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O facto de Portugal e Macau se localizarem no hemisfério norte origina a partilha das mesmas estações do ano ainda que com significativas diferenças. É assim que por terras do Oriente o Natal também é frio, mas raramente com temperaturas tão baixas como em terras atlânticas.
Serve a introdução para ‘situar’ a época natalícia num território em que a maioria da população não é, nem nunca foi, católica. Um facto que a toponímica local parece desmentir mas a mais pura das verdades. Mas voltemos às tradições natalícias dos católicos em Macau.
Desde o início do século XX e até cerca da década de 1970 era assim o mês de Dezembro em Macau na comunidade dita católica, portuguesa e macaense. O primeiro domingo era dedicado à primeira comunhão (na Sé Catedral) e logo a seguir iniciavam-se os preparativos para o Natal, uma época muito celebrada por portugueses e macaenses e cujo ponto alto culminava com a Missa do Galo. Até ao Dia de Reis visitavam-se amigos e familiares e logo depois surgiria o Ano Novo Chinês, o Carnaval, etc.. A cidade vivia ao sabor dos eventos do calendário das duas comunidades…
Só a partir da década de 1980 com a massificação/globalização do fenómeno do natal enquanto acto consumista as festividades passaram, a ser visíveis nas ruas. Antes, era mais uma celebração religiosa que impunha recato e era vivida no seio das famílias ou no interior das igrejas. Em 2008 o jornal Hoje Macau dedicou um artigo a essas tradições de onde transcrevo alguns excertos.

Manhã  de nevoeiro(de Dezembro?)
cruzamento da Praia Grande com a Rua do Campo
Foto de Lei Ioc Tin em 1958

“Ele é o bicho-bicho, a bebinca de leite, o ladu, os genetes, e o coscurão. O alua, o tacho, a sopa lacassá. Come-se o diabo à mesa macaense, no dia de Natal, e na noite de Consoada junto ao azinheiro distribuem-se prendas aos garotos. Os mais religiosos assistem à missa do Galo (há quanto tempo não se lá canta o patuá! E há quanto tempo se perdeu a missa em português, em São Lázaro?). Entre a comunidade macaense, a época de Natal é um tempo para estar junto, partilhar a mesa e os outros, “mesmo na China, onde o Natal não se encontra tão perto do coração”, repara António José Freitas, presidente da Santa Casa da Misericórdia.
Macau é a excepção a essa maior distância chinesa relativamente à celebração da natividade. Entre a comunidade macaense,Natal é a festa maior, época por excelência das “comizainas” (expressão do patuá) e dos convívios entre familiares e amigos. Há todo um receituário de pratos e doces, alguns caídos em desuso, que assinalam a data.
Natal é também tempo de recordações mágicas da infância, de troca de presentes e, numa cultura em que a fé católica tem um papel importante, de uma religiosidade patente nas concorridíssimas missas do galo.
Miguel Senna Fernandes recorda saudosamente as iguarias de sua avó, “exímia cozinheira”, as casas familiares cheias de gente e a expectativa infantil relativamente aos presentes: “A certa altura nós já sabíamos que não existia o Pai Natal, mas fazíamos os pedidos à mesma e fingíamos acreditar que era ele que nos vinha pôr presentes dentro da meia.” O advogado lembra com um sorriso as caixas que se embrulhavam para colocar junto à árvore de Natal (que em Macau costuma ser um azinheiro e não um pinheiro) para que parecessem muitas as prendas. De ano para ano, continua a repetir-se todo um ritual de enfeite das casas: “Na minha família, existe um certo simbolismo relacionado com os enfeites de Natal. Há a bola que foi comprada quando nasceu o irmão, ou as fitas que se relacionam com uma qualquer efeméride.”
Enquanto, actualmente, proliferam as festas das empresas e escolas, há algumas décadas os dias anteriores ao Natal eram marcados por uma intensa agenda de saraus organizados por agremiações como o Clube Militar, o Clube dos Sargentos ou o Clube Melco. A mais badalada era a festa do Clube Macau – um dos baluartes das tradições macaenses, actualmente inactivo – que decorria no Teatro D. Pedro V e incluía récitas, música, troca de prendas e, claro, muita comida e bebida. Eram encontros memoráveis, “que deixaram de existir há muito tempo, talvez devido à falta de interesse dos próprios dirigentes dos clubes que as organizavam”, comenta Francisco Manhão, presidente da Associação dos Aposentados, Reformados e Pensionistas de Macau.
Mesa farta
O auge das celebrações acontece na noite da consoada. Para as crianças, porque é altura de receberem os presentes. No caso dos adultos, principalmente porque é quando acontece o convívio com os familiares mais próximos e se “tira a barriga da fome”. Os mais religiosos têm nessa noite a solene missa do galo, que assinala o nascimento de Cristo.
Depois da missa do galo, as famílias reúnem-se em volta da farta ceia de Natal. O espírito convivial é exacerbado nesta ocasião, pois, como refere Cecília Jorge no livro “À Mesa da Diáspora”, “os pratos mais tradicionais da cozinhaçã macaísta reflectem, ainda hoje, a forte tendência para o fruir de uma refeição em conjunto: o gosto da mesa partilhada com família e amigos”. A ceia é reflexo do espírito eclético do macaense, com receitas mais próximas da gastronomia portuguesa, mas sempre produto de uma mistura com ingredientes orientais.
Começa-se por comer canja de galinha, sopa lacassá (uma sopa de aletria de arroz, com balichão, tempero originário da Malásia, que é feito à base de camarão minúsculo e leva folhas de louro, sal, cravinho, pimenta preta em grão e vinho). Segue-se o inevitável bacalhau (que em muitas casas não é servido cozido, como acontece em Portugal) e uma panóplia de outros pratos. José Luís Sales Marques destaca de entre eles o tacho, que é uma espécie de cozido à portuguesa onde entram os ingredientes chineses, tais como as pequenas couves, presunto chinês, frango, chouriço chinês e pele de porco frita. O último presidente do Leal Senado menciona também petiscos como a perna de presunto chinês e a empada de peixe, que é recheada com lascas de garoupa temperada com especiarias, pinhões e azeitonas picadas.
Em relação a doces, a culinária macaense riquíssima. Há doces portugueses – como as filhozes, as broas de mel, as rabanadas, os sonhos – e muitas receitas parecidas, como é o caso do cabelo de noiva, que é uma espécie de ovos moles. Outras guloseimas estão mais ligadas ao Oriente e à Índia, como o coscurão (laço feito com mel), o farte (massa fina frita recheada com coco ralado, pinhões, amêndoa, biscoitos moídos, cravinho em pó e manteiga) e o alua (massa fina frita recheada com coco ralado, jagra, amêndoa moída, pinhões cortados e manteiga) que, de acordo com Cecília Jorge, “formam o trio de doces natalícios mais simbólicos da religiosidade dos macaenses, já que são presença (dantes obrigatória) nas mesas festivas, por representarem o lençol (coscurão), o travesseiro (farte) e o colchão (alua) do menino Jesus”.
Outros mimos incluem o ladu, a bebinca de leite (parecida com leite creme), o bicho-bicho (bolas de farinha) e os genetes. Estes últimos são biscoitos de fécula de milho, ovos e manteiga, que podem também ter queijo em pó. Muito procurados durante a quadra natalícia, quando são bem feitos desfazem-se com facilidade na boca, como se se derretessem.
Bolo rei é recente
Não há em Macau a tradição do bolo-rei, que aqui foi introduzido recentemente. O mais parecido é o chamado cake. Provavelmente de origem inglesa, é feito à base de frutos secos. Tem a forma de um pequeno quadrado e conserva-se durante muito tempo. Senna Fernandes encomenda todos os anos o bolo menino (assim nomeado em homenagem ao menino Jesus), uma espécie de pão de ló enriquecido com coco e farinha de feijão, que é o seu preferido de entre este rol de doces.
A festa continua rija no dia de Natal e nos seguintes, quando se fazem as visitas a casa dos tios, dos avós e dos amigos mais chegados. É usual então comer-se o diabo, que é outro dos pratos mais tradicionais da comunidade. Um pouco à semelhança da roupa velha portuguesa, consiste no aproveitamento dos restos da ceia de Natal. É cozido com carne de vaca, galinha e alguns ingredientes chineses. E assim se comemora o Natal por terras macaenses. Há mudanças, mas, como frisa Francisco Manhão, as famílias vão mantendo as tradições. No seu caso, reúnem-se para a ceia umas quarenta pessoas. Uma grande festa.

Largo Leal Senado: década 1980 – Foto de Allan Chu

“Dezembro era um mês festivo. O primeiro domingo era dedicado à Primeira Comunhão, uma cerimónia tocante na Sé Catedral, onde se ajoelhavam, nervosos, dezenas de novos comungantes de ambos os sexos, de todas as paróquias da cidade. Havia, então, festa pela tarde fora, correndo-se dum lado para o outro para satisfazer todos os convites, não fossem os pais dos comungantes ficarem ofendidos.

Logo a seguir, vinham os preparativos para o Natal, as donas de casa atarefadas na cozinha, na confecção do aluar, dos coscorões, empadas e fartes, os costumados doces da época. Encomendavam-se o peru e outras carnes de Hong Kong e, em casa do meu Avô materno, não podia faltar o empadão gelatinado de peças de caça, o famoso ‘game-pie’ da Lane Crawford. Encomendavam-se também à loja de Omar Moosa, mais conhecido por Kassam, figura prestigiosa e mais destacada da larga comunidade moura de Macau, loja esta sita, primeiro, na Rua Central e, mais tarde, na Avenida Almeida Ribeiro do galo’ desse tempo, o jantar de Natal, o deslumbramento dos brinquedos, a mesa repleta de iguarias, onde se comia à tripa forra, a alacridade e as gargalhadas dos familiares, ainda se repercutem na minha saudade. 

Os dias seguintes até os Reis, com quebra no dia do Ano Bom, eram dedicados aos amigos e conhecidos. Ia-se de casa em casa, apenas para um cálice de vinho do Porto ou para deixar cartões à entrada. Para isso, organizavam-se, de antemão, listas para que ninguém fosse esquecido.”

Testemunho de Henrique Senna Fernandes – em 1983 – sobre os hábitos da comunidade macaense.

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