevista a um jornal local, o “Ponto Final”, Rui Rocha disse ainda que “quando o euro está elevado, a situação é complicada. Acho que a actividade livreira em Macau, pelo volume de vendas, não é uma actividade que se possa dizer lucrativa”. E eu pensei… E há interessados? Alguém conhece o caderno de encargos?
Para ajudar a pintar o ‘quadro’ reproduzo as palavras do ainda responsável pela livraria, Aloísio da Fonseca, ao mesmo jornal há algumas semanas atrás. “De 1998 a 2003, houve uma média de 632 mil patacas de prejuízo por ano. Era necessário controlar os stocks e conseguimos, era necessário encurtar distâncias e conseguimos. Vinte e nove por cento daquilo que é vendido são livros de Macau, consignados, 71 por cento são livros importados de Portugal. Desses, 60 por cento esgotam-se no manual escolar e no livro de Direito. O restante é o Hélder, o António e o João que entram na livraria e compram. Por estes números, imagine qual é o universo de clientes particulares que a livraria tem… Isto para lhe dizer que a nossa preocupação de 2003 esgotou-se. A livraria está equilibrada para que o IPOR pegue nela ou a concessione. (…)”
É, portanto, esta a realidade que se coloca no futuro. Pois bem, eu, que não percebo nada disto, mas que nutro uma especial preocupação com o futuro de Macau (e já agora com o passado…), não ficaria bem com a minha consciência se não dissesse publicamente o que me vai na alma. O futuro da Livraria Portuguesa em Macau não passa por uma livraria!
Feita a declaração de intenções, importa referir a declaração de interesses. Não sou gestor, editor ou livreiro, e a única coisa que me liga à actual gestão – de Aloísio da Fonseca da sociedade AF Amagao Publicações desde 2003 – é o facto de ter lá à venda, em regime de consignação, alguns exemplares do livro que escrevi há uns anos, o “Liceu de Macau 1893-1999”.
Na Livraria Portuguesa em 2009 aquando da apresentação do livro a convite do Jornal Tribuna de Macau
Importa ainda dizer que o meu conhecimento da realidade de Macau é um saber difuso e filtrado pela distância dos oceanos e de alguns milhares de quilómetros. Nas linhas que se seguem vou tentar demonstrar que tipo de tipo de livraria portuguesa Macau necessita para o futuro.
A expressão que dá título a esta prosa é retirada da publicidade às LAG – linhas de acção governativa do Governo na RAEM para o ano financeiro de 2011. Também eu, como ‘filho da terra’ adoptivo partilho dos mesmos desejos. A propósito das LAG, disse o chefe do executivo que “as comunidades macaense e portuguesa aqui residentes são importantes elementos constituintes da sociedade de Macau”, que referindo-se ainda ao “rico legado histórico” do território. Tal como em 2010, foi ainda reafirmado o papel de Macau enquanto ponte entre o Continente e os países lusófonos: “continuaremos a dar ênfase ao papel de Macau como plataforma de serviços comerciais entre a China e os países de língua portuguesa, incentivando a cooperação económica e comercial do Interior da China e de Macau com os países lusófonos”.
Ora este parece-se ser o ‘ponto’ fulcral. E não é só de agora, é esta a estratégia de Pequim há décadas. Outra das ideias defendidas nas LAG para 2011 – onde se prevê um saldo positivo de 50 mil milhões de patacas! – passa pela aposta num turismo de qualidade. Um turismo, acrescento eu, que se impõe uma oferta mais diversificada e que tem de aproveitar mais e melhor o estatuto de património mundial da humanidade.
Chegado aqui o leitor poderá perguntar, com toda a legitimidade, de que forma se relaciona o que escrevi até agora com o futuro da livraria portuguesa. Na minha opinião, tudo. Não acredita? Então repare… O que defendo é a continuidade de uma livraria que não pode ser só livraria no sentido mais restrito e cuja propriedade e/ou gestão poderá ser partilhada pelas diferentes entidades com responsabilidades na matéria: do Governo ao IPOR, passando pela Fundação Macau ou Fundação Oriente, Instituto Internacional de Macau, Casa de Portugal, APIM, Consulado de Portugal… Meus senhores, entendam-se!
A pergunta que coloco é a de saber se se justifica a existência de uma Livraria Portuguesa em Macau. Será que tem alguma razão de ser para uma comunidade tão reduzida? A propósito, alguém sabe quantos são? E quanto aos jornais de língua portuguesa? E já agora rádio e televisão em português? No contexto de Macau parece-me que fazem todo o sentido mas… se não fossem os subsídios (com os quais concordo) poderiam existir? O que significa a venda em banca dos jornais locais em língua portuguesa?
Mesmo perante todas as vicissitudes e especificidades, impõe-se a existência de um espaço com vocação de livraria. Portugal, China e, acima de tudo, Macau, precisam de uma livraria portuguesa (que não pode ser exclusivamente uma livraria). Não o digo só agora, disse-o e escrevi desde que a polémica em torno do eventual encerramento da Livraria Portuguesa surgiu. E reafirmo-o agora que os prazos chegam ao fim.
Precisa tanto de uma livraria com vocação lusófona (e por que não anglófona) como de muitas mais livrarias de vocação chinesa. São públicos diferentes que exigem espaços distintos. E, claro, um espaço que tenha em conta o seu público-alvo: turistas com interesse cultural elevado e poder de compra similar, macaenses que ali encontram as suas referências culturais em forma de livro (e quantas edições estão esgotadas!) e os portugueses oriundos de Portugal, na maior parte juristas, advogados, jornalistas, professores, estudantes e ainda alguns funcionários públicos.
É curioso registar que na página da internet do Turismo de Macau nos locais de compras de índole cultural apenas são mencionadas três livrarias, a portuguesa, a de S. Paulo (encerrada segundo julgo saber) e a Plaza Cultural.
Um espaço de múltiplas valências parece ser a melhor solução. E se por acaso as actuais instalações não servirem tais objectivos, então que se venda o edifício e que se abra o novo espaço num novo local, adaptado aos dias de hoje.
Na década de 1950 Macau tinha oito livrarias, dessas de vender livros, não confundir com papelarias. Quantas serão hoje? Para os que já não têm memória, recordo espaços que entre as décadas de 50 e 90 fizeram parte da matriz cultural da cidade: a Pou Man Lau (no nº 2 do Largo de S. Domingos que era ainda tipografia e estúdio fotográfico), a Polidor (no Largo do Leal Senado, onde chegavam não só os livros mas também os jornais vindos da então Metrópole), a Tabaqueria Filipina (no início da San Ma Lou) ou a Livraria S. Paulo (cujas portas já se fecharam mas a montra pode ainda ser vista…).
A Livraria Portuguesa foi criada em 1985 pelo Instituto Cultural de Macau. Desde então muita coisa mudou. Desde que o IPOR assumiu o espaço este passou também a chamar-se “galeria de arte”. Os tempos mudaram. Mas num negócio o objectivo não se alterou: o lucro. Essa margem financeira num produto cultural como os livros ou revistas é, no caso em apreço, esmagada pelos custos associados ao transporte dos produtos. A última revista que comprei numa livraria ‘online’ veio dos EUA e o preço do transporte foi três vezes superior ao da publicação.
Hoje viaja-se com frequência e relativa facilidade entre Macau e a Europa. Por que não levar na viagem aquele livro que nos faz tanta falta no lazer ou no trabalho e que em Macau custa mais caro? E a venda de jornais? Com a sua disponibilidade imediata na internet está completamente fora de causa. Dito isto, o que resta para vender neste futuro espaço de localização privilegiada a escassos minutos de distância das Ruínas de S. Paulo, Jardim de S. Francisco, Sé e Largo do Leal Senado?
Pois bem, aqui fica o rol de sugestões: livros (de Portugal e do mundo e especialmente de Macau, a começar pelos que vão sendo editados aqui e ali pelas mais diversas fundações e institutos – e até da Universidade local – e que são tão difíceis de encontrar nas ditas livrarias comerciais…); postais, café; pastéis de nata; vinhos (com provas); azeite (e outros produtos tradicionais portugueses que tanto sucesso têm feito nas exportações); espaço de exposições; ‘souvenirs’ de qualidade elaborados pelo meu amigo António Conceição Júnior e demais artistas locais (na viagem que aí fiz o ano passado não encontrei nada! e só nas ‘tendinhas’ encontrei umas t-shirts com uns caracteres inscritos cujo significado desconheço); guias turísticos; bilhetes para os diversos museus e demais locais cuja entrada é paga; espaço multimédia na montra; espaço para tertúlias…
Em suma, o antigo e o moderno. O passado, mas também o presente e sobretudo o futuro do que as gentes de Macau têm para mostrar a quem por ali passa. E são aos milhares todos os anos.
Um ano próspero e feliz para todos!
João F. O. Botas – 22 Nov. 2010 PS: artigo escrito antes de 26-11-2010 data em que o IPOR anunciou o lançamento do novo concurso de concessão da gestão da LP para os próximos 5 anos.

Anúncios