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Eduardo Ribeiro tem-se dedicado a investigar o facto de Camões (1524?-1580?) ter ou não ter vivido em Macau. Já escreveu vários livros sobre o tema. Veja-se http://macauantigo.blogspot.com/2009/09/camoes-esteve-ou-nao-em-macau.html
Em Nov. de 2010 esteve em Macau para uma conferência sobre o tema tão polémico e deu uma entrevista ao jornal HojeMacau de que aqui reproduzo uns excertos.

Década 1990
1925

(…)

Há muito ainda a dizer, aliás isso é o que eu ando a investigar, porque ando em busca da verdade histórica. Desse modo encontra-se sempre qualquer coisa. E como eu intui em 2007, quando lancei o meu primeiro livro, sabia que ia encontrar coisas e encontrei já muito, a ponto que, neste momento, eu posso dizer que o livro, publicado há três anos, ao lado daquilo que eu já encontrei e descobri é um pigmeu.
Descobri por exemplo quem era o Capitão-mor da viagem para a China e Japão, com quem Camões veio para Macau, que foi em1562. Os historiadores da época dizem que esse lugar “lhe foi dado pelo vice-rei” e, por diversas razões, o vice-rei só podia ser D. Francisco Coutinho, que esteve no cargo entre 1561 e 1564. Esse erro está na base da grande confusão sobre a historicidade de Camões em Macau. Todos os historiadores diziam que Camões tinha estado em Macau na década de 50, mas isso não é verdade, porque Macau só passou a ser em exclusivo o único estabelecimento dos portugueses na China a partir de 1560 e tudo começa a fazer sentido.
que tem feito então é ligar esses fios da história e juntar a meada…
Exactamente. Eu só tenho estado a pôr as peças do quebra-cabeças nos seus devidos lugares. De resto nada do que eu estou a “descobrir” está a ser descoberto, porque estava tudo escrito. A única coisa que descobri foi sobre Pedro Barreto. Depois de em 1561 o Francisco Coutinho ter dado o cargo de Provedor de Defuntos a Camões para vir para Macau eu pensei “então quem foi o capitão-mor em 1562?” Eu vi-me e desejei-me para descobrir isso. Mas depois recebi a lista anual dos capitães-mor, que eram anuais e que vinham com a Nau do Trato, que fazia a viagem anual de Goa para o Japão, e quando eu vi que em 1562 o capitão-mor foi o Pedro Barreto e aí eu disse: “Eureka!” Porque ele era o grande amigo de Camões, é o Charles Boxer que o diz. Foi com ele que depois o Camões viajou em 1567 para Moçambique, onde ficou lá um ano e tal dois anos esteve então em Macau. 

Parece haver sempre alguém que ainda afirma o contrário.

Não, não tenho dúvidas nenhumas. Os ingleses dizem que, para além de qualquer dúvida razoável, “há indícios mais do que suficientes” para demonstrar que Camões esteve em Macau. Aliás, a grande maioria dos historiadores dizem que isso é verdade. Embora apontem para os anos 50 e esse é que é o grande erro de origem desta história toda.
Quantos anos esteve Camões em Macau?Tradicionalmente todos defendem que são os dois anos… 
Bom, eles defendem de que ele esteve cá como Provedor de Defuntos dos portugueses em Macau, mas há aí uma nuance, o Camões pode ter tido esse cargo aqui, é certo, mas a acumular com o lugar que lhe foi dado, que foi o lugar de Provedor de Defuntos na viagem. Todas as viagens tinham esse posto estabelecido, tinham de ter, que é o de responsável pelos bens dos portugueses que morriam.
Isso é uma teoria sua ou é mesmo a verdade?
Não, é assim a verdade, eu só fui beber no que eles dizem. Quem era o provedor da viagem? Era o capitão-mor, que era um posto por inerência. Portanto, em 1562 quando o Pedro Barreto viaja de novo para Macau, já pela terceira vez, dá esse posto a Camões.
Em sua opinião o que atraiu Camões a vir para Macau?
Ainda bem que faz essa pergunta. Primeiro, o lugar de provedor podia-se ganhar algum dinheiro, porque eles tinham uma percentagem razoável dos bens que depois eram vendidos no regresso à Índia Portuguesa. Mas na minha opinião esse não foi o principal motivo, há outros autores que alvitram que houve outro motivo mais importante, e eu acredito nisso. Foi a instauração da Inquisição em Goa. Sabe que se diz que Camões era cristão novo e o seu grande amigo em Goa era o Garcia de Orta, e a partir do momento em que a Inquisição chega a Goa em 1560 começou a observá-lo, tanto é que já depois de morto, em 1570, já Camões estava em Portugal, foram buscar os ossos de Garcia de Orta e fizeram um auto-de-fé com os seus restos mortais. Eu estou convencido que depois do seu amigo Francisco Coutinho ter libertado Camões, porque ele estava preso por dívidas, aproveitou e aceitou esse lugar. E o Pedro Barreto levou-o e ficou todo contente porque assim não tinha a implicitação do cargo de Provedor de Defuntos porque não lhe dava créditos nenhuns. O que lhe dava dinheiro era a viagem, porque com cada viagem ficavam milionários. E Camões era letrado, sabia fazer escrituração, fazer contas, e assim ficaram todos contentes.
Diga-me então como era o dia-a-dia de Camões em Macau.
Consigo dizê-lo perfeitamente. Macau naquela altura, entre 1562 e 1565, era uma coisinha muito pequenina, eram meia dúzia de casinhotos, umas choupanas…
Com quantos habitantes?
Naquela altura sabemos exactamente quantos. Portugueses e criadagem, não chegavam a mil. E isto é o censo de 1564. Foi um censor chinês que enviou a informação para o imperador e que diz que “os portugueses eram quase mil.” Na verdade, eram meia dúzia de gatos pingados. Claro, o Camões não ia ficar no barco. Aquilo era um pivete, cheio de piolhos e doenças. E não lhe arranjaram alojamento porque não havia. Os próprios jesuítas que chegaram relativamente no mesmo ano tiveram que ser alojados precariamente em casa uns dos outros. E o Camões não arranjou alojamento em casa de nenhum amigo.
Então onde ficou?
Onde havia de ficar? Agarrou na trouxa dele e subiu a colina do Patane e foi lá encontrar uns rochedos, a que ele chamou “os penedos” nos seus poemas, nos sonetos, nas odes. Aquilo tinha muito florido, muitas árvores e tinham aquelas redes que traziam de Vera Cruz, do Brasil, que eram umas redes feitas do algodão dos índios Cajirós, que se estendiam de rochedo a rochedo. Era ali que ele passava grande parte do tempo. Não duvido que aquela tradição de que ele fez dali o seu “coito vivencial” esteja absolutamente certa, porque faz todo o sentido. Porque não havia mais lado nenhum, não havia nada. E nos dois ou três anos que aqui esteve, nunca parou de escrever poemas, e grande parte dos Lusíadas foi escrito aí, principalmente o episódio do Adamastor. Já escrevi sobre isso.
E porque se foi embora mais tarde?
Ele foi embora porque, embora fosse anual, a viagem ao Japão demorava dois anos. A Nau ficava aqui em Macau, eles subiam o Rio das Pérolas em juncos e iam até à feira de Cantão. Estou convencido de que quando Camões chegou em 1562 a Macau, em Julho, a feira já estava feita, porque em Setembro o Pedro Barreto já estava em Macau. E no Japão demorava-se sempre muito tempo, vendiam as sedas e as porcelanas da China e trocavam por prata. Para depois irem a Cantão de novo vendê-la. Por isso demorava dois anos.
E Camões já estaria cansado de cá estar, estando à espera do regresso?
Não sei, mas ele sempre esteve contrariado no Oriente. Sempre muito amargurado. Ele era um homem sofredor que viveu muito e penou muito, diz isso em toda a sua obra lírica. E começou-o a dizer logo num dos seus primeiros poemas. Não foi só aqui em Macau: foi em todo o Oriente. Aqui a sua vida foi marcada pelo isolamento, no seu “apartamento”. Camões já tinha 40 anos na altura, já tinha perdido um olho e, de certo, todos o devem ter achado um “bicho do mato”.
Cerimónia em Dezembro de 1999

(…)E ainda há mais para descobrir no fundo do poço?

Sim, eu tenho-me limitado às fontes secundárias, na leitura dos escritos dos outros. A única fonte primária que considero ter consultado foi a edição dos Lusíadas de 1613, que fui consultar à Biblioteca Nacional de Lisboa. Mas eu sei que há documentos inéditos do século XVI que estão por consultar. Que não são conhecidos sequer. Não se sabe o que dali pode vir, mas decerto há referências a Camões nesses documentos.
(…)

Excertos de uma entrevista de António Falcão publicada no HM de 30-11-2010
Existem no blog diversos post’s sobre esta polémica – terá Camões vivido em Macau? – e sobre a história da Gruta.

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