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No número 6, volume III, da revista “Renascimento”, de Junho de 1944, Luís Gonzaga Gomes ofereceu aos leitores um pitoresco relato dos vários momentos deste relevantísimo evento anual. Depois de lembrar que “ficaram prescritas no velho calendário lunar várias festividades que são aproveitadas por toda a população” e que “dessas festividades existem seis principais que o povo obstina em respeitar” (“a do Ano Novo, a do Barco Dragão, a da Colheita, a da Pura Claridade, a de Todas as Almas e a Outonal”, sendo as três primeiras destinadas aos vivos e as três últimas aos espíritos), descreveu a azáfama que caracteriza a fase preparatória, fundamental para garantir a boa realização dos diversos actos comemorativos e a entrada auspiciosa no novo ano. 
Desse texto, transcrevemos algumas passagens mais significativas:
“Ora, de todas, a mais prolongada, a mais ruidosa e, portanto, aquela que se celebra com mais entusiasmo é a da ‘Sân-Nin’ (Ano Novo), para a qual valem a pena todos os sacrifícios que se fizeram durante o ano para economizar aquilo que irá ser generosamente gasto nos três dias da grande solenidade, em que, a não ser os indigentes, todos têm de calçar um par de sapatos novos, exibir a sua cabaia de luzente seda, ter em casa o imprescindível para a realização do tríplice culto, bem como os mimos necessários para serem permutados com as pessoas das suas relações.
De resto, o Ano Novo coincide com o ‘Lap-Tch’ân’ (Início da Primavera), período esse em que os princípios masculinos e femininos se plasmam homogeneamente com o fim de produzir a estabilidade do universo, em que as forças da natureza são renovadas e em que se inicia uma nova vida por terem sido saldadas todas as dívidas com o último dia do ano que passou. Que é de admirar, pois, que os (…) milhões de seres que povoam esta parte do globo se reúnam espiritualmente num frémito de mais vivo júbilo para acolherem o despontar do novo ano com o ensurdecedor estralejar de ‘p’áu-tchèong’ continuamente cortado pelos troantes estampidos de grandes cartuchos de pólvora e dos formidáveis estouros produzidos pelos fogos de artifício com que se remata a queima das intermináveis fitas desses estalos!
Ora, para o sucesso desse dia tão importante e festivo é necessário que os preparativos sejam iniciados com grande antecipação. Assim, já no dia 20 da última lua, tanto as residências dos ricos como as humildes mansardas dos pobres são varridas e lavadas e ai de moça que se desleixe no varrer, pois, as partículas de pó que não forem removidas cegá-las-ão, infalivelmente, para castigo da sua negligência.
Entretanto, nas moradas dos humildes, todos os membros da família se encontram atarefados. Uns consertam apressadamente os velhos trastes, outros ajeitam as desengonçadas portas e outros remendam os papéis que servem de vidraça.
Nas dos ricos, os criados brunem com entusiasmo os paus-pretos, redoiram as talhas, reenvernizam o portão da entrada principal, enquanto que as donas de casa vão buscar às arcas as almofadas de juta, revestidas de seda de auspicioso vermelho, para as colocar sobre os duros assentos das cadeiras e dos bancos, bem como os admiráveis bordados de exóticos desenhos destinados a servirem de reposteiros.
Mas a azáfama não se limita ao asseio da casa. É ainda preciso que se vá ao mercado comprar as diversas farinhas, jagra e demais condimentos, para se prepararem as diversas guloseimas, tais como os ‘pak-kôu’, os ‘pák-tch’i’, os ‘tchin-tui’, os ‘lit-hâu-tchôu’, os ‘t’ai-lóng-kôu’ e os ‘t’óng-uán’, destinadas a serem enviadas às pessoas amigas, bem como os cristalizados para encherem as oito divisões dos ‘tch’ün-hâp’ — caixas em porcelana, vidro ou laca de formato quadrado, circular ou octogonal, com uma divisão circular no meio para os indivíduos que se servirem desses doces deitarem os seus ‘lâi-si’, isto é, algumas moedas ou notas embrulhadas em papel escarlate —, sendo também imprescindível a aquisição de pevides tostados de melancia, e tangerinas para com eles se obsequiar também os conhecidos e os hóspedes.

Ruínasde S. Paulo: final década 1950

Chegado o dia 24 da última lua não há casa nenhuma que não celebre sacrifícios ao ‘Tchôu-Ká-P’ôu-Sát’ ou ‘Tchôu-Kuân’ (o Senhor do fogão), cuja imagem se encontra enegrecida pelo fumo e num nicho atrás do fogão. (…) Aqueles que não puderem dispender uns cobres para a compra desta imagem limitar-se-ão a aplicar na parede atrás do fogão uma folha de papel vermelho onde estão pincelados os caracteres correspondentes ao nome e aos respectivos títulos da divindade em questão, pois, sendo ele o agente de ligação entre os mortais e os celículas, o espia que tudo vê para ir relatar ao soberano do Céu, quem há que se atreva de lhe deixar de ‘bater a cabeça’, de lhe acender umas velas e de lhe oferecer alguns bolinhos? (…)

À medida que se vai aproximando o dia festivo, vão-se animando as ruas. Em lugares mais frequentados organizam-se feiras, onde os negociantes improvisam as suas tendas repletas de artigos de louça e de todos os objectos adequados ao uso caseiro. Prosperam nesses dias os impressores ambulantes que não cessam de satisfazer os pedidos de numerosos clientes com vermelhos cartões de visita impressos em caracteres de fantasia. As mercearias regorgitam de fregueses que necessitam de fazer as suas provisões, pois, durante alguns dias, ninguém trabalhará na China e todas as lojas se conservarão encerradas. Há vendedores ambulantes que percorrem todas as ruas de lés a lés, com reduzidas miniaturas, em papelão, arcaicas alabardas, caixinhas recheadas de estalos, mealheiros de barro em forma de potes ou de porquinhos pintadinhos de vermelho e salpicados de prata, serviços completos de cozinha em tamanho reduzido e feitos de argila cozida, jogos de glória, enfim uma variedade infinita de tentadores objectos para seduzirem os petizes e que só custam uns cobres.
Na véspera e na antevéspera do ano, em Macau, não há nenhum chinês que não se dirija à noite à Rua do Sul do Mercado de S. Domingos com o fim de comprar uns bolbos de junquilho e uns ramos de pessegueiro, especialmente tratados para florescerem nessa quadra festiva.
Os que dispõem de dinheiro poderão escolher por entre a enorme variedade de flores e de arbustos de laranjeiras ou de tangerineiras artificialmente reduzidas, a planta que mais lhe agradar e que julgue mais decorativa para a sua residência, bem como um ou outro globo de vidro contendo peixes doirados. (…)
Ao anoitecer, depois de ter saído o último freguês, cerram as lojas as suas portas e as contas dos ábacos deslizam rápidas pelas varetas que se prendem aos caixilhos e movidos pelos frementes dedos dos caixas. Se o resultado do negócio durante o ano fôr positivo, o patrão sorri de satisfação e chalaça com os empregados, concedendo-lhes uma gratificação; se fôr negativo… com uns avozinhos se compra um boiãozinho de ópio que, ingerido com água, nunca traíu ninguém, nunca fez ‘perder a face’ a nenhum negociante insolvente. Outras vezes são os moradores que acordam sobressaltados durante a noite com o estridor de desabalados carros de incêndio que vão atalhar as chamas de uma loja que ardeu sem se saber como. Porém, no dia seguinte correrá à boca pequena que o seguro irá pagar a dívida de certo comerciante cuja falência já estava prevista.(…)
Um dos assuntos que mais preocupa o chinês na véspera do ano é a substituição dos dísticos agoureiros que se encontram colados não só nos dois lados e em cima da porta principal como em quase todas as portas do interior da sua residência inclusivamente as da cozinha. Tais dísticos exprimem desejos de venturas, sucessos nos negócios, numerosa prole, descendência ininterrupta, longa vida, honrarias e riquezas, ocupando, porém, lugar proeminente o carácter ‘fôk’ (felicidade) elegantemente caligrafado, em grandes recortes de papel vermelho com o formato de losangos. (…)

Junto ao templo de A-Ma arranjando redes pesca: final década 1950

Além dos dísticos auspiciosos, os chineses costumam também colar nas suas portas, nessa ocasião, as efígies dos ‘mun-sân’ (deuses das portas), que foram, em época desconhecida, dois irmãos que viveram debaixo dum pessegueiro tão grande, que cinco mil homens de braços estendidos não conseguiram abraçar o seu adansonesco tronco. (…) Com o tempo as imagens dessas divindades passaram a ser gravadas em tabuínhas até que por último foram substituídas por gravuras em papel e, sendo fáceis de identificar por terem ao fundo em pessegueiro em flor”.

Agradecimentos: Jorge Rangel, pelo texto – publicado no JTM 31-01-2011 – e Rui Francisco, pela fotografia a cores.
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